
Catherine Anderson  

Amor  Primeira Vista








        Catherine Anderson tem um talento incrvel para inventar personagens que todas amamos e histrias que nunca mais esquecemos. Com grande ternura, ela capta
momentos de paixo e de sofrimento que calam fundo em cada leitora. E leva a literatura romntica at requintes poucas vezes atingidos.
        Bastou um olhar para Ryan Kendrick, o rancheiro magnata, se apaixonar perdidamente pela bela Bethany Coulter. Com uma mistura sedutora de ousadia e timidez,
de ingenuidade e maturidade, ela partilha a sua paixo pelos cavalos, tem um imenso sentido de humor e pode com um s sorriso animar uma casa inteira.  absolutamente
perfeita, em todos os sentidos do termo, excepto num nico.
        Um acidente sofrido h anos num rodeo deixou-a presa a uma cadeira de rodas. Desde ento conheceu tanto as traies como os desgostos de amor, e por isso
jurou nunca mais entregar o seu corao a um homem. Admitiu inclusivamente nunca vir a ter uma relao ntima e a ser capaz de conceber um filho. Mas qualquer coisa
em Ryan Kendrick a fez de sbito acreditar que talvez todos esses obstculos pudessem ser ultrapassados. Qualquer coisa que a fez de novo crer num amor para toda
a vida.







        Para Steven Axelrod, meu agente, sempre disposto a fazer os impossveis por mim e que conquistou a minha gratido e respeito, e para Ellen Edwards, minha
editora, que se tem esforado tanto nos bastidores durante todos estes anos para que os meus livros sejam os melhores possvel.
        Em ltimo lugar, mas no menos importante, para Chris Jansen, extraordinria enfermeira do Dr. Fred Black, que tem sido uma to boa amiga. O mundo seria
um lugar bem melhor se todos os profissionais do ramo mdico tivessem um corao como o teu. Quero que saibas, Chris, que a tua existncia faz a diferena na vida
dos outros. Tambm, e por decreto do teu irmo, Jeff Fretwell, desejo-te um atrasado "Feliz Aniversrio"!



        Caros Leitores:

        Nos romances, os heris e as heronas so tradicionalmente perfeitos. Isto no quer dizer que essas personagens so desinteressantes. J li centenas desses
livros e adorei-os. Todavia, como autora, surge-me s vezes a vontade de escrever qualquer coisa diferente - um tributo, se quiserem, queles que na nossa sociedade,
por nascimento ou por infeliz acidente, se vem na condio de deficientes. Fui abenoada com um agente e com uma editora, Steven Axelrod e Ellen Edwards, que sempre
me encorajaram a desbravar novos territrios. Se no fossem eles, Annie's Song, um livro sobre uma rapariga surda, talvez nunca tivesse sido escrito.
        E  assim que, mais uma vez, vos trago, meus leitores, um gnero diferente de histria de amor, desta feita sobre uma mulher jovem confinada a uma cadeira
de rodas. Convido-vos a pr de parte todas as vossas ideias preconcebidas a respeito do que constitui uma grande histria de amor e a entrar comigo no mundo de Bethany
Coulter, onde a esperana de uma vida normal  apenas uma recordao e os sonhos romnticos h muito foram esquecidos... at que a magia bate  porta sob a forma
de um vaqueiro alto, moreno e robusto chamado Ryan Kendrick.
        Gostava de agradecer ao Dr. Fred Black e  sua enfermeira, Chris Jansen, pela informao e pelas suas orientaes durante a minha pesquisa. A minha homenagem
tambm aos muitos paraplgicos que partilharam a sua experincia atravs de descries pessoais da sua deficincia e de como a paraplegia afectou a sua vida. Tambm
gostaria de agradecer ao meu maravilhoso marido, Sid, que sempre tem sido a minha ncora na tempestade e a minha ponte sobre guas turbulentas.

        Catherine Anderson











     Captulo Um


        Roer as unhas? Ryan Kendrick estava to furioso que era capaz de roer porcas de orelhas. Tinha um tractor avariado e as pecas necessrias para o consertar
deviam ter sido entreguem no Rocking K h j dois dias. Naquela manh, continuavam sem chegar, e os telefonemas insistentes de Ryan no lhe tinham servido de nada.
        Com um empurro do ombro, abriu a porta da The Works, a maior casa de equipamento para ranchos de Crystal Falls. Harv Coulter, um rancheiro falido, comeara
aquele negcio sem um tosto h alguns anos, e os irmos Kendrick, juntamente com muitos outros rancheiros da zona, patrocinavam o estabelecimento desde ento. Agora, 
o negcio corria sobre rodas, a grande loja bem abastecida com tudo desde equipamento pesado a vesturio extravagante para vaqueiros, o nico problema sendo que, 
com o crescer das vendas, a qualidade do servio parecia descer a pique.
        Se Harv no pusesse os seus empregados na linha, comearia a perder clientes. Atrasos como aquele, em pleno perodo de plantao da Primavera, eram intolerveis. 
Devido  neve tardia, todos os lavradores e rancheiros da bacia j estavam atrasados, e cada dia de inactividade podia significar um prejuzo de milhares de dlares 
nas receitas.
        Ryan avanou na direco de uma placa pendurada no tecto, no fundo da seco de raes, que dizia "PEAS E REPARAES", as suas botas de montar poeirentas 
deixando uma tatuagem furiosa no pavimento de beto. Quando chegou a um balco pejado de peas e catlogos, afastou um filtro de ar, poisou os braos na frmica 
manchada de graxa e assentou um olhar irado numa jovem esguia que se encontrava por trs de um ecr de computador, perto da caixa registadora.
        Uma cabeleira negra e longa ocultava-lhe parcialmente o rosto. Os dedos finos e bem cuidados voavam sobre o teclado com rpida eficincia. Ryan esperou apenas 
um momento. Ser ignorado em pouco contribua para o deixar mais bem-disposto. A manha j ia a meio. Olhou para o relgio e projectou o queixo.
        - Desculpe - disse ele. -  possvel que algum me atenda?
        Ao ouvir aquilo, ela levantou a cabea. Ryan ficou imvel, o seu olhar preso. Ela tinha uns olhos lindos, grandes, rodeados por pestanas espessas e escuras, 
e de um azul to profundo que lhe fizeram lembrar os amores-perfeitos que cresciam no rancho. Normalmente, desdenhava as frases pegajosas usadas para descrever as 
mulheres. J tinha visto muitos olhos e nunca se sentira em risco de se afogar, ou de perder o corao.
        - No costumo atender, mas posso tentar ajud-lo - disse ela, a sua voz to ensolarada como o sorriso, que lhe provocava uma covinha irresistvel numa das 
faces.
        Ryan no conseguia tirar os olhos dela. A cara era pequena e em forma de corao, com mas do rosto bem delineadas, queixo proeminente com apenas uma sugesto 
de teimosia, e uma boca afvel, doce. A ponta do nariz delicado era luzidia e apresentava algumas sardas, o que revelava que aquela pele perfeita era natural.
        - Qual  o problema? - perguntou ela.
        Ele comeou a explicar-lhe, mas, por um instante, a sua mente ficou vazia como o bolso de um vaqueiro na vspera do dia de pagamento, e no conseguiu lembrar-se 
do motivo da sua presena naquele lugar.
        Sentia algo de estranho, mesmo no meio do peito - uma sensao de reconhecimento - como se subconscientemente tivesse estado  procura daquela mulher toda 
a sua vida. "Tolice." Amor  primeira vista fazia mais o estilo do irmo dele. Ryan procurava as mulheres como procurava um par de botas, via primeiro se lhe serviam 
antes de se decidir por uma relao a longo prazo, e, mesmo assim, ainda no encontrara um tamanho suficientemente confortvel para lhe durar a vida inteira.
        - Eu, hmm... - esfregou a cara ao lado do nariz, um hbito quando ficava nervoso. Uma dor irritante latejava-lhe por trs dos olhos. - Sou Ryan Kendrick 
do Rocking K - disse ele estupidamente.
        A curva dos lbios dela acentuou-se.
        - Ol.  um prazer. E no se preocupe. Tambm tenho dias assim, s que piores. Pelo menos, voc sabe o seu nome.
        Ele riu-se.
        - O qu, voc esquece-se do seu nome?
        - Para mim, o que resulta  fazer cpias de segurana. Voc chama-se Ryan Kendrick e  do Rocking K, e veio c para...
        Ele estalou os dedos:
        - As minhas partes1.
        - As suas partes? Ele riu-se:
        - Quero saber onde raio  que elas esto.
        Uma expresso de travessura passou pelo rosto dela.
        - Perdeu as suas partes e acha que sou eu quem as tem? A maioria dos vaqueiros que eu conheo guarda as suas partes com mais cuidado do que um banco.
        Ryan atirou a cabea para trs e soltou uma gargalhada. A tenso que lhe prendera os msculos do pescoo e dos ombros durante toda a manh desaparecera milagrosamente.
- Espero que no tenha algum encontro fantstico para sbado  noite - acrescentou ela. - Um vaqueiro que no sabe das suas partes pode dar por si numa situao 
muito embaraosa.
        Ele endireitou a aba do chapu.
        - Ora bem, minha querida, isso depende. O que  que voc faz no sbado  noite?
        Foi a vez de ela se rir. Um som rico e musical que o percorreu como uma vaga de calor.
        - Costumo evitar vaqueiros que no sabem onde tm as respectivas partes.
        - Se sair comigo, garanto-lhe que as encontro num instante.
        - Talvez, se me der um nmero de encomenda, eu possa ajud-lo a encontrar essas pequenas.
        Pequenas? Ryan quase corrigiu o erro. Mas havia limites que um homem no transpunha, e ele tinha um palpite que aquele era um deles. Talvez fosse a doura 
do sorriso - ou a expresso inocente que vislumbrara nos olhos dela -, mas algo lhe disse que ela no era to mundana quanto aparentava ser.
        Enquanto procurava no bolso da camisa de cambraia azul, percorreu-a com os olhos. Era uma mulher frgil de constituio delicada, o que certamente explicava 
por que motivo aqueles olhos pareciam ser to grandes. Mas, fora isso, era tentadoramente bem torneada em todos os stios certos. Perfeio em miniatura.
        A camisola castanha revelava um pescoo alto e elegante, ombros estreitos mas bem definidos, e braos plidos que pareciam surpreendentemente fortes para 
algum com uma constituio to ligeira. Sob a malha castanha, seios pequenos e perfeitos pediam um olhar mais demorado. Recordando-se das suas boas maneiras, baixou 
os olhos e lamentou o facto de o balco esconder o resto do corpo. Ryan era um homem de pernas e, para ele, o voto dependia sempre dos alicerces de uma mulher.
        Desejoso de que ela se levantasse para poder espreitar, entregou-lhe o papel no qual anotara o nmero da encomenda. Enquanto ela percorreria ficheiros de 
computador e procurava a encomenda, continuaram com uma conversa animada, durante a qual ficou a saber que ela tinha vinte e seis anos, nenhuma cara-metade na sua 
vida  excepo de uma gata chamada Cleo, e era a mais nova numa famlia de seis filhos. 
        Os turbulentos cinco irmos mais velhos estragavam-na com mimos e garantiam a animao nas reunies familiares.
        
        
              1 My parts, no original, o que em portugus corresponderia a "as minhas peas". Optou-se por esta soluo para no perder o trocadilho pretendido pela 
autora. (N. do T.)
         
        Ryan gostava de falar com ela. Apesar de ter a ateno dividida entre ele e o monitor, ela conseguia manter a conversa interessante. No era frequente encontrar 
beleza, inteligncia e uma personalidade fantstica, tudo no mesmo embrulho.
        - Portanto... vai dar-me um nome para associar  cara? - perguntou ele.
        - Bethany. - Tendo acabado o trabalho de computador, ela recostou-se na cadeira. - Bem, vaqueiro, est com sorte. Adivinhe onde esto as suas partes?
        - Onde?
        - A caminho do Rocking K. E o atraso no  da nossa responsabilidade. Estamos na poca "alta". As partes em questo tm muita procura nesta altura, havia 
outras encomendas, e demoraram mais dois dias do que o previsto.
        Ryan j ouvira aquela justificao, mas dita por ela, parecia mais credvel. Puxou a aba do chapu para baixo para proteger os olhos antes de sair.
        - Hmm. Sorte minha, no fiz muito barulho, pois no?
        -  preciso mais do que um vaqueiro embirrento para me deitar abaixo. Cinco irmos, lembra-se? - Poisou os cotovelos nos braos da cadeira, os grandes olhos 
azuis ainda sorridentes. - Um bom resto de dia e boa sorte no arranjo do tractor. Uma pena no ser empregado. Podia cobrar mais horas.
        Ao ouvir aquilo, Ryan calculou que ela soubesse quem ele era. No era uma grande surpresa. Quase toda a gente em Crystal Falls, Oregon, ouvira falar da famlia 
Kendrick. Levou a mo ao chapu em despedida.
        - Obrigado, Bethany. Foi um raro prazer.
        - Ao dispor - respondeu ela enquanto ele se afastava.
        Ryan j estava quase junto  porta quando parou. Tinha quase trinta anos e h muito tempo que no encontrava uma mulher to interessante. Bethany. Era linda, 
doce e divertida. As nicas outras mulheres que o conseguiam fazer passar de zangado para gargalhadas de prazer em trs segundos eram a sua me e a sua cunhada. 
No ia sair dali sem, pelo menos, conseguir o nmero de telefone dela, um encontro se tivesse sorte.
        - Eu sei que isto pode parecer um abuso - comeou ele, de volta ao balco.
        J a trabalhar, ela desviou o olhar do monitor, a expresso pensativa dando lugar a um novo sorriso amigvel. j perdeu as suas partes outra vez? Ele riu-se.
        - Nada disso. S queria... - sentiu o calor a subir-lhe pelo pescoo. No se sentia nervoso naquele gnero de situao desde a adolescncia. - A respeito 
da noite de sbado. Sei que estvamos s na brincadeira, mas, agora, mais a srio, gostava de a conhecer melhor. - Ao ver a expresso espantada dela, acrescentou: 
- Oia, sou um tipo simptico, o seu patro, o Harvey Coulter, pode dizer-lhe isso mesmo.
        - Oh, tenho a certeza de que voc  muito simptico, mas... Ryan levantou uma mo:
        - E que tal jantar e danar? Samos, jantamos bem, ficamos a conhecer-nos um pouco melhor. Depois, um pezinho de dana. Sou muito bom no country western, 
e conheo uma banda fantstica.
        A boca dela curvou-se num sorriso triste.
        - Ah, gosta de danar?
        - Adoro danar. E voc?
        Ela desviou o olhar. Ryan ficou com vontade de dar um pontap em si mesmo por ter atacado com tanta fora. L se ia o famoso charme pelo qual o irmo estava 
sempre a provoc-lo. Bem, agora era demasiado tarde. Apenas lhe restava aguentar firme e esperar.
        - Eu gostava muito de danar. - Ela bateu com uma caneta no tampo da secretria ao lado do computador, os dedos delicados apertados com tanta forca que os 
ns ficaram brancos.
        Ryan empurrou a aba do chapu para cima. Fez o seu olhar mais convincente:
        - Ento, querida, porque no? Vamos divertir-nos. Juro-lhe que serei um perfeito cavalheiro.
        - No  isso.
        - Ento, o que ?
        Para sua consternao, Ryan viu que todo o riso e travessura tinham sido eclipsados por sombras nos olhos dela. Sentiu que dissera ou fizera algo que provocara 
aquela transformao, mas no fazia ideia do que poderia ter sido.
        - Se acha que est demasiado enferrujada para uma pista de dana,  fcil seguir-me. D-me dez minutos e at acha que tem asas nos ps.
        Ela puxou a cadeira para trs e cruzou as mos no colo, olhando para ele com um queixo erguido e orgulhoso.
        - No sei porqu, mas tenho as minhas dvidas. - O sorriso esforado e excessivo contrastava com o embarao das faces coradas. - E voc, no?
        Ryan precisou de um segundo para perceber o que ela lhe estava a dizer. Ento, viu que ela estava sentada numa cadeira de rodas.
        Sentiu como se tivesse apanhado um coice nas entranhas - uma sensao sbita, terrvel, de falta de flego, que lhe deixou as pernas frouxas. Tinha de ser 
uma piada. Ela era to bonita e perfeita em todos os outros aspectos, a rapariga dos seus sonhos. No podia ser - de maneira nenhuma.
        Mas ento os seus olhos desceram para as pernas dela. A bainha da saia preta terminava logo abaixo dos joelhos, revelando meias de descanso da cor da pele, 
tornozelos finos, e ps pequenos que calcavam sapatos pretos. A forma como os ps repousavam nos suportes, um voltado para dentro, era tpica dos paraplgicos, e 
ainda que as barrigas das pernas fossem bem desenhadas, era visvel que os msculos tinham comeado a atrofiar.
        "Meu Deus." Ele sentia-se um verme. A sua primeira reaco foi apresentar uma desculpa educada e sair dali para fora. Correr dali para fora.
        A ideia deixou-o envergonhado. Avaliando pelas sombras nos olhos dela, aquela situao no era nenhuma novidade para ela e os resultados eram fceis de adivinhar, 
sem duvida graas a uma longa sucesso de bestas como ele que tinham largado a fugir assim que a viam numa cadeira de rodas.
        Mas ele no seria como eles. Afinal, era s um encontro.
        Bethany estava  espera que Ryan Kendrick fugisse ou comeasse a gaguejar. Era o habitual. Observando-lhe a cara morena, teve de ser justa: pareceu ficar 
atordoado por um instante, mas recuperou rapidamente. Com um sorriso terrivelmente atraente, disse-lhe:
        - Bem, parece-me que danar est fora de questo. A no ser, claro, que eu descubra um par de rodas para praticarmos o tango das cadeiras.
        Geralmente, os homens evitaram fazer qualquer referncia  cadeira de rodas, e, enquanto procuravam algo para dizer, os olhos reflectiam uma vontade frentica 
de fugir. Ela ficava sempre com vontade de se arrastar at a um buraco quando aquilo acontecia, mas a reaco de Ryan Kendrick foi ainda pior. Se estava a sentir 
alguma vontade de fugir, aquele homem era uma grande perda para os palcos.
        - Para alm de danar, h vrias coisas que podemos fazer. - Poisou as mos na cintura estreita, franziu o sobrolho e comeou a desfiar sugestes, acabando 
com: - O que  que lhe parece um jantar e depois uma ida ao cinema?
        Pareceu-lhe alarmante. Assustador. Ele devia estar a caminho da sada mais prxima. Ela gostava de um flirt. Afinal, uma rapariga tinha de se divertir. Mas 
nenhum homem a levara a srio. Ela no sabia o que responder. Sempre que olhava para aqueles olhos de um azul metlico, as palavras sumiam-se. Ele era to bonito, 
o eptome do alto, moreno e lindo. Feies cinzeladas, queixo forte, cabelo negro e montes de msculo. Uma mistura perigosa. Crystal Falls era uma cidade grande, 
e Bethany frequentara escolas diferentes das de Ryan. Tambm era alguns anos mais nova; assim sendo, nunca se tinham movimentado nos mesmos crculos sociais. Mas 
vira-o algumas vezes ao longe quando era adolescente, geralmente nas feiras durante os rodeios, e j na altura o achara bonito. Agora, era ainda mais atraente. No 
era de admirar que o nome dele fosse quase uma lenda e que metade das mulheres da cidade achasse que estava apaixonada por ele.
        - Eu, hmm... - Encolheu os ombros, pela primeira vez na vida ,sem saber o que dizer. Se algum dos seus irmos estivesse presente, teria assinalado o momento.
        O seu olhar parou na boca dele. Os lbios eram longos e estreitos, meros traos na dureza grantica daquele rosto, todavia, bem desenhados com o brilho discreto 
do cetim. Naquele instante, um canto da boca em questo estava contrado, como se tentasse reprimir um sorriso.
        - Eu sei que jantar e cinema no  muito imaginativo - disse ele em tom de desculpa. - H-de me ocorrer qualquer coisa mais interessante para a prxima.
        A prxima? Bethany no sabia como encarar tudo aquilo. Porque  que ele estava a perder o seu tempo com ela? Talvez porque tivesse pena? Ela no queria piedade.
        Devia ter encontrado uma forma de ele ver imediatamente a cadeira de rodas. Assim, aquilo nunca teria acontecido. Ela no podia sair com ele. As pernas podiam 
no funcionar, mas o corao estava em perfeito estado e Ryan Kendrick era um pouco encantador de mais. Com aqueles olhos cintilantes e aquele sorriso provocador 
a deitar-lhe as defesas abaixo, seria demasiado fcil deixar-se ir de cabea.
        Passou as mos pela saia para se certificar de que aquela lhe cobria os joelhos. Tinha de haver uma forma graciosa de sair daquela situao.
        - Por acaso, Mr. Kendrick, o motivo que me leva a hesitar  porque me parece que talvez esteja ocupada no sbado a noite.
        Ele nem pestanejou:
        - Ento, e na sexta? - Tinha acabado de perguntar e j estalava os dedos: - No, sexta-feira no pode ser. Tenho um concurso de tractores na lama nessa noite, 
e tenho mesmo de estar na feira.
        - Na lama? - Bethany ficou imediatamente com vontade de morder a lngua.
        O olhar dele tornou-se mais penetrante.
        - Aprecia concursos de tractores na lama?
        Ela puxou o cabelo, aproximou-se do balco e comeou a arrumar a rea de trabalho.
        - Gostava bastante.
        - Que surpresa.  um desporto quase exclusivamente apreciado por homens.
        Ela encolheu os ombros.
        - Eu tinha gostos estranhos para uma mulher, acho eu.
        - Porque o passado? Se gosta mesmo desses concursos, eu levo-a. Era bvio que ele nunca tinha lidado com um paraplgico.
        - Oh, eu no posso.
        - Porque no?
        - Entre o estacionamento e o recinto  uma grande extenso de terra e de cascalho.
        - E o que  que isso tem de mais?
        O corao dela disparou. Engoliu em seco, respirou fundo e tentou acalmar-se. Ele no estava interessado nela daquela maneira: apenas estava a ser simptico. 
Bethany no se podia esquecer disso, manter o sentido de humor e safar-se com uma gargalhada. Aparentemente, era necessrio um pouco de realidade, nua e crua. Quem 
melhor para lhe dar uma dose?
        - Para uma pessoa que anda, um pouco de terra e cascalho no  nada de mais - disse ela lentamente. - Mas a minha cadeira de rodas tende a atolar-se em solo 
irregular, e atravessar cascalho torna-se difcil.
        Ele olhou-a de alto a baixo.
        - Incomoda-a se a levarem ao colo?
        - Desculpe?
        - Provoca-lhe incmodo, dores, se algum a levar ao colo?
        - Est a brincar. Certo? No pode estar a falar a srio.
        - Porque no?
        Porque no? Ele no fazia mesmo ideia de nada.
        - A questo no  o meu incmodo, mas sim se as suas costas aguentam o esforo. - Ela abanou a cabea. -  muito simptico da sua parte oferecer-se. A srio, 
Mr. Kendrick, mas...
        - Ryan - corrigiu-a ele. - Ou Rye, se preferir. Estou habituado aos dois. E no estou a ser "simptico". Quero mesmo lev-la.
        - Ryan, seja. - Procurando o olhar dele, que a fazia sentir-se como se tivesse acabado de engolir um peixe vivo, disse: -  muito simptico em oferecer-se, 
mas no faz ideia daquilo em que se est a meter. No existem passeios nem zonas especiais no recinto.
        - E ento? Voc tem uma cadeira e eu levo um banco de campismo para mim.
        - No, no est a perceber. No so os assentos que me preocupam, mas sim o facto de voc ter de levar a minha cadeira para l.  muito pesada e difcil 
de manobrar, e depois tambm teria de me empurrar. - Ela abanou novamente a cabea. - No. Quando finalmente conseguisse instalar-me, com a minha sorte, eu precisava 
de ir  casa de banho, que fica no alto do estdio. So pelo menos quatrocentos metros. E voc tinha de me levar a mim e  minha cadeira, e depois voltar. Quando 
a noite acabasse, estaria mais do que arrependido por me ter convidado.
        - Voc no pode pesar mais do que cinquenta quilos. As minhas costas aguentam.
        - Cinquenta e cinco - corrigiu-o ela, pensando enquanto falava que praticamente metade daquele valor era peso morto, o que era mais pesado e mais difcil 
de manobrar.
        - Isso tudo? - Ele riu-se, os olhos azul-ao danando de divertimento. - Minha querida, carrego o dobro disso dezenas de vezes por dia.
        - No, eu...
        - Temos encontro - insistiu ele. Aproximando-se do balco, esticou o brao para empurrar um bloco de notas na direco dela. - Estarei  sua porta para a 
apanhar exactamente s seis da tarde de sexta-feira. Escreva a a morada e o seu nmero de telefone, por favor.
        - Eu no...
        - V l - disse ele. - Vamos divertir-nos. No  frequente eu encontrar uma mulher que gosta de concursos de tractores. Onde  que voc tem estado escondida?
        Ela riu-se e tentou desencoraj-lo mais uma vez:
        - No sou grande coisa em encontros. Voc no tem de fazer isto. A srio. No levo a mal.
        Em resposta, ele semicerrou um olho e empurrou o bloco de notas;
        - Nome completo, morada, nmero de telefone. Se no mos der, eu fao jogo sujo e peo-os ao Harv Coulter. O Rocking K  a conta maior.
        Imaginando a reaco do pai, Bethany no pde deixar de sorrir.
        - Eu devia deix-lo fazer isso. Podia ser interessante. Imagino que no seja um homem de apostas?
        - s vezes. O que  que apostamos?
        - Que o meu patro no s no lhe d a minha morada, como o faz sair daqui com uma caadeira apontada. O meu pai tem uma certa tendncia para ser demasiado 
protector com a sua filha.
        - Voc  filha do Harv?
        - Nem mais. - Com um suspiro de resignao, ela baixou a cabea e escreveu na folha a informao que ele tinha pedido. - No diga que no o avisei. Quando 
a noite acabar, quando estiver a engolir ibuprofeno e mortinho por uma cinta de descanso, no quero ouvir reclamaes.
        - E no vai ouvir.
        Enquanto rasgava a folha superior do bloco de notas e lha entregava, ela acrescentou:
        - Se surgir alguma coisa e tiver de cancelar, Ryan, pode encontrar-me aqui na loja durante o dia. Agradecia um telefonema. Para algum como eu, preparar-me 
para ir a algum lado no  tarefa fcil.
        Ele dobrou o papel e guardou-o no bolso.
        - Eu apareo. Conte com isso.
        Ela encolheu os ombros, esperando assim transmitir que no lhe fazia diferena.
        - Aceito uma desculpa qualquer. Ate "o meu co comeu-me os trabalhos de casa" funciona. - Obrigou-se a sorrir.
        - Sexta-feira - disse ele. - s seis em ponto. Mal posso esperar. Enquanto ele se afastava, Bethany ouviu passos atrs dela. Olhou por cima do ombro e viu 
que o seu irmo Jake se aproximava. Vestido com o mesmo estilo de Ryan, ganga desbotada e cambraia azul, parecia-se o suficiente com o outro homem para poder ser 
seu parente. Alto e esguio, todavia musculado, o irmo dela tinha o ar batido de um homem que enfrentara os elementos durante quase toda a sua vida.
        Jake tambm tinha olhos bonitos - um azul profundo e cristalino que surpreendia pelo contraste com a pele muito bronzeada. Naquele momento, aqueles olhos 
estavam fixos com uma intensidade pouco agradvel nas costas de Ryan Kendrick.
        - O que foi aquilo?
        - O que foi o qu? - perguntou ela com um ar inocente. Jake brindou-a com um olhar demorado e interrogativo.
        - Quando estava a descer a escada, vi-vos a conversar e parecia que ele estava a arrastar-te a asa.
        Bethany ergueu as sobrancelhas:
        - A arrastar-me a asa? H quanto tempo  que no vais ao oftalmologista?
        Surgiu um tique no msculo do queixo dele.
        - Tu ests paralisada, Bethie, no morta. E s uma mulher muito bonita. Eu sei que, de vez em quando, os homens devem meter-se contigo.
        - Ento, para que  essa cara?
        - Porque aquele homem em particular no traz nada de bom. Afasta-te do Ryan Kendrick, querida. Aquele tipo j tem reputao.
        Ainda solteiro aos trinta e um anos, Jake tambm tinha alguma reputao. Bethany absteve-se de referir a questo.
        - Reputao de qu?
        - Muda de mulher como quem muda de camisa. - Jake aproximou-se do balco, abriu um catlogo de peas e retirou uma caneta do bolso da camisa. - Nada de ir 
molhar os ps naquele lago.  habitado por um tubaro, e no quero que a minha maninha seja a prxima vtima.
        
        
     Captulo Dois
         
        
        Sexta-feira ao fim da tarde, Bethany ria-se de si prpria. Ryan no telefonara a cancelar, o que implicava que o encontro daquela noite ainda estava de p. 
Contra qualquer noo de sensatez e no obstante todos os sermes que passara a si mesma, estava entusiasmada - to entusiasmada que mal conseguia suportar aquela 
sensao. Pela primeira vez em oito anos, tinha um encontro. Um encontro a srio. No com um parente, no com algum amigo do irmo, mas com Ryan Kendrick, o solteiro 
mais disputado da cidade.
        Era absurdo sentir-se assim. Era apenas uma coisa que no se ia repetir, e ele apenas insistira para ser simptico. Ia lev-la a um stio realmente divertido 
e ela pretendia apreciar cada segundo da noite.
        O cabelo estava bem?
        Foi ao seu quarto de dormir para uma ltima inspeco no espelho. No obstante a dificuldade de meter as pernas inertes num par de calas de ganga apertadas 
com apenas um elevador pessoal para a ajudar, decidira optar pelo visual de vaqueira naquela noite, o que fora um pouco difcil de concretizar numa cadeira de rodas, 
especialmente sem um chapu ou um par de botas de montar. Os dela estavam no sto do pai, enterrados sob uma camada de p.
        Voltou-se para um lado e depois para o outro, observando o seu reflexo com um olhar crtico. O xadrez vermelho e a ganga pareciam ridculos? Em Crystal Falls, 
a maioria das mulheres usava Wranglers justas e camisas de vaqueiro em acontecimentos como um concurso de tractores, mas elas no estavam presas a uma cadeira de 
rodas.
        Algures dentro de casa, a gata dela derrubou qualquer coisa. O som quase lhe provocou um ataque cardaco. Passou uma mo sobre o peito e fechou os olhos. 
"J chega." Tinha de parar com aquilo.
        No era to tonta que esperasse que Ryan se sentisse realmente atrado por ela. S essa ideia a deixava assustada. Uma sada, simplesmente para se divertirem, 
era uma coisa, uma atraco era outra completamente diferente. Era algo em que era melhor nem tocar.
        Respirando fundo, abriu os olhos e mirou o seu reflexo, determinada a ver-se a si mesmo com os olhos dos outros. Parecia-lhe que era bonita, de uma forma 
banal, no tinha nada de especial.
        A nica coisa nela que chamava obviamente a ateno era a cadeira de rodas - a desgraa da sua existncia e para sempre uma parte da sua vida. Quando Ryan 
olhasse para ela, aquela cadeira seria o que ele veria, no a mulher nela sentada. Ela no podia esquecer-se disso. Acreditara em algum em tempos, alimentando sonhos 
e pensando que a paralisia no fazia diferena, mas, no fim, a cadeira fora a nica diferena importante.
        Ia fingir que ele era um dos seus irmos. Nada de mais. No voltaria a v-lo depois daquela noite. Ia divertir-se imenso por assistir novamente a um concurso 
de tractores, e era nisso que devia concentrar-se. Raramente tinha programas como aquele porque o esforo no o justificava, os amigos ou os membros da famlia que 
se ofereciam para a levar tendo de fazer o sacrifcio.
        Voltou para a sala de estar, com uma conscincia aguda do som que a cadeira fazia ao deslizar nos soalhos de madeira polida. Quando parou, olhou para o relgio 
por cima da lareira. "Seis horas." Uma dor pequenina encheu-lhe o corao. Endireitou os ombros, escutando os segundos a escoarem-se com o movimento do pndulo. 
Ele apenas estava atrasado. Se no fosse aparecer, teria telefonado.
        E, ento... se ele no aparecesse, no seria morte de gente. Tinha uma famlia fantstica, um emprego fantstico, e actividades interessantes que no a deixavam 
parar desde a manh ate  noite. No dependia de ningum para se sentir realizada ou feliz.
        Tic-tac... tic-tac. O pndulo media impiedosamente a passagem dos minutos, e cada um deles parecia durar uma eternidade. Folheou uma revista de bricolage, 
e atirou-a para a mesa de caf. "Vinte minutos de atraso."
        "Bem. Grande surpresa." L no fundo, no esperava mesmo que ele aparecesse. De qualquer modo, estaria frio no recinto da feira. Quem queria ficar com o traseiro 
gelado a ver tractores derraparem na lama?
        Dirigiu-se para uma janela e olhou para o ptio onde o crepsculo crescente e um frio gelado pairavam sobre as rvores nuas de folha caduca. Ainda no tinham 
nascido botes nos ramos. Devido  elevada altitude, a Primavera chegava tarde para os habitantes de Crystal Falls.
        E, para alguns, nunca chegava...
        Bethany cerrou os punhos e fechou os olhos para combater uma vaga de lgrimas escaldantes, odiando Ryan por lhe ter dado esperanas e odiando-se a si mesma 
por lhe ter dado a ele o poder de as destruir.
        "Nunca mais." Talvez fosse bom que aquilo tivesse acontecido, para que ela no se esquecesse. Nada de pensar no que ficava do outro lado do arco-ris. Era 
melhor manter os ps - ou, no caso dela, as rodas - bem assentes na realidade.
        Ryan olhou para o relgio de pulso e praguejou. Mais um semforo fechado. Porque seria que tudo o atrasava quando estava com pressa? "Raios." Aquela velhota 
no Chrysler conduzia apenas com uma velocidade: lenta. Deu um soco no volante. Depois, retirou o telemvel do suporte ao seu lado e premiu novamente o boto para 
remarcar o nmero. Sem resposta. Se eles tinham um encontro marcado, ela tinha de estar em casa. Por que raio no atendia o telefone? Talvez estivesse a falar.
        O semforo abriu finalmente. Ryan atravessou o cruzamento colado ao Chrysler. Carregou a fundo no acelerador, mudou de faixa e ultrapassou o carro como se 
aquele estivesse parado. O motor do novo Dodge rugiu quando Ryan entrou na recta.
        Era provvel que fosse apanhar uma multa, mas estava a borrifar-se. "Bethany." No conseguia esquecer-se daquelas sombras que tinham passado pelos olhos 
dela quando lhe dissera que aceitaria qualquer desculpa para ele cancelar. Estava  espera que recuasse, e agora ele estava meia hora atrasado. Ia pensar que tinha 
desistido.
        A campainha da porta tocou. Bethany enxugou a cara ainda hmida. "Oh, meu Deus." A sua cara devia estar uma desgraa. Pensou em no abrir a porta, mas era 
uma parvoce. Alem disso, era provavelmente apenas um dos seus irmos a ver como ela estava.
        Esfregou os dedos com forca por baixo das plpebras inferiores para ter a certeza de que no tinha manchas de rmel. Depois, passou os dedos pelo cabelo, 
ajeitando-os a volta dos ombros. No que se importasse muito com o aspecto, no naquela altura, mas tinha o seu orgulho. Se, por acaso, Ryan estivesse  porta, no 
queria que soubesse que a tinha feito chorar.
        "Parva." Passavam quarenta minutos. Ele no ia aparecer to tarde.
        Atravessou o hall a toda a velocidade, travando bem longe da porta. Debruou-se, acendeu a luz do alpendre, correu o ferrolho especial que o seu irmo Zeke 
lhe instalara pouco acima da maaneta, e abriu a porta. A primeira coisa que viu foi um par de botas de montar cobertas de p. O seu olhar comeou a subir enquanto 
se recostava, absorvendo um cenrio de pernas esguias e cobertas de ganga.
        - Oh! - disse ela, o corao a bater-lhe de uma forma que a deixava irritada consigo mesma. Mas, afinal, o que  que ele tinha de mais? Vestia as calcas 
da mesma forma que os outros homens o faziam. No era nada de especial. - Julguei que era um dos meus irmos.
        - No.
        Ele era mais alto do que ela se recordava - mais largo de ombros. Ali parado e iluminado pela luz dourada, parecia enorme. Naquela noite usava um bluso 
de ganga cocada por cima da camisa de cambraia, aberto e deixando visvel o forro de l aos quadrados. Um cheiro tnue e no desagradvel a cavalos e a feno desprendia-se 
dele. O chapu preto de vaqueiro estava no lugar, puxado para a frente, sombreando-lhe os olhos. Como antes, aqueles olhos cintilavam, s que desta vez, em lugar 
de azul-ao, pareciam-lhe mais cor de prata oxidada.
        Mas o que  que lhe estava a dar? Prata oxidada? "Por favor." Ele provavelmente praticava aquele olhar rutilante ao espelho para que todas as mulheres num 
raio de um quilmetro cassem de quatro quando ele sorria. Bem, ela no seria uma delas. Ryan era de fazer crescer gua na boca, mas o mesmo se podia dizer de um 
bom bolo de chocolate, e um bolo de chocolate era muito mais seguro.
        - Precisas de um culo na porta - disse ele, a sua voz baixa e rouca. - No  seguro abrir sem saber quem est do outro lado, especialmente quando j  quase 
de noite.
        Parecia-se tanto com um dos irmos dela que bem podia ser um clone, o que a ajudou a acalmar o corao.
        - Um culo  minha altura?  um pouco difcil identificar um homem pela sua braguilha.
        Ele deixou escapar uma gargalhada de espanto, um som arranhado que lhe sacudiu os ombros largos.
        - No  assim to difcil. - Agarrou na grande fivela prateada e inclinou-a na direco da luz para que ela a visse. - A minha est marcada com as minhas 
iniciais. - Voltou-se ligeiramente para mostrar a parte de trs do cinto, igualmente personalizada. - Podes ver quem eu sou, a chegar ou de partida.
        Ela olhou para as letras na prata trabalhada quando ele se voltou novamente.
        - Estou a ver.
        A voz dele parecia sincera. Bethany preparou-se para lhe resistir.
        - Tenho a certeza de que tens um bom motivo. - Nenhuma desculpa que ele lhe desse seria suficientemente convincente. Estava quarenta minutos atrasado, no 
tinha telefonado. Pelos padres dela, era imperdovel.
        Ele sorriu ligeiramente.
        - Tentei telefonar. No atendeste.
        - Tentaste? - Esperava que ele fosse mais imaginativo. - Que estranho. No ouvi o telefone tocar, e tenho sinal de chamada em espera.
        O olhar que ele lhe deitou f-la sentir-se como se a sua pele estivesse a virar-se do avesso. Tinha a sensao de que conseguia perceber que estivera a chorar. 
Os lbios dele apertaram-se num canto, aumentando a cova na face. No era bem um sorriso, mais um trejeito, mas os olhos entraram em jogo, enrugando-se nos cantos, 
tornando a sua expresso mais calorosa.
        - Eu sei que no estava a marcar o nmero errado. Verifiquei. Uma ideia terrvel passou pela cabea de Bethany. Olhou por cima do ombro:
        - A minha gata - murmurou ela.
        - Desculpa?
        - Pouco antes das seis, ouvi-a derrubar qualquer coisa. Aposto que voltou a deitar ao cho a extenso do quarto de hspedes.
        - Ah. Mistrio resolvido. Ela recuou.
        - Por favor, entra, Ryan. S demoro um minuto.
        Imaginou os irmos todos a aparecerem para ver como estava porque no atendia o telefone. S a ideia deixava-a gelada. Nem era preciso dizer que Jake no 
gostaria de encontrar Ryan ali.
        J no quarto de hspedes, Bethany viu que o telefone tinha de facto cado. Quando o poisou no suporte, passou um sermo a si mesma. Muito bem, muito bem. 
Ele tinha tentado telefonar, como dizia, e ela tirara concluses precipitadas. Provavelmente, ia dizer-lhe que tinha um bom motivo para o atraso. Mas isso no significava 
que ela tinha de permitir que o seu corao lhe levasse novamente a melhor. Ryan ia lev-la a sair s para ser simptico. Ela ia divertir-se. Sem esperar mais nada, 
sem desejar mais nada.
        Respirou fundo, sentindo-se melhor quase instantaneamente. Quando a noite tivesse acabado, teria uma boa recordao para guardar, e talvez ele tambm.
        Aquilo no tinha de ser complicado se ela no o permitisse.
        Quando voltou ao hall, ele continuava de p  porta. Ela viu que ele estava a observar as pinturas com motivos tradicionais penduradas nas paredes, um favor 
do irmo Hank porque ela no conseguia aplicar os pregos quela altura.
        - A tola da gata. Salta para a mesa-de-cabeceira e derruba as coisas. Ele levantou um polegar na direco dos quadros.
        - Tens muito talento.
        - Obrigada, mas nem por isso. Tive muito tempo para me aperfeioar. - Parou a alguma distncia dele e cruzou as mos. O toque do olhar dele aqueceu-lhe o 
rosto. - Espero que os meus irmos no tenham tentado telefonar. Tm pavor que eu caia ou qualquer coisa assim. Estou sempre a dizer-lhes que no tm de se preocupar, 
que eu vivi muito bem sozinha em Portland durante seis anos.  o mesmo que falar com uma parede.
        - Protectores?
        - Do pior. Se um deles no conseguisse telefonar, avisava os outros, e vinham todos a correr para c.
        Ele sorriu e arqueou novamente uma sobrancelha.
        - Isso  um aviso?
        - Pode-se dizer que sim. Segundo eles, eu confio demasiado nas pessoas.
        - E  verdade?
        - Acho que os meus irmos sobrestimam imenso os meus encantos. Se no for o caso, no devem andar tantos lobos por a como eles pensam.
        Observando aquele rosto voltado para ele, Ryan pensou que ela era bem bonita, e no censurava os irmos por serem to protectores. H muito tempo que no 
saa com uma mulher cuja expresso fosse to franca. Ela no era provavelmente uma boa avaliadora do carcter masculino, e era bvio que podia sair facilmente magoada. 
Os olhos estavam vermelhos de chorar, as pestanas escuras ainda brilhantes e hmidas. Saber que fora a causa das lgrimas dela f-lo sentir-se um canalha.
        - Lamento mesmo no ter conseguido chegar a horas. Espero que no estejas zangada comigo.
        - De todo. Calculei que tivesse surgido algum imprevisto.
        Ele imaginou-a a olhar para o relgio e depois acabando por desistir, convencida de que ele no aparecera porque no queria passar um sero com ela.
        - Foi um dia para esquecer. Depois, como se no bastasse, uma das minhas guas entrou em trabalho de parto antes do tempo. A primeira cria, e ela passou 
um mau bocado.
        - Oh, no. Ela est bem?
        A preocupao que Ryan viu naqueles grandes olhos azuis parecia genuna. A maioria das mulheres com quem andara torcia o nariz quando ficava a saber que 
vinha em segundo lugar depois de um cavalo ou de uma vaca, algo que era frequente no trabalho que ele tinha.
        - Sim, ela agora est bem. Muito feliz, no podia estar mais orgulhosa da sua nova cria.
        - Isso  bom. Qual foi o problema?
        - A cria era grande e no deu bem a volta.
        - Bem, bem. Isso pode ser complicado. Tiveste de chamar um veterinrio?
        Para surpresa de Ryan, ela parecia mesmo interessada, mais uma raridade. Grande parte das mulheres apenas lhe perguntava pelo rancho para lhe massajar o 
ego.
        - Chamei-o s para jogar pelo seguro, mas, afinal, consegui virar a cria sozinho. Peo desculpa. Aquela gua  especial para mim. Pouco depois de ela nascer, 
a me ficou sem leite, e tive de ser eu a aliment-la. Ficamos muito chegados.
        Ryan pensou que raramente se dava ao trabalho de apresentar tantas explicaes. Ele era um rancheiro, e os imprevistos aconteciam. Quando surgia uma emergncia, 
fazendo com que se atrasasse para um encontro, era mesmo assim.
        Observando o olhar meigo de Bethany, parecia-lhe difcil no se justificar:
        - Ela estava muito assustada - deu por si a dizer.
        - Oh, mas claro que estava, coitadinha, o que provavelmente tornou o parto ainda mais difcil para ela.
        Ryan assentiu.
        - Tenho a certeza de que o nosso capataz, o Sly, e o veterinrio davam conta da situao, mas no consegui convencer-me a deix-la sozinha.
        - Por favor, no peas desculpa, Ryan. Se a tivesses deixado s por causa de um encontro pateta, nem sei como  que eu me sentiria. Assumimos uma grande 
responsabilidade quando temos um animal de estimao.
        Animal de estimao? Ryan imaginou que Rosebud era isso mesmo para ele, ainda que nunca o admitisse.
        -  uma gua muito valiosa.
        - Pois, pois, e por isso  que tu ficaste, porque se alguma coisa corresse mal, terias perdido uma pipa de massa.
        Ele riu-se e puxou pela orelha.
        - Pois, tambm, mas foi essencialmente uma questo emocional. Eu sou a mam dela.
        Ela riu-se ao ouvir aquilo, a sua expresso amaciando-se como se percebesse exactamente o que ele queria dizer.
        - Porque ser que tenho a sensao de que gostas de cavalos?
        - Provavelmente, porque gosto. - Ela debruou-se na cadeira. - Tenho de saber. Foi um poldro ou uma poldra?
        - Um poldro.
        - De que cor? - perguntou ela, os seus olhos brilhantes de interesse.
        - Castanho-avermelhado. Lindo, patas escanzeladas e joelhos nodosos, com um focinho grande. E as orelhas so to grandes, s pode ser um cruzamento de burro. 
Mas h-de ficar mais bonito dentro de algumas horas.
        - Oh! - disse ela com um suspiro, sorrindo pesarosamente. - Deve ser um doce. No vejo um poldro recm-nascido h tanto tempo, j nem me lembro da ltima 
vez.
        A expresso na cara dela deixou Ryan com vontade de a arrancar daquela cadeira e lev-la para o seu rancho. Ao aperceber-se daquela sensao, pensou no que 
lhe estaria a acontecer. Nenhuma mulher lhe despeitava aqueles sentimentos h j bastante tempo. Errado. Nenhuma mulher o fizera sentir-se assim.
        Desconfortvel com o rumo dos seus pensamentos, olhou para o relgio.
        - Bem, j ests pronta?
        - Ests bastante atrasado, Ryan, e eu s te vou atrasar ainda mais. Se s um dos patrocinadores, tens de chegar l o mais depressa possvel. Talvez seja 
melhor eu ficar. Fica para a prxima.
        - Tretas. No me vais atrasar assim tanto e eu no me divertia nada se tu no fosses.
        Quando disse aquilo, Ryan sabia que estava a falar a srio - talvez mais do que seria sensato. Mas o que  que lhe estava a passar pela cabea? Aquela mulher 
nunca poderia fazer parte da sua vida.
        - Onde est o teu casaco? Vai ficar frio se o vento aumentar. Obviamente ansiosa por ir, ela deu meia-volta com a cadeira e foi at ao bengaleiro. Retirou 
uma parka azul de um cabide mais baixo e comeou a vestir uma das mangas.
        Recordando-se das suas boas maneiras, ele agarrou-lhe no casaco. A manobra era mais difcil com uma cadeira de rodas pelo meio, mas ele puxou e ajeitou at 
conseguir vestir-lhe a pea de roupa. Durante o processo, as suas mos tocaram acidentalmente em certas zonas. Quando deu a volta  cadeira para lhe soltar os cabelos 
da gola, tinha um n no estmago. Aquelas madeixas compridas e escuras deslizavam-lhe entre os dedos como seda pesada, ainda quentes do contacto com o corpo dela.
        Ela olhou para trs.
        - Preciso da minha carteira. Tenho l as minhas chaves.
        - Onde est?
        - Eu vou busc-la. Cuidado com os ps.
        Alguns segundos depois, quando ela j estava de volta, Ryan levantou-a da cadeira. Bethany soltou um gritinho de surpresa e agarrou-se ao pescoo dele. A 
carteira, pendurada pela ala no pulso delicado, bateu no brao dele.
        - Oh, no me deixes cair! Ryan no a queria assustar.
        - Calma, querida, isso no vai acontecer. - No obstante o forro acolchoado da parka, ele podia sentir o corao dela a bater com fora no lugar onde a mo 
assentava nas costelas. - Calma - murmurou ele, a sua respirao agitando cabelos na tmpora dela. - No pesas quase nada e eu juro que no te deixo cair.
        A voz dela tremeu quando disse:
        - Eu no me consigo segurar, sabes?
        Ele no a teria deixado cair por nada deste mundo.
        - Se acontecer alguma coisa e eu cair, hs-de pensar que s uma cesta cheia de ovos. No te estou a magoar, pois no?
        - No, no. De todo. A srio. Estou bem.
        Ela olhou para cima, e Ryan perdeu-se naqueles olhos enormes. No sabia quanto tempo tinha passado quando se apercebeu de que estava ali parado como um pateta.
        - No tens de carregar comigo ate chegarmos ao recinto da feira, Ryan. A minha carrinha est equipada com um elevador e eu...
        - Vamos na minha.
        -  Vamos? Oh, no sei. D muito menos trabalho se formos na minha.
        - Minha querida, confia em mim. J tenho tudo pensado. Fecho tudo quando voltar para levar a tua cadeira. Tens tudo desligado, ou  melhor fazer uma ronda 
antes de fechar a casa?
        - Est tudo desligado.
        Ele afastou-se, as botas batendo nos soalhos encerados. Quando ele se voltou para a levar para a carrinha, Bethany deitou um olhar ansioso  rampa de madeira 
nos degraus do alpendre.
        - Espero que te aguentes bem. Aquela rampa costuma ficar escorregadia em noites frias como esta.
        - At vais achar que eu sou um cabrito-monts. Tens a certeza de que no te estou a magoar? Ests muito tensa. - Brindou-a com um sorriso na esperana de 
a ajudar a descontrair. - Ests agarrada ao meu pescoo como se a tua vida dependesse disso.
        - E depende.
        Ele riu-se. Quando parou ao lado da sua carrinha, executou uma manobra destra, flectindo ligeiramente os joelhos para abrir a porta e depois escancarando-a 
com um empurro do brao. Ouviu Bethany arquejar quando a iou e poisou no banco cinzento. Ela agarrou-se  pega por cima da porta como se tivesse medo de cair de 
cabea quando ele a largasse.
        - Eu tenho-te bem segura - repetiu ele.
        Ela sentia que sim. As mos de Ryan estavam fixas nas suas ancas. Ao contrrio de muito paraplgicos, aquela zona do seu corpo no era insensvel. Os polegares 
dele pareciam queim-la atravs das calcas de ganga.
        - Ests bem? - perguntou ele, erguendo uma sobrancelha interrogativa.
        Ela sentia-se como uma ervilha equilibrada no alto de um poste. Homem grande, carrinha grande - uma Dodge Ram cor de vinho gigantesca. O banco parecia estar 
muito acima do cho. Mas depois ele puxou-a para trs, os contornos do banco abraando-a, fazendo-a sentir-se mais segura:
        - Sim, estou bem.
        Ele passou-lhe as mos por baixo dos joelhos, levantando-os para reposicionar as pernas, que tinham ficado mal apoiadas quando ele a largara. Bethany comeou 
a sentir calor nas bochechas, o que fez disparar as campainhas de alarme. No se sentiria embaraada se um dos seus irmos lhe levantasse as pernas.
        Ryan estendeu o brao por trs dela para prender o cinto de segurana. Ela estava quase a dizer-lhe que era perfeitamente capaz de o fazer sozinha, mas antes 
que as palavras sassem ouviu o estalido do metal e, quando deu por si, ele estava a acertar a correia sobre o corpo dela. O lado da mo tocou-lhe no seio direito, 
fazendo com que o mamilo endurecesse. Ela deu graas a Deus pelo forro acolchoado e pensou, com alguma ansiedade, se conseguiria sobreviver quela noite.
        Talvez no sobrevivesse, decidiu Bethany alguns minutos depois. Ryan Kendrick estava a conduzir na direco errada. No extremo da cidade, meteu por uma estrada 
de sada. A carrinha ganhou vida quando ele carregou no acelerador at chegar aos cento e dez. Ligou o aquecimento para ter a certeza de que ela no sentia frio. 
Depois, ligou a aparelhagem, enchendo a cabina com a voz melflua de John Michael Montgomery. A viagem estava a ser uma delcia. Ela s gostava de saber para onde 
ele estava a lev-la.
        Era completamente absurdo, mas a sua mente decidiu recordar-se naquela altura de todos os avisos dos seus irmos. Que o abuso de mulheres deficientes era 
assustadoramente habitual, que havia tarados sexuais que se aproveitam das mulheres com incapacidades, e que ela nunca se poderia esquecer do quo indefesa era. 
Os seus irmos defendiam que era pura loucura ir a algum lado com um homem sem antes dar a todos os membros da famlia o nome dele, nmero do BI e uma descrio 
fsica completa, s para o caso de ele ser um estupor.
        Como era tpico dela, no dera ouvido queles avisos, e agora ali estava, a caminho sabia Deus de onde com um homem sobre o qual no sabia praticamente nada. 
Pior ainda, tivera tanto medo da reaco de Jake que no falara a ningum sobre aquele encontro.
        Enquanto conduzia, Ryan retirou uma mquina de barbear sem fios da consola. Um segundo depois, o zumbido do aparelho encheu a cabina quando ele comeou a 
desembaraar-se da barba que comeara a crescer.
        - Espero que no me leves a mal. Costumo arranjar-me antes de um encontro, mas hoje no tive tempo. Sei que devo estar medonho e a cheirar a cavalo.
        Para ela, o aspecto e o cheiro dele eram fantsticos. Tambm parecia tornar-se maior com cada minuto que passava. Quando devolveu a mquina  consola, retirou 
um frasco de aftershave. Enquanto conduzia com os cotovelos, espalhou um pouco do adstringente perfumado na palma de uma mo, esfregou-a na outra e depois deu algumas 
palmadas na cara. Ela quase saltou com o som das palmas contra as faces. Se fosse ela, ficaria com uma ligeira concusso se usasse tanta fora. O cheiro masculino 
e amadeirado do perfume chegou-lhe s narinas.
        Ainda a conduzir com os cotovelos e, esperava ela, com um olho na estrada, ele devolveu o frasco ao compartimento e tirou o chapu para passar os dedos pelo 
cabelo negro. Assim que terminou as suas ablues, o que ele fez sem dar descanso ao acelerador, voltou a colocar o chapu na cabea, mirou-se no retrovisor e piscou 
o olho a Bethany.
        -  o melhor que se pode arranjar. Para a prxima, tomo dois duches. Que tal?
        L estava ele com o "para a prxima". Bethany voltou a olhar para a estrada, convencida de que pelo menos um deles devia estar a prestar ateno. Um sorriso 
teimava em instalar-se na sua boca. Se ele tivesse ms intenes, estava a dar-se a muito trabalho para cheirar bem antes de a atacar.
        - No te estou a deixar nervosa, pois no? Estou habituado a fazer dez coisas ao mesmo tempo.
        - No, no ests a deixar-me nervosa - respondeu ela, ainda a tentar reprimir um sorriso. - Todavia, estou um pouco curiosa em relao ao nosso destino.
        Ele deitou-lhe um olhar de esguelha, o brilho nos olhos visvel apesar da luz fraca.
        -  uma surpresa.
        Tudo nele era uma surpresa.
        - Parece interessante. Que gnero de surpresa?
        - Se te contasse, no seria uma surpresa. Que graa  que tinha? Ele tinha razo. H muito tempo que ela no sabia o que era uma aventura e, independentemente 
do que os seus irmos dissessem, queria aproveitar aquela noite com Ryan.
        - Ento, e o concurso de tractores? s um dos patrocinadores, lembras-te, e tens de estar l.
        - Tenho de aparecer, sim, e nos vamos l... depois da surpresa.  uma daquelas coisas que no podem esperar e parece-me que vais gostar mais do que dos tractores.
        Bethany no conseguia sequer imaginar o que Ryan teria preparado, mas confiava instintivamente nele - mesmo quando ele conduzia com os cotovelos. Agarrou-se 
 sua cintura e olhou pelo pra-brisas, a sua viso desfocando-se na linha amarela.
        Ele inclinou-se para aumentar o som da aparelhagem.
        - Importas-te?  a minha cano preferida.
        - Ests a gozar. Tambm  a minha.
        - Gostas do Montgomery? Ela assentiu.
        - Mal consigo ficar quieta quando est a tocar uma cano dele.
        Ele tirou o chapu, poisou-o na consola e, ento, dividindo a sua ateno entre ela e a estrada, olhou-a do outro lado da cabina como se fosse o amor da 
sua vida enquanto cantava o refro. A cano era I Swear, uma bela declarao na qual o vocalista prometia pela Lua e pelas estrelas ser como uma sombra ao lado 
da sua amada at que a morte os separasse.
        Ryan Kendrick tinha uma voz que lhe fazia derreter os ossos. Quando continuou a cantar, Bethany no resistiu a juntar-se a ele, ainda que parecesse uma r 
a coaxar num nenfar. Nunca conseguira cantar bem. Danar sempre fora o seu forte - h muito tempo, h uma vida. Agora, apenas podia sentir a batida da msica country 
e sonhar.
        Exactamente como estava a sonhar agora, que Ryan Kendrick queria mesmo dizer aquelas palavras que lhe estava a cantar. "Idiota." O que  que ele tinha? "Bethany, 
sua tola, a sonhar." Imaginava que em parte era por ele ser to bonito - do tipo alto e moreno que geralmente apenas se via nos filmes. Isso, associado ao facto 
de ser to simptico, resultava num conjunto mortfero.
        Ela quase se sentia grata por s contar com aquele sero com Ryan. Caso contrrio, poderia correr grave perigo de acabar com um corao destroado.
        
     Captulo Trs
        
        
        
        A "surpresa", afinal, consistia em levar Bethany a ver o novo poldro. Assim que ela viu a casa de tijolo no alto de um outeiro com vista para o Crystal Lake, 
soube que estavam no rancho dele. O luar brilhava atravs da bruma que envolvia as rvores em redor das clareiras, o tremeluzir da luz prateada tocando tudo com 
a sua magia. Nos pastos por onde passaram, ela viu grandes quantidades de vacas com vitelos da Primavera ao seu lado, o que a fez rir de prazer.
        - Oooh, no so to fofos?
        Ryan parou por um instante junto a um poste de iluminao para que ela pudesse ver as crias.
        - Ests a ver aquele pequenino? - Apontou para um Hereford recm-nascido com o focinho branco. - Chamo-lhe Porco. Anda atrs da teta como se no houvesse 
amanh. Deixou a me dele toda dorida e depois comeou a empurrar os outros vitelos para lhes ficar com o leite. Tive de o manter fechado durante quase uma semana 
e aliment-lo a bibero.
        Uma expresso engraada passou-lhe pelo rosto e ele franziu as sobrancelhas.
        - Desculpa - disse Ryan em voz baixa. - s vezes esqueo-me de que nem toda a gente vive num rancho e est habituada a este tipo de conversa.
        Bethany riu-se. Foi mais forte do que ela.
        - Eu cresci num rancho, Ryan. No me ofendo assim to facilmente.
        Ele sorriu e descontraiu-se visivelmente ao arrancar novamente.
        - s um doce. Mesmo assim, desculpa a minha falta de maneiras. Enquanto a carrinha percorria o caminho de cascalho, Bethany olhava sonhadoramente para o 
lago, que brilhava como vidro negro polido, manchas ocasionais de gelo criando ilhas brancas naquela vastido.
        Nem conseguia imaginar como seria acordar de manh e poder regalar o seu olhar ainda ensonado com tanta beleza enquanto bebia caf.
        - Meu Deus, Ryan. Tens tanta sorte. Isto  to bonito.
        - Tambm acho. Mas, afinal, fui criado aqui e no consigo ser imparcial.
        Ela olhou para os pastos imensos mais perto de casa, que rodeavam inmeros edifcios de apoio e eram atravessados por vedaes brancas.
        - No precisas de fazer isto. A minha cadeira no se d bem com superfcies lamacentas, e deve haver lama no estbulo. Ainda h poucos dias tivemos chuva.
        - Se eu esperasse para te trazer c, era capaz de j no haver crias recm-nascidas. Ainda so engraadas depois, mas nada chega aos calcanhares de ver uma 
delas logo depois do nascimento. - Ele sorriu, os dentes brilhantes na sombra. - Mais uma hora, o aspecto daquele poldro j no ser o mesmo. - A voz dele tornou-se 
mais suave: - Descontrai-te, querida. Diverte-te. A lama no ser um problema.
        Num rancho daquele tamanho era provvel que houvesse poas capazes de engolir a carrinha onde se encontravam.
        - S no quero que te arrependas de me ter convidado.
        - Estou a gostar disto. Uma mulher que aprecia concursos de tractores, cavalos e John Michael Montgomery. Onde  que tens andado escondida?
        Ai, ai. Ele no fazia ideia de onde se estava a meter. Bethany imaginou a sua cadeira de rodas a desaparecer numa poa de lama, e ele a escorregar e a patinar 
enquanto tentava arrancar as duas do lodo. Ainda assim, resolveu no pensar nisso. Era um gesto to simptico, ela no queria estrag-lo.
        Mesmo com as luzes exteriores acesas, no conseguia ver muito da casa - apenas que parecia suficientemente grande para conter trs como a dela. Ele estacionou 
a carrinha o mais perto possvel da entrada do estbulo, retirou a cadeira de rodas das traseiras, levou-a para o interior e depois foi buscar Bethany. Ela respirou 
fundo quando ele abriu a porta do lado do passageiro.
        Ryan desapertou-lhe rapidamente o cinto de segurana e agarrou nela.
        - Ui!
        - No te deixo cair, querida.
        - E se escorregares? Ele riu-se.
        - Era uma estreia. J carreguei com vitelos e poldros quando a lama me dava pelos tornozelos e nunca fui ao cho. Talvez seja mais fcil se ficares quieta.
        Ela ficou imediatamente imvel, o que o levou a rir-se de novo.
        - Porque ser que tenho esta sensao de que ningum te pega ao colo?
        - No  costume. H sculos. Tenho-me esforado por me tornar auto-suficiente. Detesto incomodar as pessoas.
        - E, como resultado, j nem te lembras da ltima vez que viste um poldro recm-nascido? Esquece mas  o incmodo.
        Ryan levou-a com aparente facilidade para o interior do edifcio de madeira pintada de branco.  medida que ia avanando pelo corredor central bem iluminado, 
evitava vrios pontos enlameados na terra compactada, os quais ela observava com crescente receio.
        - Gostava que no te preocupasses tanto - disse-lhe ele. - Ainda bem que tenho um pretexto para ver como est a Rosebud. O Sly, o nosso capataz, vem ver 
como ela est, mas no  a mesma coisa. Assim, no me preocupo com ela enquanto estiver no concurso de tractores.
        Foi buscar a cadeira de rodas dela, que tinha deixado a frente de uma das baias. Em lugar de poisar Bethany nela, como ela esperava que fizesse, manteve-a 
nos seus braos para que pudesse espreitar por cima do porto da baia e ver a gua e o poldro recm-nascido.
        - Ento? - A voz dele era orgulhosa. - O que achas dele? Quando Bethany viu os cavalos quase esqueceu o homem que a segurava nos braos. Exactamente como 
ele descrevera, o poldro mais parecia um novelo de patas, e ainda nascido h to pouco tempo que o focinho e as orelhas pareciam desproporcionados em relao ao 
resto do corpo. Ela riu-se com prazer.
        - Oh, Ryan, ele  fabuloso!
        - Achei que ias gostar dele - disse ele com voz rouca.
        - Vai ser um cavalo lindo.
        - O pai dele, Flash Dancer, tem dado umas crias muito boas. Rosebud relinchou e deixou a sua cria para ir saud-los. O corao de Bethany derreteu-se assim 
que olhou para os olhos meigos e castanhos da gua.
        - E tu deves ser a Rosebud. Que bonita que tu s. No admira que o teu filho seja to jeitoso.
        - Cuidado.  a primeira vez que ela  me, est um pouco nervosa e tu s uma desconhecida. Ela tentou arrancar um naco do veterinrio  dentada depois de 
o poldro nascer.
        Bethany estendeu um brao por cima do porto:
        - Nunca houve um cavalo que no gostasse de mim.
        Ryan inteiriou-se, preparado para bloquear a gua se ela fizesse algum movimento ameaador, mas Rosebud limitou-se a cheirar os dedos e depois o brao de 
Bethany. Aparentemente convencida de que aquele novo ser humano no constitua qualquer ameaa, a gua relinchou de novo, aproximou-se do porto, e empurrou o ombro 
de Bethany com o focinho.
        - E esta!? Ela gosta mesmo de ti.
        - Claro que gosta. Os cavalos gostam sempre de mim. - Aproximou a cara do focinho da gua e fez-lhe uma festa. - No fao a mnima ideia porqu, mas foi 
sempre assim, desde que me lembro.
        - Algumas pessoas nascem com um dom.
        - Acho que  de famlia. Os meus irmos so incrveis com cavalos. Especialmente o Jake e o Hank. Conheces aquele filme sobre o encantador de cavalos? Eles 
so assim. Quando era mais nova, passava horas a ver o Jake a trabalh-los. O meu pai costumava dizer que parecia um feiticeiro. Outro nome, mas a mesma coisa. Ele 
 capaz de trabalhar com um cavalo impossvel de controlar e deix-lo bem comportado num espao de algumas semanas.  estranho, quase como se conseguisse mesmo comunicar 
com eles.
        Ao observar Bethany com Rosebud, Ryan podia acreditar que ela tinha um dom especial e que os seus irmos tambm. A cara dela praticamente brilhava enquanto 
admirava a cabea bem desenhada da gua. Ryan levantou-a um pouco mais para que se pudesse debruar no porto. Mantendo um brao em volta do pescoo dele, ela torceu-se 
e arqueou as costas at conseguir coar a gua entre as orelhas. Como resultado, a parka abriu-se e a ponta de um seio arredondado coberto de tecido aos quadrados 
ficou quase colada ao nariz dele.
        Ele ficou sem flego. Bethany no fazia ideia de que o seu mamilo estava to perto e ele merecia um coice por ter reparado. Pior ainda, no devia estar a 
imaginar como aquele mamilo seria se estivesse descoberto.
        No devia, mas estava a imaginar.
        Ela encaixava-se perfeitamente nos seus braos, o peso to insignificante que mal dava por ele. Se fossem amantes, podia mordiscar aquela ponta at que ela 
gemesse de desejo e lhe pedisse para mordiscar noutro sitio. O cheiro dela tinha um efeito intoxicante nos seus sentidos, a mistura tantalizante de talco de beb, 
desodorizante, pele bem lavada e essncia feminina, deixando-o com vontade de saborear cada centmetro dela.
        "Calma, rapaz." Mas em que  que ele estava a pensar? Ela no estava a tentar provoc-lo. Antes pelo contrrio. Ele reconhecia um sinal de "no tocar" quando 
o via, e os olhos de Bethany transmitiam-lhe essa mensagem sempre que ela olhava para ele.
        - Ento, passaste muito tempo com cavalos? - perguntou ele, obrigando-se a olhar para a cara dela.
        - Tens na tua presena uma tricampe estatal de barrel racing. 1
        Ele recordava-se vagamente de que um dos filhos de Harv Coulter tinha causado uma grande sensao no circuito dos rodeios. Por algum motivo, sempre pensara 
que era um dos rapazes.
        - Tricampe estatal? Ests a gozar!
        - No. Eu era fantstica!
        Ele no pde deixar de sorrir perante aquela descarada falta de humildade.
        Quando ela reparou na sua expresso, acrescentou:
        - Bem, eu era. Nada de gabarolices, simples facto, vaqueiro. Eu praticamente vivia numa sela antes de me magoar. - Os olhos dela estremeceram. - Com cinco 
irmos mais velhos, era a pior maria-rapaz que possas imaginar. At tinha dormido na baia ao lado da minha gua se o meu pai no tivesse batido o p. - Coou a gua 
uma ltima vez e depois deixou-se descer para o crculo dos braos dele, prendendo os dois braos  volta do pescoo de Ryan. - Agradeo-te imenso por me teres trazido, 
Ryan. At o cheiro de um estbulo me parece divino depois de tantos anos. Tinha saudades disto.
        O peito dela estava agora encostado a clavcula dele, o mamilo a menos de um palmo.
        - Os teus irmos no tm cavalos?
        - Sim, o Jake e o Zeke, e tenho a certeza de que o Hank tambm voltaro a t-los. Numa escala muito mais modesta, agora que j no temos um rancho, claro. 
Eles montam por prazer. 
        O Isaiah e o Tucker, os meus dois outros irmos, no vivem aqui. Esto fora, a fazer o estgio.
        - Mdicos?
        - Veterinrios. - Ela sorriu. - Esperam abrir um consultrio aqui, juntos, quando acabarem. Tambm adoram cavalos. Talvez os possas usar quando comearem. 
No vai ser fcil enquanto no fizerem nome.
        
        
              1 Barrel racing (literalmente, "corrida de barris")  uma das provas de um rodeio americano, essencialmente destinada a mulheres, em que as concorrentes, 
a cavalo, tm de cumprir um percurso predeterminado, contornando diversos barris, no menor espao de tempo possvel. (N. do T.)
         
        - No me esqueo. - Ryan franziu o sobrolho. - Desculpa se te pareo metedio, mas tenho de perguntar. Se dois dos teus irmos ainda tm cavalos, porque 
 que tu nem sequer te aproximas de um estbulo?
        O sorriso dela aguentou-se, mas o brilho esmoreceu:
        - A minha me j fica aflita se eu olho para um cavalo. - Olhou para a cadeira de rodas, nitidamente  espera que ele a poisasse nela. Quando voltou a olhar 
para cima, riu-se e disse:
        - Vais poisar-me, ou os teus braos ficaram presos nesta posio?
        Ryan no queria larg-la. Estava metido num bonito sarilho. Tinha de dar um passo atrs, respirar fundo.
        Mas o que  que se estava a passar com ele? Conhecia homens que olhavam para uma mulher e entravam em modo Neandertal, mas nunca fora o seu caso. Mais ainda, 
tudo no comportamento de Bethany lhe dizia que ela estava desconfiada e que ele tinha de avanar com calma. Se fosse com pressa, apenas a iria assustar.
        Aquele pensamento ficou a pairar. Se fosse com pressa? Quando, exactamente,  que ele deixara de a levar a sair por cortesia e passara a atirar-se a ela?
        Curvou-se para a poisar na cadeira, com uma conscincia dolorosa dos seus movimentos enquanto as mos se afastavam das curvas daquele corpo. Ela sabia-lhe 
bem: no havia outra palavra para o descrever.
        Uma vez instalada, ela debruou-se para agarrar no joelho esquerdo e iar o p para o suporte. Sem perder tempo, Ryan ajudou-a com a outra perna. Quando 
ela se recostou e ele ergueu a cabea, os olhares de ambos encontraram-se e, durante um longo momento, Ryan no conseguiu mexer-se nem desviar o olhar. Ou estava 
a ver coisas, ou ela estava a suster a respirao. Ele conseguia respirar bem, mas o corao estava prestes a partir-lhe uma costela.
        Quando finalmente se endireitou, sentia a garganta tensa com uma emoo que no conseguia nem queria identificar. A avaliar pela expresso nos olhos dela, 
Bethany estava a sentir o mesmo, e estava aterrorizada.
        Quando ele se voltou para abrir o porto da baia, procurou algo para dizer, qualquer coisa que aliviasse aquela sbita tenso.
        - Magoaste as costas num acidente com um cavalo?
        No era propriamente uma pergunta. Por que outro motivo a me dela ficaria aflita sempre que ela olhava para um cavalo?
        - Quando estava numa prova de barrel racing. - A voz saiu-lhe trmula e o breve silncio que se seguiu foi difcil. - Concurso estadual, o meu quarto ano. 
Estava de olho no nacional. - Um tom melanclico atravessava aquelas palavras. - A minha gua, a Wink, poisou a pata num buraco e caiu de joelhos quando estava a 
fazer uma curva. Sa disparada por cima da cabea dela, ca de lado em cima de um barril, e pronto. - Ela limpou uma partcula de p nas calas de ganga e depois 
puxou o cabelo escuro e lustroso para trs. Os dedos dele ansiavam por tocar-lhe tambm. - Tive muita sorte. Quando o barril se virou, cai mesmo no caminho da Wink 
e ela no conseguiu parar. Com aquele peso todo a abater-se em cima de mim, a leso na minha coluna podia ter sido muito pior.
        Ryan olhou para as pernas dela. Pior? Como? Ela estava paralisada da cintura para baixo. No podia ser pior.
        Em jeito de explicao, ela acrescentou:
        - A maioria dos danos registou-se num dos lados da minha coluna, e, ao contrrio de muitos paraplgicos, tenho alguma sensibilidade em determinados pontos, 
o que torna a minha vida e a minha rotina diria muito mais fceis.
        Ryan ignorou aquela observao. Como  que "alguma sensibilidade em determinados pontos" podia facilitar a vida? Paralisada era paralisada. Certo?
        Aparentemente reparando na expresso confusa dele, Bethany sorriu.
        - Esta  a forma simptica de dizer as coisas. Vais ter de descobrir o resto por tua conta.
        Ela estava a referir-se  continncia, percebeu ele, uma capacidade que muitos paraplgico no tinham. Ela olhou em redor.
        - Quantos cavalos tens, Ryan?
        - Vinte e trs neste estbulo, cerca de trinta no rancho do Rafe. Animais de trabalho, alguns de exibio. Criamos e vendemos paralelamente animais da raa 
quarter horse.
        Ele afastou a cadeira de rodas para abrir bem a porta da baia.
        - No te preocupes. Agora que te aceitou, a Rosebud vai ser uma perfeita senhora. Acredito sinceramente que podia deitar uma criana ao lado dela.
        - No estou nervosa.
        Com vontade de receber mais mimos, a gua saiu da baia.
        - Oh, Ryan, to querida. Ela gosta mesmo de mim.
        Era verdade: a gua foi direita a ela. O novo poldro cambaleou atrs da me. Nitidamente encantada, Bethany debruou-se sobre os joelhos para lhe fazer uma 
festa. Rosebud relinchou e resfolegou, quase como se estivesse a dar autorizao. Vendo os trs ali juntos, Ryan franziu o cenho para consigo, pensando que era uma 
pena que a afinidade que aquela rapariga tinha com os cavalos no se pudesse aproveitar.
        - Sabes, a no ser que eu esteja enganado, h selas para paraplgicos.
        Num tom estranhamente vazio, ela respondeu:
        - Sim, eu sei.
        - Tens medo de voltar a montar?
        - Sinceramente, no sei. No voltei a faz-lo desde o acidente. - Ela concentrou-se no poldro de Rosebud. -  provvel que no. O que me aconteceu no foi 
responsabilidade da Wink. Ela era, e,  o animal mais incrvel  face da Terra.
        - Ela ainda e viva?
        - Oh, sim. Graas ao meu irmo Jake. Salvou a coitadinha. Levou-a para casa dele e vendeu-a na semana seguinte a um rancheiro da zona que a usa para trabalhar 
com o gado. Ela s tem treze anos e muitas corridas por correr.
        - Disseste que o Jake a salvou?
        - O meu pai quase a abateu. Uma tolice, culp-la. - Passou as mos esguias pelas orelhas do poldro. - A Wink no me fazia mal por nada deste mundo.
        - Sei o que queres dizer. O meu irmo Rafe culpou um cavalo pela morte da primeira mulher e dos filhos, e mandou abater o animal.
        - Que histria!
        - Graas a Deus, uma histria antiga. Tnhamos ido ao norte buscar um garanho que tnhamos comprado. - Ryan apontou com a cabea para o novo poldro. - O 
Flash Dancer, o pai deste pequeno. O Rafe levou a mulher, Susan, e os dois filhos com ele. Aproveitamos para passar o fim-de-semana, fomos a um rodeio, levamos os 
midos a uma feira de diverses, esse gnero de coisa. Quando estvamos de volta, apanhmos uma tempestade de granizo e o som do gelo a bater no reboque assustou 
o garanho. O Rafe ia atrs do camio e do reboque na carrinha e disse-me pelo rdio que talvez fosse melhor eu e ele irmos no reboque durante algum tempo para acalmar 
o cavalo, antes que ele se magoasse. - As recordaes tornavam-lhe a voz mais rouca. - A mulher dele cresceu aqui e estava acostumada a conduzir com gelo e com neve. 
Nenhum de nos pensou que ela poderia ter algum problema.
        - Oh, no - murmurou Bethany.
        - Sim. - Ryan engoliu com dificuldade. - Um par de quilmetros mais  frente na auto-estrada, ela perdeu o controlo numa curva e a carrinha caiu por um barranco. 
Ela e os dois midos tiveram morte instantnea. - Ele passou uma mo pela cara e pestanejou. - O Rafe, bem, ele passou-se, a tentar reanim-los. Depois, no era 
o mesmo homem. Aquilo quase acabou com ele. Um dia, zarpou, sem dizer gua vai. Desapareceu durante mais de dois anos.
        Bethany no tirava os olhos dele, arregalados e aflitos.
        - Seja como for... - Ryan encolheu os ombros. - Eu no abati o Flash Dancer nem o vendi, e a histria tem um final feliz. O Rafe conheceu a sua segunda mulher, 
Maggie, foi amor  primeira vista, e esto juntos desde ento, mais felizes era impossvel. - Obrigou-se a sorrir. - Sei muito bem que as pessoas podem reagir de 
forma irracional quando acontece alguma coisa queles de quem gostam. No caso do Rafe, acho que era mais fcil para ele culpar o coitado do cavalo do que culpar-se 
a ele mesmo, que, objectivamente, era como ele sentia... que a culpa tinha sido dele.
        - Talvez. O meu pai sempre se preocupou muito comigo, a pensar que eu podia magoar-me. Talvez se tenha culpado por me ter deixado entrar nos concursos. Ainda 
fica branco a volta da boca quando se fala na Wink.
        - No foi por isso que ele se livrou do rancho, pois no? Para te manter longe dos cavalos? - Ryan ouvira dizer que Harv fora  falncia, mas, muitas vezes, 
os mexericos estavam enganados.
        - Oh, no... Ele no se livrou do rancho porque quis. - Uma expresso distante instalou-se nos olhos dela. - Ainda que eu tenha a certeza de que manter-me 
longe dos cavalos foi provavelmente a razo pela qual nunca mais comprou terras.
        Rosebud empurrou-lhe o ombro com o focinho e baixou a cabea  espera que ela a coasse. Bethany fez-lhe a vontade automaticamente e depois passou-lhe os 
dedos pela crina.
        - Talvez seja pelo melhor, visto que j no posso montar. Os cavalos eram uma parte to grande da minha vida. A princpio, foi-me muito difcil adaptar-me.
        - Disseste que ele no largou o rancho porque quis. O que  que aconteceu?
        - Despesas mdicas. - Bethany encolheu os ombros. - A princpio, todos os mdicos que me examinavam tinham a certeza de que uma operao me poderia devolver 
as sensaes. Erraram trs vezes.
        Ryan sentiu um aperto no corao ao ver a dor que passou por aquele rosto, dor por ela prpria ou pelos pais dela, no tinha a certeza. At que ela disse:
        - Coitado do meu pai. No conseguiu resignar-se e acabou por fincar falido, a tentar conseguir um milagre para a filha. Um rancheiro de quarta gerao, e 
perdeu o patrimnio da famlia.
        - Algumas coisas so mais importantes do que conservar um pedao de terra.
        - Completamente - concordou Bethany. - Mas tambm temos de ser realistas. - Os olhos dela enevoaram-se. - Depois da primeira operao, eu soube l no fundo 
que talvez nunca mais voltasse a andar. Devia ter falado com o meu pai e recusado mais intervenes cirrgicas. Mas fiquei completamente egocntrica durante algum 
tempo depois do acidente, cega para tudo menos a minha desgraa. Queria tanto voltar a andar, e nunca me passou pela cabea que o meu pai estava a destruir-se a 
tentar fazer com que isso acontecesse.
        - Eras muito nova, Bethany. No sejas to dura contigo. Ela sorriu e mudou de expresso.
        - Como  que viemos parar a este assunto? Que enfadonho. No gosto de pensar naquela poca, quanto mais falar sobre ela.
        Que ela no quisesse falar sobre o assunto dizia a Ryan muito mais do que Bethany poderia imaginar. Algumas pessoas apenas sabiam falar das suas desgraas 
e ignoravam tudo o resto.
        Ela deitou um olhar admirador em redor.
        - Tens aqui um belo estbulo. Todo arranjado e limpo e enorme.
        Ele seguiu-lhe o olhar.
        - A minha casa  outra histria.
        - Um tpico solteiro?
        - Nem por isso, a Becca, a governanta da famlia, vai l com uma equipa trs vezes por semana e olha por eles enquanto arrumam os quartos. No d para ficar 
muito desarrumada. Eu  que sou um desmazelado nos outros dias. Pratos por lavar, meias penduradas nos abat-jours. Sou uma lstima.
        - Deve ser muito bom estar to bem na vida que podemos contratar uma governanta.
        - Pois . - Ryan no via motivo para mentir. - De facto,  fantstico. - Sorriu e esfregou o queixo. - No foi sempre assim. O meu pai construiu este rancho 
com o seu prprio suor. Tivemos anos de vacas magras quando eu estava a crescer, o Rafe e eu tivemos de trabalhar no rancho depois da escola e nos fins-de-semana. 
Era uma empresa familiar, e naquela altura era preciso toda a famlia para que as coisas resultassem.
        - Muitas vezes  assim. O que  que aconteceu para que tudo mudasse?
        - O Rafe e eu tomamos conta do rancho e quase fomos  falncia. - Os olhos dela arregalaram-se, fazendo-o rir. - A srio. O meu pai estava na Florida, a 
descansar, convencido de que tinha o resto da vida garantido, e foi ento que tivemos uma mar de ma sorte, o pior de tudo um incndio que nos levou mais de metade 
da manada. A mulher e os filhos do Rafe sobreviviam com bifes e leite, duas coisas que no nos faltavam porque tnhamos vacas. Foi uma grande embrulhada. Antes de 
ficarmos de pernas para o ar, tivemos a ideia de vender uma parte da terra. Dividimos dois mil hectares em lotes e vendemos s imobilirias. Arrecadmos cento e 
cinquenta milhes.
        Os olhos dela arregalaram-se ainda mais:
        - Disseste milhes? Isso  imenso. A terra vale assim tanto?
        - Sim. Eu sei que parece incrvel, mas no  se fizeres as contas. Podamos ter conseguido o dobro se tivssemos vendido directamente aos interessados e 
no s imobilirias. Assim sendo, ficmos com cinquenta para cada um de nos, outros cinquenta para os nossos pais, e investimos a maior parte. Agora, somos todos 
mais ricos do que Creso. - Piscou-lhe o olho. - Quando no me estou a matar com trabalho e atolado em bosta de vaca, conto o meu dinheiro.
        Ela riu-se ao ouvir aquilo.
        - Por outras palavras, ter uma pipa no banco no mudou assim tanto a tua vida diria.
        - J no tenho de me preocupar com o pagamento das contas.  uma grande mudana. - Encolheu os ombros. - E posso estoirar dinheiro quando me apetece. A maior 
parte das vezes, todavia, no tenho tempo nem vontade.  uma coisa estranha, mas quando estamos diante do lado menos cheiroso de uma vaca, no nos d para pensar 
em grandes extravagncias. Percebes o que quero dizer? Ela riu-se de novo e concordou.
        - Tens razo. O traseiro de uma vaca consegue fazer com que vejamos as coisas sob uma perspectiva mais correcta.
        Ficou calada, o seu rosto reflectindo prazer e uma boa dose de saudade enquanto afagava o focinho aveludado de Rosebud. Ao v-la assim, Ryan s pensava em 
p-la novamente em cima de uma sela. Quase podia ver a expresso que iluminaria aquelas feies.
        Ela inclinou-se para beijar a testa da gua.
        - Foi uma surpresa fantstica, Ryan. Gostei imenso; ainda bem que me trouxeste.
        Ele olhou para o relgio.
        - Por falar nisso, talvez seja melhor irmos andando, ou perdemos completamente o concurso de tractores.
        Depois de a levar de volta para a carrinha, Ryan levou a cadeira de rodas para uma zona coberta de cascalho diante dos estbulos. Usando um interruptor para 
ligar o compressor de ar, utilizou a mangueira de alta presso para lavar os pneus.
        Quando entrou na carrinha, Bethany disse-lhe:
        - Muito bem, confessa. Tens um parente paraplgico e no me disseste nada.
        - No. Porque  que dizes isso?
        - Para um homem que nunca esteve perto de uma cadeira de rodas, s muito competente a satisfazer todas as minhas necessidades.
        Olhando para ela enquanto ligava a ignio, Ryan tentou encontrar na sua memria a ltima vez em que apreciara tanto a companhia de uma mulher. No encontrou 
nada, o que o levou a pensar se estaria a satisfazer as necessidades dela - ou as dele.


     
     
     
     Captulo Quatro

        
        Bethany.
        Ryan j tinha estado em inmeros concursos de tractores, mas nunca se divertira tanto como naquele. Uma vez que estava a patrocinar um dos tractores, ele 
e Bethany puderam ficar na pista propriamente dita, ela na cadeira de rodas e ele numa cadeira de campismo. Jantaram cachorros-quentes, Coca-Cola e algodo doce, 
no propriamente haute cuisine, mas ela reagiu como se fosse, dizendo: "Nham", e limpando restos de molho do queixo sempre que dava uma dentada.
        No obstante as exploses de barulho ensurdecedor, ela fazia com que tudo parecesse excitante e especial. A certa altura, um dos veculos perdeu a traco, 
saiu disparado e derrapou na lama direito a eles. O corao de Ryan subiu-lhe  boca. Saltou da cadeira, agarrou-a nos braos e correu para trs de uma vedao. 
S quando teve a certeza de que ela estava bem  que se apercebeu de que no s tinha derramado a bebida dela em cima dos dois, como tambm esmagara o que restava 
do cachorro entre os corpos dos dois.
        Em lugar de ficar assustada ou aflita, Bethany riu-se at no poder mais.
        - Oh, isto  o mximo! - Sacudiu a mostarda dos dedos, passou a lngua pelos lbios, deixando a pele rosada e luzidia. - A tua cara quando viste o tractor 
vir direito a ns! Se eu tivesse uma mquina de filmar.
        Ele no sabia o que lhe passou pela cabea, mas baixou-se e lambeu um resto de molho do queixo dela. Por um instante, Bethany ficou imvel, os seus olhos 
grandes e azuis cheios de desconfiana.
        Ele queria dizer-lhe que no havia nada a temer, mas talvez houvesse. Sentia-se atrado por ela de uma forma que no conseguia perceber, e estava a acontecer 
demasiado depressa. No fazia sentido. Sem pensar, podia encontrar uma dzia de razes para que uma relao entre eles no resultasse. Mas, no obstante, sentia 
a atraco e estava a perder rapidamente a vontade de lhe resistir.
        Com a esperana de a fazer rir de novo, uivou baixinho, lambeu uma mancha de mostarda na bochecha dela e disse:
        - Nham. Ainda devo estar com fome.
        Foi o suficiente para quebrar a tenso. Ela riu-se e limpou mais uma mancha.
        - Acredito! Os meus irmos so capazes de comer seis cachorros num piscar de olhos.
        - Vou buscar mais comida, acho eu. Minha senhora, est a sair-me muito cara.
        - Pois. s milionrio e isto est a sair-te bem barato.
        Ryan no podia estar mais de acordo. Ela merecia melhor do que aquilo, isso era certo. Filet mignon e vinho caro, luz de velas e msica.
        Ela poisou uma mo delicada sobre o peito e gemeu como se tivesse dores por se ter rido tanto. Naquele momento, os sons do concurso de tractores atenuaram-se, 
e ele ficou completamente concentrado naquela mulher que segurava nos braos. Mesmo besuntada de mostarda, ela era to bonita.
        Mentalmente, tentou dar um passo atrs. Ela no podia ser assim to bonita. Mas era. O nariz era pequeno e ligeiramente arrebitado na ponta, a pedir para 
ser beijado. Um toque de rosa acentuava as maas do rosto delicadas. As sobrancelhas escuras formavam arcos perfeitos sobre os olhos, os quais eram grandes e incrivelmente 
azuis, parecendo estender-se at o agarrarem.
        Do queixo para baixo - "no vs por a, palerma" - ela era apetitosa, de constituio pequena mas deliciosamente curva nos lugares certos. Sempre que o olhar 
lhe fugia naquela direco, ele pensava em noites longas em lenis de seda, a luz suave das velas projectando um brilho ambarino naquela pele de marfim. A imagem 
era to ntida na sua mente que quase a podia ver - olhos escuros e cegos pela paixo, pestanas baixas, respirao rpida e superficial.
        Ryan estremeceu e regressou ao presente, incomodado com o caminho que os seus pensamentos estavam a seguir. Aps uma limpeza rpida com os guardanapos de 
papel da barraca dos cachorros, levou-a de novo para a pista, comprou mais comida para ambos e depois sentou-se ao lado dela para assistir ao concurso. Com receio 
de que outro tractor se descontrolasse, esteve quase a levar as cadeiras para trs da vedao, onde sabia que Bethany ficaria segura, mas ela no permitiu:
        - No  muitas vezes que tenho uma oportunidade de viver perigosamente. Estar aqui  o mximo.
        Ryan no queria que lhe acontecesse nada - no com ele. Mas tambm queria que ela se divertisse. Levara-a para longe do perigo uma vez, podia faz-lo de 
novo.
        Ao ver aquele brilho nos olhos dela sentia um aperto no corao. Como seria ter sido fisicamente activa como ela, e depois acabar presa a uma cadeira de 
rodas? Nem conseguia imaginar.
        Durante o intervalo, tentou extrair-lhe mais informaes. Ficou a saber que ela gostava das terras inexploradas e que muitas vezes fora a cavalo com os irmos 
acampar junto aos lagos nas montanhas, uma actividade que ele prprio apreciava.
        Uma expresso sonhadora apoderou-se do rosto dela enquanto partilhava as recordaes dessas aventuras:
        - Para mim, eram uma experincia espiritual. Eu sei. Parece muito piroso, mas era como ir  missa. A beleza do nascer do dia, o brilho dos primeiros raios 
de luz a espreitar por cima de uma crista, as cores incrveis, o primeiro canto de um pssaro para saudar o novo dia, s pode ser a forma que Deus tem para nos dizer 
bom-dia.
        Como se receasse que ele se risse, franziu o nariz e sorriu. Ele no tinha vontade de rir, porque sentia exactamente o mesmo.
        - Sei o que queres dizer. Nada me faz sentir mais perto de Deus do que estar no alto de uma montanha. Ver o Sol nascer, ou um pr do Sol fabuloso. Uma guia 
a voar ou um veado com a sua cria.
        Abraada  sua prpria cintura, ela suspirou e assentiu com uma expresso pesarosa. Ryan deu por si a desejar conseguir faz-la montar de novo.
        - E as fogueiras! - disse ela em voz baixa. Ele obrigou-se a regressar  conversa:
        - Desculpa?
        - As fogueiras. H alguma coisa mais saborosa do que um caf feito numa fogueira?
        A pele dela - ali, abaixo da orelha - devia saber muito bem.
        - No, nada. Nada melhor do que um caf num acampamento.
        - E, oh, como eu adorava ficar aconchegada  volta da fogueira com os meus irmos a noite. Cantvamos, comamos trutas pescadas por ns, e depois eles metiam-me 
medo, a contar historias sobre o Big Foot e fantasmas at irmos dormir.
        - E depois acabava-se a diverso.
        - No, a e que as coisas comeavam a animar. Eles tinham todos tendas individuais, que mal chegam para uma pessoa, e tinham de ter lugar para mim.
        - No tinhas uma tenda tua?
        - Sim, mas depois das histrias estava demasiado assustada para dormir sozinha. J era um ritual, a discusso para decidir quem  que ficava com a "chata". 
Tiravam  sorte e o coitado do Jake perdia sempre. De propsito, acho eu. Sentia-se responsvel por mim.
        Maggie, a mulher de Rafe, tinha uma irm de doze anos que vivia com eles. Heidi via Ryan como o seu irmo mais velho - quando no alimentava a ideia de se 
casar com ele. Ele levara-a algumas vezes numa daquelas viagens e sabia exactamente como era quando uma rapariga ficava assustada durante a noite. Como os irmos 
de Bethany, ele resmungava, mas no se importava de partilhar a sua tenda. No se importaria de encontrar lugar para Bethany, por motivos completamente diferentes.
        - Se voltasses a montar, talvez pudesses fazer isso de vez em quando - sugeriu ele.
        Ela ponderou aquela possibilidade durante um momento.
        - No, no  praticvel.
        - Porqu? Ela corou.
        - Tenho demasiadas necessidades especiais. A maioria das cadeiras de rodas normais  muito pesada, inapropriada para terreno irregular e demasiado volumosa 
para levar num cavalo de carga. No sobrava espao para mantimentos. Alm de tudo isso, no existem instalaes para deficientes no meio do mato.
        Instalaes para deficientes? Ryan sorriu quando percebeu que ela estava a falar de casas de banho. Achava graa e dava-lhe que pensar, aquela mulher, atrevida 
e descarada num instante e depois dolorosamente tmida a respeito de coisas tolas.
        Enquanto a via falar, uma ideia invadia-lhe repetidamente os pensamentos. "Perfeita para mim." Ela era a mulher dos seus sonhos em todos os aspectos excepto 
num: no podia andar.
        - Ento, o que fazes agora quando te queres divertir? - no resistiu ele a perguntar.
        - Coisas mansas. A minha famlia  to protectora desde o acidente. Tudo o que envolva um elemento de risco est excludo. - Prendeu o lbio inferior entre 
os dentes, mais um gesto que ele comeava a perceber ser habitual. - Acho que parece pattico, uma mulher adulta permitir que a sua famlia lhe dirija a vida.
        Ryan no estava a pensar naquilo. No a podia censurar por se preocupar tanto com os sentimentos dos outros, ainda que tivesse dvidas se seria justificado 
naquele caso em particular.
        - No se trata apenas de eu no querer preocup-los. Enquanto vivia em Portland no era assim to mau. Vivia num complexo de apartamentos fantstico, especiais 
para deficientes. Tinha montes de amigos e estvamos sempre a ver como os outros estavam. Estvamos constantemente a planear actividades de grupo, que eram muito 
divertidas porque, l, tudo tinha um desenho universal, at a piscina. Quando o meu...
        - Hei, calma a. O que  que quer dizer um desenho universal?
        Ela descreveu rapidamente o complexo - como todas as casas de banho tinham espao suficiente para equipamento especial para residentes paralticos, como 
todas as portas e corredores eram mais largos do que o habitual.
        - E devias ter visto as cozinhas! Bancadas baixas com montes de espao para os joelhos e reas de trabalho acessveis, para que qualquer pessoa numa cadeira 
de rodas pudesse cozinhar e alcanar os aparelhos. Eu adorava aquilo. Onde estou agora, nada foi especialmente desenhado para mim. Os meus irmos e o meu pai instalaram 
rampas e eu desenrasco-me. Tudo tem de ficar arrumado nos armrios inferiores. O meu pai instalou plataformas giratrias para eu conseguir chegar a tudo. Mesmo assim, 
 inconveniente. Todos os electrodomsticos tm de estar na frente das bancadas. As prateleiras de cima do meu frigorfico esto vazias. O Jake fez-me uma rampa 
que me permite chegar ao lava-loia, e o Zeke inventou uma tbua de recolher que eu posso usar para cortar o que preciso.
        Ryan nunca pensara como deveria ser difcil fazer qualquer coisa numa casa normal.
        - Seja como for... isto deve ser um tdio. De que  que estvamos a falar? - perguntou ela com uma gargalhada.
        - Como era muito mais fcil lidar com a tua famlia quando estavas em Portland.
        - Oh, sim. E era mesmo. Tinha de fazer frente s perguntas quando me telefonavam ou me iam visitar, mas durante o resto do tempo a minha vida era isso mesmo, 
minha. Alguns de ns at fomos saltar de pra-quedas. Eu saltei agarrada a um instrutor, claro, o perigo era mnimo.
        Aquela ideia f-lo encolher-se. Rejeitou a apreenso e perguntou-lhe como tinha ido parar a Portland, to longe da famlia.
        - Depois do acidente e das operaes, fui para l como doente ambulatria, para a reabilitao, decidi tirar alguns cursos nos tempos livres, e acabei por 
me inscrever num bacharelato em informtica. Encontrei um bom emprego em Beaverton quando acabei. - Encolheu os ombros e sorriu. - A minha famlia pediu-me para 
voltar, mas na altura eu j estava instalada.
        - Portanto... como  que voltaste para Crystal Falls passado tanto tempo?
        - O meu pai tem um problema de corao. H alguns meses, o mdico ordenou-lhe que reduzisse as horas de trabalho e o Jake teve de ficar  frente do negcio. 
Quando me telefonou e disse que precisava de ajuda, eu no podia dizer que no. - Revirou os olhos. - Na realidade, acho que ele inventou um trabalho para mim para 
me fazer voltar, mas no importa. At  data, tem resultado relativamente bem, s que os meus irmos s vezes sufocam-me com tantas preocupaes.
        Estava explicado o problema com a assistncia a clientes na The Works ultimamente. O irmo dela assumira o comando. Ryan sabia por experincia prpria o 
que isso significava. No fora assim h tanto tempo que o seu pai se reformara. Quanto  preocupao dos irmos, podia facilmente imaginar-se a fazer o mesmo. Ela 
tinha uma incapacidade que a deixava mais vulnervel do que as outras mulheres que viviam sozinhas.
        - Quais so as actividades cem por cento seguras que tu tens? - perguntou ele.
        - Pinto muito. - Semicerrou um olho. - Se ficares quieto o tempo suficiente, ainda te pinto a ti.
        Ele j vira provas da sua veia artstica. De um modo geral, Ryan no era grande apreciador, mas Bethany tinha jeito. As pinturas e objectos, com a sua marca 
de boa disposio, emprestavam calor e encanto ao ambiente que a rodeava.
        - E de que outras coisas gostas?
        - Tnis.
        - Tnis? - repetiu ele, incrdulo. Os olhos dela sorriram.
        - At  data, tenho uma amiga paraplgica em Crystal Falls. Conhecia-a no "Y", uma mulher impecvel, chamada Jenny Nelson. Arrastamos as nossas cadeiras 
pelo court trs vezes por semana. Essencialmente, fazemos servios e falhamos a bola. Fazemos bastante exerccio, atrs das bolas, e divertimo-nos, sempre a gozar 
uma com a outra por causa da nossa falta de jeito. - Pensou por um instante. - Tambm fao natao duas noites por semana. Adoro nadar. D-me uma sensao incrvel 
de mobilidade. E as vezes, quando visito os meus pais, vou at  casa do lado e jogo basquetebol com os filhos dos vizinhos. So adolescentes e para eles  o mximo 
jogar com uma mulher maluca numa cadeira de rodas.
        - Basquetebol?- Ryan no conseguia imaginar como ela conseguia.
        - A minha cadeira tem motor. Posso usar os controlos com uma mo e bater a bola com a outra. Tive de praticar, mas j sou bastante boa. O suficiente para 
j ter ganho alguns jogos. - Deitou-lhe um olhar malandro. - Passo-lhes por cima dos ps. Enquanto eles ficam a saltar ao p-coxinho, eu voo at ao cesto e fao 
a minha verso de um afundano em cadeira de rodas. - Ao ver a expresso horrorizada dele, Bethany riu-se e disse: - Vale tudo quando se joga com uma deficincia.
        - Nunca passaste por cima dos ps de ningum de propsito, sua aldrabona.
        - Sou implacvel em situaes competitivas.
        - Pois, pois. - Ryan duvidava que houvesse sequer uma rstia de competitividade nela.
        Ela olhou para o tractor que estava a ser atrelado ao tren.
        - Aposto dez dlares que este ganha o concurso. Ryan sorriu.
        - No quero ficar com o teu dinheiro. O vencedor vai ser aquele que eu estou a patrocinar.
        - Queres apostar?
        O sorriso dele aumentou.
        - Muito bem - aceitou ele.
        Quando o concurso terminou, ele devia-lhe dez dlares, os quais ela aceitou e guardou no bolso com um sorriso travesso.
        - Eu disse-te que era implacvel - disse ela com uma gargalhada.
        Quando o sero acabou, Ryan tinha decidido que queria sem dvida voltar a ver Bethany, como amigos se no fosse possvel mais nada. Um grande problema. Ela 
aparentemente gostava dele e parecia apreciar a sua companhia, mas Ryan podia ver que continuava a sentir-se desconfortvel perto dele. Tentou manter a conversa 
ligeira para a ajudar a descontrair, mas houve momentos em que a qumica foi mais forte, transformando um olhar casual em algo mais demorado, um toque rpido numa 
carcia. Em cada uma dessas ocasies, ela ficou silenciosa e tensa.
        E se ele a convidasse para sair e ela recusasse?
        Depois de estacionar a sua Dodge no acesso ao lado da carrinha cinzenta dela, Ryan disse:
        - No me lembro da ltima vez em que me diverti tanto com algum.
        Ela estava sentada com os braos  volta da cintura. Com o luar que entrava pelo pra-brisas, ele podia ver-lhe uma mancha escura no casaco, uma recordao 
do incidente com o cachorro-quente.
        - Obrigada por me teres convidado. Foi uma noite fantstica. Ryan fechou as mos no volante, aumentando a forca  medida que a tenso crescia dentro dele. 
Geralmente, depois de um encontro, ele dizia: "Bem, isto foi giro. Eu depois telefono-te, est bem?" E pronto. No podia ser assim to casual com Bethany.
        Comeou a falar, parou e tossiu. Arranque fabuloso.
        - Eu, hmm... - Olhou para aqueles olhos enormes e luminosos e os seus pensamentos ficaram em branco. "Que raio." O que  que aquela rapariga tinha que o 
deixava to atrapalhado? Nunca ficava nervoso nem sem saber o que dizer. - Eu gostava muito de voltar a ver-te, Bethany - deu por si a dizer, com uma vontade imediata 
de dar um pontap em si mesmo por parecer to, meu Deus, qual era a palavra... estpido. Tinha acabado de fazer figura de estpido.
        Sob o luar, as pestanas dela projectavam sombras alongadas sobre as faces.
        - Tambm gostava. Telefona-me quando quiseres e, se os nossos horrios permitirem, eu adorava.
        Observando as expresses que passavam pela cara dela, Ryan percebeu que ela pensava que estava apenas a ser simptico. Uma sensao terrvel apertou-lhe 
o estmago.
        - Fica prometido - garantiu ele.
        Quando j a tinha confortavelmente instalada na sua cadeira de rondas no hall de entrada, disse a si mesmo que era melhor no complicar ainda mais a situao 
com um beijo de boa-noite. S que aquela boca estava ali, a cham-lo, e ele no resistiu a prov-la. Ela deu um salto assustado quando lhe puxou o queixo com um 
dedo. Os olhos arregalaram-se quando lhe levantou a cabea. Estudou o olhar dela durante um longo momento, tentando ler aquela expresso. Ela parecia mais espantada 
do que amedrontada. Era um bom sinal. No?
        Ele tinha a sensao de que Bethany no devia ser beijada h muito tempo, uma suspeita que se revelou correcta quando as duas bocas se uniram. Estava to 
tensa e insegura e a posio da cabea era to forcada que o seu nariz bateu no dele. Alm disso, tinha os lbios muito apertados. Com uma explorao decidida da 
sua lngua, Ryan descobriu que os dentes tambm estavam cerrados.
        Recuou, arqueou as sobrancelhas e disse:
        - Fizeste alguma promessa?
        - O qu?
        Quis imediatamente retirar as palavras. Era bvio que ela no estava habituada a fazer aquilo, e dizer piadas no era a melhor abordagem. Ele no a queria 
embaraar.
        Ele prprio sentindo-se inexplicavelmente nervoso, puxou o chapu para trs e acocorou-se diante da cadeira. Ela olhava-o como se fosse um insecto estranho 
que a pudesse picar. Ryan coou o queixo, engoliu e enfrentou aquele olhar. Tentou recordar a si mesmo que estava farto de beijar mulheres e que no era nada de 
mais, que tinha tanta prtica que praticamente o podia fazer a dormir. No o ajudou. Ela no era mais uma mulher, e, de sbito, era extremamente importante que ele 
fizesse aquilo bem. Perfeitamente bem.
        Bethany era demasiado importante para que ele lhe desse menos.
        -J l vai algum tempo, no? - perguntou ele em voz baixa.
        Ela riu-se e revirou os olhos, as faces ficando com um tom rosado e encantador.
        - Oito anos.
        - Oito anos? - repetiu ele.
        - No  pattico? - Ela passou nervosamente as mos pelo cabelo, respirou fundo e olhou novamente para ele. - Talvez pudssemos saltar esta parte.
        Ryan riu-se.
        - Nem pensar. No tenho pensado noutra coisa toda a noite. Ela revirou os olhos mais uma vez.
        - Duvido muito que tu...
        Ele interrompeu-a agarrando-lhe no queixo. Era to bonita. Sabia que Bethany pensava que tudo o que ele via era a cadeira de rodas, mas tinha uma conscincia 
bem mais real da mulher nela sentada. A frente do casaco estava aberta, provocando-o com vislumbres daquele corpo, dos contornos dos seios pequenos mas cheios que 
o decote revelava. O cheiro dela, uma simples mistura de sabonete, champ, talco e doura feminina, exercia um efeito intoxicante nos sentidos dele.
        Como acontecera antes no estbulo, ele desejava-a, e os seus pensamentos comeavam a descarrilar, fazendo-o desejar despir aquela parka e explorar a mulher 
escondida por baixo dela. No sabia o que ela tinha. Algo. Sentira-o a primeira vez que a vira, no conseguira afast-la dos seus pensamentos durante toda a semana, 
e agora aquele sentimento agarrara-o pelo pescoo.
        Avanou, decidido a mostrar-lhe o que sentia. Assumindo o controlo de uma forma que nunca considerara necessria com outras mulheres, inclinou-lhe o rosto 
para um ngulo mais favorvel. Vendo que a boca dela continuava fechada, aplicou uma presso ligeira para a obrigar a abrir.
        Os lbios dela tremiam sob os seus - uma rendio tmida, espantada, incerta, os seus pulmes procurando convulsivamente algum ar. Ele partilhou o seu, inclinando 
a cabea para tornar o beijo mais profundo, mergulhando nos recessos daquela boca  procura de um sabor. "Doce." Aquela palavra no lhe saa da cabea. Maravilhosa, 
incrivelmente doce. Sentiu a descarga at aos taces das botas.
        "Que raio." Ele estava a dizer boa-noite ou ol? J no sabia nem lhe importava. Ela tinha uma boca fantstica, pequena e inebriante, e a sua timidez apenas 
o incitava, dando-lhe vontade de ir mais fundo, provar cada recanto adocicado. Seda sobre seda. Passou os lbios ao de leve nos dela, mordiscando, convencendo-a 
com toques da lngua, pedindo-lhe que se descontrasse.
        Por fim, ela suspirou e a sua respirao alterou-se, inspirando levemente, com urgncia. Ryan sentiu os dedos esguios dela agarrarem-lhe a frente da camisa. 
Ela deixou-se cair contra ele, j no contando com a cadeira para suportar todo o seu peso. Era um peso agradvel - um peso ligeiro, delicado que lhe queimava a 
pele em cada ponto onde lhe tocava. Oh, Deus. Ele no conseguia acreditar naquilo, nunca sentira nada assim.
        Passou um brao  volta dela, puxando-a ainda mais para perto. Tudo o que o impedia de a levantar da cadeira era uma relutncia puramente instintiva em apress-la. 
Os lbios dela tornaram-se maleveis sob os seus. A boca abriu-se para ele. A lngua procurou a dele numa dana tmida, hesitante, de toque e retirada. Ryan sentia 
a cabea a andar  roda.
        Ela gemeu, o som um latejar abafado de prazer na base da garganta que apenas o inflamou ainda mais. Ele fez deslizar a mo do queixo para a nuca. Precisava 
de ter um controlo total - orquestrar cada movimento dela, ir mais fundo, uma necessidade to antiga como a Humanidade e igualmente primitiva, to irresistvel que 
o deixava impotente. Ele queria possui-la. Senti-la. Reclam-la.
        Os seus pensamentos rodopiavam; mal se apercebeu do que estava a fazer quando introduziu a mo esquerda por baixo da parka e a poisou na cintura dela. Suave. 
Explorou os contornos dela, estudando ao de leve a projeco do osso ilaco atravs das calcas de ganga. Ela agitava-se com cada passagem das pontas dos dedos dele, 
sustendo a respirao, pouco mais do que um gemido, aqueles sons dizendo-lhe que estava to desorientada quanto ele. Uma mo delicada esgueirou-se entre os cabelos 
dele, fechou-se num punho, agarrando-o, a urgncia nela transmitindo-se atravs de cada poro da sua pele.
        Ryan encontrou a ltima costela. As pontas dos seus dedos tocaram na face inferior do seio, aquele calor e maciez chamando a sua mo. Imaginou aquela forma 
generosa encerrada na sua mo, soube que era ali o seu lugar e que o peso dela lhe pareceria o certo, totalmente certo, preenchendo o vazio nele que subitamente 
reclamava as suas entranhas. Bethany.
        Apenas com uma forca de vontade suprema conseguiu resistir  tentao. Ancorando a mo no flanco dela, deixou apenas que as pontas dos dedos tocassem no 
arranque dilatado daquele seio - passagens leves, insistentes que o faziam querer fazer mais. Ela gemeu na boca dele e encostou-se ainda mais, o convite explicito, 
o mamilo avanando ate que ele sentiu a ponta endurecida roar a sua camisa, traando linhas na pele dele como um ponteiro em brasa.
        A cada passagem, ela era percorrida por uma descarga, fazendo o seu corpo esguio estremecer. Oh, Deus, como ela queria ser tocada ali. Ele queria assumir 
o controlo, faz-lo por ela e faz-lo bem, dar-lhe aquilo de que ela obviamente precisava. S quando a sua mo comeou a subir  que as campainhas de alarme soaram. 
Ele no sabia porqu, no conseguia pensar com clareza suficiente para examinar os motivos que o levavam a conter-se. Afinal, seria apenas um toque, e atravs da 
camisa e do soutien, o que no constitua uma intimidade excessiva.
        Mas, no... No agora, ainda no. Recordou num repente como tudo aquilo comeara, com a boca dela fechada contra a sua. Em idade e em experincia de vida, 
ela era uma mulher adulta, mas em termos de sexo era obviamente uma novia, e ele devia ir com calma.
        Ryan conhecia os seus limites. Mais uma passagem daquele mamilo latejante sobre a sua camisa e ele perderia o controlo. Tentou pr um fim ao beijo, recuando. 
A boca quente e sedenta dela agarrou-se  sua, as exploraes ainda tmidas e inexperientes da sua lngua passando ao de leve no seu lbio inferior. Ele sentiu um 
aperto nas entranhas. Estendeu os braos para lhe prender o rosto entre as mos e, assim, conseguir afastar as duas bocas.
        De olhos fixos, fitaram-se, ambos com a respirao entrecortada, a realidade do que ambos sentiam e do que poderiam ter feito - do que ambos ainda queriam 
fazer - erguendo-se em volta deles como um campo de forcas. Os olhos dela estavam nublados e confusos, as pupilas enormes e negras. Fixo naqueles olhos, ele reconheceu 
o instante exacto em que a lucidez comeou a regressar.
        A primeira reaco dela, que ele tambm lhe leu nos olhos, foi de choque, rapidamente seguido de uma consternao que lhe deixou um embarao corado nas faces.
        - Uau - murmurou ele, curvando-se para lhe beijar a ponta do nariz, um sorriso brincando-lhe nos lbios enquanto a tentava afastar suavemente. Ela era um 
enigma to grande, uma mistura intrigante de maturidade e de inexperincia. Beij-la deixara-o excitado, todavia, fizera-o sentir-se igualmente protector, obrigando-o 
a abrandar quando o que realmente queria fazer era acelerar. - Isto foi... incrvel.
        Ela emitiu um som estranho com a garganta. Ryan agarrou-a pelos ombros para a impedir de cair, porque ela se debruara bastante na caldeira. Sustendo a respirao, 
Bethany no tirava os olhos dele. Ele prprio respirava com dificuldade. Podia ver a pulsao na base da garganta dela, um sinal revelador de que estava to excitada 
quanto ele.
        Ela engoliu em seco, recostou-se na cadeira e disse a custo:
        - Acho que  melhor ires-te embora, Ryan. - Agarrada  cintura, fitava-o com olhos acusadores. - Obrigada por uma noite maravilhosa. Nunca a esquecerei.
        Assim, sem mais nem menos, ele devia ir-se embora? Depois do que tinha acontecido entre eles? Ele nunca se sentira assim. Nunca. Havia ali algo de muito 
especial. Algo que ele nunca imaginara ser possvel. Como  que lhe podia virar as costas, sem perguntas, simplesmente, ir-se embora?
        Inclinou-se para trs, apoiado num taco. Ainda acocorado ao nvel dos olhos dela, fixou aqueles olhos lindos e expressivos. Ela estava zangada, o agradecimento 
educado apenas uma cortina de fumo. Gostara do beijo, no havia dvida, portanto, Ryan sabia que esse no era o  problema. Perdera o controlo por um instante, mas 
no acontecera nada; como tal, o problema tambm no podia ser esse.
        - Bethany, eu...
        Ela abanou a cabea e levantou a mo para o calar:
        - No digas nada. Vai-te embora. Por favor.
        Ele levantou-se. No havia dvida possvel. O que via nos olhos dela era fria. Com o passar dos anos, fizera o seu quinho de asneiras com mulheres e tivera 
de suportar a sua ira algumas vezes, mas geralmente sabia o que tinha feito, pelo menos.
        - Querida, eu...
        - Vai-te embora - sussurrou ela, o seu tom feroz. - Estou a falar a srio, Ryan. Quero que te vs embora. Agora.
        Ele obedeceu. Que mais podia fazer?
        J na carrinha, sentou-se na escurido com a cabea apoiada no volante. "Vai-te embora." Oh, Deus. Ela estava mesmo irritada e ele no fazia a mnima ideia 
porqu. Sem dvida, ele entusiasmara-se um pouco, mas parara. No se podia enforcar um tipo por ter pensado naquilo.
        Levantou a cabea e respirou fundo. O inesperado de tudo aquilo  que o deixara naquela situao. Comeara a tentar refrescar-lhe a memria da bela arte 
de beijar e, quando dera por si, era ela quem lhe estava a ensinar algumas coisas - como, por exemplo, qual a sensao de perder a cabea por causa de uma mulher.
        Bastante abalado, Ryan arrancou para casa, censurando-se durante toda a viagem. Tinha de pensar e de ter a certeza absoluta de quais eram as suas intenes 
antes de avanar um milmetro que fosse. Uma rapariga como Bethany no podia ser experimentada e depois posta de lado se lhe encontrasse algum defeito.
        Bethany arrancou a parka e atirou-a com todas as suas forcas. O fecho bateu na parede com tanta energia que o som reverberou como se fosse um disparo. Ela 
tapou a cara com as duas mos, o peito a doer-lhe com soluos abafados, o estmago aos saltos. "Meu Deus." Nunca fora to humilhada.
        Ao pensar no beijo, recordava como ele tentara afastar-se e de como ela o prendera, implorando por mais com a boca e tambm com o corpo. Nunca se sentira 
assim, nem sequer se permitira entrar numa situao em que pudesse sentir-se assim. Porque sujeitar-se a um desgosto desnecessrio? Segundo o especialista de Portland, 
ela no devia tentar ter filhos, alm de ser provvel no conseguir apreciar uma relao sexual. Havia tambm o facto incontornvel de a maioria dos homens olhar 
para a cadeira de rodas e largar a correr na direco oposta. Porque explorar esse lado da sua natureza, porque abrir a porta a todos esses sentimentos e ser forada 
a lidar com eles, quando sabia que os mesmos provavelmente nunca teriam um escape?
        Agora, sem sequer se esforar muito, Ryan Kendrick abrira a tampa da caixa de Pandora que era a sua sexualidade, fazendo-a querer coisas que nunca poderia 
ter. No, "querer" no era a palavra certa. Ele fizera-a "desejar", raios o partissem, deixando-a consciente de necessidades e desejos que tentara ignorar ou que 
fingira no existirem.
        Esfregou furiosamente a boca, tentando desembaraar-se do gosto dele. Mas agarrava-se com tenacidade, uma recordao amarga do seu comportamento, a gemer 
e a tremer e a atirar-se a ele. O desejo ainda a deixava trmula. A sensao atingira-a como um bulldozer, obliterando a sua autoconscincia, empurrando para o lado 
o seu orgulho.
        Nunca mais... nunca. Se ele no se tivesse afastado, interrompendo aquela loucura, no havia como saber o que poderia ter acontecido. Ele talvez at tivesse 
tido a bondade suprema de fazer amor com ela, no porque queria mesmo faz-lo, no porque pensara faz-lo, mas porque tinha pena dela. A coitada da paraplgica que 
nunca levava nada, to necessitada que s um beijo a deixava ofegante. O que  que um tipo podia fazer seno dar-lhe o que ela queria?
        As lgrimas ardiam-lhe nos olhos. A sua cara contorceu-se com o esforo para as conter. S a ideia de que as coisas podiam ter chegado quele ponto deixava-a 
agoniada. Era exactamente por isso que sempre evitara aquele tipo de situao. Considerando que nem sequer tinha a certeza de ser funcional naquele campo, para que 
insistir? Apenas acabaria magoada. O sexo era a primeira prioridade para a maioria dos homens, esquecendo tudo o resto. O seu namorado Paul ensinara-lhe bem essa 
lio, e se ela se permitisse alguma esperana em contrrio, mereceria tudo o que lhe pudesse acontecer.
        Enxugou a cara. H oito anos, jurara que nenhum homem teria o poder de voltar a faz-la chorar, e agora, o estado em que ela estava! Bem, nunca voltaria 
a chorar por mais nenhum. Da prxima vez que um homem - qualquer homem - a convidasse para sair, a sua Resposta seria um inequvoco "no".
     
        
     Captulo Cinco
     
        
        Um falco piou algures na margem do lago, o som solitrio no vento gelado que soprava da gua. Sentado com as costas apoiadas num pinheiro que crescia isolado 
num outeiro, Ryan encolheu os ombros no interior da ganga forrada do seu bluso. Sentia o cheiro da aproximao de uma tempestade, ainda que imaginasse que talvez 
demorasse alguns dias a chegar, o instinto dizendo-lhe que traria neve. "Tpico." Oficialmente, era Primavera, mas isso no queria dizer rigorosamente nada aquela 
altitude.
        Suspirou, no se importando nem um pouco se o Inverno resolvesse fazer uma visita com um pouco de neve. Em Crystal Falls, era de esperar o ocasional nevo 
fora de poca. As sementeiras j tinham sido feitas, mas, to cedo, uma descida de temperatura no provocaria grandes estragos.
        O som de cascos chamou-lhe a ateno. Voltou-se e olhou para a escurido prateada pelo luar. Passado um momenta, reconheceu a silhueta de um cavalo e respectivo 
cavaleiro. Olhando para o mostrador luminoso do relgio de pulso, viu que passavam dez minutos das onze, suficientemente tarde para o deixar a pensar quem teria 
sado a cavalo.
        - Ol! - chamou uma voz feminina.
        - Me? Mas o que e que est a fazer aqui?
        A gua dela, Sugarplum, reduziu a velocidade e passou para trote, projectando o solo arenoso da margem com os cascos ferrados.
        - Quando espreitei pela janela da cozinha e te vi debaixo da tua rvore de pensar a esta hora da noite achei que havia histria. Pensei que talvez precisasses 
de falar.
        Ryan deu por si a pensar se a sua me possuiria alguma espcie de telepatia maternal.
        - O que  que fez, varreu a margem do lago com o seu detector de infravermelhos? Est escuro. No me podia ter visto da janela.
        - As luzes exteriores esto todas acesas em tua casa. Vi a tua silhueta. Um homem com um chapu de vaqueiro tem um contorno inconfundvel.
        Ryan sabia que o capataz do rancho, Sly, tinha passado por l de hora a hora para ver como estava Rosebud.
        - Como  que sabia que era eu e no o Sly ou um dos outros empregados?
        - Simples processo de eliminao. Mais ningum seria assim to tolo que estivesse aqui sentado com um frio destes.
        Ela parou  frente dele e saltou da sela. Deixando as rdeas penduradas, dirigiu-se ao alforge. Ryan ouviu o tinir de vidro. Os seus olhos estreitaram-se. 
Quando a sua me comeou a subir a vertente, viu que ela levava uma garrafa de vinho e dois copos.
        - Que tal beberes um copo ou dois comigo?
        Ele passou um olhar pensativo pela figura elegante diante de si. De estrutura pequena e loira, ainda era uma mulher bonita, mesmo com sessenta anos.
        - A me e o pai discutiram?
        Ela riu-se ao sentar-se ao lado dele. O luar realava-lhe as feies, o brilho suave escondendo as poucas rugas que tinha. O cinzento dos olhos parecia agitar-se 
como mercrio.
        - O teu pai desistiu de discutir comigo h anos. - Entregou-lhe a garrafa e um saca-rolhas. - Ele nunca ganha.
        Ryan riu-se enquanto se preparava para abrir a garrafa.
        - S porque ele prefere no usar as cartas todas de que dispe, e a me no.
        - Tambm tem dificuldade em explicar-se quando fica furioso, o que eu aprendi a usar em minha vantagem. Mas, para responder  tua pergunta, no, est tudo 
bem na frente domstica.
        Cruzou os braos  volta dos joelhos elevados, um copo expectante em cada uma das mos. Ryan retirou a rolha e encheu os copos que ela lhe estendeu.
        - Essa garrafa h-de estar vazia antes de eu me ir embora - anunciou ela.
        - Ui, ui. Est a sentir uma sbita necessidade de apanhar uma daquelas?
        - No, mas acho que tu ests. Tens andado um pouco distrado nos ltimos dias.
        - Distrado?
        - Do gnero de ficar a olhar para o vazio e no responder quando grito o teu nome trs vezes. Conta  tua me o que te est a consumir.
        Ryan sabia que tinha andado preocupado. Desde que encontrara Bethany pela primeira vez no a conseguira tirar da cabea.
        - No tenho nada a consumir-me. O que  que a leva a pensar isso? - Bebeu um pouco de vinho, engoliu, e quase se engasgou. - Cristo! Mas o que  esta merda?
        Ann provou e fez uma careta:
        -  o vinho de ameixa de fabrico caseiro da Hazel Turk. O teu pai diz que tem o coice de uma caadeira de cano duplo serrado. - Ela estendeu uma mo na direco 
dele, com a palma voltada para cima. - Ests a dever dez ao fundo da universidade.
        - Ento, me. O Jaimie est em casa a dormir.
        - Toca a pagar. Um palavro, dez dlares. As regras so essas. Se no as respeitas quando ele no est por perto, esqueces-te quando estiver. O meu neto 
no vai ser expulso da escola por usar palavres. S "raio" e "gaita" e mais algumas so permitidas, fim de discusso.
        Ryan entregou-lhe o copo enquanto procurava o dinheiro no bolso. Retirou uma nota de cem dlares e trocou-a pelo copo. Ela franziu os olhos:
        - Isto  muito.
        - Ainda no acabei. Fico com um crdito de nove.
        -  assim to mau? - Ann riu-se e guardou a nota no bolso do bluso Wrangler. - Muito bem, c para fora. Eu sabia que havia qualquer coisa a incomodar-te.
        Ryan bebeu mais um pouco, estremecendo ao engolir.
        - Esta coisa sabe a xarope para a tosse.
        - O vinho da Hazel pode deixar-te com uma diarreia to grande que nem te atreves a tossir. Imagino que tambm possa servir como xarope.
        Ele cerrou os dentes, enrolou um lbio, e olhou para o liquido escuro.
        Ann bebeu um bom trago.
        - Coragem. A Hazel  uma querida. Domingo  noite no jantar da associao de rancheiros quero dizer-lhe que bebi isto e gostei.
        Ryan gemeu ao ouvir falar naquele jantar. Ele tambm tinha de estar presente. Pensara em encontrar um par, distrara-se com uma certa morena e esquecera-se 
por completo.
        - Est a pensar ficar muito bbeda?  que s assim se pode apreciar esta trampa. Alm disso, se disser  Hazel que gostou, ela ainda lhe d mais.
        - Tens razo, no tinha pesando nisso. Bem, se isso acontecer, fao-te uma visita.
        - Obrigadinho. - Bebeu mais um pouco. - Sabe melhor depois do primeiro choque.
        Olharam os dois para o lago. Enquanto bebiam, falaram sobre o tempo, decidiram que ambos sentiam o cheiro da neve no ar, e depois trocaram banalidades sobre 
a famlia de Rafe.
        Ryan estava no seu segundo copo e comeava a sentir a tenso abandonar-lhe o corpo quando finalmente disse:
        - Conheci-a esta semana, me.
        - Ah - disse ela com um ar conhecedor. - Ela, quem?
        - Ela. A Tal. A mulher dos meus sonhos, aquela por quem tenho esperado. Levei-a a sair esta noite.
        - Oh, Ryan, isso  fantstico. Eu disse-te que acabaria por acontecer, mais cedo ou mais tarde. - Revirou o copo na mo, vendo o cristal brilhar. Ento, 
franzindo o sobrolho, acrescentou: - Se s a levaste a sair, e ela  A Tal, porque uma cara dessas?
        - Beijei-a e correu tudo mal. Ficou irritada e pediu-me para me ir embora.
        - O que  que aconteceu para ela ficar irritada? Ryan passou uma mo pela cara.
        - Pois, boa pergunta. Eu ia dar-lhe um beijo de boa-noite, um beijo  antiga, de primeiro encontro, o tipo de coisa que um homem faz  porta. S que as coisas 
descontrolaram-se um pouco. - Sentiu um calor a subir-lhe pelo pescoo. Ele e a me eram chegados, mas, mesmo assim, havia alguns temas que ele no tinha -vontade 
para discutir com ela. Os pormenores da sua vida amorosa encontravam-se praticamente no topo da lista.
        Os olhos de Ann arregalaram-se:
        - Uau. Deve ter sido um beijo e peras.
        - Sim, uau. Eu descontrolei-me, ela descontrolou-se. - Ryan cerrou o queixo, abanou a cabea. - Depois de todas as mulheres com quem sa, pergunto-lhe, quais 
eram as hipteses de eu encontrar uma rapariga meia-leca com olhos azuis enormes e que beija de boca fechada, e que ela me desse a volta  cabea?
        - Uma num milhar, talvez? - Ann estudou-o, a sua expresso pensativa. - Ela beija com a boca fechada? Que idade tem?
        - Vinte e seis.
        -  religiosa ou assim?
        - No, me, nem fantica nem nada. - Ryan poisou os cotovelos nos joelhos. - Ela s, bem, j passou algum tempo desde a ultima vez e acho que se poder dizer 
que est um pouco verde.
        - Com vinte e seis?
        -- Pois. Eu devia ter lidado com a situao com mais delicadeza. - Esvaziou o copo e voltou a encher os de ambos. - Eu senti que ela estava desconfiada.
        -- Desconfiada de ti?
        -- Sim, simptica e amigvel, mas um pouco distante. Acho que teve uma relao que acabou mal, ficou magoada. E o que eu acho.
        -- Hmm! - Ann abanou a cabea, a sua expresso intrigada.
        - Acho que ela se sente to atrada por mim como eu por ela - acrescentou ele -, mas tem medo de se magoar outra vez.
        - Ah - disse Ann com uma expresso conhecedora. - Como  que chegaste a essa concluso?
        - Porque quando a beijei, ela correspondeu por completo at que eu me afastei, e ento, pum!, olhou para mim como se eu lhe tivesse dado um murro. - Ryan 
suspirou. - s vezes, acho que os homens e as mulheres vm de universos diferentes. Ser que a me tem algumas prolas que possa partilhar sobre a mente feminina?
        Ann sorriu:
        - Querido, no somos todas desenhadas segundo o mesmo modelo. - Levantou as ponteiras das botas e baixou-as novamente, devagar. - E esse teu enigma  bonito?
        - Ela  linda - murmurou ele. - Tem os olhos azuis mais bonitos que eu j vi. Juro, so o que ela tem de maior: de um azul to intenso, fazem-me lembrar 
amores-perfeitos.
        - Ui, ui. Nunca te ouvi nada de to potico. Isso est mau, no est?
        Ele suspirou e disse:
        - Eu s... sim, est mau. A primeira vez que a vi foi como se tivesse sido atingido por um raio. E no  s o aspecto dela. As mulheres bonitas no so raras 
numa cidade com o tamanho de Crystal Falls. Foi outra coisa, quase uma sensao de reconhecimento. Tinha estado  espera de a encontrar toda a minha vida, e ela 
estava ali. No consigo explicar.
        Ann sorriu.
        - Querido, ningum consegue explicar o mistrio do amor. - Ficou novamente pensativa enquanto beberricava o vinho. - Disseste que achas que ela passou por 
uma relao difcil. Como  que ela conseguiu sem aprender a beijar?
        Ryan sentiu os msculos do queixo apertarem-se. Olhou para o lago, sem o ver.
        - Eu no disse que ela no sabia, mas que tem falta de prtica e est um pouco verde. Estou s a deitar-me a adivinhar, mas acho que era muito nova na altura 
que teve essa relao e provavelmente um pouco maria-rapaz. Dezassete, talvez dezoito anos. O tipo de coisa que nunca foi muito mais longe do que andar de mo dada 
e beijos desastrados com um rapaz que tinha pouco mais experincia do que ela.
        - E ela nunca mais se envolveu com ningum desde ento? - perguntou Ann, incrdula.
        - Ela  aleijada.
        -  o qu?
        - Aleijada. - A palavra saiu-lhe a custo, presa no fundo da garganta. - No  o termo politicamente correcto, tenho a certeza. Paraltica, me, paraplgica. 
Teve um acidente h oito anos numa corrida de barrel racing.
        Silncio.
        Um sabor amargo apoderou-se da lngua de Ryan.
        - Acho que os homens no tm feito fila para sair com ela desde ento. Uma cadeira de rodas tem um certo jeito para amortecer o ardor masculino. No sei 
quem foi o tipo que a magoou, mas era provavelmente algum palerma imaturo que ela conhecia no liceu.
        - Oh, Ryan. - Os olhos de Ann escureceram sob o luar, parecendo manchas de carvo no rosto subitamente plido. Ela franziu a testa pensativamente e olhou 
para o lago durante alguns segundos. - No digo que no tens razo - disse ela em voz baixa -, mas tendo trabalhado num centro de reabilitao, eu diria que  igualmente 
provvel que ela tenha enfrentado tantas rejeies e limitaes desde o acidente que se tornou desconfiada. Quando uma mulher  rejeitada pelo sexo oposto vezes 
sem conta, ela protege-se de todas as formas que pode, e isso pode fazer com que parea desconfiada.
        -  possvel - condescendeu Ryan. - Pelo que ela me contou, fiquei com a sensao de que a maioria dos homens foge na direco oposta quando percebe que 
ela est numa cadeira de rodas. - Ele encolheu os ombros. - Que raio, para ser honesto, quando me apercebi pela primeira vez de que ela era paraplgica, tambm eu 
quis fugir, s que j a tinha convidado e no a quis magoar. Se tivesse recuado, o motivo teria sido obvio. - Engoliu e fechou os olhos durante um momenta. - Portanto, 
levei-a a sair, a pensar que seria s uma noite, e que depois poderia desaparecer graciosamente.
        Ann no disse nada, o que o levou a continuar.
        - Cheguei a casa dela atrasado - disse ele com voz rouca. - A Rosebud tinha entrado em trabalho de parto e quando tentei telefonar e explicar, o telefone 
estava desligado, e no consegui falar com ela. Ela pensou que eu a tinha deixado pendurada e eu vi que tinha estado a chorar. Senti-me um patife. Quando lhe disse 
que tinha ficado retido por causa de uma gua, fiquei  espera que ela ficasse danada. Em vez disso, foi uma querida.
        -  uma boa variante - disse Ann com um sorriso. - A maioria das vezes, as tuas amigas no ficam zangadas se te atrasas porque os cavalos precisam de ti?
        Ryan sorriu.
        - Poder-se-ia dizer que sim. Zangadas mais para o furioso. E foi uma variante ainda melhor porque passei umas horas fantsticas com a Bethany. Ela  inteligente 
e engraada e interessante. J sai com muitas mulheres, gastei duzentos ou trezentos dlares, e aborreci-me de morte. Levei-a aos concursos de tractores, ofereci-lhe 
um cachorro-quente, e no me lembro de me ter divertido tanto.
        Ann riu-se, sem querer acreditar.
        - Concursos de tractores e um cachorro? Deve ser uma rapariga muito especial.
        -  mesmo; tem qualquer coisa, sabe? Tenho esta sensao. No a consigo descrever. - Poisou uma mo no peito. - Uma sensao que vai at ao osso. Gostava 
de explorar as possibilidades, ver se, bem a me sabe, se podemos encontrar terreno comum para construir uma relao com futuro, mas agora duvido que ela me d essa 
oportunidade.
        Ann ficou calada durante muito tempo, o seu olhar percorrendo lentamente o rosto do filho de uma forma que o fazia encolher-se quando era adolescente.
        - Estou a ver - disse ela por fim, o canto da boca apertado para reprimir um sorriso. - Ests preocupado com o sexo.
        Ryan sentiu como se lhe tivessem fechado uma mo sobre a laringe. Coou o nariz e desviou o olhar.
        - Que raio, me. Porque  que no vai direita ao assunto? H coisas que um homem no gosta de discutir com a prpria me.
        Ann riu-se.
        - Desde quando  que andamos com rodeios nesta famlia? No existem temas tabus.
        - Consigo falar francamente consigo acerca de praticamente tudo, mas isto ... bem, para mim, um tema tabu.
        Ela riu-se outra vez.
        - Ou seja, tenho razo. Tu ests preocupado com o sexo. - Empurrou-o com o ombro. - V l. Descontrai-te. Posso ser tua me, mas tambm sou uma enfermeira 
reformada. No h nada que me possas dizer que eu j no tenha ouvido cem vezes, e pode ser que descubras que a minha opinio vale alguma coisa.
        Ele assentiu.
        - No duvido.  s que... est bem, sim. Estou preocupado com o sexo. - Sentiu o olhar dela. - No olhe assim para mim. Sou um estupor, e sei que o sou.
        - No estava pensar nada disso.
        - Pois, est bem, mas  o que eu estou a pensar. Ela  to querida, me.
        - Bom sexo  uma preocupao fundamental para a maioria dos homens, e parece-me que s normal nesse aspecto. - Ela bebeu mais um pouco de vinho. - No tem 
nada de mal.
        Ryan descontraiu-se ligeiramente.
        - Tenho de admitir, est mesmo no topo, ao lado do oxignio, quando penso nas coisas com as quais no poderia viver de maneira nenhuma. E sem dvida suficiente 
para me fazer dar um passo atrs e pensar duas vezes antes de me envolver com uma mulher.
        Ann riu-se e inclinou-se para o lado, empurrando-o outra vez com o ombro.
        - Aonde  que foste buscar a ideia de que os paraplgicos no podem ter sexo?
        - Parece-me bvio, ou no? Ela est paralisada, me. Sem sensaes da cintura para baixo. Talvez alguns homens no se importem, mas eu gosto de parceiras 
que apreciem e actividade em questo tanto quanto eu.
        - Ests a partir de um pressuposto idiota. E bastante habitual, ainda que completamente errado. Eu sei do que estou a falar. Se ela tem ou no sensaes 
em determinados stios, isso dependa da gravidade da leso. As mulheres, em especial, conseguem ter relaes intimas normais.
        - A srio? Tem a certeza? Ann levantou uma sobrancelha.
        - A jovem em questo  assim to especial que valha a pena continuarmos esta conversa?
        Ele semicerrou um olho.
        - Sim, diria que sim.
        - Ento, sim, tenho a certeza. Muitas mulheres paraplgicas tem uma vida sexual activa, nem sempre atingindo a satisfao da mesma forma que uma mulher com 
um corpo normal, mas, sendo tudo relativo, quem  que pode dizer que tm menos prazer? Por exemplo, algumas das que no conseguem atingir o orgasmo da forma habitual 
passam por um fenmeno conhecido como "orgasmo fantasma".
        - "Orgasmo fantasma"?
        - Comparo-o a um amputado que ainda consegue sentir a perna que no tem. Por vezes, um paraplgico sente um prazer intenso noutra parte do corpo na altura 
do orgasmo.
        - Isso  um conceito rebuscado.
        - Factual - corrigiu-o Ann. - O corpo  um mecanismo maravilhoso e compensa sempre que pode. Que diferena  que faz, querido? Desde que a rapariga sinta 
alguma espcie de fogo-de-artifcio, ests muito preocupado com o lugar onde ele explode?
        Ryan riu-se e coou a cara ao lado do nariz.
        - No, acho que no. Fogo-de-artifcio  fogo-de-artifcio. Tem a certeza disso, me?
        - Absoluta. Achas que dizia isto se no tivesse? Mesmo quando o orgasmo normal ou fantasma est ausente, ouvi dizer que as mulheres paraplgicas costumam 
ser amantes fantsticas. Como tm uma limitao, esto muitas vezes mais dispostas a ir mais longe do que uma mulher com um corpo normal para darem prazer aos seus 
parceiros. - Ergueu as sobrancelhas e sorriu. - Quando duas pessoas gostam muito uma da outra, no tm medo de ser criativas se for necessrio, e por vezes esse 
 o melhor tipo de amor, no perfeito no sentido habitual, mas belo porque  extraordinrio.
        - Hmm!
        - Parece-me que ests prestes a cair de quatro por essa rapariga.
        - Vacilante - admitiu ele. Bebeu mais um gole. - "Orgasmo fantasma." - Pensou naquilo durante um momento. - Havia de ser um inferno se acontecesse no apndice 
dela e ela tivesse de ir  faca.
        Ann rebentou s gargalhadas.
        - S um homem pensava numa coisa dessas.
        -  importante, me.
        - E vocs, machos, detm algum monoplio no assunto? - Abanou a cabea. - De volta  tua rapariga. Eu sei que  difcil, mas tenta ser analtico por um momento. 
Dizes que ela ficou mesmo entusiasmada quando a beijaste?
        Ryan confirmou.
        Ann sorriu conhecedoramente.
        - Isso  estranho. Ela devia estar a sentir uma forte reaco fsica nalguma parte do corpo. No cotovelo, talvez?
        Ele riu-se, mas ficou srio ao recordar-se da forma doce como Bethany se derretera encostada a ele, tremendo de desejo quando ele quase lhe tocara no peito. 
Estava to excitada quanto ele. Era capaz de apostar toda a sua carteira de aces nisso.
        - Que raio, me, tem razo. Havia fogo-de-artifcio algures.
        - Provavelmente, nos lugares habituais. Seja como for,  um indcio muito bom.
        Ryan assentiu.
        - Quanto a ela te ter pedido que te fosses embora, isto  s a opinio da tua me, est bem? Mas acho que sei porqu.
        - Porqu? - Ryan fixou-a com um olhar penetrante.
        - Dizes que s a querias beijar como uma daquelas coisas antiquadas, um beijo de primeiro encontro?
        Ele assentiu.
        - Tenho a certeza de que ela deve ter-se apercebido disso - disse Ann em voz baixa. - Se for o caso, e ela tiver sido rejeitada uma srie de vezes, pensa 
s como ela se deve ter sentido, reagir daquela maneira, se no era aparente para ela que tu estavas a sentir o mesmo.
        Ryan fez um esgar e praguejou entre dentes.
        - Se ela no foi beijada muitas vezes, o que  um pressuposto bastante vlido, ento, pode no ter percebido que tu tambm ficaste excitado. Quando te afastaste, 
ela deve ter ficado para morrer. Se fosse comigo, eu ficava. - Ann suspirou. - No posso garantir. Mas se eu tiver razo,  muito provvel que nunca mais te queira 
ver.
        - Oh, meu Deus.
        - No  o fim do mundo, querido. As vedaes podem ser consertadas.
        - Como?
        - s filho do teu pai. Acredita, hs-de encontrar uma maneira. Isto  se quiseres. Se as tuas intenes no so assim to srias, Ryan, talvez devesses manter-te 
afastado dela. - Deu-lhe uma palmada nas costas - por outro lado - debruou-se para lhe olhar para a cara -, se ela  mesmo a mulher de que tens estado  espera, 
serias um asno chapado se a deixasses escapar por entre os dedos. No deixes que uma cadeira de rodas te detenha. Se tens aquela sensao de s-uma-vez-na-vida, 
no existe, e estou a falar a srio, nenhum obstculo que no possa ser vencido. O que  que diz aquela cano de que tu gostas tanto? Se tens amor no corao, consegues 
mover uma montanha. O amor pode fazer acontecer um milagre, querido.
        Ryan expirou com um suspiro entrecortado. - Acha que estou doido, me? Sentir-me assim por causa de uma rapariga que acabei de conhecer?
        Ann despejou o que restava do seu vinho e usou o ombro do filho como apoio para se levantar. Com o copo pendurado nos dedos, olhou para as montanhas por 
onde o Rocking K se estendia mais longe do que a vista podia alcanar.
        - Acho que s um Kendrick - disse ela em voz baixa. - Se a tendncia para te apaixonares, depressa e de cabea,  loucura, ento,  uma caracterstica gentica. 
Portanto, porque fazer-lhe frente?
        - Como  que um homem sabe que est apaixonado? Ann franziu o cenho, pensativa.
        - Sabendo. No  uma coisa que se possa explicar a outra pessoa, nem sequer a ns prprios. Sabemos. - Poisou uma mo sobre o corao. - Uma sensao. L 
bem no fundo. - Os olhos dela comearam a cintilar com uma expresso travessa. - Claro que, s vezes,  s azia. Portanto, tem cuidado.
        - Grande ajuda.
        - Ests por tua conta. S tu sabes o que sentes. Deixa que os teus sentimentos te orientem.
        Ryan ficou a v-la afastar-se.
        - Me?
        - Hmm? - Ela parou e olhou para trs.
        - Tenho-lhe dito ultimamente que a adoro?
        Ela sorriu e retomou a sua marcha. Depois de guardar o copo no alforge e subir para a sela de Sugarplum, ficou parada por um momenta, as suas mos agarradas 
ao aro, a cabea inclinada para trs para olhar o cu.
        - Como  que disseste que essa rapariga se chamava?
        - Bethany - respondeu ele com voz rouca.
        - Ah, Bethany. Gosto. Soa bem, antes de Kendrick.
        - Ainda no decidi que vou casar com ela, me. Tenho muito em que pensar antes de decidir se volto a v-la.
        - Pois tens - concordou Ann, qualquer vestgio de ligeireza tendo desaparecido da sua voz. -  completamente desnecessrio dizer isto, eu sei, mas vou diz-lo 
na mesma. Uma mulher como ela j sofreu desgostos suficientes.  muito fcil mago-la. - Puxou as rdeas para o lado para virar a montada. - Por vezes,  melhor 
simplesmente nunca sabermos onde um sentimento nos poderia levar do que descobrirmos e arrependermo-nos.
        Ryan ficou a v-la afastar-se, a sua boca fixa num sorriso triste.
        
        
     
     Captulo Seis 
        
        
        Eram nove e meia da manh seguinte e Ryan tinha muita coisa para fazer. Em vez disso, estava parado diante do balco do pequeno-almoo, a olhar para o telefone. 
Um olhar ao relgio disse-lhe que estava naquilo h vinte minutos. Agarrou no auscultador, comeou a marcar o nmero de Bethany, desligou, e agarrou na caneta que 
estava ao lado do livro de endereos.
        Aquilo era uma perda de tempo. Ou queria telefonar-lhe ou no queria. Uma deciso simples. Ento, porque  que ele estava ali como um adolescente apaixonado, 
com uma ameaa crescente de uma cibra entre as omoplatas?
        Virando-se para sair da cozinha, quase tropeou no Labrador dourado, deitado no cho perto dos seus ps. Uma vez que o co parecia estar sempre no seu caminho, 
Ryan chamara-lhe Tripper1, h dois anos quando lhe aparecera  porta, encardido e morto de fome. O nome ficara e tambm o co.
        Tripper gemeu e virou-se de costas para que lhe coasse a barriga. Com um sorriso, Ryan debruou-se para lhe fazer a vontade.
        - Tenho de te pr de dieta - disse ele afectuosamente -, ests a ficar gordo.
        Tripper arqueou a coluna para coar as espduas no cho. Ryan suspirou quando viu a quantidade de plos que ficavam na tijoleira ocre. Parecia que o plo 
do co se multiplicava assim que caa. Ah, bem. Sem um co, a vida era mais difcil de ser vivida.
        Fez uma festa na cabea de Tripper e olhou uma ltima vez para o telefone. Saiu da cozinha, decidido a seguir com o seu dia. Atravessando a sala de estar 
at ao bengaleiro, apanhou o chapu, colocou-o na cabea e olhou atravs da porta de correr de vidro para o grande terrao, onde gostava de descontrair ao fim das 
tardes de Vero.
        "Que raio." O ligeiro degrau para o terrao seria uma barreira terrvel para uma mulher numa cadeira de rodas. Se ele comeasse a andar com Bethany e a levasse 
a sua casa, teria de construir rampas e reorganizar a moblia para que ela pudesse circular. Tinha tambm de pensar nas casas de banho. Eram espaosas, e como ele 
muitas vezes alojava criaturas recm-nascidas doentes nas suas casas de banho enquanto estavam a ser medicadas, as portas eram bastante largas, mas, pelo menos, 
teria de instalar barras de apoio.
        Suspirou e esfregou os olhos doridos. Tenso. Se ele agarrasse naquele telefone, no poderia voltar atrs. No podia fazer isso a Bethany. Se fosse em frente, 
tinha de ter a certeza, sem qualquer dvida, de que o que sentia por ela era real e duradouro.
        Depois de agarrar no telemvel e no casaco, assobiou a chamar o co e saiu de casa. Havia equipamento para reparar, um cavalo que tinha de ser ferrado, e 
muitas outras tarefas que lhe ocupariam todo o dia. No tinha tempo para ficar a olhar para o telefone.
        J dentro do estbulo, dirigiu-se a baa de Rosebud para lhe dar os bons-dias. A gua relinchou uma saudao e aproximou-se do porto, dilatando as narinas 
e olhando por cima do ombro dele, como se estivesse  espera de ver mais algum.
        Ryan sorriu.
        - Gostaste mesmo dela, no foi? - murmurou ele enquanto esfregava o focinho da gua. - Eu tambm.
        Rosebud empurrou-lhe o brao com o focinho e cheirou-lhe o casaco. Ryan meteu a mo no bolso para retirar o torro de acar desejado. Enquanto a gua comia 
a guloseima, deu-lhe umas palmadas no pescoo, pensando no quanto Bethany gostaria daquele ritual matutino.
        - s terrvel, sabias? - sussurrou ele. - Porque  que todos os meus animais so to mimados? Tenho de deixar de te tratar to bem.
        Rosebud resfolegou e relinchou, como se lhe estivesse a dizer o que pensava daquela ideia. Ryan olhou para o fundo da baa, recordando como os olhos de Bethany 
tinham brilhado na noite anterior quando vira o poldro.
        Sentiu um aperto na garganta. Quando tentou recordar-se da cara das outras mulheres com quem tinha sado, todas surgiram desfocadas, eclipsadas por umas 
feies de duende e por um par de olhos enormes, azuis como amores-perfeitos. Parecia que no conseguia tir-la da cabea.
        Olhou por cima do ombro para as marcas deixadas pela cadeira de rodas na terra batida. Noutros pontos do corredor, havia zonas de lama, onde ela ficaria 
presa se ele no aplicasse asfalto, e, se ele o fizesse, mais valia usar lajes de cimento e passeios de cimento no exterior do estbulo. O que seria dispendioso. 
Mas, afinal, no era como se o dinheiro lhe fizesse falta. Quase conseguia imagin-la no corredor, o seu sorriso iluminando as sombras. Uma viso a qual um homem 
no podia atribuir um preo.
        
              1 Neste caso, e literalmente, tripper significa algo ou algum que nos faz tropear. (N. do T.)
        
        Bethany. Suspirou, cansado. No conseguia entender o que sentia por ela. No parecia importar que no fizesse sentido. 
        Eram simplesmente sentimentos que se tornavam mais fortes em cada segundo que passava.
        
        Bethany molhou o pincel na tinta preto-esverdeada para acrescentar sombras e definio s rvores da sua paisagem montanhosa. Era o mais perto que ela se 
podia aproximar daquela vista, recriando-a na tela. Enquanto pintava, recordava-se de viagens que fizera com os irmos. O cenrio, os cheiros, o som de risos. A 
vontade que ela tinha de viver tudo aquilo mais uma vez.
        Bem, pacincia. O que estava a fazer era quase o mesmo, e ficar em casa tinha as suas vantagens, um banho quente todas as noites sendo uma das primeiras 
da lista. O novo elevador da banheira era fantstico, permitindo-lhe descer numa posio reclinada, permitindo-lhe tomar um banho de imerso.
        Acrescentou algumas sombras a um ramo de abeto, pensando na sorte que tinha por poder dispor de toda a manh para pintar. Para alm do trabalho e de alguma 
obrigao familiar ocasional, era pouco o que acontecia na sua vida que pudesse interferir com o seu tempo livre. Podia fazer o que queria, quando queria, e isso 
agradava-lhe. No precisava de um homem na sua vida, isso era garantido. Porque complicar tudo? Gostava de viver sozinha, apenas com a sua gata Cleo a precisar da 
sua ateno. Se lhe apetecesse ler durante todo o fim-de-semana, geralmente conseguia faz-lo. Se decidisse ver televiso, no tinha de disputar o telecomando com 
um macho prepotente.
        O telefone tocou. Bethany levava sempre o aparelho porttil com ela para a sala de trabalho. Inclinou-se para o lado para o retirar da bancada, uma superfcie 
de trabalho improvisada que Jake lhe preparara com cavaletes aos quais reduzira a altura e uma prancha de contraplacado.
        - Estou?
        Uma voz profunda respondeu:
        - Bom dia, linda. Ainda ests zangada comigo?
        "Ryan." A mo de Bethany apertou-se sobre o telefone e o corao subiu-lhe  garganta. Um calor de humilhao queimou-lhe as faces, sempre que pensava na 
noite anterior, apetecia-lhe morrer.
        - Bom dia para ti tambm - conseguiu ela dizer num tom animado. - E eu estava zangada comigo, no contigo. Foi uma noite fantstica e diverti-me imenso.
        Ele ficou calado durante um momento.
        - Foi mesmo uma noite fantstica e eu gostava de repetir a dose. Bethany fechou os olhos com fora.
        - Adorava. Telefona-me um dia destes e logo vemos se podemos.
        -  o que eu estou a fazer. - O tom dele tinha um misto de diverso. - Gostava de te ver esta noite.
        "Esta noite? Porqu?" Para ela se atirar outra vez a ele e fazer figura de parva?
        - Oh, Ryan, desculpa - disse ela, tensa. Por qualquer motivo, mentir nunca lhe fora to fcil. - No te lembras? Eu disse-te na semana passada que esta noite 
estava ocupada.
        - Oh, tens razo. - Ele suspirou. - Ento, e amanh?
        - Igreja e coisas de famlia.
        - Amanh  noite tambm? Tenho de ir a uma festa importante. Gostava de te levar comigo.
        - Sim, tambm estou ocupada, lamento - disse ela, bastante aliviada por no ter de mentir mais uma vez. O jantar anual da Associao de Rancheiros de Crystal 
Falls era na noite seguinte e, na qualidade de proprietrios da The Works, os pais dela ainda eram membros. Pensou de passagem se essa seria a festa importante de 
que Ryan falara, mas disse a si mesma que no devia ser.
        - No faz mal - disse ele. - Eu aceito qualquer coisa. Em que noite da semana que vem  que ests livre? Eu arranjo-me.
        Bethany olhou para a janela sem ver.
        - Desculpa. Segunda-feira tenho coisas da loja que me vo deixar ocupada at tarde. As teras e quintas so para a natao no "Y". Como vs, tenho uma semana 
cheia.
        - Porque  que no vens at c nadar na tera-feira ao fim da tarde? Tenho uma piscina aquecida. Depois, podemos jantar. Fao uns bons bifes grelhados.
        - Eu nado com a minha me. Ela ajuda-me a vestir depois. Quando estou longe de casa e de todo o meu equipamento, preciso de assistncia.
        - Ah. - Novo silncio. Depois: - Que tipo de equipamento?
        Ela no conseguia perceber por que motivo ele lhe estava a perguntar aquilo.
        - Todo o tipo, essencialmente, aparelhos de transfer.
        - Aparelhos de transfer?
        - Coisas que me levantam de uma cadeira e me largam noutro lado. No consigo movimentar-me sozinha. Fora do meu ambiente,  muito difcil dar conta do recado.
        Pronto, pensou ela. Se aquilo no o fizesse dar meia-volta, nada faria.
        - Eu sou um ptimo aparelho de transfer - disse Ryan num tom aveludado. - Alm disso, sou multifuncional e bastante econmico. Apenas cobro um sorriso.
        - Eu nunca confiaria num cego que quisesse agarrar em mim e levar-me de um lado para o outro.
        Breve silncio.
        - Eu no sou cego.
        - Se te aproximares de mim enquanto eu estiver a vestir-me,  bom que sejas.
        Ele riu-se:
        - Ah, estou a perceber. Pelos vistos, tenho de ir s compras. Bethany sentiu um aperto na garganta e o sangue comeou a latejar-lhe nas tmporas.
        - Porque  que ests a fazer isto, Ryan? - perguntou ela, abalada.
        - Acho que  bvio. - Ela ouviu um cavalo relinchar, depois, o som de gua a correr. Imaginou-o no estbulo, a falar com ela ao telemvel enquanto cuidava 
dos seus animais. - Desenvolvi um fascnio incurvel por uma certa senhora com olhos azuis enormes. O que  que fazes na prxima sexta-feira a noite?
        - Prxima sexta? - Estendeu o brao e mexeu nalguns papis, esperando que ele pensasse que estava a verificar a agenda. - Que azar, estou ocupada.
        - Estou a perceber. Uma tampa. Muito simptica, mas uma tampa. Bethany tocou nos lbios com as pontas dos dedos, recordando-se da sensao quando ele a beijara 
- como ela praticamente se derretera e depois se agarrara a ele quando Ryan tentara afastar-se. Recordou-se tambm do aviso de Jake, de que Ryan Kendrick tinha fama 
de trocar de mulher como quem trocava de camisa. Ela no queria ser mais um nome na lista. Havia algo nele que penetrava todas as suas defesas e que a deixava demasiado 
vulnervel. Aquilo podia ser mais um engate para ele, mas no para ela. Acabaria por se apaixonar por ele, e ficaria desfeita quando ele decidisse seguir em frente.
        - No  uma tampa - garantiu-lhe ela. - Agradeo-te imenso que tenhas pensado em mim. Diverti-me muito ontem  noite, adorava repetir; e lamento ter a agenda 
to ocupada neste momento.
        - Eu vou dando notcias. Talvez te apanhe numa noite em que ainda no estejas ocupada.
        - Boa ideia. Adeus, Ryan.
        - Detesto a palavra adeus, especialmente com uma mulher linda que estou decidido a voltar a ver. Falamos depois, que tal?
        - Certo. Falamos depois.
        Bethany desligou e deixou cair o telefone no colo. Baixou a cabea e deixou-se ficar assim durante um minuto, repreendendo-se silenciosamente. Era to tolo 
desejar mais do que j tinha, to tolo querer mais. Era tanto o que ela tinha por que estar grata. O que  que Ryan Kendrick tinha que fazia com o que tudo parecesse 
vazio e destitudo de significado?
        Alm disso, e sendo realista, o que tinha ela para oferecer a um homem que j tinha tudo? Devia estar agradecida por ele ter sido um cavalheiro na noite 
anterior. Fora por pouco. Colocar-se novamente em risco seria um disparate. Sabia por experincia prpria que um corao partido demorava muito tempo a sarar.
        Quando Ryan desligou o telemvel, virou costas ao bebedouro de Rosebud e viu o seu irmo mais velho, Rafe, do lado de fora da baa. Depois de fechar a torneira, 
Ryan saiu, fechou o porto e passou o trinco.
        Levantando uma sobrancelha negra, Rafe mirou o irmo por baixo da aba do seu chapu preto de vaqueiro, a boca inclinada num sorriso divertido.
        - Pareceu-me uma derrota, maninho. Ests a perder-lhe o jeito?
        - Podes ter a certeza de que tive boa pontaria com esta. - Ryan guardou o telemvel no bolso. - Parece que me vai dar trabalho para a convencer.
        - E vais dar-te a esse trabalho? Costumas avanar para pastos mais verdes.
        - No desta vez.
        - Hmm. Isso nem parece teu.
        Rafe aproximou-se do porto da baa, os movimentos preguiosos do seu corpo magro mas bem musculado enganadoramente lnguidos para um homem capaz de ser 
rpido como um raio quando assim o decidia. Vestido de cambraia azul e ganga, poisou os braos no porto, um p suportando quase todo o seu peso.
        Foi ento que Ryan viu o seu sobrinho no corredor. Com umas minsculas calcas de ganga Wrangler, botas Tony Lamas e bluso de ganga, Jaimie parecia uma cpia 
de Rafe  excepo dos grandes olhos castanhos, que herdara da me. Considerando o facto de o rapaz no ser, de facto, filho de Rafe, a semelhana deixava sempre 
Ryan espantado.
        Quando o rapaz de dois anos tentou escapulir-se, Ryan agarrou-o pelo cotovelo.
        - O que  que tenho aqui? Sarilhos?
        -Jaimie! - exclamou o rapaz com uma gargalhada.
        Ryan levantou-lhe o chapu preto para lhe ver melhor a cara.
        - Ora essa,  mesmo o Jaimie. O que  que a tua me te d de comer, valento? Cresceste dois centmetros desde a ltima vez que te vi.
        Sempre irrequieto, o rapaz riu-se e tentou descer. Ryan beijou-lhe a bochecha anafada, sentindo o hlito de manteiga de amendoim, o que o fez sorrir enquanto 
o poisava no cho.
        Rafe ficou a v-lo afastar-se pelo corredor.
        - Aonde ser que ele vai agora?
        -  procura do Sly, aposto. Aquele velhote atrai os midos como o mel chama os ursos. Lembras-te de como costumvamos chag-lo?
        Tripper ladrou e largou a correr atrs do rapaz.
        - Muito bem. - Rafe abanou a cabea, o seu olhar ainda fixo em Jaimie. - Ele est a crescer depressa, no est? Quando der por isso, h-de estar a pedir-me 
as chaves da carrinha.
        Ryan riu-se.
        - Ainda temos alguns anos antes que isso acontea, graas a Deus. O que  que te traz por c?
        Rafe e a sua mulher, Maggie, viviam na casa principal do rancho do outro lado do lago, no muito longe, mas a uma distncia de cinco quilmetros de carro.
        Rafe inclinou a cabea na direo da baa:
        - Decidi vir ver o poldro. A Maggie estava a pintar as unhas dos ps. Resolvi dar-lhe uma folga. A me est l a brincar com a beb. No  muitas vezes que 
a Maggie pode ter um pouco de sossego.
        - A me est l? - No era preciso dizer mais nada. - Ou seja, j sabes tudo sobre a Bethany.
        Rafe fingiu estar muito interessado no poldro de Rosebud:
        - Ouvi qualquer coisa.
        - Qualquer coisa? Em toda a sua vida, quando  que a nossa me foi discreta?
        - Est bem, ouvi bastante - admitiu Rafe com um encolher de ombros. - Pensei que talvez te apetecesse conversar.
        Ryan no gostou de ouvir aquilo. Foi ter com o irmo junto ao porto.
        - No h muito para contar. O nome dela  Bethany Coulter.
        - Alguma relao com o Harv Coulter?
        - Filha dele. Conheci-a na semana passada quando fui  loja. Convidei-a para sair, ela aceitou. Levei-a ao concurso de tractores ontem  noite e correu muito 
bem.
        - Esqueceste-te de acrescentar que os olhos dela te fazem pensar em amores-perfeitos.
        Ryan riu-se.
        - H certas coisas na vida com as quais podemos sempre contar. O Sol nasce todas as manhs, pe-se  noite, e a nossa me h-de falar sem parar enquanto 
houver luz entre essas duas ocasies.
        - A me  assim, coerente. - Rafe voltou-se para olhar para o irmo com olhos solenes, azul-ao, que pareciam no deixar escapar nada. - Ela diz que essa 
rapariga  paraplgica.
        - Sim. Um acidente numa prova de barrel racing h oito anos. Um msculo contraiu-se na face de Rafe.
        - O que  que tu pensas disso? Ryan ponderou a pergunta.
        - No tenho problemas.
        - No tens problemas? Pelo que a me disse, as tuas intenes so srias, maninho.  melhor dares-me uma resposta mais convincente.
        - J sou crescidinho, Rafe. Sei o que estou a fazer.
        - Espero que sim. No gostava de te ver estragar a tua vida.
        - Ou seja?
        - Ou seja, s demasiado piegas para o teu prprio bem. - Rafe estendeu o brao num movimento circular, apontando para o rancho. - Todos os touros que temos 
neste stio so testemunhas disso mesmo. Se tomas conta de um bezerro doente, ficas preso a ele e, quando chega a altura de os castrar, no me dizes.
        - Nunca te escondi um bezerro.
        - Claro que no. H dois anos, foi o Boomer. No conseguias suportar a ideia de o ver acabar num tabuleiro de esferovite e fechaste-o numa das baas dos 
cavalos. Eu soube, como o sei agora. No percebo porque  que insistes em neg-lo.
        - Conversa de merda. Ele  que veio aqui ter.
        - Ah, foi? Sem dvida, temos muitos bezerros que vo ter aos estbulos no dia da castrao. No ano passado, foi o T-bone. - Rafe estendeu a mo. - Toca a 
pagar. "Merda" no  permitido.
        Ryan cerrou os dentes e tirou o dinheiro do bolso. Se no limpasse a boca, ainda acabava falido. Enquanto retirava uma nota de dez, disse:
        - Por esta altura, esse fundo j deve ter o suficiente para mandar o mido para Harvard.
        - No mudes de assunto. Ryan suspirou.
        - Quem  que, no seu juzo perfeito, chamaria T-bone1 a um bezerro?
        - Um corao mole que quisesse distanciar-se e no se afeioar ao raio do bicho. - Rafe guardou o dinheiro no bolso da camisa para no se esquecer de o colocar 
no respectivo frasco quando chegasse a casa. - E no me venhas dizer que no o escondeste. De outra maneira, como  que ele tinha ido parar  sala dos arreios?
        - Deve ter seguido algum, e esse algum fechou a porta.
        - Algum. - Rafe sorriu. - Tu, talvez?
        -  possvel. Ele andava sempre atrs de mim, se bem te lembras.
         - S sei que ele nunca foi  faca.
        
              1 Literalmente, costeleta. (N. do T.)
        
        - H-de ser um belo touro. Nem tu podes neg-lo.
        Rafe suspirou e baixou a cabea enquanto esfregava a bota na terra.
         - No, no posso. Saiu um belo animal. Talvez por causa daquela rao especial que lhe deste.
        - Qual rao especial? Ests a deixar-te levar pela imaginao. Como se estivesse  espera da deixa, T-bone entrou no estabulo naquela altura. Quando o touro 
preto descobriu Ryan, os seus olhos castanhos e inexpressivos iluminaram-se e a criatura avanou direita a eles, mugindo para reclamar a sua rao.
        - Mas que merda - disse Rafe.
        - Ficas a dever dez ao fundo para a universidade. - Ryan ainda estava a rir-se quando foi buscar o pequeno-almoo de T-bone  sala das raes. Quando o touro 
j comia satisfeito, Ryan foi ter com o irmo  baa. Rosebud aproximou-se,  espera de mimos. Rafe coou-lhe o focinho e passou-lhe os dedos pela crina.
        - Isto aqui  um rancho, ou um abrigo de criaturas mimadas? - perguntou Rafe. - Aqui tens mais um dos teus projectos. Se no fosses tu, ela nunca teria sobrevivido.
        - Pois no, e no  uma beleza?
        Depois de fazer mais algumas festas  gua, Rafe sorriu.
        - No te quero mudar, Ryan. s um bom homem. No  nenhum crime ter um grande corao. Apenas estou a dizer que, s porque sentes pena de uma pessoa, no 
tens de casar com ela.
        - Aquilo que eu sinto pela Bethany no tem nada a ver com pena. - Ryan tentou encontrar uma forma de explicar. - Ela  divertida e interessante, no  de 
todo o gnero de pessoa que inspira pena. E eu no disse que estava nos meus pianos casar com ela.
        - No, mas ests a pensar nisso. Eu conheo-te. Ryan deu um pontap no porto da baa.
        - Acabei de a conhecer, Rafe. No exageres.
        - Pois, pois. Desde quando  que o tempo impediu os homens desta famlia? Ests a falar com o mais rpido de todos, no te esqueas. De quanto tempo  que 
precisei para pedir  Maggie em casamento, trs dias?
        - E vs como s feliz. Nunca vi um homem to embeiado por uma mulher.
        - Pois, bem, este embeiado est preocupado contigo, maninho.
        - No estejas. J dei algumas voltas a pista. No vou fazer nenhuma asneira. Acredita.
        - Ningum que estivesse necessitado alguma vez te deixou indiferente. Eu conheo-te, Ryan. No podes passar por um passarinho com uma asa partida. Se te 
amarrares a uma mulher numa cadeira de rodas, nunca te livrars da corda.
        - Necessitado? - Ryan riu-se e abanou a cabea. - S quero ver quando a conheceres. O que  que ests a imaginar, uma invalida mirrada e plida? Ela tem 
um sorriso que ilumina uma sala e um sentido de humor que no desarma. Mal reparas na cadeira de rodas.
        - Hs-de reparar nela quando ficares preso em casa, a brincar aos enfermeiros - avisou-o Rafe. - Para alguns homens, casar com uma paraplgica pode resultar, 
mas no tenho assim tanta certeza que seja o teu caso. A actividade fsica  a tua vida.
        - E a minha vida  assim to fantstica que Deus me livre de introduzir-lhe algumas mudanas? Ests to fascinado com a Maggie e os midos que no sabes 
o que  a vida real. Talvez seja eu o necessitado. Alguma vez pensaste nisso?
        - Tu? - Rafe olhou-o demoradamente. - O que  que isso quer dizer?
        Ryan apontou para o estbulo.
        - Gozas comigo por causa do meu abrigo para criaturas mimadas. Talvez apenas me sinta sozinho. - At quela altura, Ryan nunca pensara na sua solido, quanto 
mais tentara exprimir esse sentimento. Agora que o fizera, parecia ter aumentado. - Talvez estas criaturas mimadas sejam tudo o que tenho.
        - A me e o pai vivem a poucos minutos daqui, e a Maggie e eu vivemos na direco oposta. Podes aparecer sempre que quiseres. Tambm sais com mulheres regularmente. 
Como  que podes sentir-te sozinho?
        - Porque nada disso conta. - Ryan pendurou os braos sobre o porto e olhou para os cavalos. - Gozas comigo por causa do T-bone. Bem, ri-te o que quiseres, 
mas aquele touro pateta, a pedir uma cenoura  janela da cozinha,  por vezes o ponto alto social das minhas noites.
        - Ests a fazer-me sentir mal. Ryan riu-se.
        - No  isso que eu quero. S estou a tentar explicar. Tu e a Maggie convidam-me para jantar, e... - calou-se e passou o peso de uma perna para a outra. 
- Agradeo que me incluam. E sei que me convidas mais vezes do que a maioria dos irmos o faz, por favor, no penses que me estou a queixar.  s que, por mais agradvel 
que seja e que eu aprecie a vossa companhia, depois, tenho de voltar para uma casa vazia. s vezes, o silncio , sei l, a nica palavra que me ocorre  ruidoso. 
E levanto-me de manha para uma nova dose do mesmo. Esfalfo-me a trabalhar, de manh noite, e depois trabalho mais um pouco para adiar a solido. Percebes o que 
estou a dizer?
        A cara de Rafe adquiriu uma expresso preocupada.
        - Mas, Ryan, porque  que no disseste nada? Adorvamos ter-te l em casa mais vezes.
        -  uma solido que vocs no podem preencher, Rafe. Preciso de uma vida minha, de uma famlia minha. E no com a primeira mulher que aparecer. Quero estar 
com algum realmente especial, algum que me ame tanto como eu a ame a ela, algum que precise tanto de mim como eu dela. Isso faz algum sentido?
        - Claro que faz. - Rafe baixou a cabea e encheu as bochechas com ar. - J passei por isso. Sei exactamente o que queres dizer. Antes de encontrar a Maggie 
e o Jaimie, sentia-me perdido. No me fazia diferena viver ou morrer, no tinha razo nenhuma para me preocupar. S pensava em encontrar maneira de comprar a prxima 
garrafa.
        - No  assim to mau comigo - admitiu Ryan. - No perdi a minha mulher e os meus filhos, e ainda no me virei para a bebida. Apenas me sinto sozinho. No 
Natal, por exemplo. Vejo-te a ti e a Maggie, a comprar coisas e a sussurrar e a esconder os presentes do Jaimie. Para mim,  disso que se trata, dessa sensao de 
famlia e de ter um objective maior, e quando vejo como, comparando, a minha vida  to vazia, s...
        - Sentes-te perdido? - perguntou Rafe com um sorriso compreensivo.
        - Sim. Acho que  a palavra que o traduz melhor, perdido. No fundo, sou um homem de famlia. Fui criado para o ser,  o que sempre imaginei que seria, mas 
ainda no tive a sorte de encontrar a mulher certa. O "um dia" j veio e j se foi. Tenho trinta anos e no estou a ficar mais novo, e j comeava a pensar que talvez 
nunca me acontecesse.
        - At agora?
        Ryan hesitou durante vrios segundos antes de responder. Quando finalmente falou, a sua voz ficara rouca:
        - Sim, at agora.
        Rafe levantou uma sobrancelha.
        - Tens a certeza, Ryan? Acabaste de a conhecer.
        - Se me ests a pedir para explicar isto em termos racionais e que te sossegue, no posso - admitiu Ryan. - No faz sentido nenhum. Eu sei. - Estava quase 
 espera que o irmo concordasse com ele, mas Rafe limitou-se a franzir o sobrolho, pensativo. - S precisei de um olhar. Entrei naquela loja, com vontade de arrancar 
a cabea a algum. A ltima coisa que me podia passar pela cabea era encontrar o amor da minha vida. E foi ento que a vi. - Um rubor embaraado subiu-lhe pelo 
pescoo. - Eu sei que parece uma loucura, mas foi o que senti assim que a vi.
        Rafe tirou o chapu e passou os dedos pelo cabelo. Deixando o chapu pendurado na mo, disse:
        - Talvez sejamos os dois loucos, porque, para mim, isso faz muito mais sentido do que tudo o resto que disseste.
        - O qu?
        - Que sentiste qualquer coisa assim que a viste. - Rafe fixou o olhar no vazio, a sua expresso distante. - Senti exactamente o mesmo quando vi a Susan, 
quando ainda era um mido. Lembras-te?
        Ryan sorriu.
        - Como se algum da nossa famlia pudesse esquecer. No olhaste para mais nenhuma rapariga at ao fim do liceu e da universidade.
        Rafe assentiu.
        - Quando ela morreu, no acreditava que alguma vez pudesse voltar a sentir o mesmo por outra mulher. Na realidade, eu sabia que no voltaria. Aquele gnero 
de amor, o que eu sentia pela Susan  daqueles que s acontecem uma vez na vida, e so muito poucos os homens que tm a sorte de o encontrar uma vez que seja. E 
ento, sem mais nem menos, encontrei a Maggie. Sa de uma nuvem de embriaguez, olhei atravs das sombras e vi-a, dizendo a mim mesmo que nenhuma mulher podia ser 
assim. E depois aquela sensao entranhou-se. Senti-me mal por isso. Era como se estivesse a ser infiel  memria da Susan, s de pensar naquilo, mas no conseguia 
livrar-me daquela sensao. Acho que Deus deve ter pensado que eu tinha sofrido mais do que o meu quinho e decidiu enviar-me um milagre, porque a Maggie e o Jaimie 
foram isso mesmo, uma razo para largar a bebida, duas pessoas que precisavam de mim tanto quanto eu precisava delas. Acho que me apaixonei por ela assim que a vi.
        - E no pensaste se no estarias doido? Rafe sorriu.
        - Eu estava doido. Lembras-te? Atirei-me a ela com tudo o que tinha. A pobrezinha nunca teve hipteses.
        - Mas acabaste por voltar a ti e tem resultado muito bem.
        - Sim. Somos felizes. Muito felizes.
        - Talvez devesses acreditar que tambm vai resultar muito bem para mim.
        Rafe sorriu e concordou.
        - Talvez.
        - Uma coisa  certa. Nunca me senti assim, e garanto-te que no foi por falta de oportunidades. Sa com tantas mulheres que no consigo lembrar-me de todas, 
e nunca fiquei assim com nenhuma. S com a Bethany.
        - Se essa rapariga  o que tu queres, Ryan, podes contar comigo.
        - Ainda bem, porque ela  a rapariga que eu quero. No sei explicar. S sei que no consigo livrar-me desta sensao, uma sensao de que ela  a mulher 
certa. Agora, s tenho de a convencer do mesmo.
        Ainda pensativo, Rafe disse:
        - Se est numa cadeira de rodas, ela no pode ter assim muitos programas. Acho que no deixaria passar a oportunidade de sair outra vez contigo.
        Ryan bufou e disse:
        - Pois, mas no  o caso. Gato escaldado e essa conversa.  uma poldra esquiva.
        - Uma poldra esquiva?
        - Sabes o que quero dizer. Enquanto mantive as coisas ligeiras, divertimo-nos imenso, mas assim que dei a entender que me sentia fisicamente atrado por 
ela, transformou-se em gelo.
        Rafe pensou no que tinha acabado de ouvir.
        - Parece-me que tens a a tua resposta, maninho.
        - Qual resposta?
        - Manter as coisas ligeiras. Finge que tudo o que queres e ser amigo dela. No sei muito bem porqu, mas as mulheres gostam de ir devagar. Acredita, eu sei. 
Passei pelo mesmo com a Maggie. Uma amizade no a assusta.
        - Mas eu estou a pensar em muito mais do que uma amizade. Fingir outra coisa seria manhoso e, no sei, parece um pouco um golpe baixo.
        Rafe riu-se e abanou a cabea.
        - Estou a ver que tens muito para aprender. Se fores demasiado directo e honesto com as mulheres, elas largam a correr no sentido oposto.
        - Porque ser?
        -  assim. Eu e a Maggie, por exemplo. Passeamos junto ao lago quase todas as noites. Durante o passeio, eu estou quase sempre a pensar em sexo. Ela no. 
Ontem  noite, estava a pensar nos mosaicos para a cozinha: qual a cor e o padro melhores quando remodelarmos. Os tons de terra esto a voltar. Devamos antes ficar 
pelos amarelos e dourados? Brancos e verdes? E por a fora. Achas que eu me importo? Hei-de adorar a cozinha seja l como for, desde que ela esteja l dentro, nua, 
assim que estiver pronta.
        Ryan rebentou s gargalhadas.
        - Tu s terrvel.
        -  o que a Maggie tambm acha, portanto, finjo que estou interessado em esquemas cromticos. Passo-lhe a mo pelo brao, fao-lhe ccegas na orelha e digo 
que gostava de ter azulejos com a cor dos olhos dela. Ela fica toda contente e, quando chegamos a casa, eu tambm fico. Fala de manhas e de golpes baixos, se quiseres, 
mas, se eu fosse honesto, aonde  que isso me levava? Alm disso, qual  o mal de seres amigo da Bethany antes de seres amante dela? Todas as boas relaes comeam 
com uma amizade slida, portanto, no  assim nada de to grave. Queres ser amigo dela. Certo?
        - Claro. Rafe sorriu.
        - Ento, qual  o problema?
        
        Um pouco depois das sete da noite, Bethany tinha acabado de tomar banho quando a campainha da porta tocou. Pensando que era um dos irmos de visita para 
ver como ela estava, o que eles faziam com frequncia, apertou o cinto do roupo de banho cor-de-rosa, envolveu rapidamente os cabelos molhados numa toalha e foi 
abrir a porta. Para sua surpresa e grande consternao, Ryan Kendrick estava no alpendre.
        - Ests mesmo a precisar de um culo na porta - disse ele secamente. - Assim, no corrias o risco de abrir a porta a algum que preferias no encontrar.
        Com os olhos azul-ao a cintilar de diverso, puxou o chapu para trs, poisou uma bota na soleira e encostou-se  ombreira. Intencionalmente ou no, exclura 
qualquer possibilidade de ela fechar a porta. Vestido da mesma forma que na noite anterior, calcas de ganga desbotada Wrangler, camisa azul e bluso de ganga. forrado, 
parecia simultaneamente familiar e perigoso.
        Bethany olhou para os olhos dele, consciente de cada elemento cinzelado daquelas feies morenas. Sentiu um arrepio descer-lhe pela coluna. Ainda que tivesse 
acabado de lavar os dentes, ficou subitamente com a boca seca.
        Ele tinha um envelope branco na mo e bateu com ele na coxa.
        - Ia deix-lo  tua porta, mas a tua carrinha estava na entrada e as luzes estavam acesas, portanto, pensei que talvez estivesses em casa.
        Considerando que lhe dissera naquela manh que tinha planos para a noite, Bethany tentou encontrar uma explicao. Era, pensou ela confusa e em pnico, um 
caso clssico de uma mentira que dera para o torto.
        Apertou novamente o cinto do roupo, baixou o brao para se certificar de que tinha os joelhos tapados e puxou uma ponta da toalha, que lhe cara por cima 
da cara quando inclinara a cabea.
        - Eu, hmm... sim. Estou em casa.
        - Esta  a tua ideia de um encontro escaldante? - Ele arqueou uma sobrancelha negra, os lbios finos curvando-se num ligeiro sorriso, os olhos perspicazes 
e implacveis como ao afiado. - Tomar banho e lavar o cabelo?
        Ela abraou a prpria cintura, tentando sem grande sucesso recuperar a compostura.
        - O banho foi quente.
        - Bom, sempre  qualquer coisa - disse ele a rir. Sem que o convidassem, entrou e fechou a porta. - No quero que apanhes frio - disse ele em jeito de explicao 
enquanto lhe entregava o envelope. - So fotografias do poldro da Rosebud logo depois de ter nascido e mais algumas tiradas esta manh. Achei que poderias gostar.
        Afivelando um sorriso, Bethany aceitou a oferta, o seu crebro gritando uma pergunta: "Porque  que ele est aqui?" Sem saber o que dizer abriu o envelope. 
Quando retirou as fotografias do poldro, a primeira era to querida que, momentaneamente, esqueceu as suas preocupaes.
        - Oh... - disse ela em voz baixa. Olhou para a seguinte e riu-se. - Ele  to fofo. Que batalha, levantar-se pela primeira vez!
        Ryan debruou-se para ver e riu-se.
        - Aquela expresso horrorizada. Sempre que a vejo, penso se estaria a olhar para mim.
        Ela passou para a terceira fotografia.
        - Oh, meu Deus! Ele quase fez a espargata com as patas da frente. - Suspirou e poisou as fotografias no colo. - Obrigada, Ryan. Foste muito atencioso.  
uma recordao fabulosa.
        - Da noite... ou de mim?
        O tom ligeiramente desafiador na voz dele apanhou-a de surpresa. O seu olhar saltou para o dele, e a determinao que ali encontrou deixou-a alarmada.
        O cheiro distintamente masculino rodeava-a - uma mistura tantalizante de cabedal, ar fresco, cavalos e perfume especiado. Ele acocorou-se, puxou a aba do 
chapu para cima e deitou-lhe um olhar solene e demorado que a deixou com a sensao de estar numa montanha-russa.
        - Acho que temos de conversar - disse ele, a sua voz um rumor sedoso.
        - Sobre o qu?
        - Sobre tu e eu, e sobre o que aconteceu entre ns ontem  noite. A sua abordagem directa deixou-a nervosa. Ele era um homem com uma misso e Bethany tinha 
a sensao de ser ela essa misso.
        Recordava-se da noite anterior com uma nitidez brutal - como ele se baixara exactamente daquela forma e a beijara. "Nunca mais." Ele era demasiado atraente, 
demasiado encantador, demasiado tudo. Ela ficaria perdida se ele lhe tocasse. Pior ainda, tinha a sensao de que ele tambm sabia isso.
        Ela s queria que Ryan se fosse embora e a deixasse em paz.
        Como se lhe adivinhasse os pensamentos, os olhos dele comearam a brilhar.
        -  exactamente por isso que temos de conversar. Fiz asneira ontem  noite e gostava de a corrigir se puder.
        Ele tinha feito asneira? Segundo ela, fora Bethany quem se espalhara ao comprido, deixando-se excitar por um beijo e atirando-se a ele.
        - Eu, hmm... - Ryan tirou o chapu e passou a mo pelos cabelos negros, coando a cabea acima da orelha. Quando olhou novamente para ela, os seus olhos 
reflectiam uma sinceridade genuna. - Eu diverti-me tanto contigo no concurso de tractores. Estvamos em sintonia. Percebes o que estou a dizer? Isso acontece to 
raramente, encontrar algum com quem consigo rir-me assim. No quero estragar uma coisa com a outra. Entendes?
        - A outra? Ele assentiu.
        - Sim, tu sabes, o lado fsico. Eu, hmm... - encheu as bochechas de ar. Quando voltou a olhar para ela, estava a sorrir. - No vou mentir e dizer que no 
me sinto atrado por ti. Aquele beijo arrasou-me. Mas as relaes fsicas so fceis de encontrar, e uma amizade como aquela que eu sinto que podemos ter no acontece 
todos os dias. Se eu tiver de escolher, e parece-me bvio que tu no queres nada de fsico, prefiro a amizade.
        Bethany sentiu um aperto no corao.
        - Queres ser meu amigo?
        - Tens alguma coisa contra a amizade?
        - No, claro que no. Eu s...
        - Tu s, o qu?
        - Eu s no vejo como  que isso pode resultar.
        - Porque no?
        Um calor escaldante invadiu-lhe as faces. Como  que ela podia dizer a um homem que estar perto dele a fazia querer muito mais do que uma palmada ocasional 
e amigvel no ombro?
        - Sinto-me muito atrada por ti - acabou ela por dizer. Ele sorriu de novo e esfregou o queixo.
        - A srio?
        - A srio. Sendo esse o caso, a amizade torna-se um pouco difcil.
        - No  verdade. Se ambos acordarmos desde o princpio que uma boa amizade  o nosso objectivo, e nenhum de ns pisar esse risco,  fcil.
        Para algumas pessoas, gostar de algum no era uma deciso. Se ela passasse muito tempo com ele, acabaria por se apaixonar.
        - Eu, hmm, no tenho assim tanta certeza de ser capaz de manter as coisas ao nvel da amizade - admitiu ela a custo. - Fazia asneira antes sequer de comearmos 
e no posso correr esse risco. No quero sair magoada, Ryan.
        - Eu nunca te magoaria, querida. No se magoa o nosso melhor amigo.
        A sinceridade rouca do tom dele foi quase a desgraa dela. "0 meu melhor amigo." Uma sensao desagradvel apertou-lhe o peito.
        - Oh, Ryan, eu sei que no o farias de propsito.  s que, s vezes, as coisas acontecem. Podes ter boas intenes, mas as coisas correm mal. Eu seria uma 
dessas coisas. Fazes-me sentir to vulnervel. Ele suspirou e passou uma mo pelo cabelo.
        - Se isso acontecer, deixamos correr e vemos aonde vamos parar.
        - No podemos ir parar a lado nenhum, o problema  esse.
        - Porque no?
        Olhando-o nos olhos, Bethany apercebeu-se de que ele no sabia sinceramente porqu. As lgrimas subiram-lhe aos olhos e um ardor cido instalou-se no fundo 
da garganta. Com mos entorpecidas pelo nervoso, tirou a toalha da cabea e poisou-a no colo. Sabia que o seu cabelo devia estar um susto. No lhe interessava. Ele 
que a visse no seu pior.
        Devolveu cuidadosamente as fotografias ao envelope, os dedos a tremer enquanto dobrava a pestana. Desejando de todo o corao poder evitar aquela conversa, 
engoliu o n que tinha na garganta, um n que tinha a certeza de ser o seu orgulho e obrigou-se a olh-lo nos olhos.
        - No sinto nada em certas partes do meu corpo. Podias espetar um alfinete na barriga da minha perna e eu no sentia nada.
        O olhar dele desceu at aos joelhos cobertos pelo turco cor-de-rosa e voltaram ao rosto dela.
        Antes que perdesse a coragem, Bethany prosseguiu:
        - No sei se sou capaz de ter uma relao fsica normal com um homem.  muito provvel que no.
        - E com base nesse prognstico hipottico, viras as costas  vida?
        - Eu no virei as costas  vida. Apenas aprendi a aceitar que algumas coisas talvez j no sejam possveis. Talvez seja fcil para ti deixar correr e ver 
aonde as coisas te levam. Para mim, no . O mais provvel  que eu te desiluda e acabe magoada no processo. Prefiro no ir a jogo.
        - Quem  que te fez isto? - perguntou ele to inesperadamente que ela no conseguiu controlar a sua surpresa. Ele estava com os olhos quase fechados, o seu 
sorriso uma linha de dentes brancos. - s to controlada... tens noo disso?
        Bethany olhou espantada para ele:
        - Controlada?
        - Sensata. Calma. No  natural, e sem dvida que no  saudvel. Algum te magoou. Tens isso escrito por todo o lado. Vejo-o nos teus olhos sempre que olhas 
para mim. E sabes que mais vejo?
        Ela abanou a cabea.
        -  No, mas tenho a sensao de que me vais dizer.
        - Isso mesmo.  preocupante. - Ryan inclinou-se para lhe estudar os olhos como se houvesse uma bola de cristal no interior da cabea dela. Ela sabia que 
ele estava a provoc-la, mas, mesmo assim, tinha a sensao de que o seu corao se transformara num livro aberto. - Vejo ira. L no fundo onde no consegues chegar, 
ests to furiosa que eras capaz de partir qualquer coisa.
        Um riso choroso quase a deixou engasgada.
        - A srio? Consegues ver isso tudo?
        - Pois. Isso e muito mais. Ests a fumegar, em ebulio como um vulco prestes a entrar em erupo.
        - Algum j te disse que s doido?
        - Algumas pessoas tm produzido sons nesse sentido. Ignorei-as.
        - A maioria das mulheres acaba magoada algures no caminho, e no entram em erupo mais tarde como se fossem vulces - disse ela.
        - Pois, mas no costumam ficar magoadas da forma como imagino que tu ficaste - contraps ele. - Talvez levem uma tampa algumas vezes antes de encontrarem 
o homem certo, e talvez fiquem de corao partido. Mas no costuma ser por causa de uma coisa to terrvel.
        Ela uniu as pontas dos dedos das duas mos e levou-as aos lbios.
        - E sabes que mais? Aposto que elas berram e choram e ficam danadas e descarregam toda a fria em algum, nas mes ou nas melhores amigas. Em algum. Caso 
contrrio, nove dcimos da populao feminina estariam internados num manicmio.
        - Ests a dizer que eu devia estar internada? - perguntou ela, a provoc-lo.
        Ele procurou-lhe o olhar.
        - No, querida. S que ests a sofrer, e que isso nunca desaparecer se no falares com algum.
        - No posso permitir que um incidente afecte o resto da minha vida.
        - Ou seja, houve um incidente. - Ryan piscou-lhe o olho. - Foste apanhada.
        - E ento? Mantenho o que disse. Ningum deixa que um incidente afecte o resto da sua vida. Avanamos.
        - No obstante, no devias avanar, fingindo que nunca aconteceu. Falar sobre isso e deixar sair a raiva e a melhor opo. J tentaste?
        - Claro que sim, eu... - Bethany calou-se e ficou a olhar para ele enquanto se recordava do que acontecera.
        - Gritaste e choraste?
        - No - murmurou ela.
        - Atiraste coisas e chamaste-lhe uns quantos nomes bem feios? Ela riu-se de novo, um som oco.
        - Aconteceu logo a seguir  minha primeira operao e eu no devia mexer-me muito. A minha famlia no me largava. Eu no podia deixar sair a raiva, como 
tu dizes. No sem transtornar toda a gente que gostava de mim.
        - Isso  terrvel. - Ele transferiu o peso do corpo para o outro p e poisou os braos cruzados no outro joelho. - Tambm me magoaram, uma vez no liceu.
        - A srio?
        - Sim. Como disseste, quase toda a gente sai magoada pelo menos uma vez. Tambm acontece aos homens. Mas naquela idade no somos muito filosficos e no 
pensamos que podia ter sido muito pior. Apenas di como o raio.
        Por algum motivo, Bethany nunca imaginara Ryan Kendrick como o homem que alguma vez poderia ter tido um desgosto de amor. Parecia-lhe mais o oposto.
        - E deixaste sair a raiva? - quis ela saber. Ele semicerrou um olho.
        - Se no o tivesse feito, estaria a encorajar-te a faz-lo? Claro que sim. E senti-me muito melhor depois. - Aproximou-se para sussurrar: - Queres ir  procura 
do estupor? Eu dou cabo dele.
        Ela riu-se e abanou a cabea:
        - No  necessrio. J passaram oito anos. J segui em frente.
        - Mentirosa. - Qualquer vestgio de humor desapareceu da cara dele. - Diz-me uma coisa que seja que tenhas feito para seguir em frente.
        Ela encolheu os ombros.
        - Resolvi o assunto  minha maneira. O Paul era...
        - Aha! Estamos a chegar a algum lado. O estupor tem nome.
        Ela no conseguia aguentar aquilo. Ele espreitava demasiado fundo, via demasiado. Sentia-se como se no conseguisse respirar. Passou um par de mos trmulas 
sobre o envelope.
        - Sim. Paul. - O nome ficou-lhe preso no fundo da garganta e transformou-se num n enorme que ela no conseguia engolir. - E ele no era um estupor, apenas 
um rapaz simptico que queria ter uma vida normal, e no havia garantias de que a pudesse ter comigo.
        - Portanto, o rapaz simptico deixou-te pendurada.
        As recordaes doam. Ainda que j no sentisse nada por ele, a sensao de traio ainda era aguada como uma lmina. Baixou a cabea e passou o dedo por 
uma ponta solta do turco do roupo.
        - Sim.
        -  E dizes que era um rapaz simptico? 
        -  Ele era mesmo um rapaz simptico, e tambm s tinha dezoito anos, o que  muito pouco para lidar com este gnero de coisa. Olhando para trs, no o censuro 
por se ter acovardado. - Encolheu os ombros e tentou sorrir. - Muitos homens adultos poderiam ter reagido do mesmo modo.
        - No o desculpes. No s a mezinha dele. - Ela revirou os olhos. - Ento - insistiu ele -, quando somos magoados, no inventamos desculpas para o estupor 
que nos magoou. Isso cabe  mezinha dele.
        - Parece que mudamos de assunto. Eu estava a tentar explicar-te por que motivo eu...
        - No  preciso. Posso ver que no ests pronta para mais nada alm de uma amizade, querida, e no faz mal.
        - Mas eu no tenho a certeza de que no faz mal.
        - No estou a falar de um romance trrido. Apenas amizade. Qual  o risco?
        Ela esfregou as bochechas.
        - Talvez. Deixa-me pensar nisso. Talvez.
        Ele tocou-lhe na ponta do nariz com um dedo e depois enxugou-lhe uma lgrima com o polegar.
        - Pensar em qu? Toda a gente precisa de um amigo. Podamos divertir-nos tanto juntos.
        Ela cerrou os punhos, to tensa que cravou as unhas nas palmas das mos. Receava que ele lhe visse o desejo nos olhos. Procurou outra coisa em que pensar 
e deu por si a olhar para o boto da camisa dele.
        A porta da frente abriu-se naquela altura. Bethany levantou a cabea e viu Jake, as pernas compridas e vestidas de ganga afastadas, os olhos de um azul penetrante 
ao olhar primeiro para Ryan, depois para ela. Quando o fez e viu as marcas de lgrimas nas faces da irm, a sua expresso passou de surpreendido para furioso num 
simples segundo.
        - Mas que raio  que se passa aqui? - perguntou ele, a sua voz vibrante de fria.
        Bethany sobressaltou-se. O seu irmo no era um adversrio fcil quando se irritava, e nada o irritava mais do que qualquer coisa que a pudesse ameaar, 
real ou imaginaria. Esperava que Ryan tivesse o bom senso de ficar quieto. Pelo menos, podia ter a certeza de que Jake no lhe tentaria bater.
        Mas no. Ryan levantou-se lentamente. Os dois homens estavam fisicamente ao mesmo nvel, ambos altos, largos de ombros, todavia suficientemente geis para 
serem rpidos como um relmpago. Bethany olhou aflita para os seus vasos de terracota pintados  mo, no cho, num canto junto  entrada. Deu por si a pensar que 
no devia estar boa da cabea. O seu irmo e Ryan j estariam meios mortos antes que um deles desistisse. E ela estava preocupada com os vasos?
        -  Ol, Jake. - Ryan estendeu uma mo. Quando Jake nao retribuiu, manteve o brao estendido e disse: - Respondendo a tua pergunta, no se passa nada. A Bethany 
e eu estvamos apenas a conversar.
        Atravs de dentes to cerrados que o deixaram espantado por conseguir falar, Jake rosnou:
        - A conversar sobre o qu?
        - A possibilidade de sermos amigos.
        O corao de Bethany caiu-lhe aos ps. Naquele instante, teria dado um pontap a Ryan para lhe chamar a ateno, se pudesse. "No lhe digas a verdade", apeteceu-lhe 
gritar. "No lhe digas a verdade."
        - As nossas personalidades do-se mesmo bem - disse Ryan. - divertimo-nos muito quando estamos juntos.
        - Espero bem que sejam s as personalidades que se dem bem - disse Jake em voz baixa.
        Ryan acabou por baixar o brao. Olhou para Bethany enquanto voltava a pr o chapu na cabea. Era bvio que ele no tinha noo do quanto Jake podia ser 
inconstante. Ou isso ou no tinha o bom senso de reconhecer o perigo quando o via. Como se no bastasse, piscou-lhe o olho.
        - Nada de vir rondar a minha irm - disse Jake. - Se eu no conseguir dar conta de ti, tenho quatro irmos que estaro logo atrs de mim  espera de vez. 
Ningum a faz chorar e pensa que se safa.
        Bethany enxugou a cara freneticamente.
        - Eu no estou a chorar, Jake. Entrou-me uma pestana para o olho. O Ryan estava a tentar ajudar-me a tir-la.
        Os dois homens alaram as sobrancelhas e olharam para ela, sem acreditar. Muito bem, no era a mentira mais credvel que ela j dissera. No queria mais 
de duzentos quilos de testosterona  solta em sua casa.
        Como se ela no tivesse dito nada, Ryan olhou para Jake e disse:
        - Por mais incrvel que parea, no fiz nada que a fizesse chorar. Estvamos a conversar.  tudo. Tambm te posso recordar que ela  uma mulher adulta. Se 
ela no me quiser a rondar, acho que  bem capaz de o dizer.
        - No abuses da sorte - disse Jake num tom aveludado.
        - Se dizer a verdade  abusar da sorte, um de ns tem problemas de atitude, e de certeza que no sou eu.
        Bethany ficou  espera que o irmo o esmurrasse. Para sua surpresa, limitaram-se a mirar-se friamente, cada um deles fazendo valer cada centmetro da sua 
altura, os corpos tensos. Ela acabou por decidir que devia ser uma coisa de homens - uma misteriosa espcie de comunicao silenciosa que acontecia entre machos 
eriados e que provocava um ataque cardaco nas mulheres intimidadas.
        Ryan olhou para ela e levou a mo ao chapu, mirou novamente Jake e saiu porta fora como se no tivesse pressa nenhuma.
        - Boa noite, Bethany - disse ele antes de fechar a porta. - Eu depois ligo-te.
        Ela queria dizer: "Vai-te embora, por favor. Depressa!" Em vez disso, saiu-lhe um trmulo:
        - Boa noite, Ryan. Desculpa l isto.
        Ele deitou-lhe um sorriso, piscou outra vez o olho e disse:
        - No faz mal.
        
        
     Captulo Sete 
        
        Bethany estava to furiosa com o irmo que lhe apetecia aban-lo.
        - No tens o direito de me entrar pela casa adentro e tratar os meus amigos dessa maneira.
        Diante dela com as mos nas ancas, Jake arregalou os olhos:
        - Teu amigo?
        - Sim, meu amigo. Posso ter amigos, no posso?
        - Amizade no  o que aquele tipo quer. - O olhar dele desceu para o roupo de banho e voltou a subir at ao rosto. - Porque  que estavas a chorar? Ele 
pisou o risco? Se pisou, juro por Deus, racho-o ao meio.
        S a ideia de Jake e Ryan se envolverem numa luta, deixou-a gelada.
        - O Ryan no pisou o risco. V se metes isso na cabea. O que  que te leva a pensar que ele havia de querer faz-lo?
        - E porque no? E se no pisou, porque  que estavas a chorar?
        - No era por nada que ele tivesse feito.
        Bethany deu meia-volta com a cadeira de rodas e partiu na direco oposta. Jake foi logo atrs dela, as botas batendo sonoramente no cho de madeira. Ela 
parou para pousar as fotografias na estante da entrada.
        Jake viu o envelope.
        - O que  isso?
        - Nada de importante. - Atirou a toalha na direco do cesto da roupa da casa de banho quando passou pela porta aberta. - So s umas fotografias que ele 
me trouxe.
        - Fotografias de qu? - perguntou ele desconfiado enquanto agarrava no envelope. Uma expresso confundida estampou-se-lhe no rosto quando viu o contedo.
        - De quem  o poldro? 
        -  Do Ryan. - Enquanto continuava corredor fora, falou-lhe da sada da noite anterior. - Ele trouxe-me as fotografias como recordao.
        - Foste sair com ele e no me disseste? Quantas vezes j te disse que nunca faas isso? Tambm te disse para te manteres longe dele.
        - Sim, pois disseste; mas eu tenho o costume de tomar as minhas decises. Porque  que no me fazes um grande favor, Jake, e te casas? Assim, sempre tens 
algum com quem te preocupares para alm de mim. Se isto continuar assim, volto para Portland, onde posso ter algum espao.
        Jake seguiu-a at  cozinha, parecendo quase cmico, com o cabelo escuro marcado pelos sulcos deixados pelos dedos compridos.
        - No podes voltar para Portland. Preciso de ti na loja.
        - Tretas. O mercado da informtica est cheio de gente qualificada.
        -  jogo sujo, usar isso como ameaa. Pensa na desiluso do pai e da me se voltasses para l.
        - No  uma ameaa, Jake, e uma promessa. Tens de me dar espao para respirar. No sou uma criana. No preciso que olhes por mim.
        - Ests apanhada pelo Kendrick.
        Enquanto ela punha o caf a fazer, recorrendo a rampa que o irmo instalara para que ela pudesse chegar ao lava-loia, ele comeou a desfiar motivos pelos 
quais Bethany devia manter-se afastada de Ryan.
        Ela acabou por interromp-lo para perguntar:
        - Tens a certeza disso?
        - Tenho a certeza de qu?
        - De que ele troca de mulher mais vezes do que a maioria dos homens muda de camisa? Afinal, com que frequncia  que os homens mudam de camisa?
        Jake semicerrou os olhos.
        - No ests a levar a srio nada do que eu te disse.
        Ela ligou a cafeteira e guardou o caf num armrio inferior.
        - Falando em termos de experincia prpria, sabes alguma coisa a respeito do Ryan?
        - J tratei de vrios negcios com ele na loja. Pelo que ouvi dizer dele,  toda a experincia que quero ter.
        - Ou seja, diz-que-disse. - Ela suspirou, exasperada. - Jake, nove em cada dez vezes, os boatos no so verdadeiros. Desculpa se te digo isto, mas tu tambm 
j tiveste uma bateria de namoradas. Isso faz de ti um conquistador sem corao?
        - No me compares ao Ryan Kendrick. No temos nada de parecido.
        Bethany achava que eles eram parecidos em muitas coisas, mas aquela no era a altura para o dizer.
        -  verdade, a famlia dele  muito rica, e a tua no . Se ele se atreve a respirar de forma diferente, toda a gente repara e faz imenso barulho, enquanto, 
contigo, ningum presta muita ateno.
        - E queres chegar aonde?
        - Talvez ele no seja uma m pessoa, apenas vtima das ms-lnguas.
        Jake apertou a cana do nariz.
        - Muito bem - disse ele, mais calmo. - Percebo o que queres dizer. No o conheo muito bem e h uma hiptese de tudo o que eu ouvi ser um monte de mentiras. 
Partindo do mesmo pressuposto, tens de admitir que tambm no o conheces muito bem, e que as histrias podem ser verdadeiras.
        - Detesto quando vens com essa tua lgica. Preferia uma discusso. 
        Ele emitiu um som estranho, um sinal garantido de que estava prestes a zangar-se.
         - Est bem, est bem. Admito que no o conheo bem. Mas no  assim to simples, percebes? Ele parece ser um homem muito simptico.
        - Ele  encantador, admito, mas h uma diferena. Alguns homens no sabem o que  respeitar uma mulher, Bethany. S lhes interessa met-las na cama e nada 
os faz parar. No quero que sejas o novo sabor do ms dele.
        Ela fechou a porta do armrio com um pouco mais de fora do que queria.
        - Ele no  assim.
        - Ai, no? E como  que tu sabes?
        Antes que pudesse parar para pensar nas implicaes, Bethany respondeu:
        - Experincia pessoal.
        As palavras cortaram o ar como uma faca.
        - O que  que queres dizer com isso?
        Um calor escaldante apoderou-se da cara dela. Apeteceu-lhe retirar as palavras, mas era demasiado tarde.
        - Exactamente o que eu disse. Quando me trouxe a casa, limitou-se a dar-me um beijo de boas-noites. Isso no  propriamente um crime com direito  forca.
        - Ento, porque  que estavas a chorar?
        - Por nada que ele tivesse feito. O resto foi culpa minha.
        - O resto?
        Ela passou uma mo pelos olhos. No era a primeira vez que pensava que a sua vida teria sido muito mais simples se tivesse nascido com um fecho de correr 
na boca.
        - No foi nada, Jake. Apenas um beijo simples, educado, ao fim da noite, como j te disse. S que, bem, as coisas descontrolaram-se um pouco. Ele  muito 
bonito, eu gosto dele e h muito tempo que no saio com ningum. - Exasperada, deitou-lhe um olhar significativo. - Ser que tenho de te explicar porqu?
        As sobrancelhas de Jake uniram-se numa expresso carregada.
        - O que  que ests a dizer, que estavas interessada em mais e que ele recusou a oferta?
        - No o poria nesses termos. - Tentou pensar numa forma melhor de o dizer, mas no lhe ocorreu nenhuma. - Mais ou menos, acho eu. -  Suspirou e fechou os 
olhos. - Da forma mais correcta que possas imaginar, sim, ele recusou a oferta. J ests satisfeito, agora que conseguiste sacar todos os pormenores srdidos?
        O silncio abateu-se sobre a cozinha, um silncio terrvel, doloroso interrompido apenas pelos sons da cafeteira e pelo tiquetaque do relgio de parede. 
Enquanto esperava pela reaco do irmao, Bethany susteve o flego, sem saber muito bem o que esperar. Mesmo assim, foi apanhada de surpresa pela exploso indignada 
dele.
        - Ele recusou a oferta? Que raio  que ele pensa que ?
        Bethany quase sufocou com a gargalhada de espanto que lhe saiu da boca. Jake. Oh, ela adorava aquele irmo. De todas as reaces que poderia ter previsto, 
a indignao no era uma delas. Fixou o olhar na cara tensa dele.
        - Ele deu-te uma tampa? Dou cabo dele. Juro por Deus,  um homem morto.
        Ela riu-se de novo, desta vez um pouco histrica.
        - No acredito no que estou a ouvir. Primeiro, queres rach-lo ao meio porque achas que est a tentar abusar de mim. Agora, ameaas dar cabo dele porque 
no o fez?
        - Oh, querida. - O tom rouco de simpatia na voz dele apanhou-a em cheio e trouxe-lhe as lgrimas aos olhos.
        Com duas passadas, ele tinha atravessado a cozinha. Acocorando-se ao lado da cadeira dela, puxou-a para si. Era uma sensao simplesmente maravilhosa ter 
novamente os braos dele  sua volta, trazendo  memria inmeras ocasies da sua infncia em que ele a abraara assim. Jake. Ele sempre estivera presente. Infelizmente, 
agora que ela era mais velha, as mgoas eram demasiado profundas para solues fceis.
        - Meu Deus - murmurou ela entre soluos contra a camisa dele.
        -  Eu no te queria contar uma coisa destas. No tenho por hbito atirar-me aos homens. O que  que vais pensar de mim?
        - Que s de carne e osso - respondeu ele, a sua voz grave mas afectuosa. - E uma mulher muito tola que deita as suas prolas a porcos.
        - No sei se isso se aplica neste caso.
        - No interessa. Ele  um porco. Como  que se atreve a dar-te uma tampa? Ele  o qu? Cego?
        - Oh, Jake. Adoro-te.
        - E eu tambm te adoro, querida. Nunca sabers quanto.
        Ela encostou a cara ao colarinho da camisa do irmo para abafar os soluos. Como se chorar adiantasse alguma coisa. A agitao das ltimas vinte e quatro 
horas esgotara-lhe as defesas, pensava ela, e todos os seus sentimentos encontravam-se perigosamente perto da superfcie.
        Ele cerrou um punho e inspirou tremulamente:
        - Ah, Bethie. Eu disse-te que te mantivesses longe dele,  exactamente por isto. Sabia que acabavas por sair magoada.
        Sorrindo atravs das lgrimas, ela disse:
        - Acredites ou no, a culpa no  dele, Jake. Por favor, no te zangues com ele.
        - Eu nunca me zango, apenas ajusto contas.
        - No h conta nenhuma para ajustar. A srio, no h.
        - Para comear, fico mesmo lixado s por saber que ele te beijou. Se no estava preparado para levar as coisas mais longe, porque  que comeou? No h nada 
que magoe mais do que ser rejeitado.
        - Ele no me rejeitou. Foi o que eu pensei na altura, mas agora comeo a perceber que no foi isso. Foi apenas um beijo de boa-noite que se descontrolou, 
que o apanhou de surpresa tanto quanto a mim. Ele podia ter sido um estupor e tirado partido da situao, mas no o fez.
        A mo de Jake descontraiu-se, a palma e os dedos compridos envolvendo-lhe a cabea. No era de admirar que ela corresse o grave perigo de se apaixonar por 
Ryan Kendrick, pensou ela. Era to parecido com o seu irmo - grande e brusco, mas tambm desconcertantemente meigo. Por mais desgraas que lhe pudessem acontecer, 
teria sempre uma riqueza incalculvel na sua famlia.
        - Ests com ele mesmo entranhado, no ests? - murmurou Jake.
        - Acho que sim - admitiu ela. - Sei que  uma burrice, que no pode ser, mas o meu corao no me d ouvidos.
        - Ento, o que e que vais fazer, Bethany? Ela suspirou.
        - Manter-me longe dele. H outra hiptese? Ele passou por c esta noite para sugerir que fssemos amigos e apenas isso.  superfcie, soa muito bem. Divertimo-nos 
imenso ontem  noite, e acho que podamos continuar a faz-lo. Mas sinto-me demasiado atrada por ele para que pudesse resultar. Acabava por me apaixonar. Eu sei 
que sim.
        Jake segurou-lhe a cara entre as duas mos.
        - Quando nos apaixonamos, as coisas nem sempre acabam num desgosto. Com o homem certo, pode ser um bilhete s de ida para o paraso. Se vocs se deram to 
bem, quem  que pode dizer que ele no  o homem certo?
        - No ests a mudar de direco muito de repente? Ele alou uma sobrancelha.
        - Antes, eu no sabia a histria toda. Ele leva-te a sair, tu divertes-te imenso. Depois, ele traz-te a casa, tem-te ao seu dispor e recusa a oportunidade? 
- Jake encolheu os ombros. - Pelas minhas regras, isso diz muito sobre o carcter dele.
        - Sim - concordou ela melancolicamente.
        - Talvez lhe devesses dar uma oportunidade. Mas cuidado com o corao. No estou a dizer que no tens hipteses. Mas, pelo menos tenta conhec-lo melhor.
        - Para qu? So tantas as circunstncias contra mim, tantos possveis problemas. Nem sequer posso ter filhos.
        - Isso no ser um pouco prematuro? A questo dos filhos v-se depois.
        - Comigo no  assim. Era incapaz de dormir com ele com isso sempre na conscincia. No funciono dessa maneira.
        Jake fitou-a por um momento. Ela quase conseguia ver-lhe as engrenagens a trabalhar no crebro.
        - No. Claro que no. No sei o que  que me passou pela cabea. - Suspirou. - Seja com for, no quero sequer que tentes ter filhos. Demasiado perigoso. 
E aqueles medicamentos que tu tomas para diluir o sangue? O mais provvel era que tos tirassem durante a gravidez e arriscavas-te a ter outro coagulo.
        Pois. Segundo o que o Dr. Reicherton lhe dissera, era mais provvel que ela tivesse um aborto espontneo antes que os cogulos pudessem representar um risco.
        - Oh, Jake. Por mais importante que seja, a questo dos filhos  apenas uma parte do problema. Ele  um rancheiro. A vida dele anda  volta de actividades 
no exterior. Terrenos irregulares, vedaes. Como  que uma cadeira de rodas se encaixa num mundo assim? Eu seria um grande fardo, ali sentada numa cadeira.
        - O mundo dele pode ser modificado - referiu o irmo. Apontou para a rampa do lava-loia. - Com o dinheiro que ele tem, podia remodelar a casa toda.
        - A casa, sim. Mas no se pode remodelar milhares de hectares. Eu nunca poderia ser uma parte efectiva da vida dele. Para no falar, tu sabes, da questo 
mesmo importante - disse ela sem expresso.
        - O sexo,  o que queres dizer? - Os olhos de Jake encheram-se de pena. - Querida, no podes ter a certeza sem antes tentares.
        Bethany sentiu-se como se tivesse uma mo a apertar-lhe a laringe.
        - Pois no. Mas se corresse mal, o que  muito provvel, ele ficaria preso.
        - Tu no o prendias. Quem teria de tomar a deciso seria ele, no tu.
        - Nunca poderia resultar - murmurou ela -, no a longo praz. Um homem como ele? Podia ter qualquer uma. - Ela levantou as mos. -  tudo, Jake. Qualquer 
que seja o ngulo, s vejo problemas. Fico cansada s de pensar nisso.
        - Ah, Bethie - sussurrou ele. - Se gostas mesmo dele, porque no ser franca e deixar que ele decida? Se ele gosta de ti, todas essas coisas que te deixam 
to preocupada no lhe faro diferena.
        Conseguindo fazer um sorriso forcado, ela recostou-se e esfregou a cara.
        - No consigo acreditar que me ests a dizer para avanar.
        Ele riu-se e despenteou-lhe o cabelo. Depois, poisou-lhe as mos nos ombros. Em voz baixa, disse:
        - No julgues todos os homens pelo Paul. E s isso que eu estou a dizer.
        
        Vinte minutos depois de Jake sair, o telefone de Bethany tocou. Ela correu a atend-lo. Ento, quando estava quase a levantar o auscultador, mudou de ideias 
e deixou que fosse o gravador a atender.
        "Ol, Bethany,  o Ryan."
        Recostou-se na cadeira.
        "S queria ter a certeza de que est tudo bem. O teu irmo estava muito alterado. Espero que a minha presena em tua casa no te tenha causado muitos problemas. 
Em circunstncias normais, eu teria ficado, mas ele estava demasiado transtornado; achei que s poderia piorar as coisas." Parou e clareou a voz. "Deves estar longe 
do telefone." Outra pausa. Depois, suspirou e ela ouviu o som de pancadas. Imaginou-o a bater numa superfcie rgida com um lpis ou uma caneta. "Gostava mesmo de 
poder acabar a nossa conversa. E que tal telefonares-me amanh quando tiveres algum tempo? Vou andar de um lado para o outro o dia inteiro, mas posso verificar as 
mensagens."
        Deixou-lhe os nmeros de telefone de casa e do telemvel. Ento, num tom rouco que lhe provocou um aperto no corao, disse:
        "Eu sei que ests nervosa com a perspectiva de um novo encontro. Podemos falar sobre isso. Pode ser? No h nada que no possamos resolver, Bethany. Nada. 
S te peco que me ds uma oportunidade. Prometo que no te arrependes." Hesitou e acabou por acrescentar: "No te digo adeus. Prefiro um at logo."
        Quando desligou, Bethany apercebeu-se de que estava a conter  a respirao e expirou. Ryan. Fechou os olhos, as palavras dele repetindo-se na sua cabea: 
"S te peco que me ds uma oportunidade."
        
       Ryan estava a abrir uma lata de sopa para o jantar quando bateram  porta. Olhando para o relgio da cozinha com a sua moldura de cobre viu que j passava 
das nove. Pensando se haveria algum problema com uma das guas com crias, limpou rapidamente as mos e foi abrir.
        No poderia ter ficado mais surpreendido quando viu que a visita era nada mais, nada menos do que Jake Coulter.
        De p com as pernas afastadas e com as mos nos bolsos do bluso de cabedal castanho, Jake olhou-o intensamente antes de dizer o que o levara ali:
        - Temos de conversar.
        Ryan abriu mais a porta e recuou, indicando-lhe que entrasse. Assim que o fez, Jake estudou a sala com olhos de um azul intenso que Ryan achou muito parecidos 
com os de Bethany, a nica diferena sendo o facto de os dela reflectirem doura enquanto os do irmo eram afiados como lminas. A ateno de Jake deteve-se nos 
jornais largados no tapete cor de marfim ao lado do cadeiro.
        - Eu estava a preparar qualquer coisa para comer - disse Ryan, indicando o caminho at  grande cozinha adjacente. - Posso oferecer-te uma bebida?
        - O que  que tens?
        - Coca-Cola, gua com gs, cerveja. - Ainda pensou em oferecer-lhe um pouco do vinho laxante de Hazel Turk, mas resistiu ao impulso - Tambm tenho bebidas 
mais fortes. Diz-me o que preferes.
        - Uma cerveja est muito bem. - Jake pendurou o bluso nas costas de uma cadeira e sentou-se  mesa de carvalho. Olhando de Ryan para a parede de tijolo 
que inclua a lareira da cozinha, disse: - No  o que eu esperava.
        - Ah, sim? E o que  que esperavas?
        - Qualquer coisa mais janota, acho eu. Bela casa, mas no  to elaborada como pensei.
        Ryan abriu o frigorfico.
        - Somos rancheiros, atolados em bosta de vaca todos os dias. As coisas requintadas so para a gente requintada e para a igreja aos Domingos.
        Batendo com a bota no mosaico, Jake disse:
        - Apenas um bom rapaz,  isso?
        Ryan tirou duas cervejas de uma prateleira e fechou a porta com o cotovelo. Depois de entregar uma das garrafas a Jake, sentou-se do outro lado da mesa. 
Abriu a sua garrafa e disse:
        - Vieste at c para me dizer isso, Jake?
        Jake atirou a tampa da garrafa ao ar, apanhou-a na descida com um movimento rpido do pulso e poisou-a na mesa. Bebeu um gole, assobiando depois de engolir, 
e recostou-se, os seus olhos cintilando ao encarar o olhar interrogativo de Ryan.
        - Estou aqui para falar contigo sobre a minha irm.
        A espera de o ouvir dizer que se mantivesse afastado de Bethany, Ryan ficou tenso.
        - Ento, podes comear.
        Jake olhou pensativamente para as letras douradas do rotulo da garrafa.
        - Ela mata-me quando descobrir que vim c. Meto-me na vida dela provavelmente mais do que devia, e isto  mesmo o que se chama meter o nariz onde no se 
 chamado.
        - Nada do que possas dizer poder afastar-me da Bethany. S ela pode decidir isso e eu farei tudo ao meu alcance para a fazer mudar de ideias.
        Um musculo contraiu-se na cara de Jake.
        - E amizade  tudo o que tu tens em mente.
        Os olhos daquele homem eram muito mais aguados do que lminas, decidiu Ryan. Cortavam-no como raios laser. Uma coisa era dizer a Bethany que tudo o que 
ele esperava era amizade, outra, completamente diferente, era convencer o irmo dela.
        - No, amizade no  tudo o que tenho em mente - admitiu ele. - Para que saibas, todavia, se lhe disseres que eu te disse isto, eu nego.
        - Ou seja, mentiste-lhe descaradamente.
        - Se menti ou no, depende completamente da noo que cada um tem do conceito de amizade.
        - Nada de jogos. Amizade e intimidade so coisas completamente diferentes.
        - Dizes tu. Eu perteno a uma escola diferente e acredito que todas as relaes precisam de um alicerce slido, e o alicerce mais slido  a amizade. Algo 
que d a Bethany e a mim uma base onde poderemos construir o que quisermos mais tarde, mais tarde sendo a palavra-chave nesta frase. Ela precisa de tempo. Eu percebo, 
e estou disposto a dar-lho.
        - Resumindo, pretendes ter uma relao ntima com a minha irm e ests a usar a histria da amizade para lhe dares uma falsa noo de segurana.
        - Essencialmente. - Ryan estava praticamente  espera que Jake se levantasse da cadeira ao ouvir aquilo. Em vez disso, o outro apenas assentiu.
        - E depois disso?
        - Desculpa? Qual  exactamente a pergunta?
        - Depois de a seduzires, o qu? No quero que ela se magoe, Kendrick. Ela no  do gnero que podes usar e deitar fora, no se tiveres alguma decncia.
        Ryan tocou com a ponta de um dedo na superfcie da garrafa coberta de condensao.
        - No tenho qualquer inteno de a usar e deitar fora, Jake. Estou preparado para ir at ao fim.
        Jake riu-se amargamente.
        - At ao fim? Diz-me, isso inclui votos e at que a morte vos separe? Ou ds  sola quando comeares a sentir-te chateado?
        - Votos e at que a morte nos separe. Jake no tentou esconder a sua surpresa:
        - Assim, sem mais nem menos.
        - No, no  "sem mais nem menos". Estou apaixonado por ela.
        - S a conheceste h uma semana.
        - Sei muito bem quando  que a conheci e ainda no passou uma semana. O tempo no tem nada a ver. - Ryan suspirou e encolheu os ombros. - No consigo explicar 
o que quero dizer com isto, portanto no perguntes. Apenas sei,  tudo.
        - Chama-se atraco fsica.
        - Eu sei o que  atraco fsica. Isto  mais do que isso. Ri-te, se quiseres, mas ela  a tal.
        - s sempre assim to rpido a tomar decises a respeito de mulheres?
        - Nunca tive de as tomar. A Bethany  diferente.
        - Como?
        -  diferente. - Uma imagem do rosto dela passou-lhe pela mente e ele sorriu. - Qualquer homem com olhos pode ver que ela  diferente, Jake. - Ergueu uma 
sobrancelha. - Por que outro motivo estarias tu aqui? Sabes exactamente como ela  vulnervel. E ests cheio de medo.
        - Sim, estou. Tenho medo que a magoes.
        - No o farei.
        Jake descontraiu-se na cadeira.
        - Ests mesmo apanhado por ela, no ests?
        - Podes chamar-lhe isso. Sei que ests preocupado, e entendo. Mas tens a minha garantia pessoal de que no  necessrio. Ela fica em boas mos.
        - H coisas que tu no sabes, coisas que podem fazer-te mudar de ideias.
        - Duvido.
        Jake debrucou-se, poisando os braos nos joelhos.
        - Faz-me um favor e ouve-me. Se nada do que eu te disser nos prximos minutos te fizer mudar de ideias, muito bem, mas no caso de isso acontecer, faz um 
favor a Bethany e vai  tua vida agora, antes de lhe dares um desgosto. Ela j sofreu muito uma vez, Ryan. Precisou de quase dois anos para recuperar.
        - Ela ainda no recuperou. Acredita. Ela ainda no recuperou. Jake concordou com um aceno de cabea, bebeu um pouco de cerveja e praguejou entre dentes:
       - Ou seja, ela falou-te sobre ele?
        - No. Apenas me disse um nome, e s porque eu insisti.
        - Pouco depois do acidente, ele comeou a andar com uma mida e era a melhor amiga da Bethany desde o jardim-de-infncia.
        - Meu Deus. - Ryan sentiu um aperto no estmago. - A melhor amiga?
        - Isso mesmo. Em termos de traio, foram duas pancadas. Antes de a Bethany ser levada para Portland para ser operada, os dois foram v-la ao hospital todas 
as noites, a fingir que se importavam com ela enquanto j andavam enrolados. A Nan engravidou e o Paul casou-se com ela em Reno sem avisar a Bethany. Vergonha e 
cobardia. O estupor fez um belo trabalho. No conseguia encar-la e admitir o porco que era. Ela teve de ficar a saber pelos jornais. Ali deitada, presa ao raio 
da cama, ainda com o anel de noivado que ele lhe tinha dado, e viu o anncio do casamento num jornal de c. Eu estava l quando ela descobriu. Ficou branca como 
a cal.
        - A melhor amiga? Grande amiga.
        - Exactamente. Algum em quem ela confiara toda a vida. O pior foi que o casamento no se aguentou trs meses. No sei o que e que magoou mais a Bethany, 
o Paul t-la largado ou a traio da Nan. Do sei que foi o tipo de dor que se arrasta, demasiado profunda, durante anos. Ela limitou-se a ficar a olhar para o vazio 
com uma expresso terrvel nos olhos e a tirar o anel. Depois disso, parecia, que raio, nem sei que palavra usar. Diminuda, no sei, como se a vida a tivesse deixado.
        Silncio. Ryan imaginou novamente a cara dela e aqueles olhos grandes que revelavam todos os pensamentos e sentimentos dela. Esperava sinceramente nunca 
encontrar aquele Paul. Enfiava-lhe um murro nos queixos.
        - No lhe vou partir o corao outra vez, Jake. Se  s isso que te preocupa, podes ficar descansado. No sou perfeito e  certo que hei-de fazer alguma 
asneira, mas mago-la dessa forma no ser uma delas.
        Jake olhou-o fixamente.
        - Acredito sinceramente que seria fatal.
        - Se h uma coisa que posso dizer com certeza absoluta a respeito dos homens da minha famlia  que somos leais. No viramos as costas s nossas mulheres 
e no largamos a correr como gatos escaldados quando as coisas no correm bem.
        No te preocupa o facto de ela talvez no poder apreciar uma vida sexual normal? - perguntou Jake directamente. - Ela no sente nada em certas partes do 
corpo que so mais ou menos vitais para o prazer de uma mulher. Ryan bebeu mais um gole de cerveja antes de responder.
        - A princpio, fiquei um pouco preocupado com o sexo. Tenho de admitir.
        - E agora?
        - Agora, no. - Ao ouvir aquela resposta vaga, uma expresso irritada surgiu nos olhos de Jake. Ryan fez um esforo para no sorrir. - A minha me  enfermeira. 
Fiquei a saber algumas coisas muito interessantes com ela, nomeadamente que a ausncia de sensao no  um dobre a finados. Existe uma qumica fantstica entre 
mim e a Bethany e isso e mais do que muita gente tem no princpio de um casamento. Se surgirem problemas, encontraremos uma forma de os resolver. Estou disposto 
a ser inventivo se for necessrio.
        - Inventivo. - Jake curvou o lbio. - E ds-te por satisfeito com isso?
        Ryan suspirou.
        - Somos ambos homens sem compromissos na casa dos trinta. Podes olhar-me na cara e dizer que bom sexo com algum que no amas te deixa feliz e satisfeito 
depois, sem desejares mais alguma coisa?
        - No, claro que no.
        - Eu tambm no e estou farto de desejar mais alguma coisa. Sinto-me feliz e satisfeito quando estou com a tua irm. Isso faz algum sentido?
        - Sim, faz muito sentido - respondeu Jake.
        - Da forma como eu o vejo, se algumas coisas na nossa vida pessoal no se encaixam nos moldes habituais, achas que me importo? Se estivermos felizes juntos, 
e satisfeitos, o que  que interessa como  que o fazemos?
        - Nada, acho eu. - Jake sorriu ligeiramente. - E se ela no puder levar uma gravidez at ao fim? As probabilidades so fortes. O cirurgio disse-lhe sem 
margem para dvidas que no devia ter filhos.
        Ryan foi apanhado de surpresa. Sabia de mulheres em estado de morte cerebral que tinham levado a gravidez at ao fim, e uma mulher no podia ficar muito 
mais paralisada do que isso.
        - Ela no pode ter filhos? A paralisia no interfere com a fertilidade. Tenho lido umas coisas sobre o assunto na Internet. Nunca vi qualquer referenda a 
isso.
        Jake encolheu os ombros.
        - O Dr. Reicherton, o cirurgio dela, disse que o mais provvel seria um aborto espontneo. Problemas especiais, no sei. A questo , essa  uma possibilidade. 
Como  que a encaras?
        - Sou capaz de viver com isso.
        - Sempre pensei que um homem com todas as tuas terras e dinheiro havia de querer ter filhos.
        - Claro que quero, mas estou preparado para adoptar se for preciso.
        - No digas isso s por dizer. A minha irm pode nunca ter filhos. E se eu tivesse voto na matria, preferia que nem sequer tentasse. Depois da ltima operao, 
apareceu-lhe um cogulo numa das pernas. Uma coisa muito desagradvel que deixou a veia permanentemente estreita com  fibras residuais do cogulo que interferem 
com umas vlvulas quaisquer.  provvel que lhe retirassem a medicao durante a gravidez, aumentando o risco de um segundo cogulo. Podamo-la ter perdido com o 
primeiro.
        - E garantido que no a vou engravidar se um mdico me disser que  perigoso. Mas tenho de referir que o exerccio e um bom tnus muscular melhoram bastante 
um problema como esse. Se ela comear um bom programa,  provvel que no precise de medicamentos.
        - Exerccio? - Jake suspirou e revirou os olhos, num gesto to idntico ao da irm que Ryan quase sorriu. - Pois. Ela comea j amanh. Umas corridas, que 
tal?
        - Isso, continua. Arma-te em esperto. Como te disse, tenho andado a ler umas coisas. Sabias que h passadeiras especiais equipadas com suportes onde ate 
os tetraplgicos podem caminhar normalmente e manter as pernas tonificadas?
        - Sim, e tem preos iguais aos da dvida nacional.
        - Eu posso pagar - disse Ryan em voz baixa. Jake suspirou.
        - Ou seja, j pensaste em tudo e continuas a querer avanar. Ryan riu-se.
        - A questo  essa? Estavas a ver se me assustavas? Esquece, Coulter. No me podes dizer nada que me assuste assim tanto, nada que eu no descubra uma forma 
de resolver. Tambm te posso recordar que tenho muito dinheiro. Uma das principais razes pelas quais as pessoas deficientes no podem ter uma vida mais normal, 
mais activa,  o facto de o seguro de sade no o permitir e no disporem de recursos financeiros com os quais possam modificar o seu ambiente.
        Jake semicerrou um olho.
        - E se o Estado no a aprovar para me adoptiva?
        - Existem agendas privadas, e, como te disse, o dinheiro no  problema. Seremos capazes de adoptar, garantido.
        - E como  que a tua famlia vai reagir a isso? Aceitam uma criana adoptada?
        - Os meus filhos sero amados, adoptados ou no.
        - Ests mesmo a pensar a srio em casares-te com ela - disse Jake.
        - Claro que sim. Muito a srio. 
        Depois de lhe estudar os olhos durante um longo momento, Jake acabou de beber a cerveja.         - Tens mais uma destas a dentro?
        - A viagem at  cidade ainda  longa. Tens a certeza?
        - O meu limite so duas quando vou conduzir. Sim, agradecia mais uma.
        Ryan foi buscar mais uma rodada. Quando j estava novamente sentado na cadeira, Jake disse-lhe:
        - Parece que fizeste os trabalhos de casa e sabes no que te vais meter.
        - Isso mesmo.
        - Sendo esse o caso, s h mais uma coisa que tenho para te dizer, Kendrick. Depois de a dizer, talvez possamos tentar ser amigos.
        Ryan encolheu os ombros.
        - At aqui, no gosto particularmente de ti, mas j aconteceram coisas mais estranhas.
        Jake sorriu.
        - Tambm no gosto muito de ti, mas a minha irm gosta. Acho que o voto dela  que tem peso. Eu saio de campo. Acabaram-se as interferncias. Ficas com o 
campo todo  tua disposio. Mas tens de entender uma coisa. - O sorriso desapareceu e um brilho perigoso instalou-se-lhe nos olhos. - Se a magoares, se a fizeres 
chorar uma lgrima que seja, ters de te haver comigo. E, prometo-te, quando eu acabar, hs-de lamentar o dia em que o teu pai olhou para a tua me com um brilhozinho 
nos olhos.
        
        
     Captulo Oito
        
        
        Tinham passado nove anos desde que Bethany fora ao jantar da Associao de Rancheiros de Crystal Falls, mas a ocasio revelou-se bastante idntica quilo 
de que se recordava. Continuava a ser realizado no Rancher's Coop Grange, um salo cavernoso nos limites da cidade no qual mesas a perder de vista eram instaladas 
em redor de uma pista de dana central. Durante a refeio, o presidente da associao competia com o barulho de loias e talheres e proferia um longo discurso intercalado 
com interferncias do microfone e piadas secas e que sempre arrancavam risos educados entre a assistncia.
        Enquanto comia, Bethany trocava olhares divertidos com o seu irmo de vinte e oito anos, Hank. O par de Jake, um conhecimento recente que dava pelo nome 
de Muriel, era uma novidade. A ruiva era bonita de uma forma vistosa e voluptuosa, sem dvida o que chamara a ateno de Jake, mas o seu gosto para se vestir era 
terrvel. Na noite em questo usava um vestido justo de lantejoulas que lhe retratava as curvas em verde-esmeralda. O decote descia to baixo que o peito ameaava 
saltar para o prato sempre que ela se inclinava para comer.
        Os homens da famlia Coulter e a me de Bethany observavam num fascnio horrorizado. Bethany mal conseguia manter uma expresso sria. "Pobre Jake." Duvidava 
que ele voltasse a convidar outra mulher para um primeiro encontro em que a famlia estivesse presente. Bethany e a me usavam vestidos escuros e discretos: o de 
Bethany era de malha, o de Mary de uma l leve.
        Oh, meu Deus! - Muriel quase saltou da cadeira quando viu a banda chegar. - Eu adoro msica ao vivo. Vamos danar, Jake?
        O olhar de Jake disparou como uma bala para o peito saltitante da "amiga", e a cara dele ganhou um tom interessante de castanho polido com matizes de cor 
de vinho.
        - Acho que eles tocam essencialmente msica country. No deve ser bem o teu gnero.
        - Oh, eu gosto de todos os tipos de dana. Rpida, lenta, e tudo o que fica pelo meio.
        O sorriso de Jake foi tenso.
        - Fantstico.
        - Guarda pelo menos uma dana para mim, Muriel - disse Hank os seus olhos azuis a brilhar.
        O olhar que Jake lhe deitou poderia ter pulverizado granito. Naquele momento, Bethany viu por que motivo tanta gente em Crystal Falls acreditava que o seu 
irmo mais velho era um encantador de cavalos. Os seus olhos tinham um azul to intenso em contraste com o tom escuro da pele que o olhar possua uma chama fria 
que quase queimava.
        Bethany baixou a cabea e fingiu estar muito interessada no seu bife. Assim que o irmo desviou o olhar, deu uma cotovelada a Hank.
        - V se te portas bem.
        - Ento, diz-nos, Muriel - interveio diplomaticamente a me de Bethany, uma morena madura com olhos azuis meigos e um sorriso caloroso. - Como  que conheceste 
o nosso filho?
        Muriel bateu as pestanas cobertas de rmel. A expresso vaga e vazia daqueles olhos verdes e bonitos no se devia exclusivamente  presena de lentes de 
contacto.
        - Qual deles?
        Mary deitou um olhar espantado ao marido, que estava sentado ao lado dela. Uma expresso divertida danava nos olhos azuis de Harv Coulter. Ele encolheu 
os ombros, as suas feies cinzeladas amaciando-se num sorriso enquanto servia mais vinho  mulher.
        - Eu, Muriel - murmurou Jake. - Conheceste o Hank e os meus pais esta noite.
        - Oh! - Muriel sorriu e olhou novamente para Mary. - O Jake e eu conhecemo-nos no Safeway. Ele estava a apalpar os abacates.
        - Ah! - Mary deitou um olhar interrogativo ao filho mais velho. - Estou a ver.
        - Nunca consegui escolher bons abacates - desenvolveu Muriel.
        -  Portanto, pedi-lhe que me ensinasse. Quando demos por ns, o monte todo desmoronou-se. Abacates por todo o lado! Quando acabmos de arrumar aquilo, uma 
coisa levou  outra e ele pediu-me o meu nmero de telefone. - Piscou o olho a Jake. - Eu no acreditava que ele me telefonasse. Mas telefonou, e aqui estou eu.
        - O que ser que ela tinha vestido? - murmurou Hank a Bethany.
        - Aposto vinte em como o Jake ficava cego de cada vez que ela se inclinava.
        Bethany levou o guardanapo aos lbios, fazendo um esforo para no se rir.
        - Comporta-te - sussurrou ela de novo.
        - Perdeste a graa - queixou-se Hank.
        Quando a mesa foi levantada e a banda comeou a tocar a primeira cano, todos os presentes na mesa dos Coulter ficaram aliviados quanto ouviram Jake convidar 
Muriel para danar. Enquanto o par se dirigia para a pista de dana j apinhada, Harv riu-se e disse:
        - Aposto que o Jake h-de pensar duas vezes antes de voltar a aproximar-se de uma seco de produtos frescos.
        - Ela  simptica - disse Mary com a sua habitual simpatia. - Um bocadinho tonta, talvez, mas no  culpa dela.
        Harv sorriu e piscou o olho ao filho:
        - No se pode dizer que esconda o brilho que tem dentro dela.
        Hank, que no levara par, pediu licena e foi convidar uma loira de uma mesa prxima para danar. Depois de ver o seu filho alto e moreno afastar-se, Harv 
olhou para a sua mulher:
        - Ento, querida? Queres polir a fivela do meu cinto? Mary franziu o cenho.
        - Tens a certeza de que podes danar?
        - O mdico disse que o stress  que me vai matar, no um pouco de exerccio  moda antiga. Fao exerccio todas as manhs. Qual  a diferena?
        Mary sorriu e olhou para Bethany.
        - Ficas bem, querida? No me agrada nada deixar-te aqui sozinha.
        - No seja tonta, me. Eu gosto de ficar a ver.
        Quando os seus pais foram para a pista, Bethany deixou cair o sorriso. Olhou para as cadeiras vazias  volta da mesa, resignando-se a mais uma noite de tdio. 
Teria preferido ficar em casa com as suas tintas e os seus pincis.
        Pacincia. Virou a cadeira para ver melhor os pares que danavam, as pontas dos dedos tamborilando ao compasso da msica. Subitamente, a sala ficou escura 
e uma esfera rotativa ganhou vida diante dela, projectando espirais de luz colorida no cho. Bethany observou a multido. Os seus pais tinham desaparecido, mas Jake 
era to fcil de encontrar como se estivesse a danar sob um holofote.
        Quando a msica seguinte comeou, ela viu um vaqueiro alto de cabelo escuro chegar a pista de dana com uma morena debaixo do brao. A forma como eles se 
moviam despertou algo, os passos soltos e o movimento fluido dos ombros largos eram familiares. Ryan. Vestido de preto com a camisa aberta no colarinho deixando 
ver um pouco do peito bronzeado, era uma figura to atraente que ela sentiu o corao bater-lhe contra as costelas.
        Com o cabelo a brilhar como nix polido, ele baixou-se para ouvir qualquer coisa que a mulher estava a dizer. A cara enrugou-se num sorriso que revelou dentes 
brancos. Depois, inclinou a caneca para trs e lanou uma gargalhada, fazendo-a girar no crculo do seu brao at ficar de frente para ele quando comearam a danar. 
Faziam um belo par, ele to alto, musculado e moreno, ela to delicada e bonita. O ritmo vivo da msica exigia rapidez de ps e eles estavam  altura, as botas pretas 
de cerimnia dele apequenando os saltos altos dela enquanto Ryan descrevia um crculo, puxando-a depois para os seus braos num rodopio. Bethany percebeu que aquela 
no era a primeira vez que danavam juntos, antes pelo contrrio.
        Concentrou o seu olhar na mulher, registando a blusa e a saia de seda cor de vinho, rodada e girando graciosamente  volta das pernas bem desenhadas. Quando 
Ryan poisou uma mo nas costas da mulher, Bethany no pode deixar de reparar como os dedos se abriam at  curva da anca. A silhueta delicada dela acentuava o volume 
musculado dele, o par constituindo um estudo de contrastes.
        Ela no queria acreditar no quanto a incomodava v-lo a danar com outra mulher. E no era pouco. Fechou as mos em punhos, mas abriu-as quando se apercebeu 
do que estava a fazer. Que diferena  que lhe fazia se ele tinha aparecido com outra pessoa?
        Uma outra pessoa muito bonita.
        Uma sensao desagradvel preencheu-lhe o peito. Tentou desviar o olhar e observar os outros pares, mas os seus olhos permaneciam fixos em Ryan. Como lhe 
apetecia ser a mulher nos braos dele. Teria dado praticamente qualquer coisa para ter um par de pernas operacionais e poder danar com ele at de madrugada.
        Quando a cano acabou e ele se virou para levar a sua parceira para fora da pista, Ryan estudou as mesas, o seu olhar passando por Bethany e depois voltando 
atrs para se fixar nela com uma intensidade rutilante. Ainda que a luz no fosse muita, ela viu o queixo contrair-se. Ryan virou na direco dela, puxando a mulher 
atrs dele  medida que abria caminho na multido.
        A ltima coisa que Bethany queria era conhecer o par de Ryan Kendrick. Pensou em fugir e esconder-se na casa de banho, mas percebeu que seria um comportamento 
infantil. Em vez disso, obrigou-se a sorrir.
        - Ol! - disse ela quando eles se aproximaram.
        A boca firme de Ryan contraiu-se nos cantos e depois inclinou-se num sorriso que a deixou com medo de que os seus ossos se derretessem. Ele manteve o brao 
 volta dos ombros esguios da mulher at parar diante da mesa.
        - Bethany. - O seu olhar procurou-a lentamente. - No fazia ideia de que vinhas esta noite.
        A mulher, ainda mais bonita vista de perto do que parecera  distncia, sorriu amistosamente, os seus olhos grandes e castanhos no revelando qualquer vestgio 
de animosidade. Olhou para Ryan, expectante. Percebendo que ela estava a olhar, ele disse:
        - Maggie, gostava de te apresentar uma grande amiga minha, Bethany Coulter. Bethany, a mulher do meu irmo Rafe, Maggie.
        Bethany sentiu as bochechas a arder enquanto apertava a mo  cunhada de Ryan:
        -  um prazer, Maggie.
        - O prazer  todo meu. - Os olhos dela brilharam, calorosos. - O Ryan disse-me que gostas de ir aos concursos de tractores.
        - Sim, bastante.
        - Eu tambm. Talvez possamos ir os quatro ao prximo. Bethany olhou para Ryan.
        - Gostava muito - acabou ela por dizer.
        - Ento, est combinado? Vai ser divertido. Eu peo  me do Rafe que fique com os midos e fazemos um programa completo. Gostas de mexicana?
        Bethany precisou de algum tempo para perceber o que ela queria dizer.
        - Adoro mexicana, quanta mais picante, melhor. Maggie assentiu com uma expresso decidida.
        - Vou gostar de ti. Mais uma fantica de feijao e tortilla! Descobrimos um restaurante fantstico. O ambiente  simplesmente incrvel, muito descontrado 
e amigvel.
        - Se deres a Maggie uma boa dose de tortilla cheia de gordura e uma tigela enorme de molho bem picante, ela acha que o lugar tem um ambiente fabuloso - disse 
Ryan.
        Maggie deu-lhe uma cotovelada nas costelas.
        - No lhe ds ouvidos, Bethany. A verdade  que ele no era capaz de reconhecer comida mexicana autntica nem um bom ambiente mesmo que fossem ter com ele 
e lhe mordessem uma perna.
        Ryan gemeu e apoiou uma mo sobre o estmago.
        - Coitadinho. - Os olhos de Maggie brilharam. - No h nada mais triste do que ver um homem crescido e forte tremer de medo perante a ideia de comer uma 
enchilada. - Sorriu a Bethany. -  capaz de fazer frente a um touro de quinhentos quilos s com as mos, mas larga a  fugir se v um frasco de molho picante.
        Bethany no pode deixar de rir. Maggie era deliciosa, e ela estava encantada com a provocao constante entre os dois. Recordava-lhe a forma como ela e os 
irmos costumavam picar-se.
        Maggie virou-se e puxou ligeiramente a manga da camisa de Ryan.
        - Vou buscar o meu marido antes que comece a prxima cano. Prometeu que danava comigo. - Voltou-se para Bethany e estendeu-lhe uma mo delicada. - Gostei 
muito de te conhecer, Bethany. Por favor, convence o Ryan a levar-te ao Rocking K em breve. Livramo-nos dos homens e fazemos um lanche  moda antiga.
        - Com todo o prazer - disse Bethany, e estava a ser sincera. Era fcil gostar de uma pessoa como Maggie Kendrick.
        Enquanto ela se afastava, Bethany olhou interrogativamente para Ryan, que sorriu preguiosamente, sentando-se numa cadeira diante dela, os braos cruzados 
e apoiados no espaldar. Depois de ficar a olhar para ela at a deixar com vontade de gritar, disse:
        - Ol. - A sua voz uma carcia rouca que parecia envolv-la. - No estava  espera de te encontrar aqui.
        - Parece que, afinal, o mundo  pequeno. - Pensou que tinha sido uma observao estpida e que devia ter dito outra coisa qualquer, mas o qu? Quando ele 
a olhava daquela maneira, o seu crebro parecia ficar paralisado.
        Ele assentiu, o seu olhar provocando o dela enquanto a boca se inclinava noutro sorriso lento.
        - Demasiado pequeno para que consigas evitar-me.  isso que ests a pensar?
        Naquele momento, ela estava a ter dificuldades em pensar fosse o que fosse.
        - Ficas assim to nervosa com todos os homens? - perguntou ele inesperadamente.
        - Nervosa?
        O olhar dele desceu para as mos de Bethany, apertadas, com os ns dos dedos brancos, no colo.
        - Eu no mordo. - Um brilho quente introduziu-se nos olhos dele. - Bem, nunca com tanta fora que magoe. - Estendeu o brao para lhe tocar na ponta do nariz. 
- O que  que ests a fazer, aqui sentada e sozinha?
        - Eles no demoram. Agora, esto todos a danar. Ryan olhou para a mesa vazia.
        - Isto no deve ser muito divertido.
        - Eu estou bem. - Encolheu os ombros. - Os meus dias de danarina acabaram, mas isso no quer dizer que os outros no se possam divertir.
        Ele observou-a pensativamente.
        - Aposto que adoravas.
        - Adorava o qu?
        - Danar.
        Recordaes. Bethany tentava no pensar em coisas que j no podia fazer, mas no poder danar era difcil, especialmente quando dava por si sentada junto 
a uma pista de dana.
        - Sim, adorava - admitiu ela. - O meu pai ensinou-me a danar a valsa quando tinha cerca de sete anos e, desde ento, fiquei viciada. Sempre que amos a 
alguma festa com msica, eu deixava-o doido, e os meus irmos tambm, a pedir que danassem comigo. Gostava de todos os gneros, rpida ou lenta, no fazia diferena.
        Ele voltou as palmas das mos para cima e olhou para as linhas nelas marcadas. Quando voltou a olhar para ela, disse:
        - Sentes muito a falta disso?
        Normalmente, Bethany dizia mentiras diplomticas, mas era-lhe difcil seno impossvel, dizer-lhe algo que no fosse a verdade.
        - Sim, muito. - Tentou fazer aquilo que esperava ser um sorriso animado. - H muitas coisas das quais tenho muitas saudades.
        __A amizade tem de ser uma delas?
        Ela riu-se. Foi mais forte.
        - Algum j te disse que s mais teimoso do que um Pit Bull depois de cravares os dentes nalguma coisa?
        - As palavras da minha me, quase textual. - Deixou cair as mos, encolhendo os ombros. - O que  que posso dizer? Fiz-te uma proposta e tu ainda no me 
deste uma resposta. Podemos ser amigos ou no?
        - Ainda estou a pensar no assunto.
        - Enquanto pensas, posso fazer companhia? Ela riu-se de novo.
        - s impossvel.
        - Pensa s no quanta nos podemos divertir.
        O brilho nos olhos dele era pleno de promessa.
        - A fazer o qu? - No resistiu ela a perguntar.
        - As possibilidades so ilimitadas.
        - Nunca ouvi uma evasiva to boa.
        - Bem, se tudo o resto falhar, sempre podes ensinar-me a pintar. Ao ouvir aquela sugesto, Bethany riu-se at ficar com os olhos rasos de lgrimas. Estava 
quase a recuperar a compostura - quase -, mas olhava para aquelas mos enormes e comeava a rir outra vez.
        - Sinto-me ofendido. Ela enxugou os olhos.
        - Desculpa. A srio. Tenho a certeza de que podes aprender.  s que... - ficou com a voz sufocada pelas gargalhadas reprimidas. - No sei, mas no me pareces 
o gnero de pessoa com a pacincia necessria.
        Ryan sorriu, pensando para consigo que tudo dependeria do que ele usasse como tela. Aquela pele impecvel de marfim certamente o manteria interessado. Comearia 
por pintar as ptalas de um malmequer em redor do umbigo dela e depois continuaria.
        - Quero uma resposta sincera - disse ele, debruando-se sobre a cadeira para a olhar nos olhos. - Agora, neste preciso momenta, no ests a divertir-te?
        O sorriso dela desapareceu e uma expresso sombria, preocupada, surgiu nos seus olhos.
        - Sim.
        - Muito bem. Sem fazer nada, divertimo-nos imenso. Imagina s o quanto nos poderamos divertir se pensssemos nisso.
        - Provavelmente, muito. Ele assentiu e levantou-se.
        - Pensa nisso.
        Ela ficou de cenho franzido, para no dizer que parecia abandonada e um pouco perdida quando ele se afastou. Sabendo que no demoraria a voltar, Ryan sorriu 
ao abrir caminho entre os restantes, dirigindo-se para a zona da sala onde a banda estava a tocar.
        Todos os membros da sua famlia tinham voltado a mesa e tinham partido de novo para danar quando Bethany viu Ryan novamente na multido, de regresso  mesa 
dela. A fivela prateada do cinto brilhava na luz difusa com cada movimento das ancas estreitas. Era um homem to bonito que ela se permitiu um breve momento de devaneio, 
fingindo que era um desconhecido que no sabia da sua paralisia e que se aproximava para a convidar para danar. No. Se ela ia sonhar, porque no ir at ao fim 
e sonhar que podia andar?
        Ele parou, sorriu lentamente de uma forma que lhe fez disparar a pulsao e perguntou:
        - D-me a honra da prxima dana, miss Coulter?
        Por um instante, Bethany sentiu-se como se ele tivesse acabado de lhe aplicar um soco no plexo solar. Ele no tinha noo do quanto ela gostaria de danar 
com ele? s vezes, quando se permitia pensar nos anos de limitao que tinha pela frente, sentia-se como um rato numa gaiola.
        - Adorava - respondeu ela com ligeireza.
        - Esperava que a resposta fosse essa.
        Ryan colocou-se atrs dela e agarrou na cadeira. Ao ver que ele se dirigia para a sada da frente, Bethany olhou por cima do ombro.
        - O que  que ests a fazer?
        Ele sorriu mais uma vez e piscou-lhe o olho.
        - Espera e j vs.
        Quando estavam no vestbulo, que fazia as vezes de bengaleiro, ele comeou a remexer nos casacos pendurados ao longo da parede.
        - Vamos sair? - perguntou ela.
        - Sim.
        - No sabes onde tens o teu casaco?
       - No.
        - Bem, se ests  procura do meu, est na outra ponta.
        Ele voltou com uma camisola preta e grossa, olhou-a demoradamente e disse:
        - Um bocado grande, mas serve. - Voltou-se, aproximou-se de Bethany e comeou a introduzir-lhe os braos nas mangas. - O teu casaco era demasiado volumoso 
para aquilo em que estou a pensar.
        - Mas... isto no  meu.
        - Eu sei - disse ele enquanto lhe puxava a camisola ate aos ombros.
        - De quem ?
        - No fao ideia - respondeu ele com um brilho travesso nos olhos. - Trazemo-la de volta antes de a dona dar pela falta dela.
        - Ryan! - exclamou ela enquanto ele a empurrava na direco da porta.
        - Sim?
        - Eu no posso tirar a camisola de outra pessoa. Ele riu-se.
        - No a tiraste.
        - No a tirei?
        - No. Eu e que a tirei, tu s a tens vestida.
        - Seja como for! Eu no levo a camisola de outra pessoa.
        - Ah, levas, levas. - Ele inclinou-se por cima dela para abrir a porta e empurrou a cadeira. - Descontrai-te. O que  que nos podem fazer, prender-nos por 
roubo de camisola de curta durao?
        Bethany sentiu-se grata pela camisola quando o ar frio da noite a envolveu.
        - s louco. E vais gelar aqui fora sem um casaco. Mas, afinal, aonde vamos?
        - J vais ver, e, acredita, eu no vou morrer de frio. Passo tanto tempo na rua que me tornei imune ao frio.
        - "Imune"? Os vaqueiros no deviam conhecer palavras dessas.
        - Peco desculpa, minha senhora. Vou tratar disso. Arranjo um pouco de tabaco para mascar, cuspo entre frases, e coo-me onde no devo. A universidade estragou-me 
por completo.
        - No sabia que tinhas frequentado a universidade. Qual era o curso?
        - Criao de animais e agricultura. Formei-me em ambos. - Ele virou  esquerda para a empurrar ao longo de um passeio de cimento que contornava as traseiras 
do edifcio. - Nunca percebi porque  que um homem no seu juzo perfeito havia de querer qualquer coisa com touros. Mas tive boas notas em anatomia feminina.
        Ela riu-se.
        - No duvido.
        - Quando voltei para casa com o canudo na mo, era capaz de adivinhar as medidas de uma mulher a cem metros de distncia. Depois de todo o dinheiro que teve 
de largar pelas propinas, o velhote ficou impressionado.
        Bethany sorriu, imaginando um Ryan mais novo acabado de sair da universidade. Com aquele aspecto, devia ser praticamente mortfero.
        - Foste para que escola?
        - Oregon State. A maioria dos criadores de cabras vo para l para se poderem passear pelo campus com os seus chapus e cuspir para o cho.  um requisito, 
saber cuspir, e  preciso jeito para a coisa. O Sly, nosso capataz,  capaz de apanhar uma mosca a trs metros.
        - Eu fui criada num rancho, lembras-te? Sei tudo o que h a saber a respeito de vocs, vaqueiros. Pelo que vi, so uma cambada de emproados.
        -  verdade. Cresceste com vaqueiros. Acho que isso quer dizer que seria melhor se eu me deixasse de tretas.
        - Boa ideia.
        - Nunca fiz Anatomia Feminina. O resto  verdade. Tenho um olho para curvas femininas que no falha. Tu, por exemplo. Era capaz de te comprar um guarda-roupa 
completo, comeando pela roupa interior, e cada peca havia de te servir na perfeio. Queres apostar?
        - Oh, por favooor.
        - Mulheres. Porque ser que nunca esto interessadas em ver um homem gabar-se?
        - Porque somos difceis de impressionar.
        - Trinta e dois, copa B. Cintura de cinquenta e cinco centmetros. J ests impressionada?
        Ele acertara em cheio, e saber que a observara com tanta ateno deixou-a com um formigueiro na pele.
        - Se gostas de pisar gelo fino, ests a sair-te muito bem.
        Ele riu-se e calou-se. A direita deles havia um parque de estacionamento. Com o luar, os carros e carrinhas pareciam-se com escaravelhos de carapaas cintilantes. 
Acima deles, a Lua assemelhava-se a um prato de porcelana contra um fundo de veludo azul-escuro polvilhado de estrelas. A brisa fresca levava com ela o aroma de 
abetos e pinheiros, puxando o olhar de Bethany para as montanhas que delineavam o lago.
        Ela suspirou.
        - Est uma noite linda. Olha s para aquele cu.
        - No h nada que se parea, pois no? J ouvi dizer que o Montana  um estado de cu. Acho que essa gente nunca deve ter passado pelo Oregon numa noite 
como esta.
        Ryan empurrou a cadeira at a um telheiro nas traseiras. As portas estavam abertas e eles podiam ouvir a msica quase to bem como se estivessem no interior. 
A banda estava a acabar aquela cano. Antes que comeasse a seguinte, Ryan contornou a cadeira e inclinou-se, ficando quase nariz-com-nariz com ela.
        - Pe os teus braos a volta do meu pescoo, querida.
        - Porqu?
        Ryan agarrou-lhe nos pulsos e levantou-lhe ele prprio os braos.
        - Porque - murmurou ele - ns vamos danar.
        - Oh, no, eu... - Antes que ela pudesse concluir o seu protesto, Ryan passou-lhe um brao pela cintura e levantou-a da cadeira. Sem outra escolha, ela soltou 
um guincho sobressaltado e agarrou-se a ele. - Ryan!
        - Est tudo bem. Juro que no te deixo cair. - Ele segurou-a contra si, uma mo grande apoiando-lhe o fundo das costas. - Segura-te. Agarraste-te bem?
        - Sim, mas tem cuidado. Nada de palhaadas. Eu consigo sentir isso, sabes?
        - Consegues? - Baixou a mo desde a cintura e desceu a outra. Entrelaando os dedos, formou uma espcie de assento para lhe segurar as ancas contra as suas. 
- Julgava que os paraplgicos no tinham qualquer sensao da cintura para baixo.
        - No  o meu caso. A leso da coluna situa-se na L2 e no afectou todas as... - Ela deu um salto e olhou para ele. - O que  que ests a fazer?
        Ele sorriu e piscou-lhe o olho:
        - Estava com o polegar numa m posio. Estou a ver que tens mesmo sensibilidade a em baixo.
        Ela estreitou um olho.
        - Pois tenho, e se fazes mais uma dessas vais ver o que te acontece.
        - Acabou-se. Prometo.
        - Isto no vai dar certo. Agradeo a ideia. s um querido, mas...
        - Caladinha - sussurrou ele.
        As primeiras notas da cano seguinte fizeram-se ouvir e ela apercebeu-se de que era uma verso da sua preferida de Montgomery.
        - No pode ser. - As lgrimas saltaram-lhe aos olhos porque, assim que reconheceu a msica, percebeu que fora Ryan quem a pedira.
        - Dana comigo - murmurou ele.
        - Sinto-me tola.
        - E quem  que est a ver? S eu e sou o teu melhor amigo, portanto, no conto. Alm disso, porque  que havias de te sentir tola?
        - Tenho as pernas penduradas. Os meus ps vo bater nas tuas pernas.
        - Esses sapatinhos macios no me magoam - garantiu-lhe ele. E, dito isto, arrastou-a para uma valsa.
        Bethany estava  espera de uma sensao estranha. Quando ele executou os primeiros passos, sentiu-se hirta devido  tenso, com medo de que ele tropeasse 
e a deixasse cair, ou que ela fosse demasiado pesada e o cansasse.
        Em vez disso, era fabuloso, e ela sentiu-se como se estivesse a flutuar, a fora dele mantendo-a  tona. A danar. No era bem danar, claro. Ela no parava 
de se dizer isso. Mas sentia-se como se estivesse a faz-lo. A danar. Tivera vontade de fazer aquilo uma centena de vezes durante os ltimos oito anos, e agora 
estava mesmo a faz-lo. Dava-lhe a sensao mais incrvel. Livre e leve como um pssaro, nos braos de um vaqueiro alto e moreno.
        Bethany esticou os braos, deixou a cabea cair para trs e fechou os olhos, desejando que aquela sensao nunca acabasse.
        - Oh, Ryan.
        - Sabe bem?
        - Sim. Oh, sim. No podes fazer ideia.
        Ao observar as expresses que passavam pela cara dela, Ryan pensou que at fazia. A sensao que devia ser, deu por si a imaginar, estar sempre presa naquela 
maldita cadeira, e agora, subitamente, estar a rodopiar ao luar.
        Senti-la assim nos seus braos era o mais perto do cu que ele alguma vez esperava estar. "Bethany." Um sorriso sonhador curvava os lbios dela, traduzindo 
um prazer to intenso que ele duvidava que o conseguisse exprimir por palavras. Imaginou faz-la sorrir exactamente assim enquanto fazia amor com ela, ouvi-la suspirar 
assim quando a beijasse.
        Um dia...
        Por enquanto, era suficiente segur-la assim ao luar e v-la sorrir, saber que ela estava feliz e que, ainda que pouco, ele era o responsvel por aquela 
felicidade.
        Quando a segunda msica acabou, as energias de Ryan comearam a falhar. Ela no pesava muito, mas danar sem parar enquanto suportava cinquenta e cinco quilos 
suplementares tinha o seu preo. No queria devolv-la  sua cadeira, e desejava do fundo do corao no ter de o fazer.
        Infelizmente, no h bem que nunca acabe. Ryan resistiu a uma terceira dana e depois as pernas comearam a acusar o esforo.
        Ela pestanejou quando a msica acabou e ele parou com relutncia. A expresso sonhadora e ligeiramente confusa nos olhos dela dizia-lhe o quanto Bethany 
apreciara aquelas danas e que guardaria aquela recordao muito depois de a noite ter acabado.
        - Oh, Ryan. - Brindou-o com um sorriso radioso, os olhos a brilhar de alegria e lgrimas. No disse mais nada, mas aquelas duas palavras queriam dizer tanto, 
muito mais do que ela provavelmente se apercebia, uma gratido demasiado profunda para ser exprimida, e uma incredulidade porque ele fizera algo completamente inesperado, 
apenas para lhe dar prazer.
        Foi a expresso de incredulidade que mais o comoveu. Fora uma coisa to insignificante, na realidade, tir-la da cadeira e dar algumas voltas no telheiro. 
O esforo fora maior inmeras vezes e com uma recompensa bastante inferior. Haveria um presente melhor do que ver Bethany sorrir?
        Ela no voltaria a passar uma noite sozinha e sentada a uma mesa enquanto todos os outros danavam e se divertiam, prometeu Ryan a si mesmo. Nunca mais.
        Poisou-a na cadeira com cuidado, a qual, apercebia-se ele cada vez mais, era uma priso sem grades. Inclinou-se, enxugou-lhe uma lgrima com o polegar e 
murmurou:
        - Ento, o que  isso? Era para nos divertirmos, no para te fazer chorar.
        - Oh, mas eu diverti-me - disse ela. -  s que... - Abanou a cabea e limpou a cara. - Desculpa. Isto  uma parvoce.  s que foram tantas as vezes que 
tive vontade de danar, e achei que no podia. No te posso dizer como me senti. - Sorriu com lbios trmulos. - Obrigada, Ryan.
        Poisando as mos nos braos da cadeira, ele olhou-a nos olhos durante um momento.
        - Podemos divertir-nos muito juntos, tu e eu. Sem riscos, sem expectativas, apenas amizade. Sou capaz de fazer com que isto funcione se tu me deres uma oportunidade.
        - Estou tentada - disse ela com uma gargalhada. - Fazes com que seja to difcil dizer no.
        - Ento, no digas.
        Ela prendeu o lbio inferior entre os dentes, os olhos reflectindo hesitao e incerteza.
        - Deixa-me pensar nisso.
        - Mas o que  que h para pensar?
        - Se passarmos muito tempo juntos, tenho medo de fazer uma grande tolice, tipo, apaixonar-me por ti - admitiu ela.
        Ryan estava a contar com isso.
        
     
     Captulo Nove
        
        
        
        Na tarde seguinte, de regresso de Bend, onde fora buscar uma encomenda de mantas de sela feitas  medida para a loja, Bethany encontrou mau tempo. A principio, 
quase no queria acreditar no que estava a ver quando uma mancha branca atingiu o pra-brisas. A previso meteorolgica no falara em neve.
        Passados segundos, a visibilidade ficara praticamente reduzida a zero. Ela ligou os limpa-pra-brisas no mximo e espreitou atravs do vu branco diante 
dela. Rajadas de vento sacudiam os abetos e os pinheiros que ladeavam a estrada e varriam o alcatro, formando pequenos taludes em cada berma.
        Aquilo no podia estar a acontecer. Era o ltimo dia de Abril, por favor, demasiado tarde para nevar. Abrandou e agarrou-se com forca ao volante. Encontrava-se 
a uma altitude elevada. Dentro de alguns minutos era provvel que entrasse numa zona de aguaceiros. Chuva, tudo bem. Desde que no precisasse de correntes para a 
neve, no teria problemas.
        Passaram-se aproximadamente dez minutos. Os limpa-pra-brisas no paravam, o som rtmico parecendo troar dela  medida que as escovas empurravam a espessa 
camada de neve. A estrada estava completamente coberta. "Meu Deus." A carrinha dela no se dava muito bem com o gelo. Ainda na vspera, durante o jantar de domingo, 
os irmos dela tinham estado a falar em arranjar-lhe uma SUV com traco s quatro rodas antes do Inverno seguinte. Servia-lhe de muito agora.
        Depois de ligar a aparelhagem e passar do leitor de CD para a EM, tentou apanhar uma estaco de rdio de Crystal Falls. Quando encontrou o seu posto preferido 
no mostrador, um canal de country-western que apenas passava sucessos, ouviu os comentrios do apresentador com um desconforto crescente. "Um nevo anmalo." O homem 
dizia que era melhor no conduzir, mesmo na cidade, a no ser que fosse uma emergncia garantida. Vrios acidentes envolvendo mais do que um veculo j tinham acontecido 
nas zonas limtrofes de Crystal Falls.
        Gotas de um suor nervoso cobriam-lhe a cara. Sentia as traseiras da carrinha a perder traco e a fugir para a berma. Tinha de colocar dispositivos de traco. 
Um grande problema. Seria pura loucura sair da carinha. Se o veculo estava a derrapar, a cadeira de rodas faria o mesmo. Desligou a aparelhagem e escutou. Um som 
agudo e ocasional disse-lhe que os pneus traseiros estavam a perder aderncia. Com os olhos semicerrados para tentar ver melhor, no vislumbrava qualquer indcio 
de melhoria no tempo, apenas neve at onde a vista conseguia alcanar, formando uma muralha branca. Se ela perdesse o controlo e sasse da estrada, bem, era melhor 
nem pensar nisso.
        "Pensamentos positivos", disse ela para consigo. Se conduzisse devagar e se mantivesse no centro da estrada, talvez no tivesse problemas. Era uma tolice 
preocupar-se com as coisas antes de elas acontecerem. Certo?
        Acabara de pensar nestes termos quando a carrinha guinou num ligeiro declive. Ela tentou contrariar o movimento e recuperar o controlo, mas o veculo comeou 
a rodopiar. Durante um instante, o mundo transformou-se num borro, as encostas arborizadas de ambos os lados da estrada passando pelas janelas como imagens de vdeo 
em movimento acelerado. rvores, neve, rochas e cu. Agarrou-se com forca ao volante, a sua nica ncora enquanto era atirada para um lado pela forca da gravidade.
        "Meu Deus." A sua prece foi cortada cerce quando, com um saco sbito, a carrinha mergulhou na vala da berma com tal impulso que o pra-choques dianteiro 
abriu um sulco na terra gelada. Os seus dentes fecharam-se com forca. A correia de nylon que segurava Bethany na cadeira cravou-se-lhe no ombro. Ela gritou e tentou 
desesperadamente recuperar o controlo do veculo, mas o travo de mo no funcionava.
        A parte inferior da carroaria da carrinha ressaltava no terreno irregular. De cada vez que o metal encontrava pedras, o rudo parecia explodir no ar em 
redor dela. Atravs do nevo, conseguiu ver uma mancha cinzenta e branca que se aproximava. Ainda agarrada ao travo, tentou parar, mas era impossvel. A carrinha 
continuou em frente, imparvel, at atingir o obstculo, o amolgar de metal resultante to ensurdecedor que lhe pareceu martelar no interior do crnio.
        A sua cabea saltou para a frente, a cara quase batendo no volante. Durante um momento, Bethany ficou a olhar, confusa, para o pra-brisas, a nica noo 
presente a de que os limpa-pra-brisas continuavam a funcionar. Com cada passagem, a escova da esquerda ficava presa numa mancha de lama, produzindo um som de arranhar 
que em breve a iria deixar louca. Estendeu um brao para os desligar mas hesitou, imaginando a sensao de claustrofobia, ficar ali fechada sem conseguir ver para 
o exterior.
        Mas em que  que ela estava a pensar? Aquele era o menor dos seus problemas. Acabara de ter um acidente. Um acidente. O combustvel podia estar a verter 
atravs de uma racha no depsito - ou ela prpria podia estar a esvair-se em sangue devido a um golpe que no sentia. A carrinha estava inclinada num ngulo bizarro. 
A carteira e o casaco que estavam no banco do passageiro, encontravam-se agora no cho e fora de alcance. Uma grande embrulhada, sem dvida.
        "Uma pedra", decidiu ela. A carrinha tinha embatido numa pedra. No. Uma pedra daquele tamanho seria antes um pedregulho. Esticando o pescoo para ver por 
cima do tablier, tentou avaliar os estragos. Atravs da neve que continuava a cair, apenas podia afirmar com alguma certeza que o capo parecia amolgado.
        "Meu Deus, meu Deus." Ela tinha de fazer alguma coisa. Mas o qu? A cadeira apenas continuava no seu lugar graas s correias de fixao. Se ela se atrevesse 
a desapert-las, podia cair da cadeira.
        Trmula devido aos nervos, passou uma inspeco ao seu corpo, prestando especial ateno s pernas, uma vez que um ferimento naquela zona no lhe provocaria 
dor. Tanto quanto podia ver, estava ilesa. "Graas a Deus." No vira qualquer trnsito durante, pelo menos, os ltimos trinta minutos, como tal, no podia contar 
com ningum que parasse para a ajudar.
        A carrinha continuava a trabalhar. Era bom sinal. Talvez conseguisse recuar, sair da vala e arrastar-se at casa. Assim que pensou nesta hiptese, ouviu 
um som sibilante e viu uma nuvem de vapor que se desprendia do capo amolgado. O motor engasgou-se duas vezes, hesitou e parou.
        Silncio. Instalou-se em redor dela com uma densidade enervante, interrompido apenas pelos tnues estalidos do metal a arrefecer.
        - Fantstico!
        Esfregou o vidro embaciado para conseguir alguma visibilidade. A neve j era tanta que no conseguia ver o alcatro, nem sequer as marcas da derrapagem.
        - No percas a calma. - Inspirou e expirou lentamente. - No  uma grande catstrofe. Apenas um pra-choques amolgado e um radiador avariado. Nada de mais.
        S que para algum como ela, era algo de mais. Como espectros ameaadores erguendo-se da nvoa, as enormes rvores cobertas de neve que cresciam ao longo 
da estrada eram testemunhas da situao desoladora em que ela se encontrava. O bosque estendia-se por quilmetros em todas as direces. Pela primeira vez na sua 
vida, sentiu-se intimidada pela Natureza.
        Nos limites da sua mente, o pnico no parava de crescer. Uma mulher com um corpo saudvel poderia passar por cima da consola central e apanhar o casaco, 
pelo menos. Sem aquecimento a funcionar, no seria difcil morrer congelada.
        Com as mos a tremer, revirou o recheio da consola, a maior parte do qual estava espalhado por todo o lado. Onde  que estava o seu telefone? Guardava-o 
sempre ali quando viajava. Olhou preocupada para a carteira. Quando sara de Bend, esquecera-se de voltar a guardar o telefone na consola?
        Pois. Teria podido fazer alguma coisa mais estpida do que isso?
        Pensou em todas as ocasies em que protestara porque os seus irmos eram demasiado protectores. "Sou uma mulher crescida. No preciso de ningum a olhar 
por mim." Aquelas palavras pareciam persegui-la agora. "No preciso de ningum. No preciso de ningum." O orgulho a falar, mais nada. Em alturas como aquela, a 
sua impotncia era mais do que bvia.
        Bem... no valia a pena ignorar a situao. Se a carteira no ia ter com ela, ela teria de ir ter com ela. Aquele telemvel era a sua nica ligao com o 
exterior. No podia ficar ali sentada at que algum finalmente aparecesse e a encontrasse.
        Com o corao na garganta, baixou um brao para soltar as correias que a prendiam a ela e a cadeira. O fecho abriu-se. Durante um instante, no aconteceu 
nada. Bethany estava prestes a soltar um suspiro de alvio. Ento, com uma subitaneidade que a apanhou de surpresa, a cadeira virou-se de lado, o brao direito batendo 
na consola.
        Bethany caiu para o lado e para a frente, batendo com o peito no tablier. Quando deu por si, estava toda torcida no cho, a cabea entalada contra a porta 
do passageiro, o pescoo numa posio dolorosa, as pernas inteis afastadas e prendendo-lhe a parte inferior do corpo. "Meu Deus." Mexeu-se e contorceu-se, tentando 
endireitar-se. A forca da gravidade estava contra ela, a carrinha inclinada num ngulo tal que a deixava quase de cabea para baixo.
        Tendo perdido rapidamente o flego devido ao esforo, parou um momento, terrivelmente consciente de que estava em cima da carteira e do casaco. Quando a 
respirao voltou ao normal, ignorou a posio incmoda do pescoo e tentou puxar a carteira. Passado o que lhe pareceu uma eternidade, conseguiu libert-la. Retirou 
o telemvel e olhou para ele, preocupada, receando t-lo danificado durante a queda. Parecia intacto.
        Marcou o numero da Polcia estadual, rezando enquanto o fazia para que a chamada fosse atendida. Quando ouviu uma voz feminina, o alvio foi to grande que 
perdeu as forcas. Explicou rapidamente o seu problema.
        - H vrios acidentes nessa zona - disse a mulher. - Em alguns lugares, o trnsito est bloqueado numa extenso de alguns quilmetros. Onde  que a senhora 
est, exactamente?
        Bethany tentou recordar-se dos ltimos sinais que tinha visto e repetiu os nomes.
        - No consigo ver nenhum marco para lhe dar uma localizao mais exacta.
        - Isso j chega. A senhora est na estrada, no muito longe da cidade. O problema ser chegar a com uma viatura. Poder demorar uma hora ou mais, dependendo 
da disponibilidade de agentes e do tempo que demorarmos a desobstruir a estrada. Temos em mos varias situaes de emergncia neste momento, as mais urgentes so 
prioritrias.
        Bethany olhou para a janela embaciada acima dela, pensando que a sua situao era bem urgente.
        - Eu entendo.  que eu estou numa situao um tanto complicada. Ouviu-me dizer que sou paraplgica? Ca no cho e fiquei em cima do meu casaco. No sei se 
vou conseguir vesti-lo.
        - A senhora est ferida?
        Bethany sentiu-se tentada a responder que sim, s para conseguir alguma ajuda. No tinha graa nenhuma, estar toda torcida e em cima do pescoo. Mas pensou 
nas outras pessoas na estrada que tinham sofrido acidentes, pessoas que talvez estivessem feridas e precisassem de assistncia que no receberiam se ela mentisse.
        - No, no estou ferida - admitiu ela. - Apenas extremamente desconfortvel e a ficar com muito frio.
        - Vou enviar uma viatura o mais depressa possvel - respondeu a mulher, a sua voz revelando preocupao. - Consegue aguentar uma hora, ou assim?
        Bethany no queria terminar a chamada.
        - Eu no saio daqui - disse ela, forando uma gargalhada. Quando desligou, voltou a olhar pela janela do lado do passageiro, a qual, uma vez que estava parcialmente 
protegida pelo ngulo do veiculo, no estava completamente coberta de neve. Ver a neve a cair sob aquela perspectiva deixava-a tonta, como se estivesse no interior 
de um caleidoscpio branco. No demoraria muito tempo at que a sua carrinha estivesse completamente coberta. S podia esperar que a vala no fosse to funda que 
um carro-patrulha que passasse no a conseguisse ver.
        Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Frio. Entrava pelo cho, os seus dedos gelados enrolando-se a volta dela. Bethany tinha pouca circulao nas pernas, o 
que no ajudava. Era mais atreita a ficar com frio do que as outras pessoas.
        Decidiu aplicar-se no esforo de retirar o casaco de debaixo do seu corpo. Impossvel. O rabo prendia a l ao cho e a inclinao da carrinha dificultava 
qualquer tentativa de elevar o tronco. Empurrou, puxou, torceu-se, em vo. O estpido casaco continuava debaixo do seu traseiro.
        Pestanejando para se livrar das lgrimas de frustrao, resolveu puxar uma ponta da l para cima da perna direita. Disse a si mesma que o casaco sempre protegeria 
uma parte do corpo.
        Os segundos arrastaram-se. Para ver o relgio, tinha de limpar a condensao do mostrador de vidro. A mulher ao telefone dissera que demoraria uma hora, 
talvez mais, at que um agente a pudesse encontrar. Considerando os tremores que j sentia, esperava no ter de esperar tanto tempo.
        Passaram dez minutos e Bethany comeou a tremer ainda mais. No fazia ideia de qual seria a temperatura ambiente. A saia e a blusa de l forneciam-lhe calor 
suficiente numa sala aquecida, mas ali era praticamente o mesmo que estar nua.
        Olhou para o telefone. Jake estaria na loja. Sabia que se lhe telefonasse ele moveria cu e terra para a encontrar, exactamente o motivo que a levava a hesitar. 
A sua situao no era to desesperada que a levasse a colocar o seu irmo em risco, a conduzir com aquelas condies atmosfricas.
        Cinco minutos depois, Bethany sentia-se como um cristal de gelo vibrante. Recordou-se de Ryan ter "subtrado" a camisola para ela vestir na noite anterior 
e pensou como saberia bem t-la agora. Atrs daquele pensamento, lembrou-se da sensao de fora e de calor dos braos dele, envolvendo-a com tanta firmeza.
        "Ryan." Bethany pestanejou e olhou para o pra-brisas coberto de neve. O rancho dele no era muito longe. Talvez a estrada no estivesse bloqueada naquele 
troo.
        Agarrou no telefone, e hesitou. Se fizesse aquele telefonema, seria um passo irrevogvel. "Amizade." Em condies normais, no consideraria aquela hiptese 
assustadora. Como Ryan dissera, os amigos nunca so de mais. Mas quantas mulheres tinham amigos to bonitos que um simples sorriso as deixava com o corao a palpitar?
        "Estpida, to estpida." Afinal, no era como se ele estivesse  procura de um caso trrido, nem sequer o sugerira. Recordando-se do cuidado com que ele 
a segurara na noite anterior e da sinceridade dolorosa que vira nos olhos dele quando lhe falara em amizade, confiava instintivamente nele.
        Tinha de decidir. Podia ser uma idiota completa e deixar-se ficar ali, a morrer desnecessariamente de frio, ou podia aceitar a oferta de amizade de Ryan.
        Tentou recordar-se do nmero de telefone, mas no conseguiu. Telefonou para as informaes. Um momento depois, estava a marcar o nmero de casa. "Por favor, 
atende, Ryan. Por favor, por favor, atende."

        Ryan estava a acender a lareira quando o telefone tocou. Limpou as mos nas calcas de ganga e dirigiu-se  mesa de apoio para retirar o telefone porttil 
da base. Pensando que seria a me a ligar de novo, comeou logo a falar:
        - No, no quero ir comer um gelado consigo e com o pai - disse ele a rir. - S se fosse doido e que saa de casa com este tempo.
        - Ryan? - perguntou uma foz feminina e trmula. -  a Bethany. Ela parecia estar mal e ele sentiu um aperto no corao, um sbito receio.
        - Bethany? Querida, ests a chorar?
        - No, no. S estou a tremer.
        Ele ficou com os plos da nuca em p.
        - A tremer?
        - De frio. Desculpa telefonar-te assim, mas meti-me num grande sarilho.
        Passou a descrever o que lhe acontecera. Ryan apertou o aparelho com mais fora. Olhou para o nevo que continuava no exterior.
        - Meu Deus, ficaste presa com este tempo?
        Com a voz a tremer de uma forma que o deixou ainda mais preocupado, ela respondeu:
        - No estou ferida nem nada. Por favor, no te preocupes. No  nada de mais. Acho que o radiador ficou danificado. O motor engasgou-se e parou, portanto, 
no consigo ligar o aquecimento. - Ele ouviu-a inspirar mais uma vez. - Digamos que estou feita num oito, no cho da carrinha. - Riu-se. - Em cima do meu casaco, 
claro. Lei de Murphy e essas coisas.
        Ryan comeou a andar de um lado para o outro. Passos largos e decididos, abafados pelo tapete, o corpo tenso.
        - Grande gaita. Onde ests, querida?
        A imagem que se formou na mente dele, Bethany cada no cho da carrinha, provocou-lhe uma sensao de puro terror. Ela podia estar a sangrar devido a um 
corte nas pernas e nem sequer daria por isso.
        - J verificaste se tens algum golpe?
        - Oh, sim. No consegui encontrar uma nica marca. Estou bem, a srio. S estou com frio.
        Com frio? Pela voz dela, parecia estar numa cama vibratria.
        - Onde ests? - perguntou ele novamente.
        - Ests a ver o desvio de Eagle Ridge? Lembro-me de ver o sinal mesmo antes de sair da estrada. No  muito longe de tua casa, pois no? Quero dizer, se 
, as condies da estrada so to ms que eu posso esperar pela Polcia. H acidentes entre o stio onde estou e Crystal Falls, mas eles esto a tentar desimpedir 
as estradas e devem estar aqui dentro de mais ou menos uma hora.
        Ryan no a podia deixar numa carrinha gelada durante uma hora. Sabia exactamente onde Bethany estava, e, viajando depressa, podia chegar l em vinte minutos.
        - No te preocupes. Estou habituado a viajar com neve.
        - Eu s... - calou-se e suspirou, um som to agudo, abalado, transmitindo tanta fraqueza, que ele apenas quis j estar junto dela. - Tem cuidado, Ryan. Nunca 
me poderia perdoar se tu tivesses um acidente ao tentar chegar c.
        - S tens de esperar um pouco, querida. Vou a caminho. Tenho cobertores na bagageira da minha moto de neve. O Rafe e eu somos membros da Busca e Resgate. 
Quando deres por isso, j estas quentinha e aconchegada.
        Depois de desligar, Ryan saiu de casa a correr, vestindo o casaco no caminho. Segundos depois, abriu as portas do barraco da moto de neve, dando graas 
a Deus por ele e Rafe estarem sempre preparados para uma emergncia. Ele tinha uma grande caixa de plstico resistente nas traseiras da moto de neve, equipada com 
cobertores, raes de emergncia, e um estojo de primeiros socorros bem apetrechado. Tirou algumas cordas e um arns da parede e guardou-os tambm. Em seguida, atestou 
o depsito de combustvel.
        Em menos de cinco minutos, j estava a caminho de Eagle Ridge, seguindo a corta-mato atravs de pastos cobertos de neve e de bosques densos onde a neve de 
Inverno ainda no derretera.
        Bethany aninhava-se o melhor que podia no fundo da carrinha, tremendo tanto que os dentes lhe batiam. Pareceu-lhe que j se tinham passado horas quando ouviu 
o som distante de um motor. O seu corao saltou de alegria. Inclinou o pescoo, tentando ver pela janela acima dela, mas a neve era tanta que a visibilidade era 
praticamente nula.
        Finalmente, ouviu o que apenas podia ser a moto de neve de Ryan a aproximar-se da estrada a norte do local onde ela estava. O som tornou-se mais fraco, revelando 
que o condutor tinha virado na direco oposta. Em breve, o som tinha desaparecido.
        E se ele no a encontrasse? Bethany no conseguia ver atravs do pra-brisas. E se a carrinha j no fosse visvel para quem estivesse na estrada?
        Minutos depois, ouviu a moto de neve regressar.
        - Ryan! - gritou ela. - Ryan, estou aqui em baixo!
        Quando o veculo finalmente parou algures nas proximidades da carrinha, ela quase chorou de alvio. O motor calou-se. Ento, ela ouviu botas na neve.
        - Bethany?
        Sabia-lhe to bem ouvir a voz dele. Antes que pudesse responder, a porta do passageiro abriu-se e ela quase caiu da carrinha.
        - Ento, rapariga!?
        - Ryan!
        Nunca lhe soubera to bem encontrar algum. Exactamente como imaginara, os braos fortes dele apertaram-na. Bethany agarrou-se ao calor dele, tremendo descontroladamente.
        - Oh, Ryan.
        Sentiu-o passar-lhe uma mo pela anca.
        - Desculpa, querida, mas tenho de verificar eu mesmo para ter a certeza de que no ests ferida.
        Ela pestanejou e olhou por cima do ombro, com uma estranha sensao de distanciamento enquanto o via puxar-lhe a saia para cima e passar-lhe as mos grandes 
e bronzeadas pelas pernas torcidas. Os dedos compridos apertavam o nylon cor de pele das meias de descanso, e ela apercebeu-se de que estava  procura de fracturas. 
Em circunstncias normais, ter-se-ia sentido insuportavelmente humilhada. As suas pernas encontravam-se em ngulos estranhos em relao ao corpo. S que aquele homem 
era Ryan. No um qualquer. Observando a forma cautelosa como ele lhe tocava, no conseguia sentir-se embaraada.
        Ele suspirou, o som transmitindo o seu alvio:
        - Parece que ests inteira. - Puxou-lhe a saia para baixo e depois endireitou-lhe as pernas com cuidado, mantendo uma mo sobre os joelhos enquanto as poisava 
no cho. - Graas a Deus. - Arqueou as costas  volta dela e abraou-a, encostando a cara ao seu cabelo. A neve derretida escorreu pela borda da aba do chapu dele 
e caiu na manga de Bethany. Ela sentiu a tenso abandonar o corpo dele. - Bem, querida. Isto  que foi um susto. Tinha tanto medo de que pudesses estar ferida.
        Atravs de dentes que no paravam de bater, ela disse:
        - Eu d-disse-te que n-nao est-tava.
        Ele largou-lhe os joelhos e ela sentiu-o torcer-se pela cintura. Quando deu por si, o casaco pesado de Ryan estava nos seus ombros, o forro ainda quente 
devido ao contacto com o corpo dele. O calor sabia to bem.
        Ele estendeu um brao para agarrar no telefone e marcou o nmero da Polcia Estadual. Um instante depois, estava a falar com uma operadora. Explicou rapidamente 
que no era necessrio o envio de um agente. Quando terminou a chamada, guardou o aparelho num bolso do casaco que ela usava agora. Depois, sorriu e abraou-a outra 
vez. Parecia forte e capaz, o colarinho da camisa sacudido pelo vento. O constante chapu preto estava coberto de neve.
        - Eu posso vestir o meu casaco, Ryan - protestou ela. - Vais ficar gelado.
        - Sou imune ao frio. Lembras-te? E o meu casaco j est quente. Talvez te ajude a aquecer. Usamos o teu casaco para te cobrir as pernas.
        Enquanto falava, levantou-a a ela e ao casaco nos seus braos. Bethany abraou-se ao pescoo dele, to feliz por t-lo ali que, para variar, no se assustou.
        - Uma pergunta: que raio  que tu estavas a fazer na estrada num dia destes?
        Com a boca comprimida contra o colarinho hmido dele, Bethany respondeu:
        - A previso no falava em neve. Fui a Bend buscar uma encomenda.
        - Estamos no Oregon, lembras-te? E no alto das montanhas, ainda por cima. Nunca, e quero dizer nunca, leves a srio uma previso meteorolgica. A frente 
fria devia ter passado a norte de ns, mas mudou de direco. H j dois dias que cheiro a neve no ar.
        - A srio?
        Ele comeou a subir para sair da vala. Quando chegou  moto de neve, instalou-a no lugar de trs e cobriu-lhe as pernas com o casaco dela. Bethany agarrou-se 
aos manpulos para no perder o equilbrio enquanto ele abria a caixa de plstico atrs dela. Ryan retirou duas mantas pesadas, um cobertor prateado de isolamento 
e embrulhou-a com eles, a folha prateada sendo a ltima para bloquear o vento.
        Enquanto prendia as mantas a volta das pernas dela, no parava de falar:
        - Da prxima vez que fizeres uma viagem longa, telefonas-me e eu vou contigo. H muita gente tarada nestas estradas. E se tiveres um furo?
        - Posso sempre chamar a assistncia rodoviria.
        - Pois podes. Tenho um amigo que  polcia. D palestras sobre segurana na estrada para grupos femininos. Mesmo que chames a assistncia,  perigoso ficar 
na estrada. Os tarados andam  procura de alvos fceis, e uma mulher sozinha com problemas no carro numa estrada deserta  um dos alvos mais fceis que possas imaginar. 
J ouviste dizer para pr uma bandeira na antena e trancar as portas?
        - Sim.
        - Pois,  o pior que podes fazer. Ests essencialmente a dizer a todos os que passam por ti que ests sozinha, com o carro avariado e indefesa. Um estupor 
qualquer pode agarrar numa chave de pneus, partir o vidro e a seguir vais tu.
        - Meu Deus.
        - Pois, "meu Deus", isso mesmo. - Os flocos de neve acumulavam-se na cara de ambos quando os olhos azul-ao dele encontraram os dela. Nas suas profundezas, 
Bethany viu mais medo do que ira. - No quero que te acontea nada. Acabaram-se as viagens compridas, sozinha. Est bem?
        - s vezes, tenho de ir a algum lugar - disse ela debilmente.
        - A partir de agora, s tens de apitar e eu vou contigo. Posso sempre dar um jeito no que tenho para fazer e tirar umas horas. - Ele suspirou, fechou os 
olhos durante um segundo e poisou uma mo na nuca dela, encostando testa com testa. - Desculpa. Eu no queria gritar, Quando vinha para c, no parava de pensar 
em todas as coisas que podiam acontecer, rezando para que mais ningum parasse.
        Antes que ela pudesse falar, ele tinha partido. Ela viu-o ir buscar as chaves e a carteira, e depois retirar a cadeira de rodas da carrinha. Trancou as portas 
e voltou a subir.
        - H mais alguma coisa de que precises para esta noite? - perguntou-lhe ele.
        - Ora, a estrada h-de estar desimpedida antes do anoitecer.
        Ele prendeu a cadeira numa armao de transporte nas traseiras da moto de neve e prendeu-a com as cordas elsticas.
        - Olha para esta neve. A estrada h-de continuar fechada at que consigam limp-la, e, mesmo depois de o fazerem, o piso ficar escorregadio. Para que  
que te hei-de levar para casa quando podes ficar na minha?
        - Tudo o que tenho comigo que seja importante est na carteira. No tinha planeado passar a noite fora.
        - Tens medicamentos suficientes?
        - No. No tinha contado com isto e no os trouxe comigo.
        - O que  que tu tomas?
        - S Coumadin, um anticoagulante, e um relaxante muscular antes de me deitar para evitar espasmos nas pernas.
        Ele pensou por um instante:
        - Um par de copos de vinho ajuda a diluir o sangue e tambm devem resultar como relaxante muscular. Eu pergunto  minha me, s para jogar pelo seguro.
        Depois de guardar as coisas de Bethany na caixa de plstico, sentou-se atrs dela. Sentada de lado, o seu ombro tocou-lhe no peito quando ele se inclinou. 
Depois de lhe dizer que se agarrasse  sua cintura, Ryan ligou o motor.
        - Ests pronta? - perguntou ele.
        - Acho que sim.
        - Agarra-te bem, querida. Eu vou devagar.
        Bethany enterrou a cara na camisa dele, sentindo-se confortada pelo calor que irradiava atravs do tecido hmido. Assim que meteu a primeira velocidade, 
Ryan passou um brao forte  volta dela. O veculo saltou em frente e eles partiram.
        Estranhamente, ela sentia-se perfeitamente segura mesmo quando a moto de neve se inclinava e ela escorregava no assento. Ryan estava a segur-la. O barulho 
do motor dificultava a conversao, como tal, limitou-se a agarrar-se a ele e descontraiu-se. Sabia to bem sentir-se novamente um pouco mais quente.
        Seguindo a corta-mato em lugar de se manter na estrada, Ryan conseguiu poupar vrios quilmetros e no demorou muito a chegar ao seu rancho. Sentiu-se grato 
por isso. Todavia, podia sentir Bethany a tremer violentamente. Ele tinha de a aquecer e depressa.
        O co, Tripper, apareceu aos saltos na neve para os receber quando Ryan estacionou perto da casa. Ele dirigiu-lhe algumas palavras de afecto, mas no lhe 
deu a palmada esperada, antes agarrando em Bethany e carregando-a rapidamente para casa. Levou-a de imediato para a grande sala onde se preparava para acender a 
lareira quando ela telefonara. Depois de a poisar no sof, agarrou no telefone porttil e marcou o nmero de casa dos pais.
        Foi a me quem atendeu ao terceiro toque. Ryan explicou-lhe rapidamente a situao:
        - Tenho de a meter numa banheira de gua quente - concluiu ele. - Pode vir at c?
        Ann suspirou teatralmente, o som tnue atravs da linha telefnica:
        - Valha-me Deus. J viste o tempo? Isto  um nevo.
        - Tenho noo disso, me. Meta-se na moto de neve.
        - No quando est a nevar desta maneira. Ainda posso ir parar ao lago.
        A me dele era capaz de seguir a margem do lago de olhos fechados.
        - Venha devagar. Eu preciso mesmo de si, me. Outra mulher, percebe?
        Ann suspirou de novo.
        - Ryan, querido. Estamos a falar da Bethany, a rapariga que te deixou a cabea num oito durante esta semana que passou?
        - Certo.
        - Estou a ver. A mesma Bethany que tens procurado a vida inteira e que tem olhos da cor de amores-perfeitos?
        - Aonde  que quer chegar? Ann riu-se:
        - Parece-me que um homem esperto trataria desta emergncia sozinho.
        Ryan pensou que ela estava a brincar e tambm se riu.
        - Agradeo a ideia, me, mas h um lugar e uma altura para tudo. E no  o caso.
        - Usa a cabea sem ser para pendurar o chapu - disse Ann com um sorriso na voz. - A oportunidade bate  porta. Disseste que ias avanar com a abordagem 
da amizade.
        - Sim.
        - Ento... s amigvel.
        - Me, eu preciso mesmo...
        - Ups! O relgio do fogo tocou. Tenho mesmo de ir, seno os biscoitos queimam-se.
        - Me! No desli...
        A linha ficou silenciosa. Ryan olhou para o telefone, resistindo  tentao de soltar um palavro.
        - O que  que se passa? - perguntou Bethany, batendo os dentes com frio.
        Ryan poisou o aparelho na base. A me dele tinha perdido o juzo, mas, de algum modo, parecia-lhe que no devia partilhar essa informao com Bethany. Sorrir 
com os dentes cerrados era difcil.
        - No  nada, querida. S a neve. Com uma visibilidade to fraca, a minha me tem receio de vir at c.
        - Oh. - Ela encolheu-se debaixo dos cobertores, olhando para ele com olhos grandes e preocupados. - Percebo. - Esperou um pouco, estremeceu, e acabou por 
dizer: - Afinal, eu no preciso de um banho quente, ainda que fosse simptico da tua parte teres pensado nisso.
        - Ests gelada. Com uma circulao to fraca nas pernas, demoravas horas a aquecer se no o tomasses.
        - C me arranjo.
        - Arranjas-te? - Ryan levantou-a do sof. - Arranjamo-nos, queres tu dizer.
        - No posso tomar um banho, no se s te tiver a ti para me ajudar.
        - Claro que podes. Sei ser um tipo muito inventivo quando quero.
        
        Sentado na sua cadeira de baloio estofada junto  lareira, Keefe Kendrick observava a sua mulher atravs de olhos semicerrados. Ela estava a sorrir como 
o gato de Alice no Pas das Maravilhas quando desligou o telefone.
        - Annie, ests a preparar alguma?
        Ela deitou-lhe um olhar espantado, os seus olhos cinzentos cintilando.
        - Preparar alguma?
        Keefe reprimiu um sorriso quando ela se aproximou:
        - Tu no tens medo de ir parar ao lago e, se tens biscoitos no forno, eu quero comer alguns.
        Ela encolheu um ombro esguio, as ancas reveladas apetitosamente pelas calcas de ganga justas. Mesmo com sessenta anos, Annie era um arraso, com pernas fabulosas 
e seios perfeitos que lhe enchiam a camisola vermelha exactamente como ele gostava.
        - s vezes, o Ryan precisa de um empurro para se mexer.
        Poisou o seu belo traseiro no colo dele e passou-lhe os braos  volta do pescoo. Keefe sabia quando a sua mulher estava a tentar dar-lhe a volta. Ergueu 
uma sobrancelha:
        - O que  que ests a tramar?
        - Hmm. - Ela mordiscou-lhe o lbio. - Est a nevar l fora. E to romntico. No achas? - Mexeu o rabo, fazendo com que uma certa parte da anatomia dele 
se alterasse. - Vamos abrir um vinho e fazer amor diante da lareira.
        Keefe prendeu-lhe o lbio inferior entre os dentes e aplicou apenas a fora suficiente para a fazer saber que no era to tolo quanto ela pensava.
        - Annie, minha menina, ests a intrometer-me na vida amorosa do nosso filho?
        Ela beijou-o, usando a lngua com tanta percia que ele quase se esqueceu da pergunta.
        - Nunca. Estou apenas a ser uma boa me e a resistir totalmente  tentao de interferir.  a Bethany que est em casa do Rye. A Bethany.
        Os dedos de Keefe subiram pelas costelas dela. A sua Annie era um belo pedao.
        - A rapariga dos olhos incrivelmente azuis?
        - Essa mesma. Ficou presa na tempestade e o Rye foi busc-la. Esta meio-morta de frio e precisa de um banho quente. Ele queria que eu fosse at l ajudar. 
O tonto. Como se eu alguma vez o fizesse. Ainda que um banho quente apresente algumas possibilidades interessantes.
        Keefe levantou-se de repente. Ela soltou uma exclamao de surpresa ao v-lo ir para a casa de banho. A mente dele quase transbordava com imagens de Annie, 
rosada pela gua quente e escorregadia devido ao sabonete perfumado.
        - Um banho apresenta sem dvida algumas possibilidades - concordou ele em voz baixa e rouca. - s vezes, minha menina, o feitio vira-se contra o feiticeiro.
        
        
        
     Captulo Dez
        
        
        Bethany estava sentada na casa de banho, os seus olhos fixos no espelho, iluminada por uma barra de carvalho com globos que lanavam uma claridade ofuscante 
sobre ela e tudo o resto. Observando-se no espelho, decidiu que se parecia com um beb trmulo com olhos enormes e um monte de cabelo desgrenhado. No admirava que 
Ryan estivesse preocupado. Ela no conseguia usar os msculos das pernas como a maioria das pessoas para obrigar o sangue a circular, o que significava que a metade 
inferior do seu corpo tinha um sistema de controlo de temperatura ineficaz.
        Esfregou os braos mas continuou a tremer. Levantando a bainha da saia de l, tocou no joelho e sentiu-o frio, mesmo atravs da malha de nylon das meias 
de descanso. Quem lhe dera estar em casa, na sua casa de banho com todo o seu equipamento.
        Ouviu uma pancada ligeira na porta. O som assustou-a de tal forma que a fez saltar.
        - Entra - conseguiu Bethany dizer num tom praticamente normal. O seu enfermeiro de servio entrou - mais de um metro e oitenta dele. A ganga molhada colava-se-lhe 
s pernas compridas e musculadas. A cada passo que dava, as botas ressoavam nos mosaicos de tijoleira com um som penetrante e decidido. Tinha vestido uma camisa 
seca, que no abotoara, revelando uma extenso de pele bronzeada com um revestimento ligeiro de pelos negros que estreitava num tringulo ao descer para o estmago 
liso e musculado.
        Bethany ficou com a boca completamente seca e apenas lhe ocorreu dizer:
        - Ol.
        - Ol - respondeu ele, a sua voz profunda e vibrante. Aquele som deixou-a com a sensao de ter a pele a latejar. - Tudo pronto?
        Ela nunca estaria pronta. A sua me ajudara-a a vestir-se e a despir-se vezes suficientes para saber que ele no o poderia fazer sem a ver nua.
        Com um olhar penetrante como ao afiado, ele olhou-a de alto a baixo. Da cintura para baixo, Bethany continuava completamente vestida. Dali para cima, contudo, 
tudo o que ela tinha era uma t-shirt demasiado grande que ele lhe emprestara. A blusa e o soutien estavam muito bem dobrados na bancada do lavatrio, o soutien por 
baixo para que ele no o visse.
        O nico ponto positivo em toda aquela situao embaraosa era o facto de ele lhe ter emprestado uma t-shirt azul, e no uma branca. Ela sabia por experincia 
prpria que as brancas se tornavam transparentes assim que se molhavam.
        - Ainda est a nevar? - perguntou ela.
        - Sim, ainda. Lamento. E no parece que v melhorar. Telefonei ao Jake, a propsito. No queria que a tua famlia ficasse preocupada. Ele diz que vai l 
a casa dar comida e gua  gata. - Assustou-a quando se baixou diante dela. A sua boca firme inclinou-se lentamente num sorriso quando estendeu um brao para lhe 
afastar uma madeixa hmida da cara. - Querida, espero que esses tremores sejam por causa do frio e no dos nervos. No ests com medo de mim, pois no?
        - No, claro que no. - Ela riu-se com pouca convico e cerrou os dentes para tentar que parassem de bater.
        - Tens a certeza? - passou-lhe um dedo ao longo da ma do rosto, parando no queixo, onde se deteve um instante com um n do dedo na ligeira covinha. - Tenho 
estado a tentar pr-me no teu lugar.  um pouco difcil. Mesmo assim, sei que isto deve ser difcil.
        - Eu estou bem, Ryan. A srio. S queria que no fosse preciso tomar um banho.
        - J pensei em tudo.
        Pois, pois. No tomara obviamente em considerao que, sem barras de apoio nem um elevador, ela nem sequer podia despir as cuecas e as meias sem ajuda. Em 
casa, desembaraava-se sozinha com o equipamento, e, mesmo assim, no era uma tarefa fcil.
        - Confia em mim - disse ele em voz baixa. - Os bons amigos no se embaraam uns aos outros.
        - S preferia estar em casa, s isso. Tenho l tudo de que preciso.
        - Lamento no ter tudo o que precisas aqui. Mas terei em breve.
        - Oh, no. No comeces a comprar coisas para mim.
        - Porqu?
        Ela sabia que havia uma dzia de boas razoes, mas no lhe ocorreu nenhuma.
       - Porque no. Ele riu-se.
        - Uma das vantagens de ter tanto dinheiro  poder comprar coisas para os meus amigos sempre que me apetece. Fazes ideia dos juros anuais que rendem cinquenta 
milhes de dlares? O imposto que tenho de pagar mais parece a dvida nacional.
        Bethany no conseguia imaginar como seria ter tanto dinheiro.
        - Coitadinho.
        Ele semicerrou um olho.
        - O que eu tenho aqui no deixa de ser um negcio, e tudo o que eu comprar para poder receber pessoas deficientes, nomeadamente, tu, ser um abatimento bastante 
bem-vindo.
        - Estou a ver.
        - Ns temos compradores deficientes que vm ver os nossos cavalos. Se eu quiser comprar coisas que os deixem mais confortveis no meu rancho, compro, fim 
de discusso. Est bem?
        - Est bem.
        Ele fez um ligeiro sorriso.
        - Vamos para a frente com esta coisa da amizade. Certo?
        - Eu no me desfao das minhas roupas por qualquer um, portanto, parece-me que ser seguro dizer que te considero um bom amigo.
        Esta afirmao fez com que ele se risse.
        - Ou seja, posso deixar de insistir?
        - No, por favor. Quanto mais falares, mais  o tempo que posso adiar isto.
        - Ests a ver? A situao que temos aqui  terrvel. Tu precisas de tomar um banho, e meter-te na banheira  uma megaproduo, tu a toda nervosa e aflita. 
Eu gostava de ter tudo para te deixar to confortvel como em casa. Assim, quando quisesses tomar banho, podias meter-te na banheira sozinha.
        - s um manaco das limpezas?
        - Um qu?
        - Se te d para cheirar sovacos, posso ter de repensar a nossa amizade.
        Ele suspirou e abanou a cabea.
        - Armada em engraada quando ests nervosa. J devia saber. Culpada. Ela tinha de facto a tendncia para fazer piadas quando se sentia desconfortvel e, 
naquela ocasio, sentia-se extremamente desconfortvel.
        - Aqui, poder tomar um banho rpido  uma necessidade. Tu j viveste com animais por perto. Levas com uma cauda de cavalo cheia de lama e ds graas por 
ter contado com essa eventualidade.
        Bethany esfregou os braos.
       -  uma pena que no estejas preparado para isso agora.
        - Eu sei.
        A voz dele ficou mais rouca, indicando-lhe que ele entendia o quanto aquela situao era desagradvel para ela. De algum modo, saber isso tornava-lhe as 
coisas menos difceis.
        Respirou fundo, a respirao entrecortada porque estava a tremer muito.
        - Est bem - disse ela, tentando injectar alguma confiana na sua voz. - Vamos ver se nos despachamos.
        - Sentes-te melhor se eu te disser que telefonei ao nosso capataz, o Sly, e ele j est a trabalhar na oficina, a preparar umas barras de apoio provisrias?
        - A srio?
        - Quando acabarmos o teu banho, vou at l ajud-lo. O que conseguimos no  nada de especial, mas sempre ficas mais confortvel, aqui at amanh.
        Barras de apoio para a casa de banho? Bethany quase o abraou. Resistiu  vontade de olhar para a sanita. Provisrias serviria muito bem. Provisrias seria 
maravilhoso. Queria l saber se as barras eram bonitas, desde que lhe permitissem obviar essa necessidade sem ajuda.
        Ainda abraada  cintura e a tremer, disse:
        - Detesto dar-te tanto trabalho, Ryan.
        - No ds trabalho nenhum, querida. Soldamos muita coisa aqui no rancho e tenho toneladas de tubos na oficina. Havemos de ter alguma coisa pronta dentro 
de alguns minutos. - Levantou-se e inclinou-se. - Agarra-te ao meu pescoo. Vamos levar-te para aquela banheira. S de olhar para ti, comeo a ficar com frio.
        Como ela temia aquele momento. Todavia, no havia como o evitar.
        - Talvez bastasse se me embrulhasses num cobertor elctrico. Sempre acabava com o frio.
        - No tenho nenhum. Desculpa. Tenho edredes em todas as camas.
        - Eu podia sentar-me  frente da lareira.
        Como fizera na noite anterior, Ryan agarrou-lhe nos pulsos e puxou-lhe os braos at os colocar  volta do seu pescoo.
        - Ests a ver como ests a tremer? Vais mas  para a banheira. No vais apanhar nenhuma pneumonia durante o meu turno. O Jake nunca me perdoaria.
        "0 Jake." Bethany pensou no quanto gostaria de o ter ali.
        - Tem um pouco de confiana em mim - murmurou Ryan. Imaginou-o a tentar mant-la direita com um brao e a puxar-lhe desajeitadamente as roupas com a outra, 
o corpo dela comprimido contra o dele durante o processo. "Meu Deus... que situao." O embarao deixou-lhe a cara a escaldar.
        - Isto j est acabado antes de teres tempo para dizer "Aleluia". Bethany estava  espera da atrapalhao habitual que tinha de enfrentar com a sua me nas 
noites de natao, com ela a gemer e a esforar-se, as pernas dela penduradas para cada lado como esparguete. Mas j o devia conhecer. Depois de a prender pela cintura 
com um brao, Ryan endireitou-se como se ela no pesasse praticamente nada. Quando deu por si, estava colada ao peito dele, as pernas suspensas.
        - Ai, ai.
        - Est tudo bem, querida. No te deixo cair.
        Ele introduziu uma mo por baixo da T-shirt para lhe desapertar a saia. Assim que o fez, libertou-a daquela peca de roupa, das meias e das cuecas com um 
nico movimento. Bethany sentiu os dedos tocarem-lhe nos rins, mas, fora isso, a manobra foi executada sem qualquer toque ntimo. Ainda no se tinha refeito daquela 
rapidez e ele j estava a puxar-lhe a T-shirt para baixo e a sent-la na cadeira.
        - Pronto, ests a ver? - acocorou-se novamente diante dela para lhe tirar as meias elsticas das barrigas das pernas. - No foi assim to desagradvel, pois 
no?
        No fora nada desagradvel, e s esse facto deixou-a a tremer. Ele agarrou-lhe nos tornozelos para lhe descalar os sapatos pretos de pele de gamo e depois 
tirou-lhe as roupas.
        - Arre! Os teus ps esto frios como gelo. - Passou-lhe uma mo pela barriga da perna. - No admira que estejas a tremer.
        Bethany puxou a bainha da T-shirt para baixo, tentando tapar os joelhos.
        - No posso acreditar que foi to fcil.  sempre uma batalha quando a minha me me ajuda.
        Ele deitou-lhe um olhar divertido:
        - Eu vi a tua me ontem  noite no jantar. Ela  tudo menos grande, portanto, isso no me espanta. - Depois de pr os sapatos de lado, levantou-se. - Agora, 
vou levantar-te e pr-te na banheira. Se fechares o punho na beira da T-shirt, ela no sobe quando eu te baixar. Trouxe uma mola de roupa para fazer de ancora quando 
estiveres instalada.
        Uma mola de roupa? Ele tinha mesmo pensado em tudo.
        Quando ele se debruou, Bethany preparou-se, visualmente alerta quando ele a segurou por trs dos joelhos com um brao, sensualmente alerta quando o brao 
esquerdo deslizou entre a cadeira e as costas dela. Uma mo grande e quente apertou-lhe o flanco, dedos fortes abrindo-se sobre as suas costelas imediatamente abaixo 
do peito.
        - Calma, querida - disse ele enquanto a levantava. - No te deixo cair.
        Ela sentia-se rodeada por uma forca vibrante e masculina. O calor do peito nu propagava-se atravs da T-shirt e os pelos negros roavam-lhe um dos cotovelos. 
A sensao era to boa que ela quase lhe mordeu o pescoo. Tinha a cor do caramelo, o qual vinha logo a seguir ao chocolate na lista dos seus sabores preferidos.
        Ele flectiu um joelho ao lado da banheira, passando-a por cima da borda e baixando-a com cuidado na gua. Manteve um brao por baixo dos joelhos para lhe 
arrumar as pernas.
        Como ele lhe sugerira, Bethany agarrou na bainha da T-shirt para que o algodo no flutuasse.
        - Tens muito jeito para isto.
        - Deve ser inato. - Deitou-lhe mais um sorriso quando tirou uma mola de roupa do bolso da camisa. Afastando-lhe a mo e agarrando na bainha da T-shirt, torceu-a 
para ajustar o algodo em redor das coxas e depois prendeu-a com a mola.
        Bethany observava enquanto ele abria as torneiras da agua quente e da gua fria, colocando em seguida uma mo grande por baixo para verificar a temperatura. 
Enquanto ajustava os manpulos, Ryan disse:
        - Vamos deixar-te quentinha num instante.
        Ela suspirou agradecida e deixou-se escorregar um pouco mais para baixo.
        - Oh, isto sabe to bem. - A gua quente que estava a sair da torneira envolveu-lhe as ancas. - Obrigada. Desculpa estar a dar-te tanto trabalho. - No ds 
trabalho nenhum, j te disse. Gosto de te ter c em casa. O calor estava a ajud-la a parar de tremer e os msculos j comeavam a descontrair-se. Ryan comeou a 
massajar-lhe as pernas, as mos queimadas pelo Sol estabelecendo um forte contraste com a pele plida dela. Enquanto o observava, Bethany deu por si a desejar poder 
sentir-lhe o toque. Imaginou que as palmas das mos seriam ligeiramente speras, os dedos longos e grossos deliciosamente quentes. "No vs por a, Bethany. Amizade. 
Nada mais, nada menos." No podia permitir que o seu corao tonto comeasse a tecer fantasias e arruinasse o que prometia ser uma boa amizade.
        Ele apanhou-a a olhar para as suas mos e disse:
        - Achei que era melhor estimular a circulao. No te estou a magoar, pois no?
        - No. Quem me dera.
        Ele olhou-a com espanto. Depois, fez uma careta.
        - Claro. Desculpa. Pergunta idiota. S pensei; que raio, sei l o que estava a pensar. - As mos subiram at acima do joelho. - No consegues sentir mesmo 
nada? Em lado nenhum? Custa tanto a imaginar. Intelectualmente, sei que sim, mas, a um nvel mais instintivo, penso automaticamente em termos de sensaes.
        Bethany conseguiu fazer um sorriso tenso.
        - No peas desculpa. Eu  que sou a anormal, no tu. Por acaso, tenho alguns pontos  vivos. - Levou a ponta de um dedo ao interior da coxa esquerda. - Um 
deles  aqui.
        Ele olhou para o ponto indicado como se estivesse a memoriz-lo.
        - S a?
        - E mais alguns. As leses nos nervos so uma coisa bizarra, especialmente no meu caso, onde os danos mais graves se acumularam num dos lados da coluna. 
Tenho sensibilidade em lugares onde no devia ter, e nenhuma onde a devia ter. Imediatamente a seguir ao acidente, o nosso mdico de famlia e um especialista local 
ficaram a olhar para mim, de sobrolho franzido e a coar a cabea. Eu no estava em conformidade com os manuais de referncia nem com as revistas da especialidade.
        Ele ficou pensativo:
        - Ou seja, no tens as pernas completamente dormentes?
        - No. A dormncia estende-se em manchas desde o ponto da leso at ao alto das coxas, de onde alarga at cobrir a totalidade das pernas. - Baixou a voz 
para um sussurro: - Sou bastante sensvel no meu traseiro, por exemplo, e consigo detectar polegares curiosos.
        Estava  espera que ele se risse, mas em vez disso o olhar dele desceu at ao ponto de unio das coxas.
        - No me agarres pelos cabelos nem me metas a cabea debaixo de gua por perguntar. Est bem? De um amigo para outro. Sentes alguma coisa a em baixo?
        Bethany no percebia como  que a sua cara podia ficar to quente quando ainda continuava a sentir tanto frio, mas foi o que aconteceu. Ele retrocedeu imediatamente:
        - Desculpa. Pergunta imprpria. - Devolveu a sua ateno s torneiras e depois meteu a mo na agua para ver se estava bem quente. - Curiosidade, s isso. 
Pareces estar convencida de que no s capaz de ter uma relao fsica normal. Se tens alguma sensao que seja a em baixo, eu estava s a pensar porqu.
        - Para comear, o meu medico disse-me de caras que era provvel que no fosse capaz.
        - Os mdicos podem enganar-se.
        - Eu sei, mas considerando a sua reputao como especialista, a opinio dele tem bastante peso.  um dos melhores da Costa Ocidental. - Bethany passou os 
dedos pela superfcie da gua, mantendo o olhar cuidadosamente desviado. - As leses nervosas so uma coisa estranha. Um nervo pode funcionar muito bem, mas um outro 
ao lado que  vital para o funcionamento pode estar morto. Por outras palavras, um sino sem badalo.
        Ele riu-se:
        - Ora a est uma forma de encarar a questo.
        - Seja como for que a encaremos, quem pode dizer o que poderei sentir? Apenas posso orientar-me pelo que o Dr. Reicherton me disse, o que no foi encorajador.
        Ele ergueu uma sobrancelha escura.
        - Ou seja, tu nunca... sabes... tentaste um voo a solo para verificar por tua conta?
        Os olhos dela procuraram os dele.
        - No. Eu, hmm... - encolheu os ombros, sentindo-se subitamente desconfortvel. Como podia explicar-lhe que decidira manter a sua sexualidade numa caixa 
bem fechada? Fazia pouco sentido alimentar necessidades e desejos fsicos que talvez no pudesse satisfazer. - No sa com ningum desde o meu acidente e acho que 
nunca vi grande necessidade de verificar as possibilidades. - Deitou-lhe um sorriso travesso. - Alm disso, um dos meus irmos quase ficou cego por fazer coisas 
dessas.
        Ele largou s gargalhadas. Ento, um rubor subiu-lhe pelo pescoo. Era a sua vez de desviar o olhar.
        - Desculpa. No devia ter perguntado. - Experimentou a gua mais uma vez. - Acho que, por enquanto, est suficientemente quente. O que achas?
        Ela achava que ele se sentia to desconfortvel quanto ela com aquela conversa, o que tinha o estranho efeito de a deixar com uma sensao de maior descontraco.
        - Est ptima.
        Ele fechou as torneiras e virou-se para se sentar no cho ao lado da banheira, as costas largas apoiadas nos azulejos de cor creme que subiam at meia altura. 
Levantando uma perna para apoiar o brao, ficou a olhar para ela.
        Bethany deslizou as pontas dos dedos pela coxa, parando no joelho e voltando para cima. Quando levantou a cabea, ele estava a puxar pelo lbulo da orelha, 
um gesto que ela comeava a reconhecer como um tique nervoso.
        - Desculpa - disse ele com voz rouca. - No sei o que me passou pela cabea para te fazer uma pergunta destas. No tenho nada a ver com isso e foi falta 
de educao.
        Ela ficou a pensar durante um momento.
        - No me importo que perguntes. S no sei muito bem o que responder.  como viver na cidade e ter uma espingarda de longo alcance. Se sabes que nunca ters 
oportunidade para a usar, limitas-te a guard-la num lugar seguro e esqueces-te de que a tens.
        Ele sorriu e assentiu.
        - Isso, consigo perceber. - Puxou outra vez pela orelha. - Bem... fala-me da tua famlia. Tu e o Jake parecem muito chegados. Tens o mesmo tipo de relao 
com os teus outros irmos?
        Feliz por poder mudar de assunto, Bethany lanou-se numa breve descrio dos seus irmos:
        - Numa famlia grande como a nossa, nunca  fcil ser a mais nova, e acho que foi particularmente difcil por ser a nica rapariga. Demasiado protectores. 
Estava sempre algum a olhar por mim. Eram necessrias muitas manobras para conseguir fazer alguma coisa.
        - Tenho a certeza de que os teus pais davam valor aos esforos dos teus irmos.
        - Oh, sim. Nunca tiveram de se preocupar muito comigo. Quando o Jake foi para a universidade, estava l o Zeke para lhe ocupar o lugar, e, quando chegou 
a vez dele, os gmeos andavam sempre atrs de mim.
        - Os futuros veterinrios. Ela assentiu.
        - Logo a seguir vinha o Hank, com vinte e oito anos agora. A idade era suficientemente prxima para que fosse mais um amigo do que uma chaga. As vezes, at 
me ajudava.
        - E os teus pais? J conheci o teu pai na loja. Parece um homem simptico. Como  que  a tua me? Vi-a ao longe ontem  noite. Parece um doce.
        - E  mesmo. - Bethany encostou uma mo  barriga. - Tens de a conhecer para perceber como ela . Ela , quais so as palavras certas? Uma freira rechonchuda 
sem o seu hbito e que por acaso  casada e tem seis filhos, todos os quais ela jura que foram largados por magia na bota do meu pai durante a noite, quando eles 
estavam a dormir. s vezes, quase penso que ela prpria acredita nisso.
        Ele riu-se ao ouvir aquela descrio.
        - D para ver pela tua cara que gostas muito dela. Betnany concordou.
        -  uma mulher impecvel. S um pouco ingnua. O meu pai  da velha escola, e sempre a protegeu. A mim tambm, j agora. S que no se saiu to bem comigo. 
Se tivesse dependido dele, eu teria recebido apenas a informao necessria sobre os passarinhos e as abelhas.
        - Que os passarinhos cantam e as abelhas zumbem?
        - Exactamente. Quando ainda tnhamos o rancho, ele fazia as coisas mais incrveis para que eu nunca visse os cavalos em processo de reproduo. - Bethany 
sorriu. - O trabalho que me deu.
        - Foste espreitar s escondidas - disse ele com um sorriso conhecedor.
        - Claro.
        Ryan abanou a cabea.
        - Coitado do teu pai. Criar-te deve ter sido uma dor de cabea.
        - Para ele ou para mim? Pode ser incrivelmente difcil quando s a queridinha do pap. Se tivesse de passar por tudo outra vez, tinha comeado a minha actividade 
sexual aos doze anos.
        - Doze? Isso preocupa-me. A Heidi tem doze.
        - Quem  a Heidi?
        Os olhos dele brilharam com ternura ao descrever a irm mais nova de Maggie.
        - Ela est sempre a pedir-me para esperar que ela cresa para se casar comigo. No me d trguas. Adoro-a e no a quero magoar. Ao mesmo tempo, tambm no 
quero encoraj-la.  uma linha delicada.
        - Deve ser uma querida.
        - Pois . No h-de faltar muito para que os rapazes faam fila  porta. Vou ter de dar uma mo ao Rafe para correr com eles.
        - Eu gostava tanto de cavalos quando era adolescente que quase no dava importncia aos rapazes, at conhecer o Paul. Talvez a Heidi tambm seja assim.
        - Talvez. Ela quer entrar em provas de barrel racing.
        - A srio? - O interesse de Bethany fora despertado e estava prestes a fazer mais perguntas quando ele a interrompeu:
        - Por falar no Paul. Como  que tu acabaste envolvida com um rapaz daquela idade que no percebia nada de beijos?
        - Para comear, ramos novos, e o Paul era filho de um pastor e muito religioso. Essencialmente, ns so... - Ela sentiu-se subitamente embaraada e deu por 
si a pensar como tinham ido parar quele assunto. - Estvamos  espera de nos casarmos.
        Os lbios dele tornaram-se duros.
        - Uma pena que ele no tenha sabido manter a braguilha fechada com a tua amiga. Como  que ela se chamava?
        - Nan. Como  que sabes da existncia dela?
        Uma sombra passou pelos olhos dele, e Ryan ficou sbita e inexplicavelmente interessado no tecto da casa de banho.
        - O casamento deles foi anunciado no jornal, se bem me lembro. No  propriamente um segredo de estado, pois no?
        Ela sentiu um formigueiro na nuca.
        - Porque ser que os homens olham sempre para o tecto quando esto a mentir?
        Ryan voltou a olhar para ela.
        - Tens demasiados irmos.
        - O Jake? - murmurou ela. No era propriamente uma pergunta. Ryan suspirou.
        - Tens muita sorte, sabes? Ter um irmo mais velho que gosta tanto de ti. Era capaz de fazer frente a um puma, ele, e s com as mos.
        - Telefonou para falar contigo. Ele suspirou outra vez e disse:
        - Que raio. Eu e a minha boca grande. No o queria denunciar. - Abanou a cabea. - E no, ele no telefonou. Apareceu aqui na noite de sbado. Tivemos uma 
longa e simptica conversa.
        - Simptica? Tu e o Jake?
        - Bem, no foi simptica a princpio. Mas ele acalmou depois de conversarmos, e convenci-o de que as minhas intenes eram honradas.
        - Que ns s queramos ser amigos? Ele sorriu.
        - Isso. Grandes amigos. Ele no se importa. No foi por mal que veio c, sabes? Est s a olhar por ti. Admiro-o por isso.
        - Deixa-te ficar. No tarda, a tua admirao por ele no ter limites.
        - E o que penso fazer - garantiu-lhe ele.
        - Pensas fazer o qu?
        - Deixar-me ficar.
        
        Deitado diante da lareira com a sua mulher nos bracos, Keefe sentiu a tenso no corpo dela. Depois da partilha intensa que tinham acabado de viver, tinha 
a certeza de que aquele estado no se devia a uma falta de satisfao sexual.
        - O que se passa, minha Annie? - perguntou-lhe ele, passando-lhe uma mo pelo cabelo e dando-lhe um beijo na testa.
        - Conscincia pesada - confessou ela. - Devia ter ido  casa do Ryan. Em circunstncias normais, no interferir estaria muito bem, mas no consigo deixar 
de pensar naquela pobre rapariga. Se tivesse outra mulher para a ajudar, sentir-se-ia muito melhor.
        - Hmm!
        - Achas que eu devia ir at l?
        - Estamos to bem aqui. Uma viagem de moto de neve no me parece muito sedutora.
        - No tens de ir. Ele suspirou.
        - E arriscar-me a ver a minha mulher ir parar ao lago no meio de um nevo?
        - Sabes bem que no. Conheo o caminho de olhos fechados. Keefe apoiou-se num cotovelo.
        - Se eu ficar aqui, perco a oportunidade de conhecer a minha nova nora.
        - Ele ainda no se casou com ela. Keefe riu-se.
        - Sim, pois... O Ryan sempre foi lento. Ha-de chegar l.
        - Lento? Segundo os padres de quem?
        - Dos Kendrick. Se fosse comigo, j a tinha levado a Reno e j estava de volta. Nunca percebi aquele rapaz. Rumina sobre tudo o que tem de fazer antes que 
se decida.
        Ann abraou-lhe o pescoo.
        - Deixo-te vir comigo, mas com uma condio.
        - Qual ?
        - No lhe ds conselhos. Keefe franziu o sobrolho.
        - E porque no?
        - Porque ele est a desembaraar-se muito bem sozinho e eu no quero que faca alguma coisa disparatada, tipo, rapt-la.
        - Eu no te raptei.
        - Fingiste que estvamos perdidos e mantiveste-me no meio de parte nenhuma durante cinco dias. Se isso no  um rapto, o que ?
        - Uma jogada muito inteligente. Quando te levei para casa, j tinhas aceitado casar comigo. Poupei-me a semanas de frustrao. - Piscou o olho e sorriu. 
- Tambm te fiz um grande favor. Quando finalmente te levei para casa, sabias que afinal aquele magricelas da universidade no era assim to fantstico. Tambm j 
no tinhas dvidas de que eu podia olhar por ti, fosse qual fosse a situao.
        - Ah, pois. - Ann virou-se at ficar deitada de costas, riu-se e fechou os olhos. - At conseguiste acender uma fogueira com dois paus. Lembras-te? Mais 
tarde, descobri que tinhas um isqueiro escondido no bolso.
        - E tambm tinha mais um cobertor no meu alforge.
        -  O qu?
        Keefe debruou-se e beijou-lhe a ponta do nariz.
        - Foi o que tu ouviste. Eu tinha dois cobertores. Ann agarrou-o pelas orelhas.
        - Seu patife manhoso.
        
        Descontrada pelo banho, Bethany aquecia-se diante da lareira enquanto esperava que Ryan voltasse da oficina. Onde estava sentada podia ver a neve a cair 
atravs das portas de correr envidraadas, uma simptica imagem de Inverno. O lago cintilava como vidro negro polido, as margens definidas por densos aglomerados 
de altas rvores cobertas de neve. O crepsculo j chegara, deixando tudo com um ar enevoado e etreo perto do solo, os tons de carvo transformando-se em fuligem 
ao recortarem-se contra o cu.
        Aninhando-se na cadeira, saboreava a calma, a qual lhe dava algum tempo para pensar no apuro em que se encontrava. No que aquele fosse exactamente um apuro. 
Sofrera um acidente e agora tinha de passar ali a noite, uma situao que apresentava todas as caractersticas de uma catstrofe para algum limitado a uma cadeira 
de rodas. Mas, at ali, Ryan conseguira satisfazer todas as suas necessidades e de uma forma tal que a deixara com uma sensao mais de estar a ser apaparicada do 
que de embarao.
        Exactamente como dissera, conseguira vesti-la sem grande dificuldade. Depois de forrar a cadeira de rodas com uma toalha de banho, retirara Bethany da banheira, 
sentara-a no pano turco e sara. Sozinha, ela despira a T-shirt molhada, secara-se e vestira uma seca. Depois, Ryan voltara para a ajudar a vestir um par de calas 
de treino cinzentas com bainhas elsticas e cs de amarrar, o que acontecera com a mesma facilidade com que a saia, as meias e as cuecas tinham sido despidas. Aquelas 
roupas demasiado grandes para ela tinham ento sido complementadas com um par gigantesco de meias de l cinzenta com biqueiras e calcanhares vermelhos.
        Depois de a vestir, Ryan levara a cadeira para a grande sala onde a deixara perto da lareira, cobrira-lhe os ombros com uma manta e depois mudara algumas 
pecas da moblia para criar caminhos de circulao mais largos. Antes de sair para a oficina, preparara-lhe uma caneca de chocolate quente. Considerando as circunstncias 
em que se encontrava menos de duas horas antes, Bethany sentia-se como se estivesse presa num sonho delicioso, onde nada era como devia ser.
        "Ryan." Pensar nele deixou-lhe um sorriso nos lbios. Quantos homens teriam pensado em usar uma mola de roupa para impedir que a sua T-shirt flutuasse? Ele 
era to querido e maravilhoso.
        - Ol! Sou eu! - disse uma voz cheia.
        Bethany saltou com o susto, voltou-se e viu Ryan na entrada.
        - Isso foi rpido.
        Mal tinha acabado de falar quando se apercebeu de que, afinal, no era Ryan, mas um estranho que se parecia tanto com ele que poderiam ser gmeos. O homem 
parou, nitidamente to surpreendido quanto ela. Quando tirou o chapu preto, a neve que o cobria lanou gotas de agua em todas as direces.
        - Ol. Deves ser a Bethany. - Sacudiu a neve das mangas do bluso de ganga forrado. - Peco desculpa por molhar o cho. Tentei sacudir tudo l fora, mas a 
neve no pra de cair.
        - Deves ser o...
        - Rafe. Conheceste a minha mulher, Maggie, ontem  noite. Bethany assentiu.
        - Ela  muito simptica.
        - Eu tambm acho. - Ele passou os dedos pelo cabelo, um gesto que a fez pensar em Ryan. Ouvira dizer que os irmos Kendrick eram muito parecidos, mas s 
agora se apercebera da semelhana. - Peco desculpa por entrar assim. - Olhou para as roupas que ela tinha vestidas. - No sabia que o Ryan tinha companhia.
        - Sim, pois, o Ryan tambm foi apanhado de surpresa. - Contou-lhe rapidamente a sucesso de acontecimentos que a levara at ali.
        - No te magoaste, pois no?
        - Nem um arranho. No foi muito grave. O pior foram os outros acidentes, o que tornou mais difcil que algum me pudesse ir buscar. Se o tempo o permitir, 
algum da minha famlia vem buscar-me amanh de manh.
        - Duvido que o Ryan esteja com muita pressa em ver-se livre de ti. Deve antes estar a fazer uma dana aos deuses da neve.
        - Desculpa?
        Um rubor subiu-lhe pelo pescoo bronzeado. Puxou pela orelha, mais um gesto que a fez recordar-se de Ryan.
        - Nada.
        O ar frio que entrava pela porta aberta rodopiava  volta dos ombros de Bethany e ela apertou mais a manta. Rafe endireitou-se, estendeu um brao na direco 
da porta, mas hesitou.
        - Importas-te que eu a feche? Bethany no pde deixar de rir.
        - No, at agradeo. J passei frio suficiente para um dia.
        - Desculpa. - Rafe fechou a porta. - Eu s, bem, tu sabes, como no nos conhecemos... Pensei que pudesses ficar desconfiada.
        Bethany riu-se:
        - No sou desse gnero.
        Mesmo com o casaco vestido, ela viu que os ombros dele se descontraram.
        - No, estou a ver que no. Ainda bem. Nos no somos de muitas cerimnias.
        -  o que acontece com a maioria dos rancheiros.
        Ele sorriu, a inclinao da boca mais uma vez fazendo-a pensar em Ryan.
        -  verdade. As vacas no so nenhuma novidade para ti, pois no?
        - No, ainda que j tenha passado muito tempo desde a ltima vez que as tive por perto. s to parecido com o Ryan, at faz confuso.
        - As pessoas dizem que somos um pouco parecidos.
        - Um pouco? Passavam por gmeos verdadeiros.
        - Na. Eu sou muito mais bonito. - Os cantos da boca dele contraram-se. -  o que a Maggie est sempre a dizer.
        - Tenho a certeza de que  sincera.
        - Pois, e tambm usa culos com lentes cor-de-rosa.
        - S falamos durante alguns minutos, mas fiquei com uma impresso de que ela  uma mulher calorosa e sincera. Gostei imenso dela.
        - Eu tambm gosto muito dela.
        Rafe encostou um ombro  porta. Mais uma vez, o porte dele, com a maior parte do peso sobre uma perna comprida, f-la pensar em Ryan. Ele estudou-a durante 
um momento, aqueles olhos azul-acinzentados no deixando passar nada. Depois, sorriu.
        - Mas, afinal, onde est o Ryan? Acho estranho que no esteja colado a ti.
        - Est na oficina de soldagem, seja l onde for que ela fica.
        - O que  que ele est a fazer l?
        - Ele, hmm... - Bethany tentou pensar numa forma delicada de explicar a questo. - Est a preparar umas barras.
        - Barras?
        - Para a casa de banho.
        Ela viu que ele tinha percebido. Rafe afastou-se da porta, batendo com o chapu na coxa.
        - Bem, acho que vou at l. - Inclinou a cabea morena. - Foi um prazer. A Maggie disse que vais fazer-lhe uma visita. Ela sente a falta de companhia feminina, 
vivendo to longe da cidade, espero que apareas em breve.
        -  o que pretendo fazer.
        Ele abriu a porta, parecia ir sair, mas parou.
        - Acho que afinal no vou. O Ryan vem a.
        Bethany ouviu vozes masculinas e botas na neve, juntamente com o que parecia ser uma moto de neve a aproximar-se da casa.
        - Ol me, ol pai - ouviu ela Ryan dizer. - O que vos traz por c?
        - Disseste que precisavas de ajuda - respondeu uma voz de mulher. - O teu pai ofereceu-se para me trazer, para ter a certeza de que eu no ia parar ao lago.
        - J tenho tudo controlado.
        - A srio? Bom, ainda bem - disse a mulher. - Entramos s para conhecer a Bethany e depois vamos embora, se no houver problema.
        Ryan resmungou e ouviu-se um som metlico.
        - Mas h problema. Ela no est vestida para conhecer um monte de gente e eu no quero que ela se sinta... me, volte aqui.
        Rafe sorriu a Bethany e abriu a porta.
        - Ol, me.
        Uma loira delicada entrou sem cerimnias. Ajeitou o cabelo com mos pequenas para se livrar da neve e estendeu a face para que Rafe a beijasse.
        - Ol, querido - disse ela, animada, os olhos grandes e cinzentos passando por ele at encontrarem Bethany diante da lareira de tijolo. - Amores-perfeitos. 
No admira que lhe tenha dado para a poesia.
        Espantada com o comentrio, Bethany inclinou a cabea numa saudao:
        - Ol. Deve ser a me do Ryan.
        - Ann - corrigiu-a ela calorosamente enquanto atravessava a sala com a mo direita estendida para a cumprimentar. - E tu s a Bethany, claro. O Ryan j nos 
falou tanto sobre ti.
        - Ah, sim?
        - S coisas boas.
        Ann Kendrick tinha um aperto de mo firme e um olhar sincero e Bethany gostou dela. Sem artifcios, sem a distncia que tantas vezes erguia uma parede entre 
desconhecidos. Era simplesmente Ann, vestida com um par de calas de ganga justas, botas de montar bastante usadas e um bluso de ganga, branco nos cotovelos de 
tanto uso. Olhando para ela, Bethany nunca teria imaginado que era uma das mulheres mais ricas da regio. Sem diamantes, sem ouros. A nica coisa que brilhava em 
Ann Kendrick era o seu sorriso encantador.
        Depois de lhe apertar a mo, Ann manteve-a entre as suas e sentou-se junto  lareira.
        - Estas com ptimo aspecto depois do que te aconteceu hoje. Ouvi dizer que tiveste um acidente.
        - No foi bem um acidente, mais um choque com um grande pedregulho. - Bethany comeava a sentir-se como um gravador encravado. - No me magoei.
        - Ainda bem. O Ryan disse-me que apanhaste muito frio. Bethany explicou-lhe que o casaco e a carteira tinham cado no cho com o impacto:
        - Antes disto, nunca me tinha apercebido da quantidade de ar frio que entra pelo cho de um veculo.
        Ann suspirou.
        - Bom, ainda bem que te lembraste de telefonar ao Ryan. Naquela altura, um Ryan coberto de neve entrou s arrecuas pela porta aberta, debatendo-se e praguejando 
contra um enorme novelo de tubos que se recusava a caber na abertura. Bethany ficou de boca aberta. Mas, afinal, de quantas barras e que ele achava que ela precisava?
        - Meu Deus - murmurou Ann. - Ele fez-te um arranha-cus, querida.
        Bethany abafou uma gargalhada. Realmente, aquilo parecia um pequeno arranha-cus, com uma barra triangular pendurada numa corrente no alto da estrutura.
        - Filho da puta. - Ryan levou um n do dedo esfolado  boca.
        - So dez dlares - disse Ann. - Eu estou atenta.
        Ryan deitou-lhe um olhar furioso e resmungou entre dentes.
        - Porque  que no tentas as portas de correr? - sugeriu Rafe.
        - E depois? Se no passa por aqui, de certeza que no passa pela porta da casa de banho - respondeu Ryan.
        Um vaqueiro magro e idoso com pescoo de peru e uma cara to queimada e enrugada que mais parecia um saco de papel pardo amarrotado segurava o outro extremo 
do arranha-cus. O chapu castanho mais parecia uma extenso do seu corpo, o tom de plo de camelo do feltro estafado e encardido praticamente o mesmo da pele do 
seu proprietrio. Com olhos solenes, olhou para Ryan atravs das barras.
        - Achas que ela cabe se a inclinarmos?
        - Porque ser - perguntou Ann em voz baixa - que os homens pensam automaticamente que qualquer coisa difcil  do sexo feminino?
        Bethany quase se engasgou com uma gargalhada.
        - No fao ideia. Neste caso, ainda bem que . Vou ter uma relao muito prxima com aquela coisa.
        Os olhos de Ann danavam de diverso enquanto observava os homens.
        Sacudindo a mo magoada, Ryan recuou para estudar a estrutura sob todos os ngulos. A aba do chapu e os ombros do bluso estavam cobertos de neve e as calcas 
de ganga estavam molhadas at aos joelhos. Observando-o, Bethany no pode deixar de se lembrar de que ele lhe dissera que aquilo no daria trabalho nenhum.
        Ento, um homem mais velho que era muito parecido com Ryan e com Rafe apareceu no alpendre ao lado do vaqueiro magro, o qual Bethany calculou que seria Sly.
        - Mas o que  que tu achas que a rapariga ? Uma artista do trapzio?
        - J chega, pai. No sabamos que altura havamos de dar s barras e resolvemos fazer duas. E o Sly pensou que uma barra para ela se iar seria uma boa ideia, 
por isso  que a estrutura  alta. Se no fosse, vocs batiam com a cabea sempre que... - calou-se e olhou para Bethany. - Sempre que tivessem de se aliviar - terminou 
ele.
        O pai de Ryan sorriu a Bethany atravs das barras:
        - J agora, sou Keefe Kendrick. Esta no  a maneira mais incrvel de conhecer algum?
        Era um eufemismo. Bethany no se recordava de nenhuma ocasio em que o seu equipamento de casa de banho tivesse sido o principal tpico de discusso entre 
pessoas que ela no conhecia.
        Estranhamente, uma vez passada a primeira vaga de intenso embarao, conseguiu descontrair-se, essencialmente porque todos os presentes pareciam to pragmticos. 
Dedicaram-se todos  empresa, conseguiram meter a estrutura dentro de casa e depois, trabalhando em equipa, acabaram por encaix-la na casa de banho. As piadas e 
as gargalhadas eram constantes e em breve Bethany tambm se ria com eles.
        - Ya-hoo! - exclamou Keefe Kendrick com uma voz atroadora quando o trabalho ficou finalmente concludo. - Parece que o raio da coisa at pode ser que funcione, 
filho. Ela que a experimente.
        Bethany olhou assustada para o pai de Ryan, receando que ele estivesse  espera de que ela o fizesse naquele preciso momento.
        - Vamos - insistiu ele.
        "Meu Deus, ele est mesmo  espera que eu o faa."
        - No  a serio - garantiu-lhe Ryan. - S temos de ver se as barras ficaram bem. Seno, vou buscar a soldadora porttil e fazemos alguns ajustes rpidos.
        E foi assim que Bethany experimentou pela primeira vez o seu arranha-cus enquanto todos os presentes assistiam. A barra triangular para se iar revelou 
ser um melhoramento fantstico em relao s barras de apoio que tinha em casa. Era capaz de se agarrar a ela e sair da cadeira com tanta facilidade que soltou uma 
exclamao de prazer. O seu pblico aplaudiu e Ryan e Sly sorriram com orgulho por terem feito algo que funcionava to bem.
        - Ryan, isto  fantstico!
        - Gostas mesmo? - perguntou ele, esperanoso.
        - Oh, adoro. Quando me for embora, posso lev-lo comigo?
        - Nem sonhes. Esse monstro no sai da. Se gostas mesmo dele, construmos outro para a tua casa.
        Bethany franziu o sobrolho:
        - No ests a pensar deixar isto aqui.
        - No  assim to feio se o pintar. Ela deitou-lhe um olhar incrdulo.
        - Pint-lo?
        Ryan piscou-lhe o olho.
        - Primeiro, aplico uma base com um spray. Depois, podes pintar florzinhas e coisinhas aqui e acol. Vai ficar bem catita.
        - Mas isso demorava dias.
        - Por mim,  perfeito.
        Keefe, que estava  porta com um brao  volta dos ombros da mulher, olhou demoradamente para o arranha-cus. Voltou-se para Bethany e disse:
        - Se no queres que os homens se queixem como mulheres por causa do assento da sanita, e melhor no te esqueceres de prender aquela corrente numa das barras 
depois de a usares, querida. Caso contrrio, algum ainda vai acabar com os dentes no fundo da garganta.
        Ann sorriu serenamente.
        - Que nome lhe vais dar, Bethany? Uma coisa to grande e desajeitada precisa de um nome.
        Ainda instalada no seu trono, Bethany pensou durante um momento e deu uma pancada na barra triangular.
        - Acho que lhe vou chamar Doce Vingana.
        
        
     Captulo Onze
        
        Jantaram todos em casa de Ryan, uma reunio familiar que ficou completa depois de Rafe ir a casa buscar Maggie, a sua sogra Helen, e as trs crianas. Apenas 
Becca, a governanta-ama, que tinha a noite de folga, no compareceu. Depois de um pouco de discusso bem-humorada, escolheram esparguete como prato principal, com 
po de alho, salada e feijo verde para acompanhar.
        De um modo geral, as pessoas partiam do princpio de que Bethany no podia ajudar nos preparativos de uma refeio. Na famlia Kendrick esperava-se que todos 
ajudassem, incluindo Sly, que foi enviado a casa de Ann em busca de alho fresco. Bethany foi recrutada para preparar o po. Ryan e a me trataram do molho para o 
esparguete. Helen ficou encarregada de pr a mesa, Maggie e Rafe prepararam a salada. O avo Keefe e Heidi receberam como tarefa olhar pelas crianas mais pequenas, 
uma tarefa que parecia agradar-lhes bastante.
        Aquela camaradagem recordava a Bethany a sua prpria famlia, e adaptou-se facilmente ao crculo dos Kendrick, sorrindo ao ouvir as suas provocaes, rindo-se 
quando se tornava o alvo das mesmas. Deu por si a desejar que aquela noite no acabasse - ou, mais exactamente, que aquela sensao de pertena no tivesse fim.
        Ryan. Por vezes, os seus olhares encontravam-se e a expresso nos olhos dele fazia-a ficar sem flego. "Ests a ver?", parecia estar ele a dizer. "Isto pode 
resultar. Vai resultar, se tu me deres uma oportunidade."
        - Cuidado com os ps! - avisou Bethany quando levou o po para o forno preaquecido. - Passo por cima de todos os que se atravessarem no meu caminho.
        - Ests  a ver se te escapas de secar os pratos - disse Maggie com uma gargalhada. - Ests com azar, menina. Ns arriscamos.
        A beb acordou e comeou a chorar naquela altura. A meio da leitura de uma histria a Jaimie, Keefe gritou da sala:
        - A Heidi est ao telefone. Algum pode olhar pela Amelia? O Jaimie e eu estamos na parte melhor.
        - Bethany, podes tratar dela? Eu estou destacada para as inundaes. - Maggie enxugava a cara de Rafe com uma toalha. - Coitadinho. As cebolas nunca falham.
        - No tenho jeito para bebs - disse Bethany. - No tenho prtica.
        - Nada como o presente para comear - respondeu Maggie com ligeireza. - Ela pode estar molhada. As fraldas descartveis esto no saco ao lado do sof.
        Bethany foi at  sala. Amelia no estava satisfeita. Deitada no sof com almofadas a ampar-la, no parava de agitar os braos e as pernas enquanto chorava. 
Sly estava de p ao lado do sof, mos nas ancas, queixo projectado, olhos franzidos a observ-la. Avaliando pela expresso naquele rosto batido, sentia-se mais 
 vontade com vacas. No podia contar com a ajuda dele.
        - J mudou alguma fralda? - perguntou-lhe Bethany, esperanada.
        - Nunca tive nada a ver com crianas antes de elas saberem andar e limpar o nariz.
        Sly no largou a fugir depois de dizer isto. Um verdadeiro vaqueiro no tinha pressa, mesmo quando estava a apagar um fogo. Todavia, conseguiu desaparecer 
com uma rapidez espantosa.
        Bethany levantou Amelia dos cobertores. A cara da beb ficou serena. Fitou Bethany com grandes olhos castanhos e sorriu, mostrando dois dentes minsculos.
        - Ol - disse Bethany em voz baixa. Introduziu a mo na fralda e, no havia dvida, estava molhada. Nunca tendo mudado uma fralda, murmurou:
        - Ena, p. No sei se estou preparada para ti, Amelia. Keefe levantou os olhos do livro.
        - No tem nada que saber, querida. As fraldas tem faixas adesivas. Deslizam melhor do que caca de coruja oleada.
        - Ainda no temos bebes na nossa famlia, portanto, a minha experincia  nula.
        - A Amy no  difcil de agradar. - Keefe puxou Jaimie para perto de si e virou a pgina do livro. - Se no fizeres tudo na perfeio, ela no protesta.
        As mos de Bethany tremiam quando abriu o saco  procura de uma fralda. Estava sempre  espera que a beb comeasse a berrar com impacincia, mas Amelia 
apenas gorgolejava e sorria, como se tudo aquilo fosse muito divertido.
        Heidi voltou  sala na altura em que Bethany tinha acabado de tirar a fralda. Debruou-se nas costas do sof, os seus grandes olhos castanhos curiosos mas 
amigveis.
        - O Ryan diz que tu eras incrvel nos concursos de barrel racing. Bethany olhou para ela.
        - No era m de todo. Ouvi dizer que tu tambm gostas.
        Heidi torceu o nariz. Era muito parecida com a irm mais velha Maggie, com as mesmas feies delicadas e uma abundncia de cabelo castanho-escuro.
        - Estou a tentar. O Ryan diz que talvez, se eu te pedisse com muito jeito, tu pudesses ir ver-me e dar-me alguns conselhos.
        - Oh, no sei, eu...
        - Por favor? - insistiu Heidi. - Ele diz que tu foste aos estaduais trs vezes. Isso faz de ti o mximo, praticamente uma lenda.
        - No era assim to boa - disse Bethany com uma gargalhada de embarao.
        Heidi olhou para a beb:
        - Agora, tens de a limpar.
        - Oh! - Bethany sentia-se tola, com uma rapariga de doze anos a explicar-lhe como trocar uma fralda. No sabia o que fazer.
        - E o que  que eu uso para a limpar?
        - Um toalhete. - Heidi contornou o sof e comeou a revirar o saco. Descobriu finalmente uma caixa branca e estreita cheia de toalhetes descartveis. Retirou 
um e entregou-lho.
        - Nunca fizeste isto?
        - No. - Bethany limpou o rabo de Amelia. -  a minha estreia.
        - Ests a ir bem - assegurou-lhe Heidi. - Mas no tens de ser to cuidadosa. S tens de a limpar toda, e as dobrinhas tambm. Seno, a Maggie diz que ela 
fica toda assada. Depois, pes o talco.
        Bethany assim fez, e em breve Amelia estava de volta ao normal. A beb riu-se com prazer e esperneou, as pernas rechonchudas agitando-se por baixo da barra 
do vestido aos quadrados vermelhos e brancos.
        - Fazemos uma boa equipa - disse Bethany  Heidi enquanto sentava a beb no colo. - Quando a lama secar, acho que posso tirar uma tarde para ir ver-te correr.
        Heidi arregalou os olhos.
        - A srio? Mesmo? Uau, Espera at eu dizer  Alice. Vai ficar verde. Bethany riu-se.
        - A Alice? Mais uma que gosta de corridas?
        - Sim, e  muito melhor do que eu. Agora, fico em vantagem.
        - No sei se vou poder ajudar-te muito - avisou-a Bethany. - No posso subir para um cavalo e mostrar-te nada. Os conselhos no ajudam assim tanto.
        - Ajudam imenso. Tenho a certeza! E no temos de esperar que a lama seque. O Ryan h-de pensar nalguma coisa.
        - O Ryan h-de pensar em qu? Bethany levantou a cabea e viu que o tema da conversa se dirigia para elas. Inclinou-se para apoiar os cotovelos nas costas 
do sof.
        - Ests a oferecer-me para alguma coisa, Heidi?
        - S para descobrires uma maneira de a Bethany me ver correr. Ela est preocupada com a lama.
        Ryan sorriu a Bethany.
        - Ela tem uma fixao com a lama. No  um problema. Posso usar umas tbuas, em ltimo caso. Podes ir no prximo sbado? Era mais fcil do que marcar uma 
hora depois da escola.
        - Tenho os sbados livres - concordou Bethany. - Era um bom dia.
        Heidi estava to entusiasmada que no parava de saltar.
        - Isto  o mximo! - Apanhou Bethany de surpresa quando se inclinou e a beijou na cara. - Eu tinha tanta certeza de que no ia gostar de ti. Mas tu s to 
simptica, e mais forte do que eu.
        Bethany ainda estava a rir quando a rapariga foi a correr para quarto de dormir para telefonar  amiga.
        - Porque  que ela tinha tanta certeza de que no ia gostar de mim? Ryan riu-se.
        - Acho que ela te v como uma rival.
        - Ui, ui. Ele olhou para ela.
        - Ests safa. Em termos de importncia, eu fico bem abaixo das corridas, graas a Deus.
        - Seja como for, no sou uma concorrente no que toca ao teu afecto.
        - No. Seja como for - concordou ele.
        Acabada a histria, Keefe poisou Jaimie no cho e ficou a v-lo correr para a cozinha. A criana era uma rplica mnima do seu av, o cabelo e a pele morena 
marcando-o como um membro da famlia Ken-drick.
        O olhar de Bethany passou para Ryan.
        - Ele  to parecido com vocs.
        Ryan olhou para o rapazinho com uma expresso pensativa.
        - Sim,  verdade. Estou sempre a dizer ao Rafe que se escondeu no monte da lenha h trs anos, mas ele jura que no andava por perto de Prior, Idaho, quando 
o rapaz foi concebido.
        Bethany franziu o sobrolho e olhou espantada para o rapazinho.
        - Desculpa?
        - Ele no  filho biolgico do Rafe. Tinha um ms de idade quando o meu irmo conheceu a Maggie. No que isso tenha importncia, seja como for. - Olhou para 
ela, a sua expresso subitamente intensa. -  s uma coisa que achei que devias saber.
        - No  do Rafe? - Ela abanou a cabea. - Nunca me teria passado pela cabea. Ele  to parecido com vocs todos, e parecem gostar tanto dele.
        - E gostamos. As linhagens so importantes nos cavalos, no nas pessoas. O Jaimie  filho de Rafe em tudo o que importa, e quando tiver idade suficiente 
para perceber, nunca se sentir menos Kendrick do que qualquer um dos filhos biolgicos do Rafe. A nossa famlia  assim. Certo, pai?
        Keefe entalou a fralda traseira da camisa de cambraia no cs das calas com os dedos.
        - Isso mesmo. Eu ficava com mais uma dzia igual a ele. Enquanto Keefe se dirigia  cozinha, Bethany observou a forma ociosa, quase desconjuntada como ele 
andava, to parecida com a dos seus filhos. Um dia, quando Jaimie fosse mais velho, haveria de caminhar com a mesma graciosidade fluida, simplesmente porque fora 
criado por aqueles homens?
        Olhou, pensativa, para Ryan. Por que motivo se convencera de que ele nunca estaria disposto a adoptar?
        Um brilhozinho passou pelos olhos dele quando lhe retribuiu o olhar. Quase esperava que ele dissesse alguma coisa. Mas limitou-se a endireitar-se e sair 
da sala, deixando-a sozinha com a beb e com os seus pensamentos confusos.
        Amelia no permitiu que Bethany pensasse muito. Bem descansada depois da sua sesta, estava pronta para conviver, e esbracejou e barafustou at que Bethany 
dedicou toda a sua ateno aquele rosto sorridente. Grande erro. Ela era um anjinho to bonito, to anafado e macio e bem cheiroso. Segurando-a nos braos, tocando-lhe, 
brincando com ela, Bethany no pde deixar de desejar ter uma s sua. Uma filha que ela nunca poderia ter. O mdico responsvel pelas operaes fora bastante claro 
a esse respeito: "0 mais provvel  que nunca consiga levar uma gravidez at ao fim. Em minha opinio,  uma bno. Uma mulher numa cadeira de rodas no deve ter 
filhos."
        Recordar aquelas palavras provocava em Bethany uma mgoa terrvel, ainda agora. "Uma bno." Nunca ningum lhe dissera nada to cruel. Tinha dezanove anos 
quando se sujeitara  terceira operao. Apenas dezanove, e um mdico praticamente a dizer-lhe que nunca poderia ter uma vida sexual normal nem uma famlia. Pensando 
bem, o que  que lhe restava? Nada.
        Olhando para o pequeno rosto de Amelia, Bethany esforou-se por afastar aquelas sensaes. Aquilo era uma estupidez. Mais ainda, seria embaraoso se algum 
a visse com aquela cara. S que... Estar ali em casa de Ryan, comeando a conhecer a famlia dele... ela no seria humana se no lhe passasse pela cabea que aquela 
podia ser a sua casa, a sua famlia.
        O que  que ele tinha que a deixava naquele estado? Pois, sim. O irmo dele tinha adoptado um filho e agora, naquela fase da sua vida, Ryan poderia pensar 
que se daria por satisfeito se fizesse o mesmo. S que no caso de Rafe era diferente. Ele j tinha outro filho seu com Maggie, e era provvel que viesse a ter mais. 
Ryan nunca poderia ter um filho com Bethany.
        Como  que ele se sentiria quando tivesse cinquenta anos? Muitos homens queriam ser os pais biolgicos dos seus prprios filhos. Ela desconfiava que era 
uma coisa de homens, de algum modo ligada  noo de auto-estima e de virilidade. O que Ryan poderia considerar pouco importante agora tornar-se-ia uma grande preocupao 
mais tarde. Ele era um proprietrio abastado com uma dinastia a continuar. Quando envelhecesse, no haveria de querer que o seu patrimnio fosse transmitido a filhos 
com sangue Kendrick?
        Alm disso, quem  que ela estava a enganar? Como se a sua incapacidade de ter filhos fosse o nico problema. Nem de longe. Ele passava a maior parte do 
dia no exterior, a cavalo, em terreno irregular, e as suas actividades nos tempos livres tambm se centravam no exterior. Um casal devia partilhar uma vida, no 
existir em estratosferas diferentes.
        Ela no podia ter a esperana de partilhar a realidade de Ryan. Se resolvesse sair naquele preciso instante, no andaria um metro antes que as rodas da cadeira 
se afundassem na lama e na neve. Ryan acabaria por ter de carregar com ela e com a cadeira para onde quer que fosse. Era isso que ela queria? Transformar-se num 
fardo? No. Queria ser uma parceira participante num casamento, no uma observadora.
        E, naquele rancho, uma observadora era tudo o que ela podia ser.
        Parado junto  bancada, Ryan olhou para ela naquela altura. Por um instante, Bethany sentiu-se como se o mundo tivesse desaparecido e eles fossem as duas 
nicas pessoas naquela sala.
        Foi ela a primeira a desviar o olhar e f-lo com uma peremptoriedade sentida. Talvez Ryan pudesse aceitar a sua paralisia, mas nunca poderia aceitar tudo 
o que lhe estava associado - ou, mais concretamente, tudo o que no lhe estava associado, filhos dele e uma mulher fisicamente activa figurando no topo da lista.
        Mais importante, s uma mulher muito egosta lhe pediria uma coisa dessas.
        Depois de um jantar muito agradvel em redor da mesa da cozinha, Ryan ligou o leitor de vdeo e todos passaram a sala para ver o filme, uma histria infantil 
sobre dois ces e um gato que embarcavam numa viagem atravs do pas para voltarem a casa. Bethany estava  espera de ficar na sua cadeira como fazia quando via 
filmes com a sua famlia, mas Ryan tinha outras ideias. Agarrou nela, poisou-a no cadeiro declinvel e sentou-se ao lado dela.
        Depois de colocar uma manta em cima de ambos, levantou o apoio dos ps e passou-lhe um brao  volta dos ombros.
        - Confortvel?
        Ela estava mais do que apenas confortvel. Era delicioso, poder aconchegar-se numa cadeira fofa como uma pessoa normal.
        - Perfeita - assegurou-lhe ela.
        - Pois s - concordou ele em voz baixa. Antes que Bethany pudesse perguntar-lhe o que queria dizer, ele perguntou: - J viste este filme?
        - No. E tu?
        Ele olhou para as crianas, que estavam sentadas numa ponta do sof com Rafe e Maggie. Mais parecendo suportes de livros desirmanados, Sly e Helen estavam 
sentados lado a lado na outra extremidade.
        - Diria que todos j o vimos cerca de vinte vezes.  o preferido do Jaimie. A Sally Fields faz a voz do gato e o Michael J. Fox faz a do co mais novo.
        - A srio? - Bethany olhou para a me de Maggie, Helen, cujos olhos castanhos estavam fixos no ecr. Se j vira o filme assim tantas vezes, Bethany no percebia 
por que motivo estava to ansiosa para o ver mais uma vez.
        - A Helen no joga com o baralho todo - murmurou Ryan.
        Sly olhou para ele e franziu o sobrolho, levando Bethany a pensar se no teria ouvido o comentrio, no o tendo apreciado. Bethany deitou um olhar espantado 
a Ryan:
        - O que  que queres dizer com isso?
        - Ataque cardaco - explicou ele. - Privao de oxignio no crebro.  uma querida, s um pouco infantil.
        Olhou para Helen com novos olhos. Durante o sero, reparara que a me de Maggie era estranha de uma forma muito querida.
        - Ainda  to nova e to bonita. Que pena.
        - Depende da forma como vires a questo, acho eu. Vai pensar mais ou menos como uma criana de dez anos para o resto da vida, mas  a pessoa mais feliz que 
alguma vez hs-de conhecer. Cinquenta e cinco anos de idade, e acredita no Peter Pan.
        Bethany estudou Helen durante mais um pouco e decidiu que Ryan tinha razo. Ela parecia to feliz, os olhos a brilhar de prazer quando o filme comeou. Parecia 
estar to cativada como as crianas.
        Bethany dirigiu a sua ateno para o televisor, esperando apreciar o filme. No era uma tarefa fcil. Para o fazer, tinha de ignorar as carcias das pontas 
dos dedos de Ryan no seu ombro. Ele descrevia crculos na manga, num assalto incessante s suas terminaes nervosas. A pele dela queimava onde ele lhe tocava.
        Quase lhe pediu para tirar a mo uma dzia de vezes, s que se o fizesse, ele ficaria a saber que o seu toque a perturbava. Afinal, era apenas um toque inocente 
- um movimento ausente e repetitivo das pontas dos dedos no tecido de algodo.
        Ao ver a expresso que provocava as rugas na testa lisa de Bethany, Ryan sorriu para consigo. Sabia perfeitamente qual era a causa e continuou sem um nico 
vestgio de culpa. Qualquer mulher nova que nunca voara a solo precisava urgentemente do toque da mo de um homem, e, naquele caso em particular, no bastaria a 
mo de qualquer um. Ryan estava decidido a ser ele quem a ensinaria a voar.
        Olhou para o outro lado da sala e piscou o olho  me, que estava sentada no colo do pai. Ann Kendrick sorriu sonolentamente e aninhou-se contra o seu marido, 
poisando a cabea no ombro dele.
        Quando o filme acabou, Bethany no conseguia recordar-se de grande parte da histria.
        - Foi muito agradvel - disse Ann enquanto se levantava da caldeira. - Mas agora est na hora de esta velhota ir para casa deitar-se na sua caminha confortvel. 
- Deu um abrao a Rafe e ao resto da famlia dele e foi por trs do sof ate ao cadeiro declinvel. Depois de se debruar para beijar Ryan, poisou uma mo no ombro 
de Bethany:
        - Gostei muito de te conhecer, Bethany. Espero passar a ver-te muito mais vezes a partir de agora.
        Bethany estava a pensar em algo para dizer em resposta quando Keefe atravessou sonolento a sala para se juntar  mulher. Passou um brao  volta dela.
        - Vamos para casa, Annie. Essa cama de que falaste parece-me muito convidativa.
        Com o seu cabelo grisalho a brilhar como prata com a luz difusa, Keefe baixou a cabea para mordiscar o pescoo da mulher e sussurrar qualquer coisa enquanto 
se dirigiam para a porta.
        Ann levantou um brao e deu-lhe uma pancada no alto da cabea com os ns dos dedos.
        - Keefe Kendrick, pra com isso. Os nossos netos esto aqui.
        - Esto todos a dormir, me - disse Rafe enquanto se debruava sobre Heidi para lhe vestir as mangas da parka. - E no pensem que se escapam como um casalinho 
de adolescentes. Preciso de ajuda com a carga.
        Helen levantou-se atrs do seu genro, quase chocando com Sly quando aquele se levantou.
        - Calma, querida - disse ele quando a agarrou. - No vale a pena cansar-se para no ir a lado nenhum.
        A cara dela ficou rosada quando deitou a Sly um olhar to coquete como o de uma rapariga. O capataz apertou-lhe ligeiramente o ombro, o que a fez corar ainda 
mais.
        - S quero ajudar - explicou ela.
        - Tenho a certeza de que o Rafe h-de pensar nalguma coisa para a Helen fazer - disse o capataz. - No , Rafe?
        Rafe sorriu:
        - Pode calar-lhe os sapatos, Helen. J era uma ajuda.
        Keefe voltou atrs para ajudar o filho mais velho. Ryan percebeu que aquela era uma deixa para comear a ajudar tambm. Enquanto Rafe comandava as tropas 
no outro lado da sala, Ryan levou Jaimie para o cadeiro e comeou a tentar calcar as luvas de Inverno nas mos inertes do rapaz. Pouco depois, Bethany tambm tentava 
ajudar e, passados segundos, estavam os dois a rir.
        - Isto  como tentar apertar umas botas com atacadores de couro molhados - queixou-se Ryan. - Que raio, Rafe, porque  que no compras umas luvas sem dedos 
ao rapaz?
        Rafe espreitou por cima do ombro do irmo.
        - Ele quer luvas a srio como as minhas.
        Jaimie gemeu durante o sono e afastou a mo, o que os deixou de volta  estaca zero.
        - Oh, por favor - queixou-se Ryan.
        Maggie aproximou-se. Incapaz de ajudar porque tinha Amelia no colo, limitou-se a observar durante um momento e depois riu-se e abanou a cabea.
        - Rafe, guarda as luvas no bolso do casaco dele.
        - No quero que ele fique com as mos frias - insistiu ele enquanto se ajoelhava ao lado do irmo. - Vamos l, rapaz. - Prendeu o rapaz na curva do brao. 
- Vamos, Jaimie. O pap precisa que tu acordes.
        Jaimie aninhou-se contra o peito do pai.
        - Pap - murmurou ele.
        Deixando Rafe encarregado das luvas, Ryan comeou a tentar arrumar os ps de Jaimie nas suas botas de vaqueiro. Depressa se tornou bvio que seria mais uma 
tarefa difcil. Bethany olhou para Maggie, que lhe sorriu.
        - Eles protegem-no de mais - disse ela em jeito de explicao. - No tm cura, portanto, eu deixo andar.
        - No  nada disso - disse Rafe. - Mas est muito frio l fora.
        - O Jaimie no  muito grande, Maggie - interveio Ryan. - No tem muita carne. E o Rafe tem razo. Esta noite est mais fria do que o traseiro de um cavador 
de poos.
        Keefe afastou os filhos para um lado:
        - Por favor, no  assim to complicado vestir uma criana. Juntaram-se todos para ver Keefe conseguir vestir o rapazinho adormecido. Depois de conseguir 
calcar-lhe uma luva, recuou, coou o queixo e disse:
        - E que tal se o embrulhssemos numa colcha?
        Aquela sugesto foi recebida com entusiasmo e, em breve, Ryan estava a acompanhar a famlia  porta. Antes de partir, Keefe inclinou-se para dar um abrao 
a Bethany.
        - Boa noite, minha querida. Fazes um po de alho razovel. Acho que ficamos contigo.
        Bethany olhava sem ver para o ecr do televisor durante a ausncia de Ryan. Rezou para que ele soubesse manter a distncia agora que iam ficar sozinhos. 
Se no o fizesse, ela no tinha a certeza de conseguir resistir-lhe.
        Quando voltou para a sala, Ryan percebeu que ela estava tensa assim que lhe viu a cara. Deixou-se ficar perto da lareira, pernas afastadas, braos cruzados 
sobre o peito. Tanto quanto se podia aperceber, ela suportara todos os rodeios e manobras sensuais que poderia suportar. Se ele fosse inteligente, dava-lhe trguas. 
Teria todo o tempo do mundo para a convencer mais tarde se conduzisse bem a situao e a deixasse com vontade de voltar para outras visitas.
        - Pareces exausta - disse ele. - Acho que o melhor  preparar-te para dormir. Aqui, to longe da cidade, nunca sei quando vou ter visitas inesperadas que 
passam c a noite, portanto, tenho escovas de dentes e coisas assim a mais.
        - Ainda bem. Agradeo uma escova de dentes.
        Ele recordou-se subitamente de que ela no tinha tornado os medicamentos.
        - Que raio. No me lembro de te ver beber muito vinho ao jantar.
        - Tive medo de ficar tonta e passar uma vergonha  frente da tua famlia.
        Ryan foi  cozinha.
        - Bem, eles j se foram embora. Se ficares tonta, no tem importncia.
        Agarrou na garrafa de vinho meio cheia e tirou dois copos de um armrio.
        - Apetece-te comer alguma coisa antes de te deitares?
        Ouviu o zumbido da cadeira de rodas e, levantando a cabea, viu-a contornar a outra ponta da bancada para lhe fazer companhia. Enquanto comeava a tirar 
pickles de um frasco e a cortar queijo na tbua, perguntou-lhe:
        - Como  que funciona essa cadeira?
        - Uma bateria recarregvel. Vou ter de a ligar a uma tomada durante a noite.
        - Tudo bem. - Ryan sorriu enquanto lhe metia um pedao de queijo na boca e entregou-lhe um copo de vinho. Quando ela quisesse, estava disposto a recarregar 
as baterias daquela mulher. - Duma vez. Dois copos cheios.
        - No precisas de insistir. No quero ter cibras nas pernas.
        Sem saber porque, Ryan nunca pensara que os paraplgicos poderiam sentir dor nas pernas. Na realidade, partira exactamente do pressuposto contrrio, de que 
nunca sentiam nada, o que o fez pensar quantos mais dos seus outros pressupostos estariam errados. Estudando o rosto dela, que estava a sorrir noventa e cinco por 
cento das vezes, percebeu que comeava a pensar em muitas coisas agora que a ia conhecendo melhor, nomeadamente, quantas vezes ela sorria quando o que realmente 
lhe apetecia era chorar.
        Recordou-se de ter visto um filme chamado Passion Fish sobre uma mulher paraplgica. A cena que lhe ficara gravada na memria era a de uma mulher sentada 
na cozinha, frustrada pela sua incapacidade, que comeava subitamente a gritar. Puxando os cabelos e berrando a plenos pulmes, tendo apenas as paredes a ouvi-la. 
Houvera alguma ocasio em que Bethany quisera puxar os cabelos e gritar? Provavelmente. Sem dvida, ainda haveria alturas em que lhe apetecia faz-lo.
        - Uma massagem alivia as cibras? - perguntou ele.
        - Eu tinha de me torcer tanto para me massajar que acabava por ficar com espasmos, que ainda so piores - disse-lhe ela com uma gargalhada.
        Ryan no se teria importado de poisar as mos novamente naquelas pernas bonitas para lhes dar uma massagem, prestando especial ateno ao ponto no interior 
da coxa esquerda. Aquele pensamento levou a outro, ainda mais frustrante, de que Bethany talvez tivesse alguma sensao, ainda que parcial, nas suas partes ntimas. 
Talvez estivesse a exagerar, mas parecia-lhe que ela tinha boas hipteses, excelentes at, de apreciar uma relao sexual, se houvesse pontos em que conseguisse 
sentir alguma coisa.
        Pensar naquilo f-lo agarrar no copo de vinho. Se tinha alguma esperana de dormir naquela noite, precisava de uma boa dose. Sentado no cadeiro com ela 
durante quase duas horas, a sua lbido ficara inflamada.
        Concentrou-se na comida e no vinho, decidido a no deixar que o seu olhar se perdesse nas curvas de Bethany. Depois de lhe servir um prato, comeou a comer. 
Bethany agarrou num pedao de pickles. Em lugar de o morder, levou a ponta da lngua  extremidade e comeou a chup-lo. Ryan no tirava os olhos, uma fatia de queijo 
esquecida entre os dentes. "Que inferno." Estava metido num bom sarilho. V-la chupar aquele pickle era o suficiente para o mandar para um mergulho gelado no lago.
        Empurrando o queijo para a bochecha, perguntou numa voz abalada:
        - Gostas de pickles?
        - Mmm! - Ela chupava e mordiscava o pedao, deixando-o louco sempre que estendia a ponta da lngua. - E tu?
        Ryan duvidava que lhe conseguisse sentir o sabor. A pulsao latejava-lhe nas tmporas como cascos ferrados sobre beto.
        - No tenho dvidas de que gosto de te ver com-los.
        Bethany parou, envesgando ligeiramente os olhos ao olhar para baixo. As suas faces ficaram rosadas e ela tirou o pickle da boca.
        Ryan sorriu, conhecendo uma sensao de satisfao puramente masculina por t-la feito corar. Ela no lhe era to indiferente quanto tentava parecer, e ele 
deixava-a um pouco nervosa, o que era sempre um sinal encorajador.
        - No pares. Sabe-me bem ver uma mulher saborear a sua comida. - Uma das coisas que mais o irritavam eram as mulheres cuja obsesso com a magreza regia todos 
os aspectos da sua vida. - So tantas as mulheres que esto sempre em dieta hoje em dia. Ultrapassa-me, mas comportam-se como se comer fosse um pecado mortal. Quando 
como um filet mignon, gosto que uma mulher me faca companhia e goste do que est a comer.
        Ela olhou-o nos olhos e deu uma grande dentada no pickle. Ryan fez os possveis por no fazer um esgar. Quase soltou uma gargalhada porque sabia muito bem 
que ela fizera de propsito, apenas para o excitar. Os olhos dela tinham uma expresso travessa. Bethany era uma mistura to fascinante, pensou ele, com uma grande 
falta de experincia concreta com homens, mas astuta e capaz de ler nas entrelinhas. Ele gostava daqueles duelos com Bethany.
        - Nesse caso, estou bem para ti - disse-lhe ela enquanto mastigava, com uma bochecha dilatada. - Gosto de comer. Mas, quanto ao meu filet mignon, devoro-o 
at ao ltimo pedao.
        Ele riu-se ao ver a expresso nos olhos dela.
        - Muito bem. E qual seria a sobremesa? Ela ergueu as sobrancelhas delicadas:
        - Ainda tens de perguntar?
        - Chocolate?
        Bethany ficou com uma expresso sonhadora.
        - Quanto mais doce e pior para a linha, melhor. Tenho uma fome de chocolate que nem te passa pela cabea.
        Ryan pensou se ela saberia que os ingredientes do chocolate alegadamente reproduziam os sentimentos que uma mulher tinha quando estava apaixonada. Aquela 
ideia acabara de lhe ocorrer quando ela disse:
        -  um grande substituto para o sexo, sabias? Um facto provado cientificamente.
        Desta vez, ele riu-se.
        - Ests a fazer os possveis para me chocar, no ests?
        Ela sorriu beatificamente.
        - S a testar a tua resistncia. Com cinco irmos, aprendi cedo que  melhor manter um homem na linha do que o contrrio. Porqu? Ficas preocupado com uma 
visita sexualmente frustrada? Podes sempre preparar uma mousse de chocolate.
        Ryan Kendrick tinha uma cura garantida para o mal que a afligia, e de certeza que no era chocolate.
        
     Captulo Doze
        
        
        Com dois copos de vinho para a descontrair, Bethany dormiu profundamente e acordou na manha seguinte bem repousada mas desorientada. Algumas pessoas cantavam 
no duche e abriam os braos para receber o novo dia. Quando ela acordava, apenas lhe apetecia cafena, solido e silncio absoluto at passar a rabugice. Era sempre 
assim desde o acidente, uma sensao terrvel de estar encurralada apoderando-se dela assim que abria os olhos e se apercebia de que os seus sonhos nunca voltariam 
a ser possveis. Sonhos em que caminhava e corria... andava a cavalo e danava... em que se libertava da priso em que o seu corpo se transformara.
        A luz da manh entrava atravs das janelas, o seu brilho quase a cegando porque reflectia a neve no exterior. As cortinas de cor crua de pouco serviam para 
atenuar a claridade. Bethany abriu um olho, gemeu, e passou um brao por cima da cara. At o roagar do tecido da fronha parecia demasiado barulhento.
        Com a esperana de se adaptar lentamente  claridade, baixou o brao. As paredes brancas eram mais brancas do que o branco. No havia nada para quebrar a 
monotonia, nenhuma fotografia, nenhum quadro, nada. A cmoda e a secretria estavam praticamente nuas, sem bibels nem napperons. Os quartos de hotel tinham mais 
personalidade.
        Homens. Como  que podiam viver assim? Os irmos dela eram iguais. A ideia que tinham de decorao consistia em pendurar um calendrio na parede durante 
a primeira metade de Janeiro.
        Bethany gemeu e afastou os braos do corpo. Olhando para o tecto, tentou recordar-se de ter ido para a cama. Imagens desfocadas rodopiavam na sua mente. 
Recordava-se de Ryan sentado ao lado dela depois de se deitar, mas no se lembrava do que tinham falado. A nica recordao distinta era do brilho dos olhos dele 
com a luz difusa, um azul suave e prateado que a deixava com arrepios sempre que ele olhava para ela.
        Deitada de costas, amaldioou silenciosamente as suas pernas, desejando poder voltar-se de lado para aliviar a tenso entre os ombros. Impossvel. Virar-se 
dava mais trabalho do que merecia, puxar e levantar e torcer. Era melhor deixar-se ficar ali deitada como uma baleia encalhada e dar-se por satisfeita.
        Ensonada, estudou os desenhos no tecto de estuque, que tambm se encontrava pintado com um branco implacvel. Como  que ela ia sair da cama? A porta do 
quarto estava fechada e, ainda que estivesse atenta, no ouvia qualquer rudo indicativo de que Ryan estivesse a p. Logo pela manh, a primeira coisa de que sempre 
precisava era de usar a casa de banho. Pequeno problema. Sem o seu elevador, estava presa.
        No queria pedir ajuda e acord-lo. Apoiando-se nos cotovelos olhou para a sua cadeira, que ele deixara junto  parede, perto de uma tomada para recarregar 
a bateria. No chegava a estar a dois metros dela, mas bem poderia estar nos confins setentrionais do Canad.
        - Raios! - exclamou ela. - Detesto isto. Detesto, detesto, detesto. Segundos depois, bateram  porta.
        - Ests decente?
        Bethany sobressaltou-se e pestanejou:
        - Sim. Entra.
        A porta abriu-se e Ryan espreitou. Ainda molhado do duche, o cabelo negro e ondulado brilhava como obsidiana polida e o queixo reluzia com a luz da manh, 
indicando que acabara de se barbear. Parecia perfeitamente acordado e desagradavelmente bem-disposto. Ela detestava pessoas que sorriam to cedo. Ficava com vontade 
de lhes dar um murro.
        - Ol - disse ele, dentes fortes e brancos brilhando num sorriso. Abriu mais a porta.
        - Como  que sabias que eu estava acordada? - perguntou ela, irritada.
        Ele apontou com o polegar para uma caixa de plstico branco montada na parede perto da porta. Seria que tudo o que se encontrava acima do nvel do cho naquela 
casa era branco?
        - Intercomunicador. Estava a tomar o pequeno-almoo e  espera de te ouvir mexer. - Sorriu novamente. - Parece-me que ests um pouco resmungona.
        Resmungona no traduzia nem metade. Levantar-se da cama demorava uma eternidade. Depois, seguia-se o processo arrastado de ir para a casa de banho.  semelhana 
da maioria das pessoas, ela queria uma chvena de caf assim que abria os olhos, e passava-se geralmente meia horas antes de sequer ver a cozinha.
        Ryan aproximou-se de cama. Bethany olhou para ele, detestando o facto de no poder levantar-se sozinha e ter de ficar ali,  espera de que ele a ajudasse. 
        - Tens as paredes vazias. No te cansas de olhar para tanto estuque branco?
        Ele deu uma vista de olhos ao quarto.
        - Por acaso, no olho muito para as paredes.
        Grande novidade.
        - Bem, precisas de decor-las. A tua casa diz quem tu s.
        - Ui, ui.
        - Isso mesmo. Se as tuas paredes fossem um indicador, no tinhas personalidade.
        Ele riu-se e disse:
        - Estou a tratar de arranjar um decorador.
        - No precisas de um decorador. Precisas de... coisas.
        - Que gnero de coisas?
        - No sei. Coisas. Sabes, coisas que reflictam quem tu s.
        - Tenho espelhos nas casas de banho. Eles reflectem quem eu sou.
        - Muito engraado. No tens coisas que sejam importantes para ti? - Puxou o lenol, cujo canto ficara preso debaixo do traseiro. - Tens de pendurar coisas 
nas paredes que digam algo.
        - O que  que eu quero dizer?
        - Que s algum. Que viveste e tiveste experincias de vida. Fotografias dos teus cavalos, talvez. Imagens das pessoas de quem gostas, pelo menos.
        - Tenho um par de botas velhas das quais gosto muito. Ela olhou-o furiosa, o que o fez rir.
        - s sempre assim de manh? - perguntou ele.
        - Sim.
        - Ai. - Ele inclinou-se para puxar as cobertas para baixo e depois agarrou nela.
        Bethany agarrou-se  camisa dele, ainda no muito  vontade:
        - S aceito reclamaes depois do meio-dia. Ele poisou-a na cadeira.
        - Estou na cozinha, querida. Tens o pequeno-almoo  espera. Quando Bethany foi ter com ele alguns minutos depois, Ryan deitou-lhe um olhar desconfiado.
        - Ests mais bem-disposta desde que te vi pela ultima vez?
        Ela parou perto da bancada e esfregou os olhos. Tinha o cabelo todo emaranhado, cheirava mal das axilas, e, tanto quanto podia dizer, Ryan no tinha uma 
escova, apenas pentes que lhe puxavam o cabelo comprido pelas razes. Ela era uma criatura de hbitos, com rituais matutinos que comeavam o seu dia. Ali, nem sequer 
tinha roupa lavada para vestir.
        - Posso beber um pouco de caf?
        Ele correu para a mquina e encheu uma caneca.
        - Como  que o bebes?
        - Forte?
        - Sem natas, sem acar?
        - Isso mesmo. Direito  veia est muito bem.
        Ele riu-se, o que lhe valeu mais uma expresso furiosa.
        - Queres uma unha para roer?
        Ela ignorou a graa, agarrou na caneca e foi para junto da lareira da cozinha, olhando com uma expresso ausente para as chamas enquanto tentava acordar. 
Depois de beber o caf, comeou a sentir-se um pouco mais humana e muito mais culpada por ter sido to brusca.
        - Desculpa a rabugice.
        Ryan levantou-se da mesa e foi ter com ela, poisando um p no tijolo enquanto olhava para ela.
        - No foi assim to mau que tenhas de pedir desculpa. Apenas foste um pouco spera.
        Ela tentou suprimir um sorriso.
        - Ests a ser bem-educado. O Jake diz que j viu texugos mais bem-dispostos do que eu quando acordo de manh.
        - A srio? - Ele encolheu os ombros e suspirou. - Ora a est um bom irmo, sempre pronto a dizer-te a verdade nua e crua, quer tu queiras ouvir quer no.
        Bethany rebentou s gargalhadas.
        Jake chegou meia hora depois. Bethany j se lavara o melhor que conseguira e estava a apreciar uma segunda caneca de caf quando Ryan e o irmo dela entraram 
em casa, conversando e trocando piadas como se fossem grandes amigos.
        Bethany no estava com disposio para rituais masculinos. Olhou para o irmo com os olhos semicerrados e sorriu docemente.
        - Meu Deus, mas que oportuno. Espanta-me que tenhas encontrado a casa do Ryan to facilmente.
        Jake olhou para Ryan. O seu olhar passeou pela sala, parando no tecto.
        - J tive de tratar de coisas por estas bandas.
        Ryan clareou a voz e tentou fazer-lhe sinal com um olhar de esguelha, o qual Jake perdeu porque estava ocupado a contar as rachas no tecto e a parecer inocente.
        - A srio? - insistiu Bethany. - Que gnero de coisas?
        Jake coou a cara diante da orelha, olhou para ela e abandonou a observao do tecto, estudando agora a tijoleira do cho.
        - O Rocking K est sempre a encomendar coisas da loja. Tu sabes isso.
        - E por isso  que passaste por c, para entregar uma encomenda? Jake pareceu ficar aliviado.
        - Sim, exactamente. Vim c h pouco tempo entregar uma encomenda. Certo, Ryan?
        Ryan encolheu os ombros e olhou desconfiado para Bethany.
        - Foi uma encomenda, podes ter a certeza.
        Jake franziu a testa. Olhou para Ryan, depois para ela, com os lbios apertados e uma expresso pensativa nos olhos.
        - Deste com a lngua nos dentes - disse ele em voz baixa. Ryan levantou as mos.
        - Foi um acidente, parceiro. Estvamos a conversar e ela apanhou qualquer coisa que eu disse. Quando me perguntou  queima-roupa, no lhe quis mentir.
        Jake olhou para a irm como quem pede desculpa.
        - No foi nada de especial, Bethie. S queria esclarecer algumas coisas com o Ryan. S isso.
        - Mas foi especial. Ests sempre a meter-te na minha vida. Isso tem de acabar.
        Ele encolheu os ombros.
        - E acabou. No repito.
        - Porqu a sbita mudana de ideias? Escapou-me alguma coisa? Jake sorriu-lhe.
        - No. Apenas percebi que  provvel que no precises que eu continue a olhar por ti.
        Subitamente, Ryan entrou em aco:
        - Que tal um caf antes de voltares, Jake?
        - Parece-me bem.
        Ryan tirou uma caneca do armrio.
        - Nada como uma boa caneca de Java numa manh de neve.
        -  verdade. No h nada melhor. - Jake sentou-se ao lado da irm. - Posso perguntar-te se ests bem, ou tambm vou ser mal recebido?
        Bethany teve a sensao de que os dois estavam ansiosos por mudar de assunto, e uma vez que achava que tinha deixado bem claro o que sentia, descontraiu-se.
        - No, no s mal recebido e, respondendo  pergunta, estou bem. Nem sequer um arranho, e o Ryan foi um excelente anfitrio ontem  noite. - Descreveu o 
sero a Jake. - Ele tem uma famlia muito simptica. Excederam-se todos para me fazerem sentir bem-vinda.
        -  bom saber isso.
        Ryan sentou-se do outro lado da mesa. Parecia tenso, mas Bethany no conseguia perceber porqu. No era por causa da presena de Jake. O seu irmo mudara 
de opinio e no poderia estar a ser mais simptico.
       Os dois falaram sobre gado durante alguns minutos. Depois, a conversa passou para os cavalos, um tpico que Bethany achava muito mais interessante. Como se 
se apercebesse disso, Jake levantou-se de repente.
        - Ento, mana? Ests pronta? Bethany suspirou.
        - No corro nenhum risco se falar sobre cavalos, Jake. Jake sorriu.
        - Se meteres na cabea que queres voltar a montar, o pai no h-de vir atrs do meu coiro. Deixo que o Ryan se aguente  bronca.
        - No vou voltar a montar. Jake olhou para Ryan.
        - Eu nunca disse isso.
        
        Voltar para casa era o menor dos problemas de Bethany. A sua carrinha especialmente equipada continuava no fundo de uma vala. Jake disse-lhe que no se preocupasse, 
que podiam passar sem ela na loja at que voltasse a ter transporte prprio, mas Bethany estava preocupada. Tinha contas para pagar e estava decidida a sustentar-se. 
Podia demorar um dia at que as estradas ficassem suficientemente desobstrudas para que um reboque pudesse levar a carrinha para uma oficina, e s Deus sabia quanto 
mais tempo at que as reparaes necessrias estivessem prontas.
        Ryan telefonou naquela tarde e percebeu imediatamente pelo tom dela que estava preocupada. Quando lhe disse porqu, tentou tranquiliz-la:
        - Se precisas de ir a algum lado, posso levar-te.
        - No, no.  s que detesto faltar ao trabalho enquanto isto no estiver resolvido. Vai ser um grande rombo no meu ordenado.
        - Posso fazer-te um pequeno emprstimo.
        - No  isso. O Jake no tem problema nenhum em dar-me o dinheiro.
        - Ento, qual  o problema?
        Ela suspirou e torceu o fio do telefone  volta do dedo.
        - O problema  esse. Nada deixaria a minha famlia mais feliz do que eu depender deles e no trabalhar de todo. Deixa-me... - calou-se. - Sei que parece 
um disparate, mas saber que vou faltar ao trabalho durante uma semana ou mais, deixa-me em pnico.
        Silncio prolongado do lado dele.
        - Em pnico por causa de qu, querida? Voltas ao trabalho na semana seguinte.
        - E o Jake h-de estar l com o dinheiro na mo, todo contente por estar a tomar conta de mim.
        - Ele  mesmo um palerma. Bethany riu-se e fechou os olhos.
        - Eu sei que estou a ser tonta.  s que... no consigo explicar.
        - Tenta.
        - Esforcei-me tanto para no precisar de ningum. No  nada de especial para os outros, mas para mim, ser independente, ganhar a minha vida  tudo. Sei 
que no soa bem, mas a minha famlia paira  minha volta como um bando de abutres, apenas  espera de que eu falhe. Os meus pais adoravam que eu voltasse para casa, 
para que a mam pudesse olhar por mim e o pap estragar-me com mimos. Ficavam contentes se eu nunca mais voltasse a trabalhar, se eu os deixasse fazer tudo. S a 
ideia deixa-me com dificuldade em respirar.
        - E no teres a tua carrinha pode facilitar-lhes a vida.
        - Exactamente. Sem ela, perco terreno. A inteno deles  boa. E adoro-os a todos.  horrvel pensar assim, quanto mais diz-lo.
        - Eu entendo. Todos temos a necessidade de sermos auto-suficientes.
        - Os meus pais querem-me de volta ao ninho.
        - Bem, nos no vamos deixar que isso acontea, portanto, no te preocupes. Se eles tentarem levar-te para o ninho, eu dou-lhes com uma tranca. Que tal?
        Ela sorriu com tristeza. O simples facto de ele sentir a necessidade de lhe oferecer o seu apoio fazia-a sentir-se um ser inferior.
        - Obrigada, Ryan. s um bom amigo.
        Depois de ele desligar, Bethany foi at a uma janela e olhou para a neve. Em Portland, nunca ficara presa daquela maneira. Quando nevava, as condies de 
conduo no eram to ms. Pelo menos, nunca cara numa vala numa estpida estrada de montanha.
        Ela precisava da sua carrinha. Era a sua liberdade. Nem sequer podia ir  mercearia comprar po sem ela. Enquanto no a tivesse de volta, seria uma prisioneira 
na sua prpria casa, dependente de terceiros para tudo.
        Era quase meia-noite ainda no mesmo dia quando o toque da campainha da porta arrancou Bethany de um sono profundo. Debateu-se com o elevador para conseguir 
sair da cama, o corao a bater furiosamente devido ao medo. Ningum na sua famlia apareceria aquela hora se no tivesse acontecido qualquer coisa de grave. "0 
meu pai." A primeira coisa que lhe ocorreu foi que ele tivera um ataque cardaco. "Meu, Deus, meu Deus." O pai dela no.
        - Raios! - Puxou pelo elevador, irritada com o facto de no poder simplesmente saltar para fora da cama e correr at  porta. Quando a campainha soou de 
novo, pensou se seria um dos seus irmos. Todos eles tinham chaves, para o caso de ela cair. Porque  que estariam a tocar?
        - J vou! - gritou ela.
        Minutos mais tarde, destrancou a porta e abriu-a para espreitar. Esquecera-se de acender a luz e apenas conseguiu ver a sombra volumosa de um homem. "Ryan?" 
Estava com vontade de o matar. Ele estava louco, aparecer quela hora?
        - Tiraste-me dez anos de vida.
        - Desculpa, querida. No a consegui trazer mais cedo.
        - Trazer o qu?
        Ele abanou um conjunto de chaves diante do nariz dela.
        - A tua carrinha. J est a funcionar. Usamos solda lquida para consertar o radiador. No   definitivo, mas dura at eu te arranjar outro.
        Bethany sentiu um n na garganta. Abriu mais a porta para olhar para a rua e, sem dvida, l estava a carrinha. Atrs dela, um jipe de traco s quatro 
rodas estava com o motor a trabalhar, os faris projectando uma luminosidade amarelada na neve.
        - O Sly ajudou-me a traz-la. - Ryan debruou-se e beijou-a na testa. - No o quero deixar muito tempo  espera, vou andando. Desculpa arrancar-te da cama 
to tarde, mas achei que gostarias de ter a carrinha amanh de manh. Agora, podes ir trabalhar.
        - Oh, Ryan... - Os olhos dela encheram-se de lgrimas. - No sei o que dizer. No precisavas de fazer isto.
        - No foi nada de especial. S tivemos de a tirar da vala com um guincho e levamo-la para minha casa para uma reparao rpida.
        Mas era especial. Muito especial. Agora que os seus olhos estavam a habituar-se  escurido, Bethany podia ver como ele parecia cansado. Imaginou que Ryan 
tivesse trabalhado durante horas para deixar a carrinha a funcionar.
        - No sei como te agradecer.
        - Os amigos no tm de agradecer, querida.  assim mesmo. Quando fores ver a Heidi montar no sbado, o Sly e eu trocamos o radiador. Tens de ir a uma oficina 
para reparar a grelha e o cap, mas, pelo menos, a carrinha trabalha.
        Dito isto, foi-se embora, e Bethany ficou ali sentada, a tremer com a aragem fria, a olhar para ele. "Os amigos no tm de agradecer". Aquele homem. Aquele 
homem grande, maravilhoso, impossvel. Ia faz-la cair de cabea, apaixonar-se por ele, quer ela quisesse quer no.
        
        
     Captulo Treze
     
        
        "Apenas amigos." Durante os dias seguintes, aquele tornou-se o mantra de Bethany. Ela nunca poderia ser a mulher de que Ryan precisava, ou merecia, nem na 
cama nem fora dela. Permitir-se desejar ou alimentar a ideia de que poderiam ser mais do que amigos seria uma pura tolice, dizia ela a si prpria com firmeza. Por 
mais tentador que pudesse ser, no seria justo para ele.
        No sbado seguinte, quando foi ao rancho ver Heidi montar, estava decidida a definir o tom da relao entre eles. A primeira parte da visita foi fcil, uma 
vez que Ryan estava ocupado noutro lugar, a trabalhar na carrinha dela. Quando o radiador foi finalmente substitudo e ele foi ter com ela para ver Heidi montar, 
Bethany recordou a si mesma que no podia deixar que a gratido abalasse a sua determinao.
        - Obrigada, Ryan. Fico-te a dever. Ele mirou-a com olhos cintilantes.
        - No deves nada. Encontrei-o num ferro-velho e s custou meia dzia de dlares. Temos a nossa oficina, portanto, no deu muito trabalho fazer a troca, no 
com todas as ferramentas certas.
        - Mas eu quero mesmo pagar.
        - Na. - Ele piscou-lhe o olho. - Prefiro us-lo como moeda de troca.
        Bethany j ouvira aquela expresso. As suas bochechas ficaram a escaldar e ela desviou os olhos, momentaneamente sem saber o que dizer. Ento, anos de experincia 
de batalhas verbais com os seus irmos foram em seu auxilio.
        - Detesto aproveitar-me de um amigo. Se o usares como moeda de troca,  garantido que sais a perder.
        Ele riu-se e disse:
        - Podes oferecer-me um jantar uma noite destas. Que tal?
        - Quem te disse que sei cozinhar?
        - Qualquer mulher que aprecia a sua comida tanto como tu s pode saber orientar-se numa cozinha.
        A tenso entre eles dissipou-se e ela conseguiu descontrair-se. Era fcil trocar piadas com um rancheiro que tinha um touro de estimao muito mimado, um 
co igualmente mimado e muito anafado, e estava em pleno processo de construir uma capoeira junto ao lago para salvar patinhos rfos de carnvoros salteadores. 
Ryan tinha um sentido de humor fantstico, um gosto pelo absurdo, e no se ofendia facilmente quando ela o provocava por ter um corao to mole.
        Quando o touro dele apareceu, Ryan avisou Bethany:
        - Se o T-bone comear a berrar e a babar-se do outro lado da porta de vidro quando estiveres em casa sozinha, atira-lhe uma cenoura. Mas certifica-te de 
que fechas a porta depressa, para ele no entrar.
        - Aquele touro entra em tua casa? - perguntou Bethany, incrdula. - Valha-me Deus.
        - Ele s quer ir  casa de banho - explicou ele com uma expresso sria. - Apanhou uma pneumonia quando era beb e eu levei-o para l, por causa do vapor, 
at melhorar. Ele ainda se lembra e parece que no percebe porque  que deixou de ser bem-vindo dentro de casa. - Coou a cabea e franziu o sobrolho. -  preciso 
definir um limite.
        Alguns minutos depois, T-bone comeou a pedir uma guloseima a Ryan. Bethany riu-se at as lgrimas lhe correrem pela cara. O touro deu uma marrada em Ryan, 
quase o deitando ao cho e fazendo-o ir a casa buscar uma cenoura. T-bone no estava disposto a aceitar um no como resposta.
        Quando a lio de equitao de Heidi terminou, Bethany voltou para casa usando as tbuas que Ryan instalara para evitar que a cadeira ficasse presa na lama, 
Ryan caminhando ao lado dela.
        - s uma professora de equitao fantstica - disse-lhe ele. - J alguma vez pensaste em abrir uma academia?
        - Quando eu prpria no posso montar? - perguntou ela por sua vez com uma gargalhada.
        - Com instalaes adequadas e uma sela especial, podias voltar a montar. Nunca digas que no consegues. - Olhou para ela com uma expresso divertida. -  
o lema do Sly, e ele educou-me de acordo com isso. "No  por dizeres que no consegues que as coisas aparecem feitas, e isso  um facto."
        Bethany suspirou quando se aproximaram da carrinha.
        - Bem, no querendo contradizer o Sly, parece-me que, de vez em quando, todos temos de aceitar as nossas limitaes.
        - Mas tu nasceste para isto - insistiu ele em voz baixa. - Reparas-te em erros que a Heidi estava a cometer e que eu nunca vi. E ela tem razo, sabes? O 
teu nome  quase uma lenda por estas bandas. Com um pouco de publicidade para despertar o interesse, terias montes de rapazes e raparigas a inscreverem-se para aulas 
e acampamentos de Vero. Mais ainda, ias adorar o trabalho. Que desperdcio, tu sentada atrs de um computador. Bethany sorriu.
        - Sabe bem pensar nisso.
        - J  um comeo. - Ryan afastou-se enquanto ela se instalava. Depois, poisou os braos na porta da carrinha. - Obrigado por teres vindo. A Heidi j ganhou 
o dia.
        - Foi divertido. Do princpio ao fim.
        T-bone apareceu mais uma vez e, desta feita, marrou no traseiro de Ryan. Ele riu-se e disse:
        - Se eu te subornar com um bife de churrasco, voltas para a ver montar?
        - Adorava. - Bethany debruou-se para dar uma palmada na cabea do touro. - No lhe ds ouvidos, T-bone. Ele nunca te comeria.
        Ryan sorriu e coou as orelhas do bovino.
        - Podes crer que comia. Mais uma marrada e acabas em assado, T-bone. Cresce-me a gua na boca, s de pensar.
        Bethany ainda estava a sorrir quando partiu. Gostara imenso daquela tarde e ficara com vontade de repetir. Todavia, no esperava voltar a ver Ryan em breve. 
Ele tinha um rancho a alguma distncia da cidade, ela tinha um trabalho de secretria, e no era provvel que os seus caminhos se cruzassem com frequncia.
        Mas Ryan tinha outras ideias. Apareceu  porta de Bethany nessa mesma noite, uma caixa de piza equilibrada numa mo, dois vdeos alugados na outra. Ela importava-se 
de ter alguma companhia inesperada? Ele estava a sentir-se sozinho.
        Bethany no podia mand-lo embora, portanto, abriu a porta, no lhe passando pela cabea ao faz-lo que no era apenas a sua casa que ele pretendia invadir.
        Ryan queria reclamar-lhe o corao, e nada o impediria. Os filmes pirosos srie B definiram o ambiente. Passaram a noite a desmontar os enredos, a criticar 
a representao, e a rir com os absurdos enquanto comiam a piza e bebiam Coca-Cola, aninhados no sof debaixo da manta de croch que a av de Bethany fizera. Apenas 
amigos. Sem olhares inquiridores, sem beijos, sem um vestgio de nada de natureza mais sensual.
        Se a pulsao de Bethany acelerava quando Ryan lhe passava um brao pelos ombros, era um segredo s dela. Se o seu corao parava apenas um pouco quando 
os dedos dele lhe tocavam na manga, o problema era dela - ou, pelo menos, assim dizia a si prpria.
        Na realidade, aquele era o piano de Ryan - ser o proverbial lobo vestido de cordeiro.
        Tornou-se uma visita frequente em casa dela a partir daquela noite. As vezes, levava-a a jantar e depois ao cinema. Em duas ocasies acompanhou-a e  me 
dela ao "Y" numa noite de natao e levou uma valente coa quando desafiou Bethany para uma corrida na piscina. A rapariga nadava como um golfinho, compensando a 
falta de propulso nas pernas com braadas fortes e ritmadas. Depois, Ryan deu por si a arfar, encarando-a com novo respeito e pensando como ela seria antes do acidente. 
Competitiva, certamente, e incrivelmente determinada. No teria sido agradvel participar num rodeio com ela como adversria. Devia ter sido um diabo numa sela, 
o que explicava por que motivo estava a caminho dos campeonatos nacionais de barrel racing quando o destino lhe pregara uma partida.
        Noutras noites, ficavam sentados  mesa da cozinha, ocupados com jogos. Ela ensinou-o a jogar pinochle, que, por acaso, ele j sabia jogar h anos, mas fingiu 
desconhecer porque assim era mais confortvel. Ele ensinou-a a jogar pquer, que tambm era confortvel - mas no tanto como se estivessem a apostar pecas de roupa, 
o que ele no se atreveu a sugerir. Nas noites restantes entretinham-se com outros jogos - Monoplio, Aggravation, Yahtzee, Trivial Pursuit e domin mexicano. Fizessem 
o que fizessem, divertiam-se.
        Era frequente Ryan olhar para o outro lado da mesa, para aquela cara doce, pensando como  que Bethany no via o que era to bvio para ele - que eles eram 
perfeitos um para o outro. Adorava a forma como ela se ria, inclinando a cabea para trs e deixando-se ir, com um som quase musical. Adorava o seu sentido de humor 
indomvel. Agradava-lhe ver que ela jogava para ganhar e que ficava radiante quando o conseguia. At gostava de discutir com ela. Bethany tinha um raciocnio rpido 
e revelava ser to obstinada nas suas convices como uma mula, mas tambm era aberta a novas ideias e admitia a derrota sem rancor se ele conseguisse convenc-la 
de que estava enganada, o que no era frequente.
        As noites preferidas de Ryan eram aquelas em que chegava com vdeos para ver, depositava Bethany no sof, aconchegava-a com a manta da av e esfalfava-se 
durante duas ou trs horas para tentar seduzi-la. Carcias casuais e aparentemente inocentes eram o truque, todas elas executadas de uma forma to distrada que 
Bethany no podia adivinhar o que ele estava a preparar - at ser demasiado tarde.
        Ryan, o lobo. No demorou muito a descobrir alguns dos pontos mais vulnerveis dela, os seus favoritos sendo a nuca sedosa e a deprecao sensvel abaixo 
da orelha, a qual ele torturava impiedosamente com toques leves das pontas dos dedos. Fingia ver os filmes enquanto lanava o ataque, observando Bethany pelo canto 
do olho e sorrindo - lupinamente.
        Quando lhe tocava ao de leve abaixo da orelha, podia ver a pulsao disparar e depois agitar-se no pescoo como as asas de uma ave assustada. Se passava 
casualmente os dedos pela nuca e os introduzia por baixo do colarinho, um rubor rosado subia s faces de Bethany. Ele adorava a forma como a respirao se alterava 
e como os lbios se entreabriam num arquejo breve e silencioso, as pestanas descendo para velar olhos escurecidos pelo desejo. Era frequente ela deitar-lhe olhares 
inquiridores que lhe diziam que estava desconfiada dos seus motivos. Ele retribua com um olhar inocente e muito praticado que sempre lhe fora til com as mulheres 
durante grande parte da sua vida adulta.
        Bethany, uma combinao fascinante de inocncia e sabedoria. Ryan dava frequentemente por si a olhar para aqueles olhos azuis, grandes e assustados, e a 
sentir-se como um patife da pior espcie por estar a engan-la.
        Mas no permitia que o sentimento de culpa o detivesse.
        Ele queria-a - na sua cama - na sua vida. De uma forma ou de outra, Bethany seria sua. Quando no estava com ela, trabalhava furiosamente no rancho, remodelando 
a cozinha, construindo rampas e instalando passeios de cimento, at o rancho ficar coberto por uma rede de acessos, permitindo que a cadeira de rodas pudesse mesmo 
ir at ao lago. Falou com Jake e recrutou-o para o ajudar a encontrar a gua de Bethany, Wink, e depois descobrir uma forma de a comprar.
        Quando Bethany voltasse a visitar o rancho, Ryan queria que tudo estivesse pronto e perfeito, o seu objectivo sendo rebater todas as reservas e argumentos 
que ela pudesse apresentar contra o casamento de ambos. Toda a vida ouvira dizer que as aces valiam mais do que as palavras, e queria mostrar-lhe, com o suor do 
seu rosto, o quanto a amava e que podiam ter uma vida maravilhosa juntos, se ela lhe desse uma oportunidade.
        Todavia, enquanto Ryan se ocupava a equipar o seu rancho, Bethany debatia-se em busca de uma forma de terminar a amizade de ambos. Andavam a encontrar-se 
praticamente todos os dias h mais de um ms, e chegara a altura de encarar a realidade. Ela no conseguia fazer com que aquilo resultasse. Sempre que estava com 
Ryan, tornava-se cada vez mais difcil pensar nele apenas como um amigo. Tinha tentado - oh, se tinha - e, durante algum tempo, conseguira mentir a si mesma. Quem 
lhe dera poder continuar a mentir para continuar a encontrar-se com ele. Ryan era to divertido, e fazia-a sempre rir, fosse o que fosse que estivessem a fazer. 
Deixar de o ter na sua vida iria deix-la meio-morta.
        Mas as suas necessidades e a sua felicidade no eram a questo. Ela tinha de fazer o que estava certo, e, por mais difcil que fosse, o que estava certo 
era abrir mo dele. Apenas se tornaria mais difcil  medida que o tempo fosse passando, ela sabia isso. Com cada dia que passava, a sua determinao enfraquecia 
um pouco mais, tornando-lhe cada vez mais fcil acreditar que podia satisfazer as necessidades dele, quando, na realidade, nunca poderia ser a mulher de que ele 
precisava, que ele merecia.
        Bethany, "sua tola, pattica." Receara desde o princpio que aquilo acontecesse, e agora acontecera. Ela estava completa, loucamente apaixonada por ele, 
e no sabia quanto mais tempo poderia continuar a fingir o contrrio.
        Poderia ter corrido bem - ela poderia ter continuado a engan-lo a ele e a si mesma - se Ryan fosse do gnero que sabia manter a distncia, mas no era. 
Era uma pessoa muito fsica e afectuosa, sempre a abra-la, sempre a tocar-lhe. No cabelo. Na orelha. No pescoo. Na cara. Ele estava a deix-la completamente louca. 
s vezes, depois de Ryan partir, ficava acordada durante horas, a olhar para o tecto, a pensar qual teria sido a sensao se ele a tivesse beijado em todos aqueles 
stios.
        Em certas manhs, Jake passava pelo escritrio dela para perguntar:
        - Ento, como  que vo as coisas entre ti e o Ryan?
        - Eu e o Ryan  uma coisa que no existe - respondia ela sempre. - Somos apenas amigos, Jake. No tentes ver alguma coisa onde no h nada para ver.
        Invariavelmente, Jake sorria quando a ouvia dizer aquilo.
        - Est bem, deixa-me alterar a pergunta. Como  que vo as coisas entre ti e o teu amigo Ryan?
        - Bem.
        Jake franzia o sobrolho.
        - Bem? S isso?
        - No h mais nada para dizer. Somos amigos. Estamos bem. Ele  muito simptico e gosto da companhia dele, fim da histria.
        Na manh em que Bethany decidiu que tinha de deixar de ver Ryan, Jake repetiu a pergunta de sempre, encostando-se  porta do escritrio enquanto bebia uma 
caneca de caf.
        - Ento, mana, como  que vo as coisas entre ti e o Ryan? Bethany estava to deprimida que no conseguiu reunir a energia para enfrentar a rotina habitual. 
Limitou-se a encolher os ombros e a dizer:
        - Tudo bem, acho eu.
        - Ui, ui. Isso no parece boa coisa. Problemas?
        - Nem por isso - respondeu ela, quando na realidade lhe apetecia chorar sempre que pensava como a sua vida iria ser vazia sem Ryan nela. Como  que poderia 
preencher as suas noites sem ele? - Seja como for, no  nada que eu no possa resolver.
        - Querida, ests a sentir-te bem? - Jake aproximou-se para a olhar nos olhos. - Ests com olheiras.
        - No tenho dormido muito bem nas ltimas semanas. Segurando a caneca entre as mos, Jake apoiou uma anca na secretria.
        - O que e que te est a incomodar?
        Bethany pensou no que ele diria se lhe contasse qual era o problema - que a sua querida irm, que ele considerava digna de canonizao, se sentia sexualmente 
frustrada e prestes a perder o juzo.
        - Nada. Uma crise de insnia, s isso. Tenho a certeza de que h-de passar.
        Franzindo o cenho pensativamente e estreitando os olhos para se proteger do vapor do caf, ele levou a caneca aos lbios e bebeu lentamente.
        - Se continuar, talvez fosse melhor procurares um mdico. Bethany j vira mdicos suficientes para a vida inteira, e, alm disso, no pensava que um mdico 
pudesse ajud-la com o seu problema. Considerando as suas complicaes fsicas, nem tinha a certeza de que o prprio Ryan conseguisse. E se ela estivesse condenada 
a uma comicho perptua, sem uma forma de se coar? S aquela ideia dava-lhe vontade de gritar. Suspirou e apagou uma entrada errada no computador com uma pancada 
violenta do dedo na tecla "Delete".
        
        Ryan estava na sala dos arreios, a substituir um freio, quando o telemvel tocou. Suspirou e tirou o casaco de um prego na parede para tirar o aparelho do 
bolso.
        - Fala Kendrick - disse ele.
        - Ryan? Jake Coulter.
        Ryan sorriu e encostou-se  parede.
        - Ol Jake. Como ests?
        - Tudo bem. Mas que raio  que passa entre ti e a Bethany? Ryan afastou o telemvel da orelha.
        - Nada. - Para grande pena sua. - De que  que ests a falar? Eu no lhe toquei.
        - Foi o que eu pensei - disse Jake. Silncio demorado. Depois, suspirou. - Mas que gaita.
        - O que  que isso quer dizer? - perguntou Ryan cautelosamente. Jake Coulter no era um homem que ele quisesse enfrentar se o pudesse evitar.
        - Ela no tem dormido - respondeu Jake. - Esta manh, parece que levou um soco nos dois olhos.
        - No tem dormido? - As sobrancelhas de Ryan uniram-se numa expresso preocupada. - No est doente, pois no?
        - Hello!? No sabes somar dois e dois? Ela no consegue dormir e tu dizes que no lhe tocaste. No  preciso um gnio para perceber o que se passa.
        Ryan sorriu como um pateta.
        - Achas que  isso? Jake suspirou de novo.
        - Ryan - disse ele com uma pacincia exagerada. - Lembras-te da nossa conversa quando fui ao teu rancho naquela noite?
        - Perfeitamente.
        - Quando  que ests a pensar chegar  parte dos votos matrimoniais?
        - Estou a tratar disso.
        - Bem, se gostas dela, v se te mexes. Ryan ergueu as sobrancelhas.
        - Importas-te de repetir, s para eu ter a certeza?
        - No abuses da sorte. E, para que se saiba, s um homem morto se no casares com ela depois. Entendido?
        Ryan riu-se.
        - Entendido, Jake.
        Seduzir uma mulher como Bethany exigia um planeamento cuidadoso. Ryan preferiu preparar o cenrio no seu rancho. Assim, o risco de ser interrompido seria 
menor. Ele no queria que um dos irmos dela surgisse de repente a meio do processo para ver como ela estava. Podia avisar a sua prpria famlia para no aparecer 
nem telefonar, sob pena de morte.
        Tivera a esperana de adiar a ida de Bethany ao rancho durante mais uma semana. A sela dela ainda no tinha chegado e Ryan ainda no instalara a passadeira 
de exerccio. Mas, pacincia. Situaes desesperadas exigiam medidas desesperadas. Olheiras. Pois. Ele entranhara-se-lhe na pele. Agora, tudo o que faltava era colher 
a sua recompensa.
        Naquela tarde, Ryan telefonou para a loja e convidou Bethany para ir jantar ao rancho. Ela pareceu-lhe distrada e abatida e, por um instante, receou que 
fosse recusar.
        - Tenho uma coisa especial para te mostrar - acrescentou ele rapidamente.
        - Bom... est bem. Eu tambm tenho uma coisa para te dizer. Talvez o possa fazer em tua casa.
        Ele no gostou de ouvir aquilo.
        - Ento - disse em voz baixa. - Passa-se alguma coisa?
        - No propriamente.  s que...  complicado. Falamos logo  noite. Seis e meia, pode ser?
        - Est perfeito.
        Ryan franziu o sobrolho e desligou o telefone. Ela tinha uma coisa para lhe dizer? Soava-lhe a uma tampa. "Mas que raio." Esfregou a testa. A dor de cabea 
que ele tentava contrariar desde o telefonema de Jake naquela manh estava a piorar. No tinha com que se preocupar. Ele amava Bethany e sabia perfeitamente que 
ela gostava dele. Se estava a pensar em deixar de o ver, conseguiria convenc-la a no o fazer.
        Tomou um comprimido, apanhou as meias sujas e os jornais espalhados pela sala de estar, tirou dois bifes do frigorfico e deixou-os a descongelar. Depois, 
foi tomar um duche.
        Com a cabea a doer debaixo dos jactos de gua quente, Ryan conseguia pensar melhor, e comeou a preparar a sua estratgia. Queria estar com bom aspecto, 
mas, ao mesmo tempo, no queria exagerar. Seria ele a grelhar os bifes. Nada de extravagante. Decidiu vestir um par engomado de calcas de ganga preta e uma camisa 
preta de mangas compridas, e um par de botas pretas bem engraxadas. As mulheres gostavam de preto. No fazia ideia porqu, mas no ia questionar o que resultava. 
No naquela noite.
        Todos os homens sentiam-se assim to mal antes de se declararem? O seu estmago mais parecia uma pega molhada e virada do avesso. Encostou um brao aos 
mosaicos e poisou a cabea no pulso. H anos que no se sentia assim to nervoso por causa de uma mulher. Depois de ganhar alguma experincia, sempre se limitara 
a ir em frente sem pensar duas vezes, sem se preocupar com o seu aspecto nem com o que iria dizer.
        Estar apaixonado era um inferno.
        Ela estava atrasada. Ryan olhou para o relgio. Seis e trinta e dois. "So s dois minutos." Nada de mais. A viagem era demorada e as pessoas nem sempre 
contavam com isso. Ela havia de chegar.
        Comeou a andar de um lado para o outro. Na cozinha, na sala de estar.  volta do sof. Diante da porta de vidro. Uma paragem rpida para olhar para a estrada. 
Seria capaz de a ver junto ao lago muito antes de ela chegar. De volta  cozinha. Verificou os bifes pela ensima vez para se certificar de que estavam descongelados. 
Abriu o novo frigorfico baixo e olhou para a salada que tinha preparado. "Continua verde."
        Suspirou e foi at ao novo lava-loia baixo para lavar mais uma vez as batatas. Olhou outra vez pela janela. Onde  que ela estava? "Raios." Sentiu um aperto 
no estmago. Passou uma mo pelos olhos. Correu em revista tudo o que se lembrava de lhe ter dito durante os ltimos dias. Tanto quando se apercebia, no fizera 
nada, nada, que a fizesse querer deixar de o ver.
        Foi ento que viu a carrinha cinzenta dela atravs das rvores. O seu corao saltou e danou no peito, deixando-o com receio de estar prestes a ter um ataque 
cardaco. Respirou fundo, apercebeu-se de que estava a suar e chamou a si mesmo um monte de nomes. "Nunca permitas que te vejam a suar."
        Ia esperar por ela dentro de casa, decidiu. Se fosse at ao alpendre, pareceria demasiado ansioso. Acabara de decidir-se e j saa porta fora. Ou seja... 
estava ansioso. Grande coisa. Queria casar-se com ela. Ela era a tal. No fazia mal dar-lhe a entender o que sentia.
        Bethany estacionou na superfcie de cimento que ele preparara entre os estbulos e a casa. Depois, limitou-se a deixar-se ficar ali, sentada, a olhar. Ryan 
desceu a rampa que acrescentara ao alpendre da cozinha e avanou direito a ela, mantendo um sorriso que parecia ter-lhe sido talhado no rosto. Ergueu um brao numa 
saudao.
        Quando ela finalmente abriu a janela, ele disse:
        - Ol.
        Bethany fitou-o com aqueles enormes olhos azuis. Tinha a cara to branca que parecia exangue.
        - Oh, Ryan, o que  que tu fizeste? - perguntou ela.
        No parecia estar muito satisfeita. No mnimo, aquela no era a reaco de que ele estava  espera. "Uau" teria sido simptico. Olhou em volta, engoliu em 
seco. Tinha as explicaes na ponta da lngua, mas percebeu que seria uma estupidez. Era bvio que ele construra passeios por tudo o que era stio.
        - O que  que te parece? - contentou-se ele em perguntar. - At podes ir at ao lago e acompanhar a margem em qualquer direco.
        A cara dela ficou ainda mais plida, acentuando as olheiras que Jake referira.
        - Meu Deus. O que  que tu fizeste?
        Ryan tivera alguns dias na sua vida em que pensara que ficaria melhor se nunca mais sasse da cama. Aquele comeava a parecer um deles. Com o som da voz 
dela, um cavalo no interior do estabulo comeou a relinchar e a escoicinhar na baia. Ryan no precisava de ir ver qual deles seria. "Raios." Contava fazer uma surpresa 
a Bethany com Wink um pouco mais tarde. Havia um limite para o que uma pessoa podia suportar de uma vez.
        Mas no. A gua tinha reconhecido a voz dela. Incrvel. Tinham passado oito anos. Oito anos. A maioria dos cavalos tinha boa memria, mas Ryan nunca ouvira 
falar de um que reconhecesse a voz de algum passado tanto tempo.
        Bethany olhou intrigada na direco do estabulo:
        - Mas o que  que se passa ali dentro?
        Parecia que o estbulo estava prestes a desmoronar-se como um castelo de cartas. Ryan seguiu-lhe o olhar e esfregou o queixo.
        - Nao  nada. - Esperava que Sly ainda estivesse por perto e fizesse alguma coisa para acalmar Wink. E depressa. - Temos uma gua nova. Ela fica um pouco...
        Wink resfolegou trs vezes e relinchou. Ryan nunca a ouvira produzir aquela sequncia de sons, mas sabia reconhecer o tom apaixonado de um cavalo quando 
o ouvia. Sentiu um aperto no estmago e apenas pode rezar para que Bethany no estabelecesse a relao.
        -  Wink?- murmurou ela. Comeou a abrir a porta para sair da carrinha. - Wink!- Fixou um olhar incrdulo e raso de lgrimas em Ryan enquanto preparava a 
plataforma elevatria. - E a minha gua!
        Ryan pensou: "Bem, pacincia..." Encheu as bochechas de ar.
        - Nada como mostrar-te as surpresas todas ao mesmo tempo. Eu, hmm... comprei-a para ti.
        Ela levou a cadeira para a plataforma, travou-a, e comeou a descer.
        - Tu o qu?
        Para o caso de ela no ter percebido, Ryan repetiu o que acabara de dizer.
        - Tu o qu? - perguntou ela de novo.
        Ryan no ia diz-lo uma terceira vez. Ela passou da plataforma para o pavimento de cimento e foi direita ao estbulo. Ryan foi atrs dela, quase desejando 
poder impedi-la de entrar. Mas no. Ele preparara o caminho, por assim dizer.
        Bethany estacou subitamente na entrada, olhou para o largo caminho de asfalto que se estendia a todo o comprimento dos estbulos at s portas duplas que 
davam acesso ao picadeiro. Diante de cada baia, uma faixa de asfalto rampeada permitia o acesso ao fecho da porta a quem estivesse numa cadeira de rodas.
        - Oh, Ryan - murmurou ela, abalada.
        Ligeiramente afastado, ele pde ver-lhe uma lgrima escorrer pela face plida. Sensivelmente a meio do estabulo, Wink espreitou por cima do porto da baia, 
as narinas dilatadas enquanto resfolegava. Repetiu os trs sons e relinchou com ansiedade. Tratava-se nitidamente de uma saudao exclusiva e reservada apenas para 
Bethany. Com os olhos fixos na gua, ela soltou um gemido e tapou a cara com as mos.
        - Meu Deus, Ryan, porque  que fizeste isto? - Baixou as mos e virou-se para ele. - Apenas amigos, foi o que tu disseste. Sem riscos, sem expectativas! 
- A cada palavra, a sua voz tornava-se mais aguda. - O Jake vendeu a Wink por vinte e cinco mil. Eu sei que o Hunsacker no se teria desembaraado dela por menos 
um cntimo que fosse. Quanta  que pagaste por ela?
        Ryan passou uma mo pela boca. Em lugar de se sentir um heri, como imaginara, sentia-se como se tivesse cometido um crime.
        - O dinheiro no tem importncia, querida.
        - Mas tem importncia! E no me chames querida!
        - Bethany, eu...
        - Quanto?
        - Cerca de trinta - admitiu ele. - Nada de mais, Bethany. J paguei mais de cem por um bom cavalo sem pestanejar.
        - Cerca de trinta? - Olhou para ele com um misto de espanto e incredulidade. - E esse cerca  de quanto?
        - Mais seis.
        - Trinta e seis mil? - Ela passou uma mo pelos olhos. Estava a tremer. Descontroladamente. - No posso acreditar que fizeste isto. No posso acreditar! 
Nem sequer te posso pagar. Nunca.
        - Nem eu estou  espera que o faas.
        Ela fitou-o com uma expresso acusadora nos olhos. Como se nunca o tivesse visto antes. Depois do que pareceu uma pequena eternidade, falou, a sua voz vazia 
e sem expresso:
        - Tem sido tudo uma mentira desde o princpio, no tem? Nunca quiseste que fssemos apenas amigos. Mentiste para que continussemos a ver-nos.
        Ryan ponderou a hiptese de voltar a mentir. Naquela altura, parecia a escolha mais sensata. Admitir a verdade no lhe parecia uma jogada brilhante.
        - Sim - disse ele em voz baixa. - Acho que sim. Na realidade, depende de como defines amor e amizade, querida. Achas que  possvel ter um sem a outra? - 
Encolheu os ombros, fazendo os possveis para parecer razovel. - No me parece. Uma relao ntima sem uma boa amizade no  amor nem nada que se parea. J passei 
por isso e, acredita, no vale nada.
        Ela agarrou-se  cintura e recostou-se na cadeira, encolhendo-se quando Wink aplicou novo coice na porta da baia e relinchou. Fechou os olhos e os msculos 
da cara ficaram tensos.
        - Eu disse-te logo, Ryan. No disfarcei. Nunca poderemos ser mais do que amigos. Nunca. E ia dizer-te esta noite que, pela parte que me toca, a nossa amizade 
no est a resultar.
        - Por amor de Deus, porqu?
        Ela ergueu as pestanas e fixou-o com aqueles maravilhosos olhos azuis que ele amara assim que os vira pela primeira vez. Um azul profundo, intenso, to transparente 
que no podia esconder nada, especialmente a dor - o gnero de dor demasiado entranhada para que as lgrimas a pudessem exprimir e que doa tanto que no havia palavras 
para a traduzir.
        - Eu no posso ser aquilo de que tu precisas - murmurou ela. Contornou-o, dirigindo-se para a carrinha. Ryan ficou a olhar para ela durante um momento. Ento, 
foi atrs dela.
        - Bethany, no podemos discutir isto?
        - No h nada para discutir.
        Alcanou-a quando Bethany estava a chegar  plataforma elevatria. Ela subiu e instalou-se atrs do volante. Em silncio, Ryan viu-a accionar o controlo 
para recolher a plataforma e debruar-se para apertar as correias.
        - Ou seja, vais-te embora.  isso?
        - Sim - disse ela em voz baixa, e fechou a porta. Ryan poisou os braos na janela.
        - E eu deixo-te ir embora?
        - No tens escolha.
        Quando ela estendeu o brao para ligar o motor, ele agarrou-lhe no pulso.
        - Tenho mais sessenta quilos do que tu. Estou em vantagem. Bethany olhou para ele, espantada.
        - Larga-me, Ryan.
        - S depois de dizer o que tenho a dizer.
        - Nada do que possas dizer vai fazer-me mudar de ideias.
        Ryan sabia que estava prestes a perder a calma. Campainhas de alarme dispararam no fundo da sua mente. Mas j no lhe fazia diferena.
        - Muito bem. Foge, Bethany.  s isso que sabes fazer, no ?  o que tens feito nos ltimos oito anos, enterrar os teus sentimentos e fugir.
        Aquilo prendeu-lhe a ateno. Pelo menos, olhou para ele. Frente a frente, Ryan retribuiu-lhe o olhar.
        - Este tempo todo, sempre pensei que tivesses uma coluna vertebral. Parece que estava enganado. No perdeste apenas a mobilidade das pernas naquele acidente. 
Perdeste a coragem.
        Ela fez um esgar como se tivesse sido esbofeteada.
        - Isso no  justo.
        - Justo?  disso que se trata? Desculpa. Acho que no dei por isso. Estou apaixonado por ti, que raio! - Fez um gesto abrangente com o brao, indicando o 
rancho. - Esfalfei-me durante praticamente um ms, a equipar isto tudo para te provar que podemos ter uma vida juntos. Em vez de ficares contente, em vez de teres 
a coragem de, pelo menos, tentar, resolves fugir! A verdade  que eu te meto medo. O velho Paul, sempre a assombrar-nos. Tens medo de sair magoada e s demasiado 
cobarde para correr esse risco.
        - Isso no  verdade! - exclamou ela. - Estou a fazer isto por ti! - As lgrimas subiram-lhe aos olhos. - s to cego que no vs! - O seu rosto contorceu-se 
e ela levou uma mo trmula  testa. - Eu amo-te.
        - Tens uma forma muito estranha de o mostrar.
        -  a nica forma! Achas que eu no quero isto tudo? - A voz tremia-lhe. - Que  fcil voltar as costas a isto? Ests a oferecer-me tudo! Tudo o que sempre 
quis, tudo o que sempre sonhei, uma vida contigo, fazer parte do teu mundo! Meu Deus! At a Wink! At compraste a minha gua!
        A agonia contida naquelas palavras provocou uma sensao desagradvel no estmago de Ryan. A fria extinguiu-se como um pavio, apagado com um balde de gua 
gelada. Ele era culpado. Tentara realizar todos os sonhos dela. Pensara e congeminara e planeara, criando um mundo expressamente para ela - para que ela pudesse 
ir aonde quisesse, quando quisesse, para que ela pudesse estar perto dos cavalos e voltar a montar, para que ela pudesse faz-lo sempre que quisesse.
        Vendo aquilo tudo atravs dos olhos dela, tentou imaginar como seria difcil virar as costas e partir se estivesse no lugar dela. No sabia se conseguiria. 
Vira-lhe o desejo na expresso tantas vezes - um desejo profundo, de todas as coisas que amara e perdera - precisamente o motivo que o levara a esforar-se tanto 
para lhas devolver.
        No obstante, ela estava preparada para partir... para simplesmente virar-lhes as costas, at  gua que relinchava e chamava por ela naquele momento - uma 
gua que ainda se recordava dela e a adorava passados oito longos anos. Era razovel pensar que Bethany provavelmente retribua a devoo daquele animal em igual 
medida.
        No obstante, ela estava disposta a partir...
        Ryan sentiu um aperto na garganta e, por um instante, no conseguiu respirar. Apenas podia haver um motivo para ela partir quando lhe apetecia tanto ficar. 
Acreditava sinceramente que era o melhor para ele. A questo no era ela, de todo. Nunca fora. E Bethany tinha razo: ele fora demasiado cego para o perceber.
        - Oh, Bethany - murmurou ele. - Desculpa. - Passou-lhe um brao por trs do pescoo e puxou-lhe a cara para o ombro. - Eu no devia ter dito nada daquilo. 
No falei a srio.
        As mos dela fecharam-se na camisa dele quando estremeceu com um soluo que parecia arrancado das suas entranhas.
        - Eu... no... posso... ser... aquilo de que precisas, Ryan! Sem filhos. Nunca. Talvez, at, nunca sexo decente! Posso m-morrer muito nova. E n-nao posso 
ser uma b-boa mulher de um rancheiro. Seria um f-fardo para ti e p-para todos os outros!
        Ryan agarrou-lhe na cabea e puxou-a para si.
        - Querida, no. Ouve-me. Ests-me a ouvir?
        Ela gemeu e quase se engasgou, tentando conter os soluos.
        - Eu amo-te! - disse ele com ferocidade. - Se no pudermos ter filhos, adoptamos.
        - No  a m-mesma coisa! No para um homem. E posso no ser aprovada. Tu devias ter uma famlia. Nasceste para ser pai. Bastou-me ver-te com o T-bone para 
saber isso. Tens tanto amor para dar.
        - Querida, ns vamos ter uma famlia. Queres uma dzia de filhos? Muito bem. Podemos recorrer a uma agenda privada. J comecei a sondar para saber quais 
so as de confiana. E quem  que disse que no era a mesma coisa? Sou capaz de amar filhos adoptados tanto como se fossem meus.
        - Dizes isso agora. O que  que vais sentir quando fores mais velho?
        - Exactamente o mesmo. Se no posso ter filhos contigo, no os quero ter com mais ningum. Posso ser um pai solteiro e adoptar sem ti, mas nunca haver outra 
mulher. Tu s a tal.
        - Isso  um disparate. No ests a falar a srio.
        - Oh, mas estou. - Ryan virou a cara contra o cabelo dela. - Estou a ser sincero, Bethany. Do fundo do corao.
        - Mesmo que eu no te possa dar bom sexo?
        - S o saberemos depois de experimentarmos. Talvez seja fantstico, talvez no. Havemos de encontrar uma forma, alguma coisa que nos d prazer a ambos.
        - E por que motivo havias tu de te contentar com isso?
        - Contentar? Bethany, eu amo-te. Fui at ao fim de um monte de becos sem sada,  tua procura. Nenhuma dessas mulheres teve algum significado para mim. S 
tu. No estou a contentar-me, que raio. Se eu pudesse ter qualquer mulher no mundo, escolhia-te a ti.
        - No ouviste nada do que eu disse? As pessoas como eu tem uma vida emprestada. Riscos de sade, coisas que no podemos evitar! Pode aparecer-me um cogulo 
para a semana e eu morro. E l ficavas tu, com uma dzia de filhos adoptados e sem mulher para te ajudar a cri-los. NO! EU no era capaz de te fazer uma coisa 
dessas. No!
        Ryan apertou-a contra si, receando perd-la se a largasse.
        - Bem, ento, fica comigo at para a semana, pelo menos - murmurou ele com a voz entrecortada. - Deixa-me ter esses sete dias. Talvez tenha sorte e haja 
mais uma semana depois dessa, e outra ainda. Deixa-me ter o que for possvel. Fica comigo enquanto puderes. Eu deixo-te partir quando Deus te levar e fico agradecido 
por todos os segundos que Ele me der, mas no te posso deixar partir assim.
        - s louco.
        - Sou. Acertaste. Louco por ti. D-me o que podes. Ningum tem garantias, Bethany. Ningum. Todos vivemos por emprstimo. E sabes que mais?
        - No, o qu? - perguntou ela.
        - Tu no vais morrer. Esquea isso, minha senhora. Eu no deixo. Vou controlar a tua dieta. Ponho-te numa passadeira de exerccio todos os dias, e ajudo-te 
a tonificar os msculos das pernas de outras formas para evitar os cogulos. E tambm te ponho a trabalhar no rancho, muita actividade. No vais morrer nova, no 
no meu turno.
        Ela recomeou a chorar, desta feita como se o seu corao se estivesse a partir. Ryan introduziu o outro brao na carrinha para o passar  volta dela, puxando-a 
para si. Percebeu que tinha vencido quando ela deixou de resistir e se deixou ficar agarrada ao pescoo dele.
        Deixou-se simplesmente ficar ali abraado a ela, deixando-a chorar. Tinha a sensao de que aquelas lgrimas tinham um atraso de oito anos, que ela as contivera 
durante demasiado tempo. Quando, por fim, os soluos comearam a diminuir, passou-lhe uma mo pelas costas e murmurou:
        - Amo-te. No podes alterar isso, Bethany. No h nada a fazer. E se fugires de mim, destris a minha vida. s capaz de viver com esse peso na conscincia?
        Ela riu-se, o som abafado contra a camisa dele.
        - D-me o presente - insistiu ele. - Sem garantias. Eu aceito correr o risco. D-me o tempo que puderes. s capaz? Por favor?
        - Oh, Ryan... como  que posso dizer que no?
        - Isso  que  falar.
        Bethany sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo e soluou.
        - Acho que podemos tentar - murmurou ela. - Pelo menos, at vermos o que acontece com o sexo.
        Alerta vermelho. Ryan recolheu o queixo para olhar para ela.
        - Nada de perodos de experincia.
        Ela levantou a cabea e fitou-o com um par de olhos enormes e cobertos de lgrimas que o deixaram com a sensao de estar a afogar-se em veludo.
        - Mas, Ryan, pode correr muito mal. Sem promessas. Sem compromissos. No antes de sabermos.
        Ainda que fosse a coisa mais difcil que alguma vez fizera na vida, Ryan agarrou-a pelos ombros e afastou-a:
        - Nem pensar, minha senhora. Se isso  tudo o que tens para me oferecer, dispenso.
        Ela pestanejou e esfregou as faces.
        - O qu?
        - Foi o que tu ouviste. Tudo ou nada. Sem condies. Entras nisto para o melhor ou para o pior, ou nada feito. Quero que cases comigo.
        - Mas...
        - Nada de mas. Quando duas pessoas se amam, agarram nos limes e fazem limonada. No me contento com menos. Quero uma mulher que fique ao meu lado, seja 
como for.
        - Mas tu  que ficas agarrado ao limo!
        - Como  que sabes? Eu posso ser o pior amante do mundo.
        Ela limpou novamente a cara, com uma expresso de incredulidade.
        - Isso  uma tolice.
        - J tive algumas reclamaes. - Ele deu um passo atrs. - Poucas, mas tive. Ningum sabe o que tu vais achar. E qual  a garantia de que as coisas vo ficar 
como esto? Os homens podem ter acidentes, ficar doentes. Daqui a um ano, eu posso tornar-me impotente e incapaz de fazer amor contigo. Vais mudar de ideias nessa 
altura? - Recuou mais um passo. - Muito obrigado, mas dispenso. Quero promessas, e quero compromissos. Se no me podes oferecer isso, no aceito.
        Os olhos dela tornaram-se escuros, as sobrancelhas unindo-se com uma expresso sria.
        - Isso  uma estupidez, Ryan. Estou a oferecer-te uma sada.
        - Muito obrigado.  muito simptico da tua parte, mas no quero uma sada. - Afastou as pernas, cruzou os braos e olhou para ela, sorrindo ligeiramente. 
- Ento? Vais ou ficas? - Olhou em redor. - No vai ser nada agradvel se fores. Nunca vou conseguir dar uso a isto tudo, e o beto custa bastante a partir.
        Ela seguiu-lhe o olhar, olhando finalmente com olhos de ver para a rede de caminhos que Ryan construir para ela. Os seus olhos encheram-se novamente de 
lgrimas e a boca comeou a tremer.
        - Oh, Ryan, no posso acreditar que fizeste isto tudo por mim.
        - S para ti, e toda a gente sabe isso. Se me disseres que no, transformo-me numa anedota. Os empregados ho-de rir-se de mim nas minhas costas durante 
vinte anos. Ests mesmo disposta a fazer-me uma coisa dessas?
        Bethany abanou a cabea, o olhar cintilante ao contemplar o lago.
        - H caminhos por todo o lado! Eu podia andar por a sem parar.
        - Podes ir aonde quiseres, querida. Mas, por favor, no te vs embora.
        Ela fitou-o novamente com aqueles olhos azuis e preocupados e mordeu o beio inferior.
        - Tenho medo.
        - De qu?
        - De que, um dia, no teres filhos teus te incomode. De que tu vejas sexo na televiso e te apercebas do quanto eu sou aborrecida e de tudo o que ests a 
perder.
        Sexo na televiso? Ele costumava mudar de canal. Ryan olhou para aquele rosto doce e soube que poderia ficar a olhar para ele durante cem anos e nunca se 
aborreceria.
        - Sabes, aquela mulher do anncio do amaciador de tecidos? - perguntou ela num tom agudo. - Aquela que rebola e salta da cama com um grande sorriso, veste 
o fato-de-treino e vai correr?
        Ryan no fazia a mnima ideia do anncio de que ela estava a falar, nem percebia qual poderia ser a relao.
        - Sim.
        - Pois, eu no consigo rebolar. Fico onde me largam. Tenho de agarrar numa perna e pux-la e depois fazer o mesmo com a outra. E mais trabalho do que merece.
        Ele sorriu.
        - Na cama comigo, rebolar vai ser canja. Agarro-me a ti e rebolamos juntos.
        Ela torceu o nariz.
        - Tambm no consigo saltar para fora da cama.  uma grande trabalheira todas as manhs, e, depois de sair da cama, no vou a correr para lado nenhum.
        - Minha querida, aonde  que tu queres chegar? Se saltar e correr fossem grandes prioridades na minha lista, estava aqui a ter esta conversa contigo?
        - Mas eu tenho medo, Ryan. Um dia, vais ver um anncio como aquele e vais sentir que eu te enganei e detestar-me porque te estraguei a vida.
        Ryan aproximou-se lentamente da carrinha.
        - Nunca. Juro, querida. Isso nunca h-de acontecer.
        Abriu a porta e inclinou-se para soltar a cadeira e afast-la do volante, e assim poder agarrar em Bethany.
        - O que  que ests a fazer!? - exclamou ela.
        - Estou a decidir por ti - respondeu ele enquanto a levantava. Ela agarrou-se ao pescoo dele e riu-se.
        - Sou capaz de decidir sozinha, muito obrigada.
        - No. Aprendi bem com o Sly. "Nunca te deixes ficar  espera que uma mulher se decida, filho. A no ser que queiras ganhar razes."
        - E o que  que decidiste por mim?
        - Que tu ficas - murmurou ele. - Vais casar comigo, Bethany Ann Coulter. No te deixo outra sada.
        Inclinou a cabea para a beijar, exactamente como sempre quisera e sonhara fazer desde aquela primeira noite na entrada de casa dela.
        No ficou desiludido. A boca de Bethany continuava to doce quanto a recordava. Depois da primeira retirada tmida, ela afastou os lbios e entregou-lhe 
aquela doura, e, exactamente como antes, Ryan sentiu uma descarga percorr-lo at aos calcanhares. "Incrvel", foi tudo o que ele conseguiu pensar. No importava 
como o sexo pudesse vir a ser, no faria diferena.
        Ele seria capaz de viver apenas dos beijos dela...
        
        
     
     Captulo Catorze
        
        Ryan levou Bethany at meio do caminho antes de parar. Talvez alguns homens conseguissem ignorar os queixumes daquele pobre animal fechado no estbulo, mas 
ele no era um deles. Olhou para baixo e viu que ela tambm estava a olhar para o estbulo. Meia-volta.
        - Parece-me que tens de cumprimentar algum.
        Durante o caminho at  baia, Ryan dizia a si mesmo que havia coisas mais importantes do que o sexo, e dizer ol a um amor h muito perdido tinha de ser 
uma delas. Wink fora isso mesmo para Bethany, um dos grandes amores da sua vida. "Eu at tinha dormido com a minha gua se o meu pai no tivesse batido o p", dissera-lhe 
ela naquela primeira noite. Grande parte do corao de Ryan ficara a pertencer quela mulher depois de ouvir aquilo - depois de ver o amor que lhe brilhava nos olhos, 
depois de sentir a tristeza porque uma parte intrnseca do que ela fora lhe tinha sido roubada.
        Aquilo era importante - um reencontro aps oito anos de separao. Ele poderia fazer amor com Bethany durante o resto da vida, mas aquele momento especial 
no se repetiria, nem para Bethany nem para Wink. Ryan queria que as duas o apreciassem. De que outro modo justificaria o dinheiro gasto?
        Quando se aproximaram da baia, a gua comeou a resfolegar mais uma vez. Ryan nunca ouvira um cavalo portar-se daquela maneira.
        - Ouve-me s aquilo. Quase parece que est a falar.
        Quando chegou  baia, Ryan pensou que a gua talvez ainda saltasse por cima do porto para alcanar a sua dona. Bethany lanou os dois braos  volta do 
pescoo de Wink, que comeou a baloiar a cabea, e, quando Ryan deu por si, estava a ver-se aflito para no deixar fugir Bethany.
        -  Wink!- exclamou ela. - Oh, Wink!
        Agarrando-a pela cintura para a manter afastada do porto, tentando evitar que as pernas se arranhassem ou magoassem, Ryan gritou:
        - Bethany, pelo amor de Deus, larga-a!
        Nada feito. Ela agarrara-se  gua com tanta fora que seria preciso um p-de-cabra para as separar. A confuso apenas aumentou, a gua a resfolegar e a 
relinchar, Bethany a soluar e a cobrir-lhe o focinho de beijos. Ryan registou mentalmente que teria de mergulhar aquela mulher num bebedouro e esfreg-la bem antes 
de voltar a dar-lhe um beijo.
        Quando a parte mais hmida do reencontro passou, ele colocou-a ao ombro com cuidado, o que a fez guinchar, agarrou-a pelos joelhos e abriu o porto. Depois 
de a levar para dentro da baia, poisou-a no monte de feno fresco num dos cantos.
        - Pronto - disse ele a rir. - Agora, vocs as duas podem fazer o que quiserem durante o tempo que quiserem sem que eu fique preso no meio.
        Wink aproximou-se, emitindo breves gemidos e sons agudos de saudao e cheirou Bethany desde os ps at  cabea.
        - Oh, Wink. Minha linda. Ests to bonita. - Bethany voltou um par de olhos cintilantes e vermelhos para Ryan. - Ela no  linda? - Tinha chorado tanto que 
parecia ter um clipe no nariz.
        Ryan j estudara bem a gua. Ele tinha uma das melhores coudelarias de criao de quarter horses do estado e j vira animais melhores.
        -  a gua mais bonita que j vi. - Aproximou-se para passar uma mo pela garupa de Wink e depois deu-lhe uma palmada. - Consigo ver porque  que era uma 
campe.
        - Ests a ver, Wink? O Ryan  um especialista, e at ele diz que tu s a melhor. - Bethany beijou novamente o focinho da gua. Para horror de Ryan, Wink 
virou o beio para trs e passou-o pela cara de Bethany. - Beijo, beijo! - exclamou ela, rindo-se com prazer. - Ensinei-a a fazer isto - disse ela com orgulho a 
Ryan. - Ela ainda se lembra!
        Ryan sentou-se ao lado dela.
        - S te tenho a dizer que vais lavar a cara, escovar os dentes e bochechar antes que eu volte a beijar-te.
        Bethany revirou os olhos.
        - Ela no tem doenas. No sejas to mariquinhas. - Agarrou nos arreios de Wink e puxou-lhe a cabea na direco dele. - Diz "beijo, beijo". Ela no  esquisita.
        Ryan levantou o brao para evitar que o beio da gua se chegasse  sua cara.
        - No, obrigado. Tudo tem o seu limite.
        -  uma habilidade especial - insistiu Bethany, triste.
        Era especial, sem dvida. Ryan suspirou, baixou o brao e deixou que a gua lhe passasse o beio pela cara. No era to mau como estava  espera, mas tambm 
no era uma das suas experincias preferidas.
        O que um homem estava disposto a fazer por amor.
        Uma hora depois, Ryan deu por si a jantar sanduches de bife numa baia. O prato de Wink foi maas s rodelas, que Bethany lhe deu, rodela a rodela, enquanto 
comia a sua sanduche. De algum modo, aquilo no era o que Ryan imaginara como uma noite romntica.
        - Esta  a noite mais maravilhosa da minha vida - disse Bethany com um sorriso radiante quando acabou de comer. Estendeu um brao para fazer festas no pescoo 
da gua. - Nunca pensei voltar a v-la, Ryan. Obrigada.
        - Podes agradecer-me voltando a mont-la. Bethany empalideceu.
        - Tenho algum receio.
        - A tua sela s chega para a semana. At l, vocs as duas tm tempo mais do que suficiente para voltarem a conhecer-se. Se estivesse no teu lugar,  provvel 
que tambm me sentisse um pouco apreensivo por voltar a mont-la.
        - Oh, no  isso. - Bethany encostou a cara ao focinho aveludado da gua. - O que aconteceu no foi culpa dela. Sempre o soube e confio-lhe a minha vida. 
Se eu voltar a montar, ter de ser com ela. Ela tinha um desgosto se no fosse.
        Ryan teve de reprimir um sorriso. Bethany falava sobre a gua como se fosse humana.
        - Mesmo que quase tivesses morrido da ltima vez que a montaste?
        - Mesmo assim - disse ela com uma certeza absoluta. - Quando digo que no foi culpa da Wink, estou a falar a srio. - Os seus olhos adquiriram uma expresso 
distante ao recordar-se do acidente que a deixara paralisada. - Ela estava a correr como uma louca por mim, a dar-me tudo o que tinha. No teve culpa de meter a 
pata num buraco e cair. Depois, nem consigo contar s pessoas que foram ver-me ao hospital s para me dizer que no devia culpar a Wink pelo que tinha acontecido. 
Disseram que quando ela percebeu que no podia parar, transferiu o prprio peso para um lado, tentando no cair em cima de mim. No teve culpa se o barril se virou 
e me atirou mesmo para a frente dela.
        Ryan viu-a passar as pontas dos dedos pela queixada do animal, o toque to leve e terno que poderia estar a acariciar uma criana.
        - Acho que no se pode pedir mais do que isso seja a quem for - disse ele em voz baixa -, cavalo ou pessoa. A correr quela velocidade e meter a pata num 
buraco, podia t-la partido. Muitos cavalos no se teriam preocupado com os cavaleiros numa altura dessas.
        - No. - Ela sorriu com uma expresso ausente. - E nenhum cavalo teria conseguido parar. - Deu mais uma palmada na gua. - Eu sei que ela tentou no cair 
em cima de mim e no preciso de saber mais nada. Porque  que as pessoas querem sempre atribuir culpas? s vezes, acontecem coisas desagradveis. A equipa de manuteno 
do recinto da feira limpou a pista toda naquela manha e alisou o piso com um cilindro. No devia haver buracos. Eles tm imenso cuidado com isso porque h cavalos 
muito valiosos nos concursos de barrel racing, e eles no querem ser processados. - Encolheu os ombros. - Deve ter sido uma marmota qualquer que abriu um tnel at 
 superfcie depois de o piso estar preparado. No vou dizer que foi um acto de Deus porque me recuso a acreditar que Ele quisesse que eu ficasse paralisada, mas 
digo que foi um acto da Natureza, imprevisvel, cuja responsabilidade no pode ser atribuda a ningum. - Torceu o nariz. - A no ser, claro, que eu queira deitar 
as culpas  marmota que abriu o tnel.
        Ryan sacudiu um pouco de feno das calas.
        - Queres ir  caa? Temos muitas marmotas por estes lados que pordes usar para praticar a pontaria.
        Ela riu-se e abanou a cabea.
        - Agradeo a oferta, mas j resolvi essa questo h muitos anos. No acredito que um pobre roedor tenha aberto um tnel s porque queria tramar a Bethany 
Ann Coulter.
        Ryan sorriu.
        - Uma forma muito racional de ver a questo. No muito satisfatria, mas racional.
        - Encar-la de uma forma racional foi a nica maneira de no perder o juzo. Sabias que a ira  a emoo mais fcil de sentir para os seres humanos e, quando 
perdemos as nossas faculdades,  a ltima a desaparecer?  por isso que as pessoas com demncia muitas vezes se tornam violentas, porque nas fases finais tudo o 
que lhes resta so sentimentos de raiva impulsivos. - O sorriso de Bethany esbateu-se e ela olhou-o nos olhos. - J passei por l, s conseguia sentir raiva. No 
quero voltar a sentir-me assim. A amargura e a ira afectam todas as partes da nossa vida. Eu s quero ser feliz e tirar o mximo partido de tudo. Temos de aceitar 
e seguir em frente. Termos pena de ns prprios e procurarmos culpados apenas destri o que restou.
        - Eu no tenho dvidas de que quero apreciar a vida - concordou ele.
        - Para mim, isso significa que, se voltar a montar, ter de ser com a Wink. Qualquer outra soluo seria uma fuga. Mont-la talvez me traga ms recordaes 
e talvez me assuste, mas  algo que terei de fazer. Preferir montar outro cavalo seria uma traio. No lhe posso fazer isso. No o farei.
        - Eu entendo - disse ele com uma voz rouca, e entendia realmente, talvez melhor do que ela pensava. Bethany no era uma cobarde e no era mulher para escolher 
a sada mais fcil, no quando achava que poderia magoar a gua da qual gostava tanto. - S tenho uma pergunta: sentindo o que sentes pela Wink, confiando nela como 
confias, porque  que tens tanto medo de voltar a montar?
        - Porque sei que no poderei usar as pernas e que nunca ser a mesma coisa. Uma parte de mim tem medo de que seja uma grande desiluso, que talvez fosse 
melhor sonhar com isso e dizer a mim mesma que seria fantstico em vez de tentar descobrir que no  e que nunca voltar a ser. Faz algum sentido?
        - Faz todo o sentido. Em sonhos, no temos limitaes. A realidade raramente est  altura deles. Mas, Bethany, v o outro lado. E se a realidade se revelar 
diferente do que era antes, mas igualmente incrvel  sua maneira? Se nunca te atreveres a tentar, nunca sabers.
        - Eu sei. - Ela respirou fundo lentamente. Os seus olhos escureceram com sombras quando voltou a olhar para ele. - Tambm tenho muito medo de poder cair. 
Imagina o que  estar numa sela e no poderes usar os joelhos. S a ideia deixa-me o estmago feito num n.
        - No cais, querida. Vais estar presa com correias. - Ryan estendeu um brao e afastou-lhe uma madeixa de cabelo da cara. - Vamos com calma. Nas primeiras 
vezes, dou umas voltas ao curral contigo. Habituas-te e, no demora muito, voltas a adorar andar a cavalo.
        - Oh, quem me dera...
        -  o que vai acontecer. Ryan ia certificar-se disso.
        Bethany.
        Quando Ryan sugeriu que j tinham passado tempo suficiente com Wink e deviam voltar para casa, a cara dela ficou rosada como as flores do trevo em Junho. 
A caminho da carrinha dela para levar a cadeira de rodas, Ryan riu-se para consigo perante a timidez dela. Depois, franziu o cenho, apercebendo-se subitamente de 
que no tivera grande experincia com virgens - ou antes, nenhuma, ponto final. Mesmo na universidade, procurara sempre raparigas que j sabiam o que fazer. O seu 
pai t-lo-ia esfolado vivo se soubesse o contrrio.
        Ryan suspirou quando voltou ao estbulo. Uma vez diante da baia de Wink, preparou a cadeira de rodas, aplicou-lhe o travo, e entrou para ir buscar Bethany. 
Ela tinha palha no cabelo e, quando a instalou na cadeira, a bainha da saia rodada azul levantou-se, revelando um buraco nas meias. O rasgo revelava um arranho 
no joelho.
        Ryan baixou-se para examinar a abraso. Ela comeou imediatamente a puxar pela saia, ajeitando os folhos  volta e entre as pernas. Ele levantou a cabea. 
Grandes olhos azuis desconfiados devolveram-lhe o olhar. Ele tentou um sorriso inofensivo. Nunca tivera muito talento com eles.
        - O que foi? - perguntou ele em voz baixa.
        - Nada - respondeu ela abanando a cabea.
        Pois claro. Ryan suspirou para dentro, pensando que aquele era exactamente o motivo pelo qual a noite de nupciais era o tema de tantas piadas. Era quase 
como ir ao dentista. Se pensssemos muito naquilo antes de irmos  consulta, ficvamos uma pilha muito antes de nos sentarmos na cadeira.
        - Ests um pouco nervosa? Ela abanou a cabea, mas disse:
        - Sim. Um pouco.
        Satisfeito por ver que o aranho no joelho no era preocupante, Ryan segurou-lhe a cara entre as mos. As mas do rosto pareciam frgeis sob os seus polegares 
- minsculas quando comparadas com as suas.
        - Preferes esperar?
        - Esperar porqu?
        Ficou sem saber o que dizer. Boa pergunta.  excepo do casamento, que ele esperava concretizar antes que a tinta tivesse tempo para secar na certido do 
registo, no havia nenhum motivo para esperar. A no ser, claro, que ele contasse com a expresso preocupada nos olhos dela. O que era o caso.
        Bethany fechou os dedos delicados sobre os pulsos dele.
        - Oh, Ryan, no estou nervosa pela razo que ests a pensar. No  por fazer amor contigo. Eu j... - calou-se e ficou ainda mais corada. - J pensei muito 
sobre essa parte, e quero experimentar.  s que...
        -  s qu, o qu? - insistiu ele.
        Ela passou uma mo pelos botes da camisa.
        - Eu, hmm, a modos que, no sei, sinto-me envergonhada. Tu s to... - Percorreu-o com o olhar. - s to perfeito. Bonito e com um corpo incrvel, o gnero 
de homem com o qual a maioria das mulheres apenas sonha.
        Ryan sentiu um aperto na garganta.
        - Obrigado. Acho que ests a exagerar, mas  um belo elogio, e fico lisonjeado por saber que pensas assim. - Olhou atentamente para ela. - Isso constitui 
alguma espcie de problema?
        - No! No  um problema, propriamente.  s que eu no sou. Ele contornou mentalmente aquela frase, sem saber muito bem qual o seu significado.
        - Tu no s o qu?
        - Perfeita - respondeu ela, a palavra pouco mais do que um sussurro.
        - Oh, querida. - Ryan apercebeu-se ento de que se tinha esforado tanto para desempenhar o papel do melhor amigo de uma forma convincente que no conseguira 
dar-lhe a entender o quanta a desejava fisicamente. Nunca permitira sequer que o seu olhar percorresse o corpo dela. Seja como for, no quando ela o pudesse ver. 
- Se fosse mais bonita, Miss Coulter, eu j teria um caso crtico de pneumonia por esta altura.
        Ela parecia intrigada:
        - Pneumonia? Ele riu-se.
        - Por causa de tantos duches de gua fria. Ela riu-se e disse:
        - Ah. Pneumonia. Claro. - Uma expresso esperanosa, ligeiramente incrdula passou-lhe pelos olhos. - Tomaste mesmo duches frios?
        Ver a incredulidade dela deixou Ryan com um aperto no corao. Para ele, parecia um crime que algum to bonito pudesse chegar aos vinte e seis anos sem 
que nunca lhe tivessem dito o quo desejvel era. Era uma questo que ele pretendia resolver dentro de muito pouco tempo.
        - Dzias de duches frios - garantiu-lhe ele. - Tenho vontade de fazer amor contigo desde a primeira vez que te vi. Sempre que estava perto de ti, tinha de 
vir para casa e ficar debaixo da gua fria at ficar suficientemente dormente para conseguir adormecer.
        Sorriu e baixou os olhos at aos seios pequenos mas perfeitamente desenhados. Talvez fosse apenas um desejo esperanoso, mas pareceu-lhe ver os mamilos endurecerem 
em resposta. Encorajado por aquela viso, mirou-lhe o resto do corpo, as suas mos ansiosas por agarrarem aquelas ancas, o seu corpo desejoso de senti-la contra 
ele.
        Quando voltou a olh-la nos olhos, a cara dela estava rosada at aos cabelos, mas havia uma centelha puramente feminina no olhar. Decidiu naquele momenta 
que ia passar a mir-la, muito, e que se certificaria de ser apanhado no acto.
        - No consigo exercitar certas partes do corpo como as outras pessoas - disse ela num tom pouco seguro. - Nesses stios, os msculos atrofiaram-se, e no 
estou muito tonificada.
        - Isso quer dizer que s to macia e fabulosa como pareces?
        Ela suspirou, transmitindo com a sua expresso que aquela no era uma ocasio para dizer disparates.
        - Tenho tanto medo de te desiludir. Que no gostes do meu aspecto e eu seja uma grande desiluso noutros aspectos tambm,  que...
        Ele interrompeu-a ao baixar a cabea para a beijar. Como ele adorava aquela boca, to macia e voluntria, todavia, insegura e hesitante.
       Queria continuar a sabore-la para sempre, queria passar o resto da vida a dar prazer a si prprio com ela. Queria aquela mulher, com baba de gua e tudo.
        Obrigando-se a pr um fim ao beijo, murmurou:
        - Querida, podes parar de te preocupar? Acho que s linda e a minha opinio  a nica que importa. Vai correr tudo bem entre ns. Tenho esta sensao, e 
estas minhas sensaes raramente se enganam.
        - Oh, Ryan, espero que tenhas razo. Se pudermos pelo menos ter sexo satisfatrio, no me sinto to culpada por me casar contigo. Se no conseguir sentir 
nada, acho que morro.
        Wink empurrou o ombro de Ryan com o focinho. Ele levantou um brao para lhe esfregar o pescoo.
        - Tens a certeza de que  s isso que te preocupa? No tens medo que eu te magoe? - Para o caso de ela ter vergonha de admitir que se sentia apreensiva nesse 
campo, apressou-se a acrescentar: -  a tua primeira vez.  uma preocupao muito natural para uma mulher.
        Ela riu-se.
        - Espero que sim.
        - O qu?
        - Espero que doa.  um bom sinal, Ryan. Seria fantstico.
        S aquela ideia deixou-o com uma desconforto no estmago. Preferia arrancar um brao a mago-la. Mas ela tinha razo. Ele tambm devia esperar que doesse. 
Naquele caso em particular, quanto maior o desconforto, maior o motivo para festejar.
        Devolveu Wink  sua baia e trancou o porto para a noite. Em seguida levou Bethany para fora do estbulo.
        - Queres ir at ao lago? - perguntou Ryan, pensando que tinha de a cortejar um pouco. - Aquilo ali em baixo  lindo  noite. As estrelas reflectem-se na 
gua como milhares de diamantes.
        - Depois - disse ela com firmeza. - Podemos l ir depois. Manobra falhada. Quando chegaram a casa, Ryan acendeu um par de luzes e agarrou no controlo remoto 
para ligar a aparelhagem enquanto ia  cozinha buscar um pouco de vinho para os dois. Bethany ficou fascinada com as alteraes na cozinha, e instalou-se do outro 
lado do balco, os seus grandes olhos azuis seguindo-o nervosamente.
        - Ryan?
        Ele parou de encher os copos e olhou para ela.
        - Sim?
        - Podemos s... - passou os dedos pela frente da blusa, inspirou com pouca convico e engoliu em seco. - Tu sabes, podemos s... - expirou apressadamente. 
- Nada de muito demorado. Por favor? Quero s, hmm, passar logo para a parte importante. S desta vez. Prometo. Desculpa apressar-te, mas preciso de saber.
        Ele sentiu um aperto no corao s de ver a angstia nos olhos dela. Ela estava prestes a morrer de ansiedade, e ele estava a empatar. Poisou a garrafa de 
vinho e contornou o balco para a tirar da cadeira.
        - No ters de repetir esse convite.
        Quando a puxou para o seu peito, Bethany passou-lhe os braos  volta do pescoo, encostou a cara a curva imediatamente abaixo do queixo dele e sussurrou:
        - Diz-me outra vez, Ryan, preciso de ouvir-te diz-lo mais uma vez. Ela no tinha de esclarecer aquele pedido. Ele baixou o queixo para lhe encostar os lbios 
 tmpora.
        - Amo-te, Bethany. E vou amar-te para o resto da minha vida com todo o meu corao.
        Levou-a para o quarto. Quando a poisou na cama, ela baixou a cabea de tal forma que o cabelo caiu para a frente, cobrindo-lhe a cara, e comeou a desabotoar 
a blusa com dedos trmulos. Parecia to desamparada, ali sentada, com os ps numa posio esquisita, um virado para dentro, o outro dobrado pelo tornozelo.
        Ryan passou-lhe as mos pelas barrigas das pernas, consciente de que ela no sentia nada ali, mas, mesmo assim, permitindo-se esse prazer. Atravs da malha 
das meias, a pele dela parecia fresca e incrivelmente macia, fazendo-o recordar-se do seu toque acetinado. Beijou-lhe o arranho no joelho, o que lhe mereceu um 
olhar espantado da parte dela.
        Quando voltou a olhar para ela, Bethany debatia-se com um boto. Ele afastou-lhe as mos:
        - Importas-te? - perguntou-lhe. - Prefiro ser eu a desembrulhar os meus presentes.
        Ela olhou-o intrigada e ele limitou-se a sorrir.
        - Para mim, s um presente, Bethany Coulter. O melhor presente que Deus me podia ter dado.
        A boca dela contraiu-se, um canto virando-se para baixo e comeando a tremer.
        - Oh, Ryan, esqueci-me de te dizer mais uma coisa horrvel.
        - O qu? - perguntou ele, sentindo o corao parar porque ela parecia to preocupada. - No pode ser assim to mau. O qu, querida?
        - Tenho cicatrizes. Horrveis.
        O corao dele recuperou o ritmo normal.
        -  s isso? - Ryan desapertou os botes que restavam, abriu a frente da blusa e agarrou no cs da saia. - Aposto que as tuas cicatrizes no so nada comparadas 
com as minhas. Queres ver uma cicatriz, querida? Eu mostro-te uma cicatriz.
        Ele inclinou-se para trs sobre um calcanhar para desapertar a camisa, soltou um dos lados e mostrou-lhe uma cicatriz vermelha na caixa torcica.
        - Foi um gancho de feno. O Rafe e eu pegamo-nos  pancada quando ramos midos. Eu atirei qualquer coisa, j nem me lembro do que era, e acertei-lhe na cabea. 
Quando ele se virou para trs para vir atrs de mim, apanhou-me acidentalmente com o gancho.
        - Oh. - Ela tocou na marca com as pontas dos dedos. - Oh, Ryan, deve ter doido tanto!
        Ele riu-se:
        - Doeu mais a ele do que a mim. Sentiu-se to culpado que at chorou. O meu pai teve tanta pena dele que nem lhe bateu.
        Os olhos dela arregalaram-se.
        - O teu pai batia-vos muito?
        - Uma vez por dia e duas aos domingos, s para nos manter na linha. - Ryan riu-se ao ver a expresso horrorizada dela. - Nada disso. Tanto quanto me lembro, 
bateu com o cinto no Rafe uma vez, e foi no primeiro ano, quando ele bateu numa rapariga. Cdigo dos Kendrick. Nenhum homem digno desse nome bate numa mulher, o 
que tambm se aplica a rapazes de seis anos.
        - E tu, alguma vez apanhaste?
        - No. A nica vez em que ele veio atrs de mim foi quando eu tinha dezoito anos, e deu-me uma bofetada na boca. - Ryan esfregou o queixo. - Virou-me de 
pantanas. O velhote ainda tem muito forca.
        - Porque  que ele te bateu? Ryan riu-se ao recordar-se:
        - Queres uma lista? Sa da cidade a conduzir bbedo como um cacho. A minha me viu-me quando entrei na cozinha e disse que eu era um irresponsvel. Menti 
e disse que no tinha estado a beber, o que foi o meu segundo erro. Depois, chamei-lhe um nome de forma dissimulada. Ainda no tinha acabado a frase quando o meu 
pai me apanhou.
        Bethany esquecera-se nitidamente do seu estado de nudez parcial, o que para ele era perfeito.
        - Mas o que  que tu lhe chamaste?
        - No lhe chamei propriamente nada. S referi que havia outros tipos que bebiam e que as mes deles no se comportavam como cabras quando eles voltavam para 
casa. No consegui dizer muito mais depois de "cabras". O meu pai avanou, eu ca, e quando comecei a levantar-me, ele plantou-me a bota no meio do peito para me 
informar de que no havia um nico homem vivo que tivesse chamado cabra  minha me e que lhe tivesse pedido desculpa de p. Se eu fosse esperto, falava primeiro 
e levantava-me depois.
        Bethany riu-se.
        - Bem... e o que  que tu fizeste?
        - Deixei-me ficar deitado e pedi desculpa  minha me. Depois, o meu pai ajudou-me a levantar, verificou os meus dentes, disse  minha me para me pr um 
pouco de gelo no lbio e saiu da cozinha. Nunca mais voltou a falar do assunto, e eu tambm no. - Ryan sorriu com a recordao. - Nunca mais voltei a falar  minha 
me sem o devido respeito. Lio amarga, boa escola. O meu pai no  um mau homem, mas pode ser difcil se o zangares, e a forma mais rpida de o fazeres  pisares 
o risco com a minha me.
        Ryan puxou-lhe a camisa pelos braos, fazendo os possveis para fingir que no estava muito interessado na vista. Ela era uma coisinha to bonita, to branca 
e macia, com ossos salientes aqui e ali para um homem poder mordiscar.
        - Onde  que esto essas cicatrizes horrveis? - perguntou ele, fingindo procur-las enquanto apoiava as mos nas copas de renda do soutien e no que elas 
aconchegavam. Os seios dela eram to perfeitos quanto ele os imaginara, com o tamanho suficiente para lhe encher as mos. Atravs da renda, podia ver as pontas rosadas 
a espreitar. Estavam duras e empurravam o tecido como pequenos rebites. - No vejo nada em ti que no seja perfeito.
        Um rubor de humilhao instalou-se na cara dela.
        - Nas minhas costas. Foram trs operaes, lembras-te? Ele comeou a inclinar-se.
        - Por favor, no olhes - pediu ela. - Tenho vergonha delas. So feias.
        Ryan semicerrou um olho.
        - Bem, parece que no h nada a fazer. Tenho de baixar as calcas e mostrar-te o que  uma verdadeira cicatriz. - Agarrou na fivela do cinto. - Enredado em 
arame farpado. Outra histria. O Rafe tambm estava metido.
        Ela reparou que ele estava prestes a desapertar o cinto e abanou a cabea.
        - No, no. Eu... acredito. No tens de me mostrar. Ryan arqueou as sobrancelhas.
        - Tens de me mostrar as tuas. No h lugar para segredos entre ns, e eu no quero que depois tenhas medo que eu as veja. Melhor despachar j o assunto. 
De acordo?
        Ela assentiu, mas, avaliando pela sua expresso, no estava nada entusiasmada com a ideia. Ryan decidiu acabar o mais depressa com a agonia e inclinou-se 
para ver as cicatrizes na coluna. Sentiu um aperto nas entranhas quando as descobriu, no porque as trs marcas eram feias, mas porque representavam toda a dor que 
ela tinha suportado. Desejou que ela pudesse ter sido poupada aquele sofrimento desnecessrio, todavia, tambm aceitava que tambm ele a teria encorajado a fazer 
as operaes, apenas pela remota hiptese de as intervenes a poderem ajudar a voltar a andar.
        Consciente de que ela estava  espera da sua reaco, Ryan tentou pensar em algo reconfortante que pudesse dizer - que as cicatrizes no eram feias, que 
mal repararia nelas quando fizesse amor com ela. Tudo isso era verdade, mas, por algum motivo, as palavras no saram. Assim, e por impulso, apoiou-se num cotovelo 
e inclinou-se ainda mais, passando lentamente os lbios ao longo de cada uma das incises. Bethany inteiriou-se e arqueou a coluna.
        - Oh, Ryan, no faas isso.
        Ele acabou de beijar cada uma das cicatrizes e levantou-se para olhar para ela.
        - Amo tudo o que faz parte de ti - disse ele em voz baixa. - At as partes ligeiramente imperfeitas. Apenas servem para me recordar como o resto de ti  
to bonito.
        Os olhos dela encheram-se de lgrimas.
        - No as achas feias?
        - De todo. Nada em ti se aproxima sequer do que pode ser considerado feio.
        Agarrou as beiras do colcho de cada lado dela e avanou at tocar com o nariz no dela. Vendo que ele continuava a avanar, ela soltou um guincho assustado 
e caiu para trs, exactamente como ele a queria. Poisou as mos de cada lado dos ombros dela e desceu tambm. Bethany envesgou ligeiramente os olhos ao olhar para 
ele ao longo da cana do nariz. Ele no conseguiu resistir a beij-la, seguindo a curva numa lenta ascenso at  testa, onde percorreu os arcos negros acima dos 
olhos com a ponta da lngua.
        - Meu Deus, tu s to bonita - sussurrou ele. - Podia passar a noite toda s a saborear-te.
        Ela fechou as mos nos braos dele e Ryan sentiu-a a tremer. O seu corao parou:
        - Querida, no ests com medo de mim, pois no?
        - No, no.
        Reprimiu um sorriso. Ela era to atrevida durante a maior parte do tempo que lhe era fcil esquecer que no tinha experincia absolutamente nenhuma com homens. 
"Calma, rapaz." Quer ela quisesse, quer no, ele tinha de ir com calma.
        Mudando o peso do corpo at ficar deitado ao lado dela, soergueu-se num cotovelo e passou a ponta de um dedo pela orla do soutien dela, comeando num ombro 
e seguindo numa viagem ociosa pelos seios at chegar  ala do lado oposto.
        - Fazes ideia do quanto eu te desejo?
        - Tanto quanto eu, espero. - Ela poisou-lhe uma mo esguia no queixo, o polegar delicado seguindo ao de leve a face. S sentir o toque dela deixava-lhe o 
sangue em brasa. - Esforcei-me tanto para no te desejar, mas no consegui, foi mais forte. - Ela sorriu sonhadoramente. - Tornou-se to srio que j nem conseguia 
dormir. Ficava ali deitada, completamente acordada, a pensar e a desejar. Ainda me custa a acreditar que estou aqui contigo, agora, e que nunca mais terei de pensar 
e imaginar.
        Ryan procurou-lhe os olhos e viu desejo, turbulento e quente, naquelas profundezas azuis.
        Ela mordeu o lbio, uma sbita expresso sria franzindo-lhe a testa.
        - Tenho de te agradecer por seres to atencioso. Ires devagar e perderes tempo a dizer coisas bonitas. Mas eu no preciso que o faas, se  por isso que 
ests a faz-lo. Estou pronta para que tu, sabes, comeces.
        Ryan abafou uma gargalhada:
        - Desculpa, no me queria arrastar.
        - Oh, no me estou a queixar.  s que...
        - Eu percebo - murmurou ele, interrompendo-a com um beijo ao de leve. Contra os lbios dela, acrescentou: - Mas, querida, tenho de te preparar.
        - Eu estou preparada - garantiu-lhe ela.
        Ele poisou-lhe uma mo na barriga e aprofundou o beijo. "Cristo." Ela estava pronta. A boca rendida e macia abriu-se esfomeada, encorajando-o a entrar e 
tomar. S um morto poderia resistir a um convite daqueles, e ele estava muito longe da cova.
        Entre beijos, Bethany murmurou:
        - Nada de segredos nem de jogos. Certo? O meu corpo j est to pronto como poderia estar h mais de um ms.
        Ele inclinou-se para trs:
        - Um ms? Ela assentiu.
        - Todas aquelas noites no sof, quando estavas a ver os filmes? Eu estava a pensar, bem, tu sabes, em fazer isto.
        Ryan fez um esforo para manter uma cara sria.
        - Ests a gozar.
        - No, a srio.
        Ele desapertou-lhe o cs da saia. Depois, no conseguiu resistir a sorrir e comeou a rir-se quando baixou a cabea e comeou a mordiscar-lhe o pescoo.
        - Quando eu te tocava aqui? - perguntou ele. - E aqui? - Tocou com a lngua na depresso abaixo da orelha. - E aqui? - Esticou-se, tentando chegar a nuca. 
- Bem, eu sou mesmo bom.
        Ela voltou a cara para olhar para ele.
        - Estavas a fazer de propsito.
        No era propriamente uma pergunta. Enfrentando o olhar dela, Ryan abriu o fecho no lado da saia.
        - H ursos nos bosques? Claro que fiz de propsito. Estava a dar o meu melhor para te seduzir.
        Ela riu-se e fechou os olhos.
        - Quando acabarmos, lembra-me que tenho de te esfolar com uma faca embotada. Todavia, e por enquanto, podes ficar descansado, os teus esforos foram bem 
sucedidos. Insisto que comeces a cumprir aquelas promessas todas que me fizeste.
        - Quais promessas?
        - Que, um dia, me havias de beijar em todos aqueles lugares, e talvez noutros tambm. H um ms que penso qual ser a sensao. Agora, estou pronta para 
ver se ests  altura da tua conversa. - Riu-se outra vez.
        Ryan estava mais do que pronto para cumprir aquelas promessas. Ainda lhe custava a acreditar que ela estava a pedir, e que ele era o sortudo que ela escolhera. 
Tinha imaginado que teria de a convencer, que ela se mostraria tmida e um pouco relutante. Em vez disso, ela estava impaciente, deliciosamente ansiosa, e mais do 
que pronta, se os seus beijos servissem como indicao.
        "Por favor, Deus." Ele queria que fosse perfeito para Bethany - uma noite incrvel que ficaria para sempre na sua memria. Ela era to doce que ele no conseguia 
imaginar o que poderia ter pensado, deitada na sua cama solitria a olhar para o tecto, mas queria tornar realidade todas as suas fantasias.
        Quando ele lhe despiu a saia, as meias e as cuecas, Bethany fechou os olhos com embarao, receando nitidamente que ele pudesse ficar desiludido. Ele percorreu-a 
com os olhos desde a orla inferior do soutien at s pontas dos ps delicados, absorvendo aquela abundncia de pele de um branco leitoso. Cada centmetro dela era 
perfeio absoluta, as costelas formando uma escada por onde descer para uma cintura incrivelmente fina que dava lugar ao suave arredondado das ancas. Incapaz de 
resistir ao desejo, curvou-se para mordiscar o alto onde se destacava o osso ilaco, o que a fez estremecer, arquejar e abrir os olhos.
        Ele sorriu e prendeu a ponta de um dedo sob a orla do soutien. Puxando um pouco disse:
        - Tudo fora. Quero ver-te toda.
        Com mos trmulas, ela comeou a abrir o fecho entre as copas. Enquanto a renda caa, a cara dela ficou cor-de-rosa, Bethany evitando deliberadamente olhar 
para ele.
        - No so muito grandes. Gostas deles grandes?
        Ryan estava to absorto a olhar que quase no ouviu a pergunta. Os globos leitosos eram pequenos, mas requintadamente definidos, cada um deles encimado por 
um mamilo delicado e rosado que endureceu e se projectou ansiosamente na direco dele, como que excitado pelo calor escaldante do seu olhar. Ele queria levar a 
lngua a cada um daqueles cumes sensveis, aprender o sabor dela. Mas a pergunta ainda pairava entre eles,  espera de uma resposta.
        Ryan estudou-lhe os olhos, apercebendo-se ao faz-lo de que para ela aquela era uma revelao muito importante, a primeira vez na sua vida adulta em que 
qualquer homem que no um mdico a via nua. Naturalmente, estava insegura. Ele prprio no tivera assim tanta autoconfiana na sua primeira vez.
        - Prefiro peitos para o pequeno - encontrou ele finalmente a presena de esprito para lhe dizer.
        - No ests a dizer isso s por dizer, pois no? Ryan no pde deixar de sorrir.
        - No, no  s por dizer. E quando eu te apanhar deitada, tenho algumas promessas ainda por cumprir.
        Quando ele se debruou por cima dela para afastar os lenis, Bethany sentiu um aperto terrvel no estmago. No sabia por que motivo se sentia to nervosa, 
apenas que se sentia assim, e por mais dura que fosse consigo mesma, no parecia adiantar rigorosamente nada.
        Ryan passou-lhe um brao  volta da cintura, puxou-o para a virar na cama e depois encostou-a com cuidado  almofada. Olhando para ele, Bethany pensou que 
nunca tinha visto um homem to bonito. Com a luz difusa, a pele dele parecia to escura como madeira de teca, e os olhos cinzento-azulados brilhavam como prata iluminada 
pelo luar ao percorrerem lentamente o seu corpo.
        Ela apercebeu-se de que tinha os joelhos afastados e agarrou nos cobertores para tapar as pernas. Agarrando-lhe no pulso, Ryan impediu-a de se refugiar debaixo 
dos cobertores enquanto se posicionava ao lado dela.
        - No - murmurou ele.
        - Mas as minhas pernas so...
        - Esta noite, essas pernas so minhas. - Ainda com a camisa vestida, Ryan mudou de posio para conseguir ver melhor a cara dela, libertando-lhe o pulso 
para poder deslizar a palma da mo pelo interior da sua coxa esquerda. - No sei qual o ngulo em que tens visto as tuas pernas, querida, mas, do meu ponto de vista, 
so simplesmente fabulosas. Nunca te disseram isso?
        - No. - Bethany susteve novamente a respirao ao sentir a palma dura e quente na pele sensvel do interior da coxa. - No  que eu... ui.
        - Tens covinhas nos joelhos - murmurou ele com voz rouca. - As covinhas mais engraadas que eu j vi.
        A cara morena dele aproximou-se da sua - suficientemente perto para que o calor da respirao lhe afagasse a face quando falava. Baixou a cabea para a beijar 
onde o bafo j lhe deixara a pele em frmitos. Os lbios eram sedosos e tocavam-na como um sussurro, deixando um rasto incendirio at chegarem  orelha, onde a 
ponta da lngua entrou em aco, lambendo-lhe o lbulo e electrizando as terminaes nervosas.
        Bethany revirou os olhos parcialmente fechados. Agarrou-lhe nos ombros e cravou os dedos, sentindo-se como se aquela solidez fosse a sua nica ncora num 
mundo que subitamente comeara a girar. Que bem lhe sabia a forma como os lbios dele lhe passavam pela pele, to ao de leve que mais parecia estar a ser provocada 
por asas de borboleta. E, oh, como era bom sentir o peito dele roar os seus mamilos. A cada passagem, o seu corao dava um salto e a respirao tornava-se mais 
entrecortada. A maciez da camisa era uma fraca barreira sobre uma massa dura e vibrante de musculo quente que se agitava de cada vez que ele se mexia. Ryan. Ela 
at gostava do cheiro dele - uma mistura tantalizante de aromas masculinos que lhe estimulava os sentidos.
        Quando ele levou os lbios at  garganta dela, Bethany deixou a cabea cair para trs, adorando as sensaes enquanto ele beijava e mordiscava e sugava 
a sua pele. Uma sensao de um formigueiro escaldante percorria-a, acumulando-se como fogo lquido no seu baixo-ventre, e a sensao estranha que a mantivera acordada 
durante tantas noites tornava-se to forte que a deixava com vontade de arquear o corpo contra o dele como se fosse um gato. A tentao foi ainda mais intensa quando 
ele lhe percorreu a clavcula com a ponta da lngua. A respirao tornou-se ainda mais irregular, os breves arquejos mal alcanando os pulmes. Deixou escapar um 
gemido involuntrio quando sentiu os lbios dele comearem a descer.
        Pensara um milhar de vezes qual seria a sensao de ser amada por um homem, e uma boa metade dessas vezes tivera lugar durante os ltimos dois meses. Na 
escurido do seu quarto, deitada sozinha na cama, ficara a olhar cegamente para o negrume da noite, a imaginar, a dor da necessidade dentro dela fazendo-a fantasiar 
e querer.
        Como seria ter as mos de Ryan no seu corpo?
        Como seria se ele lhe beijasse a pele?
        Como seria se ele lhe sugasse os mamilos?
        Agora, ele estava prestes a faz-lo e ela mal podia esperar. Susteve a respirao, ansiando pelo calor da boca dele nos seus seios.
        Enquanto prosseguia a sua descida, Ryan no se afastava do centro do peito, seguindo a linha do esterno. A cabea de Bethany comeou a latejar - um latejar 
ressonante que lhe assaltava os ouvidos. Os mamilos ficaram completamente duros, to sensveis que o mais leve movimento da camisa dele lhe deixava os pensamentos 
em estilhaos. Ele beijou a curva interior de um seio, depois a do outro. Ela s queria que ele fosse para aquele ponto onde precisava to desesperadamente que ele 
estivesse, mas Ryan parecia decidido a provoc-la e acumular a antecipao.
        Comeou a beij-la rumando aos mamilos, mas desviando-se quase ao chegar, atormentando-a impiedosamente at a deixar convencida de que ia enlouquecer. Sempre 
que o queixo dele roava a aurola, ela estremecia e pensava em agarrar-lhe nos cabelos para o segurar.
        Quando j no conseguia suportar aquela tortura, foi o que fez, prendendo-o com os braos quando ele se tentou afastar. Ryan ergueu a cabea morena e olhou 
para o cume exposto que era o seio dela, os seus olhos ficando ainda mais escuros. Ele sabia perfeitamente o que ela queria. E vendo que ele no lho dava, como ela 
tanto desejava que fizesse, Bethany quase chorou de frustrao.
        - Meu Deus, Bethany, tu s linda - sussurrou ele com uma voz entrecortada, o bafo quente roando-lhe o mamilo latejante e apenas intensificando o seu desejo. 
- Fazes-me pensar em morangos com natas, a minha sobremesa preferida.
        Ela s queria que Ryan provasse.
        - Ryan...?
        Ele subiu para lhe beijar a boca longa e profundamente, o que no era bem o que ela queria, mas ele beijou-a at ela j no conseguir lembrar-se muito bem 
do que poderia ser.
        At que o peito dele roou o dela. Recordao imediata.
        - Ryan?
        - Sim, querida?
        - Importas-te... - Bethany engoliu em seco, desejosa de que ele passasse  aco. - Importas-te de me beijar?
        Ele tomou-lhe novamente a boca. Um beijo profundo, intenso, de lnguas enredadas que a deixou com a cabea a andar  roda. Era delicioso. Indescritvel. 
Um beijo fantstico, maravilhoso, arrebatador que lhe deixava o corao descontrolado. Mas no era o que ela queria.
        Quando Ryan finalmente se afastou para recuperar o flego, ela engoliu e disse:
        - No na boca. No peito.
        Ele estudou-lhe os olhos durante um longo momento. Ento, sorriu e disse:
        - A espera  que lhe d graa.
        - Mas eu j achei graa mais do que suficiente. Vinte e seis anos dela.
        Ele riu-se, um som travesso e com laivos de pura satisfao masculina.
        - Ganhei. Estou  espera de beijar o teu peito h trinta anos, e podes ter a certeza de que vou saborear a expectativa. - Baixou a cabea e lambeu a depresso 
entre as clavculas. - Vou saborear cada centmetro de ti e guardar estes seios lindos para o fim.
        Bethany quase gemeu. Queria tanto que ele a beijasse ali que praticamente tremia. Manteve uma mo firme nos cabelos dele, ou assim tentou, os seus pensamentos 
ficando em branco quando o calor daquela boca a atingiu na face interior do brao erguido e subiu lentamente at ao cotovelo. No sabia como ele conseguia, mas fazia 
com que as partes mais banais do seu corpo se transformassem em zonas ergenas ultra-sensveis.
        - Meu Deus. - Quase soluou quando ele se libertou da mo que lhe prendia o cabelo e atacou a respectiva palma, percorrendo cada uma das linhas ali marcadas 
como se as quisesse memorizar. Quando ele lhe envolveu a ponta de um dedo com os lbios e ela sentiu aquele calor incrivelmente hmido e macio a sugar-lhe a carne, 
soluou mesmo.
        - Ryan, basta. Eu no aguento.
        - Claro que aguentas. - A lngua comeou a descer pelo dedo. - Quando eu acabar, nem sequer conseguirs lembrar-te do teu nome, e hs-de implorar que eu 
te beije os seios. E quando eu finalmente o fizer, a sensao vai dar contigo em doida.
        - Ah-ah-ahhhh - foi tudo o que ela conseguiu dizer em jeito de resposta. Agora, ele estava a mordiscar-lhe o pulso. Bethany sentia-se como um bufete preparado 
exclusivamente para o prazer dele.
        Ele mordiscou-a no regresso ao cotovelo e chupou-o, banhando-lhe a pele com a lngua.
        - Vou prender-te os mamilos entre os dentes - sussurrou ele -, assim. - Ofereceu-lhe um antegosto das delcias que a esperavam, mordiscando-lhe o brao muito 
ao de leve. - E sempre que os meus dentes os puxarem, hs-de pensar que ests a morrer de prazer.
        Ela j estava a morrer. Ryan passou a cabea por baixo do brao dela para lhe mordiscar as costelas, subindo aquela escada at  axila, o que ela talvez 
tivesse achado embaraoso se ainda lhe restasse algum pensamento lcido.
        - Ryan... - murmurou ela, arrastando as slabas.
        Ele agarrou-lhe nos pulsos com uma mo grande, prendeu-lhe os braos acima da cabea e depois recuou para olhar para o peito dela.
        - Minha menina, mas que viso. - Os olhos dele ardiam com o calor da paixo quando voltou a olh-la nos olhos. Sorriu ligeiramente, o sorriso de um homem 
que sabia exactamente o que estava a fazer, apreciando cada segundo.
        - Vou beij-los agora. Ests pronta?
        Ela estava pronta h dez minutos. Conseguiu assentir com a cabea. Ele sorriu e, com uma lentido agonizante que a deixou com a pele a arder de expectativa, 
baixou a cabea.
        - Observa - sussurrou ele.
        Aquela ordem era completamente desnecessria. Os olhos dela estavam fixos na boca dele e acompanharam a sua descida preguiosa. Quando os lbios pararam 
a um centmetro do peito dela, o mamilo fincou ainda mais duro, projectando-se ao seu encontro. Ele sorriu e soprou. O bafo inesperado de calor seguido pela frescura 
do ar fez com que a coluna dela se arqueasse, deixando-a sem respirao. Bethany tentou libertar as mos, mas ele apertou-as com mais forca.
        - No, no. Nem penses. Nenhuma interferncia. Por enquanto, s toda minha.
        Contornou-lhe a aurola com a ponta da lngua. Bethany ouviu vagamente um arquejo trmulo misturado com gemidos quase inaudveis e apercebeu-se de que era 
ela quem estava na sua origem. Ele enrolou a lngua  volta do mamilo. O choque de calor e o toque sedoso provocaram-lhe uma descarga que sacudiu o colcho. Bethany 
soluou perante aquelas vagas de sensao electrizante e arqueou a coluna, querendo mais, mais, os seus pulmes to destitudos de ar que no conseguia falar.
        Ryan pareceu perceber sem que ela dissesse as palavras. Puxou-a para a sua boca, o movimento to inesperado e intenso que ela gritou. Depois, prendeu-lhe 
a carne latejante entre os dentes. Ela soluou e exclamou:
        - Oh, sim. Sim. - Sentiu-o libertar-lhe os pulsos e agarrou-se cegamente aos ombros dele, precisando de o sentir. Frustrada, puxou-lhe pela camisa, o seu 
corpo mais parecendo que se dissolvia a cada movimento da boca dele. - Oh, Ryan, amo-te, amo-te, amo-te. - Puxou-lhe freneticamente a camisa, encontrando finalmente 
a pele nua, e deliciou-se com aquela sensao. - Sim. Oh, sim. No pares. Por favor, no pares.
        Ele riu-se e comeou a mordiscar-lhe o pescoo. Enquanto descia mais uma vez, beijando-lhe a pele de regresso aos seios, sussurrou:
        - Nunca. No paro. Mas vou fazer alguns desvios que sero igualmente agradveis.
        No havia nada que se comparasse - a boca quente de Ryan estava novamente no peito dela, e o que quer que fosse que ela estivesse prestes a pensar dissolveu-se 
por completo. Ryan. Nunca nas suas fantasias mais desvairadas imaginara que poderia ser assim to maravilhoso. Nunca.
        Ele fez um daqueles desvios para os quais a alertara, semeando beijos escaldantes at ao umbigo, o qual ele contornou e mordiscou, e depois invadiu com a 
lngua. Quando finalmente encarou os seus olhos hipnotizados, arqueou uma sobrancelha escura e perguntou:
        - Gostas?
        Ela nunca teria acreditado que o seu umbigo era to sensvel, e estava a adorar. No conseguia encontrar a voz para lhe responder. Havia algo de incrivelmente 
ertico em v-lo beij-la ali. Como se lhe adivinhasse os pensamentos, Ryan parou para olhar novamente para ela. A boca assumiu aquele sorriso de esguelha que ela 
sempre achara to devastador, muito mais devastador quando a covinha do queixo dele quase lhe tocava no umbigo.
        Ele ajoelhou-se para acabar de despir a camisa. Era to bonito que quase lhe provocava um ataque cardaco. Ela j lhe vira o peito um par de vezes, e ele 
j afastara a camisa para lhe mostrar a cicatriz. Mas ver apenas partes dele no a tinha de forma alguma preparado para a viso de Ryan Kendrick, nu da cintura para 
cima.
        Ele era o eptome da beleza masculina, os braos, os ombros e o peito polidos pelo sol com um tom opulento de ocre, cada centmetro dele talhado por um trabalho 
rduo. At ento, Bethany no acreditara que houvesse algum homem to musculado como os seus irmos. Mas Ryan era. O seu mais ligeiro movimento dava origem a uma 
reaco em cadeia de contraces. Ela podia passar horas apenas a admirar a vista.
        Ele atirou a camisa para o cho, o seu sorriso crescendo quando poisou as mos no colcho de cada lado dela, deixando-os cara-a-cara. Com os olhos a brilhar, 
mirou-lhe os seios.
        - Se alguma vez tive alguma dvida, posso afirmar agora com absoluta certeza que prefiro seios pequenos - murmurou ele. - s to bonita, Bethany. Quase tenho 
medo de acreditar que ests aqui, comigo.
        - Oh, Ryan. Tambm me sinto assim, como se estivesse a ter um sonho maravilhoso.
        Ele deitou-se ao lado dela, suportando o seu peso com um brao. Poisou-lhe a palma da mo nas costelas e debruou-se para lhe morder os lbios. Enquanto 
lhe dava um beijo, a mo desceu, percorrendo-lhe as curvas e as depresses do corpo, as pontas dos dedos incendiando-lhe a pele.
        Ela estava novamente perdida, o som da respirao um troar abafado contra os seus tmpanos. Sentia um n na barriga tal era a sua nsia, a necessidade descendo-lhe 
numa espiral at ao baixo-ventre, onde parecia irradiar num calor que se espalhava por ela. Aumentando... aumentando at que algo dentro dela doa e estremecia com 
cada passagem daqueles dedos.
        - Ryan?
        - Estou aqui - assegurou-lhe ele roucamente.
        Com os olhos poisados na cara dela, continuou a acarici-la at que Bethany se esticou e tentou mover as ancas. Ento, a mo dele deslizou at  plvis, 
onde aplicou presso com a palma e deu incio a um movimento lento e circular que a deixou em chamas. Ela projectou as ancas o melhor que pde sem o auxlio das 
pernas, erguendo-se inconscientemente contra a presso daquela mo num ritmo to antigo como a Humanidade. A sua respirao tornou-se ainda mais acelerada. O bater 
do corao tornou-se um som ensurdecedor, fazendo com que os sussurros dele parecem chegar-lhe de uma grande distncia. No que ela precisasse de os ouvir. Ryan.
        Ele deslocou a mo da barriga para o vrtice das coxas.
        - Consegues sentir isto, querida?
        Bethany imaginou que ele estaria a explorar a orla exterior da sua entrada, que ela j sabia ser insensvel. O calor maravilhoso e estonteante do desejo 
esmoreceu, e o seu estmago contraiu-se de ansiedade. Inteiriou-se.
        - No consigo sentir nada a, Ryan.
        - Nada? - perguntou ele, a sua voz traindo uma desiluso to grande que a atingiu como se fosse uma lmina.
        - No, nada. - Sentiu-se como se de repente lhe tivessem largado um peso de chumbo no peito. - Mais acima. Sinto alguma coisa mais acima.
        Ele tocou-lhe no cltoris. Ainda que fosse muito suave, Bethany estremeceu, surpreendida com a hipersensibilidade daquele ponto. Ele esfregou ligeiramente 
a protuberncia com o polegar, e pareceu-lhe como se as suas terminaes nervosas estivessem a ser atacadas com lixa. Agarrou-lhe no pulso.
        - Oh, Ryan, no. Isso quase que... di.
        Ele aligeirou o toque e, vendo que ela no lhe largava o pulso, praguejou entre dentes;
        - Estas minhas mos so to speras. O problema  esse.
        As mos dele tinham sido fantsticas na sua pele. Firmes e speras com calos, sim, mas maravilhosamente quentes e fortes. Bethany no achava que fossem elas 
o problema. Parecia mais que as terminaes nervosas naquela rea tinham ficado danificadas. Estavam to sensveis que at o toque mais leve, mais cuidadoso era 
desconfortvel. Ela no gostava daquela sensao, mas cerrou os dentes, decidida a fazer com que aquilo resultasse. Segundos depois, odiava o seu corpo traioeiro, 
tendo vontade de gritar. Em vez de o fazer, convenceu-se a reagir normalmente ao toque dele.
        - Calma... - murmurou Ryan, e voltou a baixar a cabea para se ocupar de um mamilo enquanto as pontas dos dedos brincavam mais abaixo. - Descontrai-te, querida. 
Ests to tensa. Quando uma mulher est tensa, isto nunca resulta. Tens de esquecer tudo e concentrar-te apenas no que sentes e em mim.
        Mas, para Bethany, era impossvel descontrair. O momento h tanto esperado chegara, e era demasiado o que estava em causa. Parecia-lhe que tudo dependia 
da sua capacidade de apreciar aquele momento. Todo o seu futuro com aquele homem, que ela passara a amar tanto. Se ela o desiludisse agora - se no conseguisse sentir 
nada -, receava que ele mudasse de ideias a respeito do casamento. E quem o censuraria? Homem nenhum queria passar a sua vida com meia mulher.
        A passagem seguinte das pontas dos dedos arrancou-lhe os ombros do colcho. No sentiu dor, propriamente, mas quase.
        - Para, Ryan. Por favor. Isso no me sabe bem. Acho que os nervos devem estar danificados. - Sentiu a hesitao dele e apressou-se a acrescentar: - Talvez 
eu sinta alguma coisa mais no interior. Vamos, tu sabes, avanar e ver o que acontece.
        Ele voltou a beijar-lhe os seios. Bethany sabia que ele estava a tentar excit-la de novo, mas estava to transtornada que no conseguia, por muito que tentasse.
        Sentiu-o despir as calcas e ouviu as botas carem no cho. No instam-te seguinte, Ryan erguia-se acima dela, uma mancha escura de bronze e bano. Seguiu-se 
um som estranho, como se ele estivesse a rasgar um saco de folha de alumnio. Ento, sentiu as mos dele agarrarem-lhe nas ancas, e ela escorregou ligeiramente no 
colcho.
        - Vou tentar no te magoar, Bethany. Diz-me se sentires alguma dor e eu paro.
        Ela sentiu os pelos speros da perna dele roarem no interior da sua coxa, e ele tocou-lhe ao de leve e mais uma vez no cltoris, que agora estava to sensvel 
que ela arquejou.
        Preparou-se, consciente de que ele estava prestes a avanar. "Por favor, meu Deus, deixa que eu sinta quando ele entrar. Por favor, por favor, por favor..." 
Naquele momento, no conseguia pensar em nada que pudesse querer tanto. Sentir, simplesmente, sentir. Se Deus lhe concedesse apenas isso, prometeu a si mesma que 
nunca lhe pediria mais nada. Para ela, aquilo seria tudo.
        Teve uma sensao estranha - como uma presso a crescer l em baixo, dentro dela. Pestanejou e focou novamente o olhar no rosto moreno de Ryan. Aqueles belos 
olhos azul-aco completamente preenchidos por uma pergunta.
        - Querida, estou a magoar-te?
        Bethany soube ento. Era como receber um soco no meio do peito, um golpe terrvel que lhe esvaziou os pulmes e a deixou com vontade de chorar.
        Ele estava dentro dela - e ela apenas tinha uma estranha sensao de preenchimento.
        No sentia absolutamente nada.
        
     Captulo Quinze
        
        
        Ryan segurou Bethany nos seus braos at que ela adormeceu, e ento esgueirou-se para fora da cama para ir dar um passeio junto ao lago, o seu corao partindo-se 
um pouco a cada passo que dava. "Por favor, Deus." As palavras tornaram-se uma litania, as mesmas palavras, uma e outra vez. Ela era to doce, e, oh, o brilho que 
ela tinha. Como a luz do sol na Primavera, a sua Bethany. Ou como o brilho ferico do luar na gua, pensou ele ao olhar para o lago. O sorriso dela. A centelha nos 
olhos. Ela levara uma nova luz  sua vida, fazendo com que tudo parecesse dourado.
        - Por favor, Deus - murmurou ele quando chegou ao lugar onde costumava parar para pensar.
        Sentou-se por baixo dos ramos do pinheiro, sem encontrar qualquer conforto nas sombras que o abraavam. Quando olhou para os picos prateados das montanhas 
que se erguiam como espectros sobre a floresta que crescia na margem oposta, apenas conseguiu pensar em Bethany. Ela desejara aquele momento tanto quanto ele, reagindo 
to prontamente a cada beijo, a cada toque das suas mos. Mostrara-se um pouco tmida a princpio, mas depressa conseguira pr de parte aquele receio, entregando-se 
a ele to aberta e completamente, a sua confiana brilhando-lhe nos olhos. E, ento, ele deixara-a ficar mal.
        Poisou um cotovelo no joelho e fechou a mo sobre a cara. Ryan ia a igreja quase todos os domingos e considerava-se um homem decente e temente a Deus, ainda 
que no muito devoto e dado a oraes. Inmeras vezes cumprira o ritual - ajoelhar-se, juntar as mos, baixar a cabea. Mas agora apercebia-se de que em todas essas 
vezes nunca realmente estivera de joelhos.
        Mas estava agora. Amava tanto aquela rapariga. Teria feito qualquer coisa para a fazer feliz. Mas, no obstante, no era capaz de dar-lhe aquilo de que ela 
mais precisava: satisfao nos seus braos.
        Fazer amor com ela fora a experincia mais maravilhosa que alguma vez tivera, fazendo-o sentir-se completo de uma forma que nem conseguia exprimir. Recebera 
tanto, tanto, e, em troca, no lhe conseguira dar nada. Nada.
        Sentira a tenso no corpo dela depois - o gnero de tenso que dizia a um homem que no conseguira satisfazer uma mulher. "No consigo sentir nada. Acho 
que vou morrer." Ela tentara esconder a sua desiluso, abraando-o e enterrando a cara no seu ombro, dizendo que tinha sido maravilhoso. Mas ele percebera, e apetecera-lhe 
chorar.
        Agora estava sozinho. Se chorasse, seria um segredo s dele.
        As lgrimas pareciam cido nos seus olhos. Um soluo ganhou fora no peito at no o deixar respirar. Aquela expresso nos olhos dela - oh, Deus -, tinha 
dvidas de que alguma vez pudesse esquec-la. Choque, desiluso, e depois um desespero terrvel que ele no conseguira afastar.
        Os seus ombros estremeceram e, de repente, Ryan estava a soluar. "Por favor, Deus." Ali, na escurido, chorou como uma criana pela rapariga que deixara 
adormecida na sua cama, e rezou por um milagre, sabendo no fundo do seu corao que se Deus no conseguisse corrigir aquela situao, poderia perd-la.
        Na manha seguinte, Bethany dava um sermo a si mesma  frente do espelho da casa de banho. Tinha de estar agradecida, e por muito. Estava apaixonada pelo 
homem mais fantstico da Terra, e ele amava-a tambm. Era uma bno incrvel. E fazer amor com ele na noite anterior fora a experincia mais bela, mais indescritvel 
de toda a sua vida, perfeita e maravilhosa, at  parte final.
        Que mais queria ela? Os beijos e os toques tinham-lhe sabido bem. Era muito mais do que esperara alguma vez ter. Seria uma tola se permitisse que tudo aquilo 
fosse estragado pela sua incapacidade de sentir a ltima parte.
        "Nem pensar." Ia afivelar um grande sorriso e dar graas por Deus ter decidido dar-lhe tanto. Era o suficiente. Era mesmo. Se ela pudesse envelhecer nos 
braos de Ryan, considerar-se-ia a mulher mais afortunada do mundo, e no se permitiria querer mais nem sentir pena de si mesma porque no havia mais.
        Quando chegou  cozinha, ele estava  mesa, agarrado a uma caneca de caf. Ryan empurrou outra caneca na direco dela e sorriu, os seus olhos sem brilho 
enquanto a observavam lentamente.
        - Bom dia, lindeza.
        - Bom dia! - disse Bethany animadamente, o que era totalmente incaracterstico dela. Olhou para a janela. - E est um belo dia. A Primavera pode chegar tarde 
nesta regio, mas no h nada mais bonito depois de ela chegar.
        Ryan esfregou a testa.
        - Querida, no tens de fazer isto.
        Bethany sentiu a cara to hirta que at o sorriso lhe doeu.
        - Isto, o qu?
        Ele no tirou os olhos do caf.
        - Fingir que est tudo bem. Sei que ests transtornada, que a noite de ontem no resultou para ti, e tenho pena. Podemos tentar melhorar. - Encolheu os ombros 
e deitou-lhe um olhar triste de cachorro abandonado. - Desculpa se no consegui fazer com que resultasse.
        Ela sentiu-se como se dois punhos lhe estivessem a rasgar o corao ao meio, e uma sensao terrvel, assustadora, deixou-lhe o estmago num n. Ryan poderia 
aceitar uma situao aqum da perfeio para ele, mas no o suportaria se pensasse que ficava aqum da perfeio para ela.
        Bethany no costumava mentir, e no lhe agradava nada pensar em mentir-lhe. Mas, naquele caso em particular, pensou se ser completamente honesta no faria 
mais mal do que bem. Talvez lhe faltasse experincia prtica, mas no era ingnua. As pessoas sensveis, de um sexo ou do outro, precisavam de saber que os seus 
parceiros apreciavam realmente a intimidade entre ambos. Bethany nem conseguia imaginar como poderia estar a sentir-se naquele momento se a situao fosse inversa 
- se tivesse sido Ryan quem no encontrara satisfao nos braos dela na noite anterior.
        A dor no peito tornou-se mais forte, dificultando-lhe a respirao. No conseguia suportar a ideia de o perder. No agora. No depois de ter estado com ele. 
Antes, por mais doloroso que tivesse sido, ela poder-se-ia ter afastado, por ele. Mas agora sabia o muito que tinha estado a perder. Sim, no atingira o clmax. 
Mas o resto fora to maravilhoso - to absolutamente perfeito. Ela no podia regressar  existncia vazia que tinha antes - a vida sem Ryan. Simplesmente, no podia.
        Sem se permitir pensar no que estava certo ou errado, Bethany tomou uma deciso. Ia mentir. Antes de voltar a estar uma segunda vez com ele, ia rever o filme 
When Harry Met Sally e praticar um orgasmo simulado at conseguir faz-lo de forma to convincente que Ryan nunca conseguiria perceber que era fingido. Ele nunca 
voltaria a olhar daquela forma para ela, com o corao a doer-lhe nos olhos. Nunca. Ela seria a melhor amante que alguma vez tinha tido. A melhor. Na noite anterior, 
estivera to absorta no seu prprio prazer, to dominada por todas aquelas sensaes que nunca esperara sentir, que pouco ou nada pensara no que poderia fazer para 
lhe dar prazer.
        No. Ela no era uma especialista em sexo, mas o que no sabia podia descobrir, mesmo que isso implicasse procurar um terapeuta sexual e alguma literatura 
especfica. Ia ficar a saber o que excitava os homens, todos os pequenos truques que os deixavam loucos na cama. Sem limites. Tudo. Estava disposta a fazer o que 
fosse preciso para no o perder.
        - Ryan, como  que podes dizer que no foi bom para mim? Isso no  verdade. Foi fantstico para mim.
        Ele recostou-se na cadeira e olhou-a nos olhos.
        - Querida,  melhor no irmos por a. Est bem? A honestidade  o nosso trunfo. Falar sobre as coisas abertamente e trabalhar em conjunto para encontrar 
uma soluo  a nossa nica esperana. Havemos de encontrar uma maneira, prometo-te. Talvez demore algum tempo. - Piscou-lhe o olho e sorriu, um sorriso ao qual 
faltava o brilho habitual. - Sabes o que se diz: a prtica leva  perfeio.
        Bethany sentiu a blis subir-lhe  garganta. Enquanto ele se sentisse culpado porque ela no conseguia apreciar o fim, Ryan no conseguiria ter prazer. Desde 
o princpio, o seu maior receio fora a sua eventual incapacidade de lhe dar prazer. Agora, sabia que podia. Isso, s por si, era um milagre. O que ela tinha sentido 
simplesmente no interessava, no no quadro geral da situao.
        - Ryan, olha para mim. - Quando ele assim fez, ela disse: - Foi fantstico para mim, a experincia mais incrvel da minha vida. - Aquilo no era uma mentira. 
-  verdade que no senti nada a princpio. Mas depois senti. - Pensou depressa. - Quando entraste um pouco mais fundo, eu senti-te. E foi uma sensao incrvel.
        A esperana surgiu nos olhos dele.
        - Sentiste?
        - Oh, sim. - Ela agarrou-se  cintura, com a esperana de que ele no reparasse que as suas mos estavam a tremer. - Amo-te tanto, Ryan. Estar contigo daquela 
forma, foi to bonito. E estou to entusiasmada porque senti alguma coisa, ali, no fim. Tenho a certeza de que se tivssemos continuado mais alguns minutos, teria 
sido fabuloso.
        - Mais fundo - repetiu ele. - Sentiste quando eu fui mais fundo? Bethany, isso  fantstico. - Ele endireitou-se na cadeira e virou-se para a encarar. - 
Qual foi a sensao?
        Pois. Ela no fazia ideia do que uma mulher sentia quando um homem a penetrava. Pensou no que sentira quando ele lhe beijara os seios e procurou as palavras 
certas:
        - Uma sensao electrizante, um formigueiro. - Encostou a palma da mo ao estmago. - L no fundo, aqui.  difcil de descrever.
        Ele riu-se, e uma expresso de contentamento instalou-se nos seus olhos.
        - Por agora, chega. - Levantou-se da cadeira e ajoelhou-se ao lado dela. Depois de a abraar, enterrou a cara nos cabelos dela e apertou-a durante um momento. 
- Isso chega, querida - disse ele com uma voz rouca. - D para comear, e havemos de chegar l.
        Bethany agarrou-se a ele e jurou que haviam de "chegar l" muito mais depressa do que ele sonhava.
        - Amo-te, Ryan. Por favor, quero ver-te feliz. Eu estou. Estou muito feliz.
        
        Bethany poisou os braos na secretria, ignorando o zumbido e os estalidos do disco rgido do computador a seu lado. Que se lixasse o preenchimento das ordens 
de compra. Ela tinha coisas mais importantes a fazer, nomeadamente, aprender tudo o que pudesse para conseguir dar prazer a um homem na cama. No havia qualquer 
indicao de terapeutas nas pginas amarelas. Bethany percorreu os S com a ponta do dedo, com a esperana de encontrar SEXO em maisculas. Precisava de um especialista, 
algum a quem pudesse extrair informaes e que no trasse a sua confiana.
        - Bom dia, mana.
        Bethany fechou a lista telefnica e, levantando a cabea, viu Jake parado  porta do escritrio.
        - Jake! - Levou uma mo ao corao. - Pregaste-me um susto.
        Ele olhou-a lentamente.
        - Como  que vo as coisas entre ti e o Ryan?
        - Bem. Fantsticas. Ele, hmm... nos estamos muito bem. - Bethany estava com uma dor de cabea que parecia ir rachar-lhe o crnio ao meio, mas no vinha a 
propsito. - Eu, hmm... como  que tu ests?
        - Bem. - Jake apontou com a cabea para a lista telefnica. - Posso ajudar-te a procurar alguma coisa? Parecias muito concentrada quando te interrompi. O 
que  que se passa?
        - Nada. Eu estava s a... no se passa nada.
        Ele olhou-a nos olhos. Ento, em voz baixa, perguntou-lhe:
        - Ests feliz, Bethie? E s o que preciso de saber, que ele te faz feliz.
        No havia dvidas quanto  expresso nos olhos do irmo. Bethany dissera  famlia que ia jantar  casa de Ryan na noite anterior. Provavelmente, Jake tentara 
telefonar-lhe durante a noite para se certificar de que ela chegara bem. Ao ver que ela no atendia o telefone, deveria ter concludo que passara l a noite. Sabendo 
isso, no era preciso um gnio para somar dois e dois. Era um pouco embaraoso. Mas se ela queria casar com Ryan, teria de se habituar.
        - Sim, ele faz-me muito feliz - acabou ela por responder. - To feliz, Jake. Nunca pensei, bem, tu sabes, que eu pudesse ter uma vida com ele. Mas ele convenceu-me. 
Sabes que comprou a Wink de volta?
        Jake ergueu as sobrancelhas:
        - Ests a gozar! A srio?
        Bethany poder-se-ia ter deixado enganar pela expresso surpreendida do irmo, se Ryan no lhe tivesse dito que ele tivera um papel importante na localizao 
da gua.
        - Foi to bom v-la de novo, Jake. No fazes ideia. Passamos metade do sero na baia dela. Ate jantamos l e tudo.
        - Aposto que o Ryan adorou. - Jake riu-se. - A propsito, eu espero at que tu contes ao pai. Vai dar-lhe uma coisa.
        Bethany suspirou.
        - Sim, bem... talvez seja melhor esperar. Dar-lhe uma novidade de cada vez. O choque j vai ser grande quando eu lhe disser que me vou casar.
        - Hmm? - Jake parecia novamente surpreendido. - Isso  uma novidade.
        - Mentiroso. Eu sei que tens andado a falar com o Ryan. Ele disse-me ontem  noite que lhe deste o contacto dos empreiteiros que remodelaram a cozinha e 
que o ajudaste a encontrar o Hunsacker, para que ele lhe pudesse comprar a Wink.
        Jake riu-se.
        - Bem, vou l abaixo ver se imponho a ordem.
        - Sem me dares os parabns?
        - Parabns! Mas ficas a saber, se ele no te tratar bem, vais enviuvar cedo.
        Bethany ainda estava a abanar a cabea quando ele saiu. Esperou um momento e voltou a abrir a lista telefnica,  procura das pginas dos mdicos. Tinha 
de haver algum lugar onde ela pudesse falar sem rodeios com algum a respeito de sexo.
        - Viste os filtros do caf?
        Bethany saltou, fechou novamente a lista telefnica e viu Kate, uma das funcionrias da loja, parada  porta com uma cafeteira cheia de gua na mo. Depois 
de encontrar os filtros, Bethany agarrou numa caixa nova e virou-se para lha entregar.
        - Obrigada - disse Kate do outro lado da secretria.
        Uma mulher alta e esguia com feies agradveis e cabelo castanho avermelhado e sedoso que lhe cobria os ombros como um vu, Bethany sempre a achara um pouco 
parecida com Cher - numa verso muito pouco retocada. Os olhos castanhos fortemente maquilhados estavam raiados de sangue naquela manh, e ela exibia um sorriso 
que mais parecia gritar "ressaca". Segundo Jake, ela bebia muito e dormia com tudo o que tivesse calas, mas era uma boa funcionria que aparecia sempre a horas 
para o seu turno e tambm nos seus dias se folga quando os outros funcionrios estavam doentes. Bethany no costumava trabalhar na loja, o que lhe tornava difcil 
cultivar amizades com o pessoal do piso inferior, mas sempre gostara de Kate, pressentindo que ela era uma pessoa calorosa e genuna, no obstante as arestas por 
polir.
        - Exagerei ontem  noite - disse Kate com uma voz rouca de usque e tabaco. - Preciso de um valente choque de cafena para espevitar esta carcaa.
        - Conheo a sensao - disse Bethany. - S que no preciso de exagerar muito para ficar assim. Acordo com a bateria gasta, seja como for.
        Kate olhou para o cinzeiro que Bethany tinha na secretria para que algum transgressor da regra do "no fumar" pudesse apagar o cigarro. Olhou por cima do 
ombro para a porta aberta.
        - Ficavas muito incomodada se eu fechasse a porta e desse umas passas? O Jake tem um nariz pior do que o de um perdigueiro - disse ela num tom conspirativo.
        - Acho que podemos ser parceiras no crime num cigarro.
        Kate poisou a cafeteira na secretria, deitou um olhar agradecido a Bethany e fechou a porta. Sorrindo enquanto tirava um mao de Marlboro do bolso da camisa, 
disse:
        - Tu s porreira. Obrigada. Acordei tarde, percebes? No bebi caf, no fumei um cigarro. Sinto-me como se um camio me tivesse passado por cima.
        E tambm era esse o seu aspecto. Bethany reprimiu um sorriso, observando enquanto a outra mulher extraa um isqueiro do bolso das calas de ganga ultrajustas. 
Com um estalar do dedo, inalou com prazer e depois deitou o fumo pelo nariz.
        - Estava mesmo a precisar.
        Bethany gostava do cheiro dos cigarros quando estavam a ser fumados. Era o fedor que ficava depois que lhe dava a volta ao estmago.
        - Tentei fumar uma vez. Kate levantou as sobrancelhas.
        - Nunca me passou pela cabea.
        Bethany recostou-se na cadeira, prestes a lanar-se numa descrio hilria do seu breve desvario na universidade com um pequeno grupo de amigas paraplgicas. 
Uma vez que todas tinham feito os seus estudos com bolsas especiais para deficientes, o dinheiro no abundava, sendo bastante o que tinham em comum para alm das 
suas limitaes fsicas.
        Mas antes que ela pudesse falar, ocorreu-lhe, como se tivesse levado um soco no meio da testa, que Kate era a pessoa perfeita que ela estava a tentar encontrar 
- uma especialista em sexo. E ali estava ela, mesmo debaixo do seu nariz.
        - Kate? - Bethany pensava rapidamente. - Tens que fazer hoje depois do trabalho?
        - Porqu? Precisas de mais horas? Tenho de te dizer, estou com uma cabra de uma dor de cabea. Amanh seria melhor para mim.
        - No, no, nada do gnero. S pensei, sabes, que talvez pudssemos tomar um caf juntas depois do trabalho e conversar um bocado.
        Kate franziu o sobrolho.
        - Fiz asneira? No me vais despedir, pois no?
        Bethany no conseguiu pensar numa explicao razovel para a sbita amabilidade e decidiu que a pura verdade seria o melhor:
        - No, nada disso. No estou c h muito tempo e ainda no fiz amigos. Trancada o tempo quase todo c em cima, nem sequer consigo conhecer as pessoas que 
trabalham aqui. E agora tenho um problema que tem de ser resolvido e no  o gnero de coisa que eu queira discutir com um dos meus irmos. Sabia-me muito bem se 
pudesse falar com outra mulher, e pensei que tu talvez tivesses alguns minutos.
        Kate olhou desconfortavelmente para a porta.
        - O Jake sabe?
        - No. Eu tenho vinte e seis anos. No preciso da autorizao do meu irmo para tomar um caf com uma amiga.
        Kate ergueu as sobrancelhas.
        - Pensava que fosses mais nova. - Encolheu os ombros. - Est bem. Pode ser. s tu que ofereces?
        Bethany riu-se.
        - At lhe junto uma fatia de tarte.
        - Estamos combinadas. O meu estmago j deve aguentar uma tarte nessa altura.
        Assim que acabou de trabalhar, Bethany foi esperar para a sua carrinha. Quando Kate finalmente saiu da loja, buzinou para lhe chamar a ateno. Kate acenou-lhe 
e comeou a correr. J dentro da carrinha, abriu a janela, acendeu um cigarro e disse:
        - O mximo. Nunca tinha visto uma destas por dentro. Ests toda artilhada.
        Bethany pensou em dizer que ningum podia fumar dentro da sua carrinha, mas decidiu que era uma troca justa pela informao que pretendia.
        - Aonde  que queres ir? H um Denny's a alguns quarteires daqui.
        Kate suspirou.
        - No ser possvel fazer uma troca, no? Uma cerveja em vez do caf e da tarte.
        - Uma cerveja?
        - Sim. Conheo um stio sossegado aonde podamos ir.
        Bethany teria preferido um restaurante. Uma vez que tinha de ajustar a sua dose diria de anticoagulante se bebesse muito alcool, raramente bebia. Kate tambm 
gostava de se divertir, e a sua noo de um stio sossegado poderia ser bastante diferente da da maioria das pessoas. Bethany hesitou.
        - Anda l - insistiu Kate. - Vive um pouco.
        Dez minutos depois, Bethany estava a entrar num lugar de aspecto manhoso chamado Suds. Uma sala nica ostentava um balco ao longo de uma das paredes, escura 
e apainelada, e mesas junto  outra, com duas mesas de bilhar no centro. Kate indicou uma das mesas a Bethany e foi at ao bar como se fosse a dona do stio.
        - Duas Buds, Mike! Sem espuma.
        -  p'ra j! - respondeu o empregado.
        Bethany afastou uma cadeira e aproximou-se da mesa. Depois de tirar a carteira, poisou a mala no cho junto aos ps. A mesa ao lado era ocupada por dois 
homens com camisas de trabalho de flanela e calcas de ganga, a serradura na roupa identificando-os como trabalhadores da serrao. Bethany prestou-lhes pouca ateno 
enquanto via Kate avanar direita a ela com duas canecas cheias nas mos.
        - Devia ser eu a pagar - disse Bethany quando Kate lhe poisou uma delas  frente.
        - Eu deixo-te pagar a prxima rodada - garantiu-lhe ela enquanto se sentava.
        A prxima rodada? Ui. Bethany bebeu um pouco e sorriu.
        - Hmm! Sabe mesmo bem. No me tinha apercebido da sede com que estava.
        Kate bebeu um grande trago. Estava com o beio superior completamente coberto de espuma quando poisou a caneca.
        - Meu Deus, passei o dia todo em nsias por um pouco do plo do co que me mordeu. s uma porreira, Bethany. Eu sei que a tua cena no  esta.
        - No sei. Isto at  simptico. Estava  espera de um lugar um pouco mais animado. Pareces-me o gnero de pessoa que gosta de grandes grupos de gente, em 
que a proporo entre homens e mulheres facilite as coisas a uma mulher bonita.
        - Bem, tu j me topaste, no? - Kate esfregou a tmpora e suspirou. - Hoje no estou no meu melhor. Se apareceres amanh, vais ver o que  animao. - Depois 
de beber mais um pouco de cerveja, debruou-se e acendeu um cigarro. - Ento, que problema  esse que tem de ser resolvido?
        Bethany bebeu um grande gole para ganhar coragem:
        - Sexo.
        Kate encolheu os ombros, deitou fora o fumo e disse:
        - Pois. E ento?
        Bethany bebeu mais um pouco.
        - No te rias. Estou mesmo a precisar de conselhos. Eu, hmm, como  que hei-de dizer?, sou uma novia, acho que me podes chamar isso. - Deu uma palmada no 
brao da cadeira de rodas. - Estas rodas tm o condo de limitar a vida amorosa de uma mulher, e eu acabei de comear a minha primeira relao.
        Kate estreitou ligeiramente os olhos, deitou fora o fumo azulado, formando uma nuvem diante do seu rosto bonito e alongado.
        - Meu Deus, querida. Nunca ouvi uma coisa to triste. Vinte e seis anos sem sexo? Grande gaita.
        - Sim, pois. Eu apenas conto os anos a partir da puberdade. Assim, no parece to pattico.
        - Mesmo assim, ainda  uma grande seca. Bethany bebeu mais um gole e sorriu.
        - Sobrevivi. s vezes, senti-me um pouco sozinha. - Torceu o nariz. - Oh, que se lixe. Tens toda a razo. Foi uma seca.
        Kate riu-se.
        - Ento, sem sexo, o que  que resta?
        - Isso mesmo - concordou Bethany. - O que me traz ao meu problema. Gostei de quase tudo, bastante, mas perto do fim... - calou-se e abanou a mo. - Para 
algumas paraplgicas, o final no  o que devia ser, e parece que eu sou uma delas.
        Kate observou-a com uma expresso sria.
        - No te consegues vir?
        Bethany olhou em redor para se certificar de que mais ningum podia ouvir. Em seguida, olhou demoradamente para a sua cerveja. Depois, bebeu trs grandes 
goles, enxugou a boca e respondeu:
        - No, no consigo. E eu quero, muito, ficar com o meu namorado. Amo-o muito e tudo o resto foi muito bom.
        - S que sem um estoiro no fim. - Kate recostou-se na cadeira, puxou o fumo do cigarro e disse: - Merda. - Olhou para Bethany durante um momento. - Bem, 
h coisas piores. Muitas mulheres no se vm. Passam a vida toda a fingir os orgasmos e parece que l se vo safando.
        Bethany sorriu.
        - Aceitamos o que a vida nos d, acho eu, e aprendemos a ser felizes com o que temos. Seja como for,  assim que eu vejo as coisas, e, no geral, acho que 
tenho muita sorte. - Encolheu os ombros. - S quero que as coisas continuem assim. Ele  a melhor coisa que me aconteceu e no o quero perder.
        - No te posso censurar por isso.
        - Durante a minha hora de almoo, passei pelo clube de vdeo e aluguei o When Harry Met Sally para me desenferrujar no... , bem, no  preciso dizer. Mas 
os filmes e os livros ficam um pouco aqum quando se trata de explicaes pormenorizadas sobre como uma mulher pode dar prazer a um homem. Eu quero, muito, ser boa 
na cama. O melhor que puder, isto e, considerando as minhas limitaes fsicas, e pensei que talvez conhecesses alguns truques que pudesses partilhar comigo. Do 
gnero, o que vestir, por exemplo. Ou talvez dicas especiais sobre coisas que eu possa fazer, de que ele goste mesmo. Preciso de um curso de emergncia. Kate apertou 
os lbios.
        - Bem, querida, no pedes muito.  um pouco difcil partilhar vinte anos de experincia enquanto se bebe umas cervejas.
        - Eu sei que estou a pedir muito. Mas estou desesperada. Conheo o bsico, mas tenho de dar um salto de principiante para iniciada, e depressa. Quero que 
seja o mais maravilhoso e perfeito para ele. Entendes? Com montes de acessrios para compensar as minhas limitaes, por assim dizer.
        Kate suspirou.
        - Podes usar um cinto de ligas e meias? A maioria dos homens gosta muito disso. Recebe-lo  porta s com um soutien preto de renda. Se ele tem sangue nas 
veias, os olhos at lhe saltam da cara. Se eu entrasse aqui assim vestida numa noite de sbado, tinha-os em fila no parque de estacionamento.
        Bethany riu-se.
        - S isso? - Tinha pensado em vestir um peignoir de renda, mas meias e um cinto de ligas nunca lhe tinham passado pela cabea. Aquilo era exactamente o que 
ela precisava, sugestes de uma mulher conhecedora. - Ia sentir-me um pouco parva.
        - No durante muito tempo. - Kate piscou-lhe o olho. - Experimenta, querida. Resulta sempre. Os homens so estranhos. Se isso no resultar, prepara-lhe o 
jantar s com um avental vestido. Mas no te esqueas de apagar os bicos todos quando ele decidir que no consegue esperar pela sobremesa.
        - S um avental.
        - Os saltos altos so um bom apontamento. No fao ideia porque  que os homens gostam deles. Uma vez, espetei um acidentalmente no traseiro de um tipo, 
acredites ou no. Ele no abrandou.
        Bethany riu-se tanto ao imaginar a cena que teve de enxugar as lgrimas.
        - Oh, Kate, s incrvel. Infelizmente, no posso usar saltos altos.
        - Claro que podes. No tens de te passear com eles para lhe aquecer o motor. Basta que ele os veja nos teus ps.
        Bethany debruou-se sobre a mesa.
        - Outra pergunta. Viste o When Harry Met Sally, certo? Na tua opinio, aquilo  um retrato bastante aproximado do aspecto de uma mulher quando est a ter 
um orgasmo?
        Kate revirou os olhos.
        - Ests mesmo s escuras. Ele no vai classificar o teu desempenho, querida. Lio numero um a respeito dos homens. Todos querem acreditar que so a ddiva 
de Deus para as mulheres. Finge o melhor que puderes e depois diz-lhe que ele  fantstico. Ele fica nas nuvens durante uma semana.
        Bethany riu-se de novo. No sabia se era da cerveja ou se Kate era mesmo engraada.
        Kate acabou a sua caneca e foi buscar outra rodada. Quando voltou, Bethany tirou uma nota de dez da carteira e poisou-a no tampo da mesa.
        - A prxima  minha.
        - Obrigada. - Kate prendeu a nota com a ponta de um dedo e descreveu um crculo com ela no tampo da mesa. - Eu sei que esta pergunta  muito pessoal, mas 
vou faz-la. Tu s completamente, sabes, insensvel a em baixo?
        Bethany sentiu o calor a subir-lhe pelo pescoo e olhou novamente por cima do ombro. Os dois homens da serrao pareciam estar absortos na sua conversa e 
o empregado do bar estava ocupado a limpar as torneiras.
        - Completamente, no - respondeu ela em voz baixa. - Sinto alguma coisa aqui e ali.  s que... bem, as leses da coluna so engraadas. Se as terminaes 
nervosas so afectadas, como aconteceu com algumas das minhas, sentir alguma coisa num certo lugar no quer dizer necessariamente que essa parte do corpo funciona 
normalmente. Por exemplo, tenho sensibilidade nas ndegas, mas nem todos os msculos funcionam.
        - Hmm. - Kate franziu o sobrolho. - Quantas vezes tentaste chegar  sorte grande?
        Bethany recordou-se daquele momento terrvel em que Ryan a olhara nos olhos e perguntara se a estava a magoar. Para seu desagrado, sentiu o queixo tremer. 
Bebeu vrios goles de cerveja.
        - Uma vez.
        - S uma! - Kate revirou os olhos. - Bethany, muitas mulheres no se vm nas primeiras vezes.
        - A srio?
        - Claro que no. Eu no, por exemplo. Estava demasiado tensa, preocupada com isto e aquilo e com vergonha. A tenso e o orgasmo no combinam. Sabes aqueles 
romances em que os dois se pegam a discutir e o tipo atira a mulher para a cama quando ela ainda est danada? - Kate abanou a cabea. - Ele beija-a e ela rende-se. 
Tretas. Pelo menos, no resulta comigo. Um tipo tenta quando eu estou fula e acaba a desejar no o ter feito. O sexo no costuma ser assim com as mulheres.
        - Eu no me senti muito tensa at ao fim, quando comecei a pensar no que poderia sentir. Ou, mais precisamente, se seria capaz de sentir fosse o que fosse. 
Acho que a tenso no foi o problema. - Bebeu mais um gole. - Depois... - passou uma mo trmula pelos olhos. 
        Vi que ele percebeu que eu no tinha chegado l, e ele ficou transtornado. Tenho tanto medo de o perder, Kate. Que no queira voltar a estar comigo se aquilo 
no for bom para mim no fim.
        Kate assentiu.
        - Pois, faz sentido. Como te disse, os homens tm um grande ego. A maioria no  capaz de lidar com uma mulher que no chega  meta. No numa base regular, 
e  isso que tu queres. Certo? Ficar com ele.
        - Certo. Oh, Kate, fico-te to agradecida por conversares comigo. s to real. A maioria das pessoas olha para a minha cadeira de rodas e fica bloqueada. 
Sexo? Essa palavra nem lhes ocorre. Partem imediatamente do princpio de que sou uma cabea.
        - Uma qu?
        - Uma cabea. - Bethany agitou os dedos de cada lado das orelhas. - Eu falo, sorrio, dou umas gargalhadas. Qualquer coisa abaixo das clavculas  uma falta 
de gosto enquanto tema de conversa.
        Kate sorriu.
        - Talvez porque nunca as convidaste para tomar um caf e falar sobre sexo. Que raio, querida, o sexo  o tema preferido da maioria.
        Bethany levantou a caneca.
        - Isso mesmo. Adoro-te. Kate uniu as sobrancelhas.
        - Bebes muito?
        - No. - Bethany levou novamente a caneca  boca.
        - Bem. Ento, com quem  que falas?
        - Desde que me mudei para c, ningum. As vezes com o Jake, mas nunca sobre nada como isto. Ele tinha um ataque.
        Kate piscou-lhe o olho.
        - Tenho a sensao de que ele apanha umas valentes quando est para a virado, mas no contigo por perto.
        - Exactamente. Vivo dentro de uma redoma. - Bethany suspirou pesarosamente. - J devia ter-te convidado para um caf h muito tempo. Portanto, eu tenho este 
homem. Meu Deus. Ele mais parece um sonho, vestido de cambraia e ganga. S de olhar para ele quase que vou ao cu. Quase.  a histria da minha vida, Kate, uma longa 
histria de "quases".
        Kate riu-se.
        - Como  que ele se chama?
        - Ryan Kendrick. Kate arregalou os olhos.
        - Valha-me Deus. Repete l. Foste para a cama com o Ryan Kendrick?
        Bethany assentiu em silncio. Aparentemente, at Kate achava inacreditvel que algum como Ryan estivesse interessado nela.
        Kate sorriu e depois soltou uma gargalhada.
        - Incrvel. Tu no brincas. O Ryan Kendrick? O bonito que tem todas as mulheres a cair de costas por ele? Esse Ryan Kendrick? O naco de morrer que ningum 
consegue apanhar?
        - Nunca pensei ter a sorte de um homem como ele se apaixonar por mim. Ele  maravilhoso. Se no se sentir feliz comigo, acho que morro.
        Kate poisou uma mo sobre os olhos, assentou um cotovelo na mesa e riu-se tanto que a cerveja transbordou.
        - No admira que estejas to apanhadinha. Ele ... bem, dinamite.
        - Pois. - Bethany engoliu em seco fixando Kate com um olhar implorante e disse: - S que sem o grande estoiro no fim.
        Kate inclinou-se para trs na cadeira e abanou a cabea.
        - Bem, temos de lhe por uma trela na coleira, sem dvida. No  qualquer uma que consegue deitar-lhe a mo. - O sorriso dela tornou-se mais brando. - Tens 
estrelas nos olhos, querida.
        Bethany visualizou a cara de Ryan e assentiu.
        - Eu amo-o tanto. No me interessa se ele  assim to fantstico na cama no fim. Percebes? A primeira parte foi to boa. Tipo, uau.
        - Sei o que isso . - Kate ficou pensativa e deu mais uma volta  nota de dez. - Bethany, mais uma pergunta pessoal. Eu sei que ele tem reputao de ter 
dado as suas voltas, mas isso nem sempre quer dizer alguma coisa. Tens a certeza de que ele sabe o que est a fazer?
        - Oh, sim. - Bethany bebeu mais cerveja. - Cem vezes em que percebeu que estava num beco sem sada. Cem vezes. Consegues imaginar?
        - O Ryan Kendrick? Perfeitamente. Consigo imaginar. Coitado. Ele  como um daqueles alvos numa carreira de tiro. Todos querem experimentar. O coitado j 
deve ter tido uma srie de surpresas desagradveis quando as relaes j iam a meio e as mulheres finalmente deixaram ver o seu verdadeiro eu.
        - Provavelmente. O que no me serve de consolo. Quase desmaiei quando ele me disse que tinha sado com tantas mulheres. S podiam ser todas melhores do que 
eu. S a ideia deixa-me apavorada. A comparao. Percebes o que estou a dizer?
        Kate sorriu.
        - No s nada de se deitar fora. No h nenhum homem na loja que no tenha olhado para ti e esfregado a braguilha um par de vezes.
        - Desculpa?
        - Nada. Esquece. Como se o Kendrick no soubesse o que est a fazer. Nem acredito que fiz esta pergunta. - Apagou o cigarro e acendeu outro logo a seguir. 
- s uma boa mida. Engraada. Imaginei que fosses uma emproada.
        - A srio?
        - O Jake comporta-se como se tu cagasses ovos de ouro. Nunca vi um homem to protector com a irm. Deve saber bem.
        - Saber bem? - Bethany gemeu e acabou a sua cerveja. Olhou para a caneca vazia, ligeiramente surpreendida com a rapidez com que a esvaziara. - Sabes... acho 
que acabei de descobrir o meu veneno.
        - Valha-me Deus. No posso conduzir aquela tua coisa. Temos de chamar um txi.
        Bethany riu-se.
        - O que  que ests para a a dizer?
        - Que ests a ficar bbeda. - Kate levantou-se, agarrou na nota de dez e disse: - Que se lixe. Porque no? S se vive uma vez.
        Quando voltou com as cervejas, disse:
        - Muito bem, estamos as duas descontradas. Vamos passar aos pormenores indecentes.
        Bethany bebeu um grande gole de cerveja e sorriu ao ver que ficara com o beio superior coberto de espuma, exactamente como Kate.
        - Fora. Sou toda ouvidos.
        - Antes de falarmos mais sobre o que os homens gostam, vamos falar alguns minutos sobre ti. Tenho uma pergunta. Ele tentou das duas maneiras?
        - Duas maneiras? No estou a perceber. Kate aproximou-se.
        - Tu sabes. Algumas mulheres no se conseguem vir da maneira convencional. Ele tentou a tua linha de emergncia?
        Bethany imaginou um telefone vermelho e enorme e comeou a rir.
        - No. A minha deve ter sido desligada. Kate suspirou.
        - O teu "boto do amor", querida. Ele tentou?
        - Nunca ouvi chamarem-lhe isso. - Bethany suspirou e abanou a cabea. - Respondendo  tua pergunta, sim, ele tentou. Para ser franca, achei aquilo muito, 
bem, no propriamente doloroso, mas desconfortvel, como se tivesse todos os meus nervos expostos.  difcil de descrever. O mesmo gnero de sensao quando mordes 
um bocado de papel de prata. Deu-me vontade de cerrar os dentes e estremecer.
        - Isso pode acontecer se no estiveres para a virada. - Kate ficou com um brilho conhecedor nos olhos. - O importante  que tens sensibilidade nesse stio.
        - Isso no quer dizer que funcione bem. Acredita, no funcionou.
        - Pode acontecer que ele no tivesse o toque mgico. J pensaste nisso?
        Bethany recordou-se da magia do toque de Ryan em todos os outros pontos do seu corpo e abanou a cabea.
        - No.  mais um caso de nervos danificados, acho eu. A culpa no  dele, e...
        Antes que Bethany pudesse terminar o que queria dizer, o homem atrs dela virou-se na cadeira e disse:
        - Se ele no se sabe orientar com um boto do amor, querida, troca-o por um modelo melhor.
        - Desampara a loja, Dave - disse Kate. - Quem  que te convidou para esta conversa?
        O homem passou o brao por cima do espaldar da cadeira e torceu-se ainda mais para mirar Bethany de alto a baixo.
        - Ora, ora, se ela no  uma menina to bonita.
        - Desaparece - insistiu Kate.
        O homem ignorou-a. Empurrou a cadeira para trs e aproximou a cara da de Bethany.
        - Ol, querida. No pude deixar de ouvir a vossa conversa. Tenho o corao desfeito. Parece que tens um grande problema. - Bethany pestanejou e afastou a 
cara. - Do que tu precisas  de um homem que te saiba olear as engrenagens. Eu estou pronto.
        Kate levantou-se da cadeira.
        - Ouve l, sacana, procura no teu dicionrio. Eu disse "Desaparece". Deixa a senhora em paz.
        - Custa-me a crer que consigas reconhecer uma, Kate.
        - E se fosses apanhar...? - Kate poisou as mos na mesa e olhou para ele, furiosa. - Deixa-a em paz. Ela est comigo.
        Ele olhou-a demoradamente.
        - No a podes ajudar. Esta menina precisa de um homem a srio para lhe pr o motor a trabalhar. - O seu olhar desfocado voltou a Bethany. - Que tal, querida? 
Eu fao-te o jeito e depois voltas para o teu amorzinho.
        Bethany recuou ainda mais. Apenas lhe ocorreu dizer:
        - Tenho de ir  casa de banho.
        Aquilo pareceu acalm-lo. Bethany puxou a cadeira para trs e agarrou na mala. Olhou para Kate enquanto guardava a carteira.
        - D-me licena? - O homem bloqueou-lhe a passagem. - Por favor. Tenho mesmo de ir.
        Ele suspirou e disse:
        - Eu fico  espera. D-me uma hora. Problema resolvido.
        O corao de Bethany batia violentamente. O efeito da cerveja tinha desaparecido por completo. Aquele homem no ia aceitar um no como resposta. Ela virou 
 direita, seguindo os sinais. Deu por si num corredor comprido e escuro, revestido com paireis empenados. A casa de banho das senhoras era a ltima porta  esquerda.
        Estava prestes a agarrar no puxador quando uma mo grande se fechou no seu ombro.
        - O meu nome  Dave, j agora - disse ele com uma voz pegajosa. Depois, inclinou-se, agarrou nos braos da cadeira e virou-a de frente para ele. - Ningum 
nos incomoda aqui atrs. Deixa-me l dar uma volta nesse botozinho.
        Bethany olhou para ele. Tinha os olhos baos. A respirao era estranha. O cheiro do suor dele invadiu-lhe as narinas, deixando-a com a sensao de estar 
a respirar azeite.
        - Largue-me.
        - No te estou a tocar - disse ele. - S na tua cadeira. Portanto, manda-me prender. Tu queres descarregar. Eu quero descarregar. Porque  que no fazemos 
msica juntos?
        Antes que Bethany percebesse o que pretendia fazer, ele colou a boca fedorenta  dela e introduziu uma mo na frente da blusa. Ela empurrou-o freneticamente 
pelos ombros, apanhando-o to desprevenido que o fez perder o equilbrio e cambalear para trs, rasgando-lhe o ombro da blusa.
        - Por mim, tudo bem - disse ele com uma gargalhada. - Queres  bruta? Eu aceito.
        Um som estridente de vidro a partir-se surpreendeu-os aos dois. Dave virou-se para trs, to espantado quanto Bethany. L estava Kate, segurando uma garrafa 
de cerveja partida na mo direita.
        - Tira as patas dessa mida, seu filho da puta, ou eu deixo-te a cantar em falsete.
        Bethany tentou fugir para a casa de banho, mas a cadeira era demasiado larga para a porta. Agora, a ateno do homem encontrava-se totalmente concentrada 
na garrafa partida, dando-lhe tempo para se libertar, recuar e tentar de novo. Na segunda investida, foi contra as ombreiras com mais velocidade, e a forca do impulso 
fez com que a cadeira passasse. Bethany fechou a porta e encostou-lhe a cadeira para dificultar a entrada a mais algum. Estava a tremer tanto que mal conseguiu 
tirar o telemvel da mala. Imaginou Kate a matar Dave, com sangue espalhado pelos painis empenados do corredor. "Meu Deus. Meu Deus." Ainda a tremer, marcou o nmero 
da loja.
        Jake abriu um grosso manual de peas.
        - No sei aonde ela foi. Se no est em casa, no fao ideia. J tentaste os meus pais?
        Ryan poisou os braos no balco.
        - Eu s... sei l, no percebo. Achei que ela havia de querer passar o sero comigo. H quanto tempo  que ela saiu?
        Jake passou um dedo pelas letras pequenas, murmurando nmeros entre dentes. Assim que encontrou o que procurava, levantou a cabea.
        - H cerca de uma hora, talvez hora e meia. J foste  casa dela?
        - Telefonei para l. - Ryan suspirou, incapaz de se desembaraar da sensao de que algo estava mal. - No a imagino a ir algum lado sozinha.
        Jake riu-se.
        - Talvez no tenhas sido to bom como pensavas.
        - Cala-te. - Ryan coou a cara ao lado do nariz. A piada tinha ficado demasiado perto da verdade.
        Foi ento que o telefone tocou. Sem desviar os olhos do catlogo de pecas, Jake estendeu um brao para atender:
        - The Works. Fala Jake Coulter. Em que posso ajudar? - Tirou a outra mo do catlogo. - O qu? Onde  que ests?
        Ryan ouviu uma voz tnue do outro lado da linha. Aguda, histrica. Seria capaz de a reconhecer em qualquer lugar. Endireitou-se imediatamente, o corao 
a bater com fora.
        - O que  que aconteceu? Jake levantou uma mo.
        - Tu o qu? - Escutou durante um segundo. - No saias da. Percebeste, Bethany? Acontea o que acontecer. Mete-te numa das cabinas e tranca a porta se for 
precise Eu j vou a ter.
        Jake bateu com o auscultador e contornou o balco a correr.
        - A Bethany est num bar. Um estupor encurralou-a na casa de banho e a Kate est prestes a arrancar-lhe as tripas com uma garrafa de cerveja partida.
        Ryan chegou  porta do bar chamado Suds dois passos  frente de Jake. Ao entrar na sala mal iluminada, olhou em redor  procura de Bethany. O empregado do 
bar, um tipo barrigudo de cabelo loiro e avental branco, apontou para as traseiras com o polegar.
        - Ali atrs. J chamei a Polcia. Ryan e Jake correram na direco da tabuleta das casas de banho.
        Parecia uma corrida para ver quem era o mais rpido, a nica certeza sendo que no cabiam lado a lado quando chegaram ao corredor. Ryan ganhou vantagem com 
uma cotovelada na barriga de Jake. Se um estupor tinha encurralado Bethany, ele queria ter a honra de o matar.
        Quando Ryan chegou ao fundo do corredor, deparou-se com uma cena pior do que imaginara. Uma mulher que parecia j ter dado muitas voltas  pista mantinha 
um homem encostado a uma parede graas a uma garrafa partida devidamente aplicada contra as partes baixas. Parecia preparada para o castrar.
        Ryan estava a borrifar-se para a hiptese de o sujeito sair daquela embrulhada intacto. Tentou abrir a porta da casa de banho das senhoras, mas o raio da 
coisa recusava-se a obedecer. Jake chegou praticamente no mesmo instante. Ofegante, encostou as mos  porta.
        - Bethany, querida? Abre a porta.  o Jake e o Ryan. Ests bem?
        - Ryan?- gritou ela do outro lado da porta. - Porque  que o trouxeste?
        Ryan recuou. Bela maneira de ser recebido. Estava ali para a salvar. Ela era sua. No de Jake. E nunca daquele estupor, que estava prestes a perder a sua 
razo para estar vivo. Qualquer homem digno desse nome tomava conta da sua mulher.
        Ryan bateu com os ns dos dedos na madeira.
        - Bethany? Abre o raio da porta.
        - Aquele homem horroroso j se foi embora? - perguntou ela esganiadamente. - Ele rasgou-me a blusa.
        Ryan olhou por cima do ombro. O seu olhar encontrou um par de olhos castanhos, turvos de abutre, e deu por si a pensar por que motivo  que estava ocupado 
com a porta. Deu meia-volta, avanou e disse  mulher:
        - Eu encarrego-me dele.
        Kate recuou e Ryan tomou-lhe o lugar.
        Podia ser que no tivesse posto as mos naquele homem. Afinal, a sua me tinha-o educado civilizadamente. Mas o estupor mirou-o de alto a baixo, sorriu descaradamente 
e disse:
        - s o mariquinhas que no consegue dar conta da donzela? Depois, Ryan no seria capaz de se recordar exactamente do que acontecera. As testemunhas declaravam 
que tinha agarrado no estupor pela camisa, levantara-o do cho e batera-lhe repetidamente com a cabea contra a parede.
        A sua recordao seguinte, e ntida, era de estar algemado. No sabia muito bem porqu. Tinha os ns dos dedos a arder, e havia um outro homem agarrado  
cara, mas Ryan no se lembrava de lhe ter batido.
        Tinha sido uma grande confuso. Os polcias tiraram Bethany da casa de banho e, sempre que ela olhava para ele, gemia:
        - Meu Deus! Meu Deus! Eu s queria conversar. No queria que isto acontecesse.
        Kate abraou-a.
        - Tem calma, querida. Tens vinte e seis anos. Se queres beber uma cerveja de vez em quando, porque no?
        Ryan decidiu que no gostava de Kate. Ela era uma m influncia. E ele sabia muito bem o que era uma m influncia. Durante a sua vida, metera-se em muitas 
situaes complicadas e completamente imprevisveis com o seu irmo Rafe. Comeavam sempre com "Sabes o que eu acho?" e a partir da s pioravam. Pois. Ryan sabia 
como era fcil dar por si numa grande embrulhada, apenas por causa das companhias. No que o seu irmo fosse uma m companhia. Rafe era apenas um daqueles homens 
cujo nariz sempre os levava direitos aos sarilhos, e, sendo o irmao mais novo, Ryan estava sempre atrs dele.
        Ryan estava a pensar nisso, ainda que sem grande clareza, quando Jake, que no estava em maus lenis com a Polcia, se aproximou do balco. Deitou um olhar 
demorado, de olhos semicerrados, ao empregado do bar, e Ryan percebeu imediatamente que a situao ia descambar.
        Num tom baixo e aparentemente amistoso, Jake perguntou:
        - Foi voc quem chamou a Polcia quando percebeu que a rapariga na cadeira de rodas estava presa na casa de banho das senhoras com um bbedo pegajoso e desordeiro 
a tentar arrombar a porta?
        O empregado podia ter respondido que sim e as coisas teriam ficado por ali. Mas encheu o peito de ar e disse:
        - O que  que voc acha que eu sou, um porteiro de discoteca? A mulher chegou c, comeou a queixar-se da sua vida amorosa  amiga, e um tipo com metade 
da minha idade ofereceu-se para a fazer passar um bom bocado. No tenho nada a ver com isso. Como se ela no estivesse a pedi-las. A minha mulher gosta da minha 
cara exactamente como ela .
        - Ela no vai dar pela diferena - disse Jake coloquialmente. E assentou-lhe um soco.
        Pouco depois, Ryan encontrava-se mais prximo de Jake Coulter do que alguma vez quisera estar - no banco traseiro de um carro da Policia.
        A cadeia municipal de Crystal Falls nunca tinha visto tanta agitao. No fundo da rea das celas, Ryan podia ouvir o seu pai a gritar.
        Agarrado s grades como um condenado, Jake olhou para Ryan do outro lado do corredor.
        - Achas que o teu pai nos vai safar ou vem fazer-nos companhia? Ryan encostou a cabea s grades e virou a cabea de um lado para o outro para sentir o frio 
do metal. Enquanto substituto de um saco de gelo, no valia nada, mas era o mais aproximado que encontraria naquele lugar.
        - Os dias de cadeia do meu pai j passaram. No teve nenhum problema com a Lei desde que se casou com a minha me.
        Jake ficou  escuta durante um momento.
        - Ele parece-me um pouco alterado.
        Jake ainda no tinha acabado de falar quando Ryan ouviu o seu pai gritar.
        - Mas o que  que esta a acontecer a este pas? Uma rapariga  incomodada por um bbedo e vocs prendem os parentes dela porque a defenderam? Expliquem-me 
isso. Dantes, quando um homem defendia uma mulher, as pessoas davam-lhe uma palmada nas costas!
        Uma voz baixa respondeu, o som um murmrio que Ryan no conseguiu perceber.
        - Ele  sempre assim? - perguntou Jake. Ryan ponderou a pergunta.
        - No. S quando fica mesmo chateado.
        - Ento, chame o juiz! - berrou Keefe. - Preparem o raio da fiana! No deixo os meus rapazes aqui dentro toda a noite! Percebeu?
        Ryan sorriu a Jake.
        - Parabns. Acabaste de arranjar um segundo pai. No  uma maravilha?
        Ouviram uma voz feminina erguer-se acima da confuso:
        - No, Keefe. Por favor! Eu estou bem. Keefe gritou:
        - No empurre a minha mulher, seu estuporzinho empertigado!
        - Keefe, por favor! - gritou novamente Ann.
        Seguiu-se um grande estrondo. Jake ergueu as sobrancelhas, olhou preocupado para Ryan e disse:
        - Mas que raio, acho que o teu pai acabou de dar um murro num agente.
        
        
     Captulo Dezasseis
        
        Sly tinha reparado que a carrinha cinzenta de Bethany estava estacionada  frente do estbulo quando entrara, e no ficou surpreendido quando a ouviu a falar 
com a gua. Mas ficou surpreendido quando se apercebeu de que ela estava a chorar como se o seu corao se fosse partir. Com todos os Kendricks na cmara municipal, 
ele estava por sua conta. Sly no se dava nada bem com mulheres chorosas.
        Sendo aquele o caso, pensou em ir-se embora. Dar meia-volta. Parecia um bom plano, mas quando chegou  porta, o som dos soluos agarrou-o pela nuca. Parou 
e voltou lentamente para trs, sem saber muito bem o que pensava fazer, mas sentindo que tinha de fazer alguma coisa.
        Quando chegou ao porto da baia, ficou sem saber como poderia dar-lhe a entender que estava ali. Bethany estava de costas para ele, a cara encostada ao peito 
da gua. Sly coou o queixo e acabou por dizer:
        - Parece que vai chover. No achas?
        Ela saltou como se tivesse levado uma descarga. Depois, esfregou apressadamente a cara antes de se voltar para olhar para ele. Sly sempre achara desde o 
princpio que ela era uma rapariga bonita, mas nunca vira realmente por que motivo aquele rapaz tinha ficado to apanhado por ela. Mas agora sim. Aqueles olhos eram 
qualquer coisa, enormes e mais azuis do que o azul.
        - Sly! Eu, hmm... assustaste-me. No sabia que havia gente c. Ele poisou um brao no porto.
        - Vim dar de comer ao gado. O Ryan no est c esta noite para tratar disso.
        - Eu sei. Ele est... na priso. E a culpa  toda minha. Aquilo nem chegava  metade da histria. Era possvel que ainda no soubesse o que acontecera ao 
pai de Ryan, e Sly no lhe ia contar.
        - Ento, a culpa no  tua. Aquele rapaz sempre foi um cabea quente.  natural nele. No foi contagiado por uma dose de mau gnio depois de te conhecer.
        Ela enxugou a cara. Assim que acabou, outra lgrima escorreu-lhe pela face. Assoou-se com um leno de papel amarrotado que tinha mais buracos do que um passador. 
Sly procurou um leno no bolso. Depois de verificar que estava limpo, abriu o porto e entrou para lho entregar.
        - Toma, querida. Tem um pouco de p, mas est limpo.
        - Oh, eu... - Ela olhou para o leno azul estampado durante um segundo. Hesitante, acabou por agarrar nele. - Obrigada.
        Sly acocorou-se, remexendo o feno enquanto ela se assoava.
        - No pude deixar de te ouvir quando entrei. Posso ajudar? Ela respirou fundo.
        - Quem me dera. Sinto-me to mal, Sly. - A sua boca no parava de tremer. - Os pais do Ryan vo ficar a detestar-me.
        - Ah, no, isso no  provvel.  s uma daquelas coisas. Isto tem andado um bocado aborrecido ultimamente. Tu resolveste a questo.
        - Parece que sim. - Bethany enxugou os cantos dos olhos. - Eu s queria conversar com outra mulher. Que desastre. Estava  espera de resolver um problema, 
no de criar mais um.
        - s vezes,  o que acontece. Quanto mais corremos, mais para trs ficamos.
        Ela sorriu e concordou.
        - No consegui resolver nada, disso tenho a certeza.
        Sly ficou a olhar para ela. Parecia to sozinha ali sentada, apenas com a companhia da sua gua.
        - No tens amigos, querida? Ela encolheu os ombros.
        - Dzias em Portland, mas ainda no tenho muitos aqui. No voltei h muito tempo, e, at h pouco, ocupava todo o meu tempo a ajudar o meu irmo na loja. 
Tenho o Ryan, claro. - Assoou-se outra vez. - Eu no posso conversar com ele. Se a Kate tivesse ido tomar um caf comigo. Mas, no. Tnhamos de ir a um bar.
        Sly alisou o feno diante dele. No podia deixar de ter pena dela.
        - Se tens um problema que precise de ser resolvido, talvez eu possa ajudar.
        - Obrigada, Sly.  muito simptico da tua parte. Mas ... bem, de natureza delicada, uma coisa de mulheres. Provavelmente, no ser a tua especialidade.
        - Com um nome como Sly Bob, no h muita coisa que diga respeito s mulheres na qual eu no seja especialista - disse-lhe ele com um piscar de olho.
        - Sly Bob?
        - Abreviatura de Sylvester Bob, apelido Glass. Na minha terra, dou pelo nome de Sly Bob.
        - Galias  um apelido mexicano? Ele levantou uma sobrancelha.
        - No, querida,  Glass, no Galias.
        - No consigo ver a diferena na pronncia. Como  que se escreve?
        - Exactamente como se l, G-L-A-S-S. Poisando uma mo delicada no peito, ela rebentou s gargalhadas, as lgrimas espalhando-se pelas pestanas inferiores 
quando fechou os olhos.
        - Exactamente como se l? - repetiu ela, abanando a cabea. - G-Ale-Ayus-Ayus?1 - Quando conseguiu parar de rir, disse: - Oh, Sly. - Enxugou as faces. - 
Obrigada por perderes tempo a falar comigo. J me sinto melhor.
        - Fico contente por te ter aliviado a carga. Ela sorriu.
        - Bastante. Ento, conta-me, como  que Sylvester Bob Glass passou a ser Sly Bob? Algum que no gostava de ti?
        - Na. Era o costume pelas minhas bandas, abreviar os nomes dos rapazes, muitas vezes s com as iniciais, e a minha me no gostava que as pessoas me chamassem 
pelas minhas.
        Ela franziu a testa, percebeu finalmente a questo e assentiu.
        - Ah, estou a ver porque  que no lhe agradava. 2
        - Seja como for, ela comeou a chamar-me Sly Bob, e ficou. Gozavam muito comigo e, com o passar dos anos, comecei a fazer jus ao nome. Uma m deciso da 
minha parte, mas que abriu caminho a muitas experincias interessantes at eu chegar aos quarenta anos.
        - Ento, resolveste assentar?
        - Nada disso. Fiquei cansado. As mulheres tm o condo de acabar com um homem.
        Ela recompensou-o com mais um sorriso. Sly ficou satisfeito por ver que, pelo menos, deixara de chorar.
        - Agradeo que te tenhas oferecido para me ouvir. Mas no  o gnero de coisa que eu consiga discutir com um homem. Especialmente contigo. Podias contar 
ao Ryan.
        - No sou dado a conversas fora da escola, nem com o Ryan nem com ningum.
        - Eu no te podia pedir isso. Sei que vocs so muito chegados. Observando as expresses dela, Sly ficou com uma impresso estranha no fundo da garganta.
        Havia muitos tipos de solido, e ele tinha a sensao de que aquela rapariga j tinha estado cara-a-cara com muitas delas. E tambm estava muito preocupada 
com qualquer coisa e, se ele no estivesse enganado, estava relacionada com Ryan. Sly gostava daquele rapaz como de um filho.

              1 O motivo do divertimento de Bethany assenta no sotaque de Sly, o qual pronuncia a palavra glass com um sotaque que, foneticamente, se aproxima da 
outra palavra em questo, Galias (qualquer coisa como Galaiass). (N. do T.)
         
              2 Como Sly refere, se o seu nome, Sylvester Bob, fosse abreviado com as respectivas iniciais, S. B., o resultado seria idntico ao da abreviatura de 
son of a bitch. (N. do T.)
         
        - No havia de ser o primeiro segredo que eu no contava ao Ryan.
        Ela corou e abanou a cabea.
        - No. Eu s...  demasiado pessoal. Eu, no. No sou capaz. Sly pensou um pouco.
        - No s a nica que precisa de um amigo, sabes? Ultimamente, tambm tenho tido um problema.
        Ela pareceu ficar preocupada.
        - Tu?
        - Sim. No posso falar com ningum da famlia sobre isso. - Sly esfregou a boca. - Se eles souberem, ainda me despedem.
        - Os Kendricks nunca te despediriam. s como se fosses da famlia.
        - S para veres o problema que tenho. - Olhou para ela. - Constar segredos tem de valer para os dois lados. Queres fazer uma troca?
        - Oh, no sei. Como te disse, era esquisito se eu te contasse o meu. Wink aproximou-se e comeou a insistir para que Sly lhe coasse a cabea entre as orelhas. 
Ele fez-lhe a vontade alheadamente enquanto dizia:
        - No tens de te sentir esquisita a falar comigo, querida. No h nada que choque este velhote.
        Ela continuou a torcer o leno, apertando os dedos com tanta forca que os ns estavam brancos.
        - Bem, isto tem a ver com sexo. - Aproximou-se dele para dizer aquela ltima palavra como se receasse que mais algum a pudesse ouvir.
        - Sexo? - Sly riu-se. - Ora, ento, ests com sorte. Poderia ter coado um pouco a cabea em relao a certos assuntos, mas tenho a certeza de que sou um 
especialista nesse. J pendurei as calcas em tantos ps de cama que at fiquei com um buraco nelas.
        Ela arregalou os olhos:
        - A srio?
        Sly semicerrou um olho.
        - No, estou a exagerar. Mas fiquei com uma zona mais cocada. Tudo o que quiseres saber sobre esse assunto,  a mim que tens de perguntar.
        - Bem, acho que o ponto de vista de um homem talvez possa ajudar.
        - Preencho esses requisitos. Da ltima vez que verifiquei, ainda era um. Ento, o que te parece? Trocamos problemas?
        Ela sorriu ligeiramente e respirou fundo.
        - Est bem. Mas s se me contares o teu primeiro.
        - Ds-me a tua palavra, no contas a ningum?
        - A ningum.
        Sly afastou Wink e passou um dedo pelo colarinho da camisa. Em seguida, clareou a voz. O seu tom era grave quando disse: - J conheceste a Helen, a me da 
Maggie.
        - Sim.
        - Bem, ela e eu, temos sido amigos s escondidas. Se algum descobre, posso ficar sem o meu emprego no Rocking K. A Helen no  completamente normal, percebes?
        Quando Sly acabou de falar, Bethany ficou a olhar para ele num silncio atordoado durante vrios segundos.
        - Oh, Sly. No sei o que te dizer.
        - No h muito que possas dizer, acho eu. - Deixou sair o ar do peito. - A no ser chamar-me um patife assanhado por me meter com ela.
        - Nada disso, Sly. Acho que ela  uma mulher cheia de sorte.
        - No achas que estou a proceder mal?
        - No se gostas mesmo dela. Se estivesses apenas a us-la, ento, sim, acho que estarias a proceder muito mal. Mas no me parece que seja o caso.
        - Sinto-me muito melhor, s por poder desabafar. Eles confiam todos em mim, percebes, e nos cerca de trinta anos que trabalhei aqui, nunca quebrei essa confiana. 
O Keefe e eu conhecemo-nos h muito tempo. Quando ele comeou este rancho, eu era o brao direito dele, e estou c desde ento. Fiquei do lado dele quando se casou 
com a Annie. Ajudei a criar os dois rapazes. - Tirou o chapu e comeou a rod-lo nas mos. - Tentei no tocar na Helen. Sabia que ela no estava bem e que talvez 
me visse com olhos de criana, e tentei. Mas a triste realidade  que um homem nem sempre escolhe quem ama. Acontece e pronto.
        - Ela tambm te ama?
        Sly sentiu um ardor nos olhos.
        - Ela acha que eu era capaz de laar a Lua. Talvez seja por isso que a amo tanto. Tive muitas mulheres. No ultimamente, mas uma boa dose quando era mais 
novo. Nenhuma olhou para mim como ela. - Tentou encontrar uma forma de explicar. - Quando eu falo, ela ouve, muito interessada. Segue-me como um cachorrinho sempre 
que estou em casa do Rafe. No tenho muita instruo e h muita gente que pensa que sou um idiota. Ela admira-me e acha que sou inteligente. Isso faz-me sentir muito 
bem, e, ao ver aquele brilho nos olhos dela quando olha para mim, fico cheio de orgulho.
        Bethany debruou-se para lhe agarrar na mo.
        - Oh, Sly. Acho que talvez estejas a subestimar o Ryan. Eu percebo o que sentes; achas que ele no perceberia? O Ryan tem um bom corao.
        Sly fechou a mo sobre os dedos delicados dela.
        - Tem, sim senhor. Mas os Kendricks, eles so esquisitos no que toca s suas mulheres. Pisas o risco e eles ficam logo assanhados. - Apertou-lhe a mo. - 
No gosto de andar escondido, mas no vejo outra maneira. Se eles descobrem, temos sarilho. Eu casava com ela, claro. No ia virar as costas  minha Helen. Talvez 
j no tenha o juzo todo, mas no h mulher melhor.
        - Oh, Sly, nem  preciso dizer que casavas com ela. Talvez seja essa a soluo para o teu dilema. J pensaste nisso? Os Kendricks tm-te em boa conta e darias 
um bom marido para a Helen.
        - No ho-de ter-me em boa conta quando souberem que me tenho aconchegado com a Helen. Como acham que ela no est bem so muito protectores. O mais certo 
era despedirem-me.  a poltica por aqui, no nos metemos com as mulheres. Ficava sem emprego. Como  que podia olhar por ela? Um homem precisa de um trabalho para 
cuidar da sua mulher, e uma mulher to fina e bonita como a Helen merece coisas finas e bonitas. Ela no  estpida, percebes? Nem atrasada. Apenas demora mais tempo 
a perceber.
        Bethany baixou a cabea, o cabelo escuro escondendo-lhe a cara.
        - Ainda bem que me contaste. - Olhou para ele e sorriu. - Eu sei que o meu voto no conta muito, mas acho que  fantstico que vocs os dois se tenham encontrado 
um ao outro, e espero que encontrem uma forma de ficarem juntos.
        A voz de Sly ficou rouca:
        - Obrigada por dizeres isso. O teu voto  muito importante para mim.
        - E digo-te mais. S porque tens pouca instruo convencional, isso no quer dizer que no tenhas ido  escola. Apenas foi uma escola diferente.
        Ele sorriu e piscou-lhe o olho.
        - Comeo a perceber porque  que aquele rapaz tem andado como um cachorrinho atrs da prpria cauda desde que te conheceu. Sempre achei que ele era esperto. 
S no sabia quanto.
        - Obrigada, Sly.  um grande elogio.
        - E sincero. Agora, chega do meu problema. Vais contar-me o teu?
        Depois de muitas hesitaes, Bethany conseguiu contar-lhe. Sly coou a cabea quando ela acabou, quase desejando no ter insistido naquela troca.
        - Bem,  um problema daqueles. No sentes nada, dizes tu?
        - Um pouco aqui e ali, mas nada parece funcionar bem - disse ela com uma voz vazia. - No me importo muito. Estar com o Ryan  o suficiente para mim. S 
tenho medo que no seja o suficiente para ele.
        - Se ele te ama, h-de ser. Se no te ama, passas melhor sem ele. Nenhum casamento pode resultar sem amor, querida, e muito. H sempre problemas. No ests 
sozinha.
        - S quero faz-lo o mais feliz que puder.  s isso.
        Sly compreendia-a. Nada o fazia sentir-se melhor do que fazer a sua Helen sorrir.
        - Fazer um homem feliz  uma coisa muito simples. S tens de seguir o teu faro e descobrir com o tempo aquilo de que ele gosta e no gosta. Quanto quilo, 
no posso dizer que j vi uma mulher fingi-lo, pelo menos, de uma forma que fosse bvia. Mas posso dizer como  que elas se portam quando esto mesmo a gostar.
        Ela fitou-o com um olhar esperanoso.
        - Podes?
        Sly levantou um dedo.
        - J volto.
        Ele tinha uma desagradvel sensao de que aquele assunto iria precisar mais de demonstraes do que de explicaes. Saa-se melhor na maioria das coisas 
que fazia quando estava completamente sbrio, mas imitar uma mulher a ter um orgasmo no iria ser uma delas. Correu at ao escritrio, agarrou na sua garrafa de 
bolso e voltou rapidamente para a baia.
        Uma hora depois, quando voltou para casa, Ryan viu a carrinha de Bethany. Enquanto atravessava o ptio pavimentado, ouviu o que parecia ser um coiote dentro 
dos estbulos, preparando-se para uivar a Lua. "Mas que raio?" Assim que entrou, ouviu a voz de Sly. Seguiu os sons at  baia de Wink, onde encontrou o capataz 
e Bethany a uivar e a rir como loucos.
        Ryan deixou-se ficar por uns momentos. Sly, que parecia embriagado, estava sentado com as costas apoiadas na parede, um joelho flectido para apoiar o brao. 
O capataz observava enquanto Bethany atirava a cabea para trs e produzia sons estranhos. Riu-se, abanou a cabea e disse:
        - Assim no, querida. Ele ainda acha que ests doente.
        - Oh, Sly - disse Bethany com um suspiro desencorajado -, achas que eu consigo dar com o jeito?
        - J estivemos mais longe - assegurou-lhe ele.
        Ryan j vira o suficiente para perceber o que estava a acontecer. Parecia que o seu fracasso como amante se tornara o principal tpico de discusso do dia. 
Se todos os habitantes de Crystal Falls ainda no soubessem a histria no dia seguinte, talvez Bethany pudesse por um anncio no Examiner.
        Apoiou-se no porto da baia.
        -  uma festa privada? Bethany deu um salto com o susto.
        - Ryan! - exclamou ela. - J voltaste. Ele assentiu.
        - O Rafe chamou um advogado. A primeira coisa lcida que algum fez hoje. O juiz acabou por estabelecer a fiana. O Jake tambm saiu.
        Sly olhou-o de lado.
        - E o teu pai?
        - No. O juiz disse que lhe fazia bem passar l a noite para acalmar. Dar um murro num polcia no cai muito bem na cmara municipal.
        Bethany ficou com uma expresso horrorizada:
        - O teu pai bateu num polcia?
        - O tipo estava a pedi-las. Ia agarrar o meu pai e, para chegar a ele, empurrou a minha me. Ela bateu com a anca numa esquina da secretria. Ficou com um 
hematoma. O meu pai assentou uma valente no estupor.
        - Oh, no. Isso  uma transgresso grave.
        - Eles no conseguem aguentar a acusao. O Rafe levou a minha me s Urgncias para tirar radiografias. O ferimento est documentado e o teu pai e dois 
dos teus irmos foram testemunhas. O polcia excedeu-se. - Ryan encolheu os ombros. - Teve sorte. Se aquele primeiro soco no o tivesse deixado inconsciente, o meu 
pai tinha dado cabo dele.
        - O teu pai  mesmo assim - concordou Sly. - Se bate num homem e ele no vai ao cho, eu vou ver as costas do estupor para descobrir o que  que est a segur-lo.
        Ryan entrou na baia e sentou-se ao lado de Sly. Olhou demoradamente para Bethany.
        - Mas no quero interromper. Parecia que estavam a divertir-se bastante.
        - Oh, j estvamos a acabar. No estvamos, Sly?
        - Sim, j estvamos despachados, pois. Ryan sorriu.
        - No sei qual de vocs parecia mais doente. Sem ofensa, mas acho que precisas de um pouco mais de prtica para lhe dares com o jeito, querida. Se comeas 
a uivar e a ofegar dessa maneira ao p de mim, vou ter de chamar uma ambulncia.
        Bethany olhou estupefacta para Sly. O capataz levantou-se e fechou a sua garrafa de bolso.
        - Bem, acho que esta  a minha deixa para desaparecer. - Deu-lhe um beijo na testa. - Boa noite, querida. Se este menino tiver um ataque de mau feitio, no 
lhe ds muita ateno. Ladra muito, mas no morde.
        - Antes isso do que uivar e no saber o que  lealdade - retrucou Ryan.
        - Pois, pois. C est o mau feitio. - Sly colocou o chapu na cabea. - Boa noite.
        - Boa noite, Sly - respondeu Bethany. - Obrigada pela... - calou-se e olhou para Ryan com uma expresso culpada. - Obrigada pela tua ajuda - terminou ela 
em voz baixa.
        - Sim, Sly. Muito obrigado - disse Ryan. Quando deixou de ouvir os passos do capataz, olhou para Bethany e disse: - Podes comear a falar.
        Ela desviou o olhar e ficou novamente corada.
        - Falar de qu?
        Ryan suspirou. Ela tinha estado a chorar. Tinha a ponta do nariz vermelha e, numa das mos, ainda era visvel o leno azul amarfanhado de Sly.
        - Podemos comear pelo incidente desta tarde. Podes explicar-me porque  que decidiste falar com uma desconhecida a respeito da nossa vida sexual num lugar 
pblico? E num bar, por favor!
        Ela brincou com o leno, puxando um canto, depois voltando a amarrot-lo.
        - Ela no era uma desconhecida. A Kate trabalha para ns. Quanta ao bar, eu convidei-a para um caf, mas ela perguntou se no podamos ir a um stio pacato 
beber uma cerveja. Estava de ressaca e precisava de um pouco do plo do co que a tinha mordido.
        - Uma ressaca? Devia ter sido a tua primeira pista. Um stio pacato? Quase eras violada naquele stio pacato. Estou a ver que foste a casa trocar de blusa.
        - Por isso  que no fui logo para o posto da Polcia. Depois de trocar de roupa, quando cheguei, os teus pais j l estavam. - Afastou o cabelo da cara. 
- Tive vergonha de os encarar. A culpa foi toda minha, tu estares ali, e eu s... - Abanou a cabea. - Agora, o teu pai est na cadeia. Meu Deus. Vo odiar-me para 
sempre.
        - Nada disso. - Ryan levantou os joelhos para apoiar os braos e ficou calado durante muito tempo. - Sabes, Bethany, o primeiro requisito para que uma relao 
resulte  a franqueza.
        - No, no  - disse ela numa voz dbil. - O primeiro requisito  bom sexo.
        - E tu achas que eu no to dou.
        Ela pareceu ficar genuinamente estupefacta quando o ouviu dizer aquilo.
        - No. Oh, Ryan, no. Eu  que no estive  altura, e no o contrrio.
        Ele podia ver-lhe a dor nos olhos - sombras escuras que lhe deram vontade de a abraar.
        - No digas isso, querida. Para mim, foi fantstico.
        - No. Achas mesmo que sou assim to ingnua? Eu no estava a dormir quando te levantaste ontem  noite. Estavas to transtornado porque eu no senti nada 
que tiveste de sair.
        Ryan encheu as bochechas de ar enquanto ponderava a situao.
        - Ou seja, para que eu no voltasse a ficar perturbado, pediste ao Sly que te mostrasse como  que se finge um orgasmo?
        - No, claro que no. Falei primeiro com a Kate. Encontrar o Sly esta noite foi um acaso.
        - E depois de o encontrares, perguntaste-lhe como  que se finge um orgasmo - insistiu ele. - Quanto tempo  que pensas que isso ia resultar?
        - No sei. Para sempre, esperava eu. - O seu lbio inferior estremeceu. - No te quero perder. Se no conseguir fazer-te feliz na cama, perco-te.
        Ele sacudiu um pouco de feno da perna.
        - Eu estava transtornado ontem  noite. Admito. Queria que tivesse sido bom para ti e custou-me muito aceitar que no tinha sido.
        Ela fitou-o com um olhar implorativo.
        - Foi bom para mim. Todas as partes que consegui sentir. No pordes... - Calou-se e torceu o leno de Sly. - No podes comparar-me s outras mulheres. At 
te conhecer, nunca tinha estado com ningum e tinha pouca esperana de alguma vez vir a estar. As partes que consegui sentir foram maravilhosas. Tu s maravilhoso. 
Se eu puder ter apenas isto, se no tiver mais nada durante o resto da minha vida, vou sentir-me a mulher com mais sorte do mundo. - Gemeu e levantou as mos. - 
No te quero perder. Por favor, tenta compreender. Se fingir que sentia tornasse as coisas melhores para ti, eu estava disposta a fingir.
        Ryan encostou a cabea  parede. Wink estava a mastigar, um som to familiar que ele se concentrou nele para se acalmar. Quando finalmente voltou a olhar 
para Bethany, a fria j passara.
        - Promete-me uma coisa.
        - O qu?
        - Que nunca mais voltas a mentir-me, mesmo que penses que  o que eu preciso de ouvir.
        Ela fechou os olhos com fora. Quando finalmente os voltou a abrir, a sua cara tornara-se plida.
        - Desculpa ter mentido. No  algo que eu costume fazer, e no te censuro por estares zangado. Mas tenta entender o meu lado. Por mais que o deseje, no 
posso mudar o meu corpo, e arrisco-me a perder-te por causa disto. S essa ideia apavora-me. - Riu-se com pouca convico. - No  irnico? Um dos principais motivos 
pelos quais me recusei a ter uma relao contigo foi porque receava exactamente isto. Agora, aconteceu. No sinto nada. S que no interessa. Quero-te, mesmo assim. 
E, se me deixares, no sei o que fazer. - Baixou a cabea. - Jurei que nunca te faria uma coisa destas. Insistir, implorar. Querer que tu fiques comigo, seja como 
for, mesmo que estar comigo no te faca feliz. - A sua voz comeou a ficar histrica. - Desculpa.
        Ryan ajoelhou-se e aproximou-se da cadeira dela.
        - Eu no te vou deixar, querida. E se tentares deixar-me, vou atrs de ti. Percebeste? - Abraou-a, encostou-lhe a cara  curva do pescoo e deixou-se ficar 
assim durante um momento. - O que acabaste de dizer, que gostaste de todas as partes que conseguiste sentir, que tinha sido maravilhoso  mais do que alguma vez 
tinhas tido. Vou lembrar-me disso. O problema ontem  noite no foi tu no teres conseguido fazer com que eu gostasse, Bethany. Foi fantstico. To fantstico que 
me senti tremendamente culpado. Deste-me tanto e eu no te pude dar nada em retorno.
        Ela agarrou-se a ele quase freneticamente, como se estivesse pendurada na beira de um precipcio e apenas ele a impedisse de cair.
        - Tu deste-me tudo - murmurou ela ferozmente. - Foi to maravilhoso, Ryan. Tu deste-me tudo.
        - A srio?
        - A srio.
        Ele beijou-a abaixo da orelha.
        - Ests disposta a tentar mais uma vez? Passei o dia todo a pensar no que me disseste esta manh, sobre eu ir mais fundo. Ontem  noite, sendo a primeira 
vez, tive tanto medo de te magoar que no o fiz. Quem sabe? Talvez, se o fizer, encontre uma terminao nervosa fantstica que ainda esteja viva a dentro.
        - Se no encontrares, no faz mal. Apenas estar nos teus braos  o suficiente, Ryan. Estar contigo  suficiente.
        Ryan abraou-a ainda com mais forca, sabendo que ela tinha razo. Ele nunca tinha amado ningum assim, e se Deus lhe desse apenas aquilo, se abra-la e 
am-la fosse tudo o que poderia ter, seria o suficiente.
        Porque, para ele, Bethany era absolutamente tudo.
       
       
     Captulo Dezassete
       
       
        O luar entrava pela janela do quarto, cobrindo tudo com a sua luz prateada. Deitado no colcho com Bethany aninhada sobre o seu brao, Ryan olhava para o 
rosto dela, pensando como ela era linda, as feies to delicadas que poderiam ser feitas de porcelana. Seguiu-lhe a linha das sobrancelhas com os lbios, desceu 
beijando-lhe o nariz, apreciando a forma como ela sustinha o flego e apertava as mos nos seus ombros. Passou para a orelha semelhante a uma concha, mordiscando 
ligeiramente o lbulo.
        - O que posso fazer para te agradar? - perguntou ela de repente, tentando voltar a cabea e gorar a sua tentativa de lhe beijar a boca.
        - Agradas-me apenas por existires - sussurrou ele. - Por estares aqui comigo.  tudo o que eu preciso, mais do que alguma vez sonhei ter.
        Ryan sentiu o nariz dela torcer-se contra o seu queixo, um gesto que se tornara habitual e sempre o fazia sorrir.
        - No sejas evasivo, Ryan. Sabes muito bem o que quero dizer. Sou nova nisto, e tu tens de ser franco comigo para que eu possa fazer tudo o que te excita. 
Gostas de cintos de ligas e de meias?
        Ele sorriu.
        - A Kate, outra vez?
        - Ela disse que era uma coisa de que os homens gostavam.
        - Hmm, gosto de cintos de ligas, acho eu. Mas no tenho nenhum fascnio particular por eles.
        - Ento, de que  que gostas? Quero mesmo saber, Ryan. Para mim,  importante agradar-te.
        Ele s queria que ela se deitasse e o deixasse devor-la. De algum modo, todavia, pareceu-lhe que no era isso que ela queria ouvir.
        - Gosto de ti. Muito. Ela riu-se e deu-lhe uma palmada no brao.
        - A ver se te escapas. Diz-me. Tem de haver alguma coisa que te excite. Gostas de saltos altos?
        - Nem por isso. No posso dizer que goste de alguma coisa em particular. - Encontrou a depresso abaixo da orelha e saboreou a pele, pensando para consigo 
que ela era to inebriante como vinho, o aroma tnue do champ deixando-lhe a cabea a andar  roda. - Podias deixar-me a babar com uma saca de serapilheira.
        - s impossvel.
        - Gosto de calas de ganga justas e de camisas western - confessou ele enquanto lhe cheirava os caracis junto  tmpora. - Daquelas com botes de prola 
nos bolsos do peito, sabes? H qualquer coisa naquelas prolas a piscarem-me o olho que me deixa a boca completamente seca.
        Ela riu-se e brincou com os pelos no peito dele.
        - Vou j comprar umas. Gostavas que eu usasse s as camisas, sem mais nada?
        - Meu Deus. - Ficou imvel por um instante. - Fazias isso?
        - Se quiseres.
        - Querer  pouco. Posso ir contigo e ser eu a escolh-las? Tambm gosto de franjas em cima. Brancas, com brilho. Cintilam e mexem-se de um lado para o outro. 
Isso deixa-me louco.
        - Podes ter a certeza de que hei-de abanar as minhas franjas - disse ela com uma gargalhada. - Gostas de ver uma mulher a cozinhar s de avental?
        - Desde que eu o consiga desamarrar. - Percorreu-lhe a face com os lbios, dirigindo-se a boca. - Ests a deixar-me louco. Chega de conversa. Quero-te Bethany. 
Agora.
        Ela manteve-o afastado com uma mo contra o peito.
        - S mais algumas perguntas. Prometo. Ryan suspirou.
        - S algumas.
        Ela olhou para ele com aqueles olhos azuis incrveis que sempre o deixavam com falta de flego.
        - Gostas de, hmm, felaao? - A sua voz ficou rouca e tmida quando lhe fez a pergunta. - Nunca o fiz, mas acho que...
        Espantado, Ryan inclinou-se para trs para olhar para ela. J tinha estado com mais mulheres do que se conseguia lembrar, e nunca lhe tinham feito aquela 
pergunta daquela maneira. S Bethany para usar o nome cientfico portas adentro. Reprimiu um sorriso, sem querer embara-la.
        - No desgosto, acho eu - disse ele cautelosamente, em parte com receio de que ela desaparecesse debaixo das cobertas se desse uma resposta mais entusistica. 
- No  uma das minhas coisas preferidas.
        - Oh. Porque no? Julgava que os homens gostavam muito.
        Ele curvou-se para lhe dar um beijo demorado. Quando quebrou o contacto, disse:
        - Preferia ser eu a prestar-te esse servio. Ela torceu novamente o nariz.
        - Quero ser eu a fazer coisas por ti, e no o contrrio. No fiz nada disso ontem  noite.
        Ela estava nitidamente decidida a extrair-lhe informao, e Ryan tinha a sensao de que era melhor colaborar a no ser que quisesse que ela tivesse outra 
conversa com Kate, a guru do sexo. Suspirou e deitou-se novamente ao lado dela, poisando a cabea na mo. Depois de enrolar uma madeixa de cabelo dela a volta de 
um dedo, disse:
        - Gosto de te tocar, de te beijar. Saber que isso te faz sentir bem faz-me sentir bem.
        - Fico muito contente porque adorei tudo o que fizeste ontem  noite - murmurou ela -, e tenho a certeza de que vou adorar sempre, mas no podes ser sempre 
tu a tentar agradar-me. Quero ser uma parceira sexual satisfatria. No quero que sintas alguma vez que ests a perder alguma coisa.
        - Isso nunca h-de acontecer. Estar contigo, fazer amor contigo... nunca nada foi melhor para mim, Bethany. Incrvel. Lindo. No se pode melhorar o que  
perfeito, pelo menos, no segundo os meus livros.
        - Oh, Ryan, sentes mesmo isso?
        - Sim. E no h nada em especial que eu queira que faas. - Debruou-se para lhe beijar a ponta do nariz. - Excepto parares de falar. - Largou-lhe o cabelo 
para descer a mo at ao peito. Depois de prender o mamilo entre o polegar e o indicador, rolou-os, sorrindo quando ela soltou um gemido e arqueou as costas perante 
o choque daquela sensao. Baixou a cabea para provocar a carne capturada com a ponta da lngua, o que a fez gemer de novo e agarrar-lhe no cabelo. - Apenas quero 
fazer amor contigo - murmurou ele. - Durante o tempo que eu quiser, como eu quiser. Tens algum problema com isso?
        A nica resposta dela foi um gemido ofegante. Puxou-lhe a cabea para o peito, oferecendo-se a ele e encorajando-o silenciosamente. Era um pedido que ele 
no podia recusar.
        Armado com o conhecimento de que os preliminares poderiam ser a nica parte do jogo que ela realmente apreciava, Ryan no teve pressa, beijando e afagando 
cada parte do corpo onde ela tinha alguma sensibilidade. Queria que o preldio fosse o mais glorioso possvel. Se no podia satisfaz-la, pelo menos, dar-lhe-ia 
sensualidade e mostrar-lhe-ia o quanto a amava com cada toque das suas mos e dos seus lbios.
        Carcias lentas, como penas. Beijos quase imperceptveis. Usou toda a sua experincia na arte do amor, fazendo esperar as suas necessidades urgentes enquanto 
satisfazia as dela.
        Bethany. Gostava tanto dela. Adorava a forma ofegante como gemia quando ele descobria um ponto sensvel e o provocava com a ponta da lngua... adorava a 
forma como tentava aproximar-se ainda mais dele... como se agarrava a ele e gritava o seu nome. 
        Bethany. Como ele a adorava.
        Ryan deitou-se de barriga para baixo e comeou a beijar-lhe a coluna, demorando-se logo abaixo das omoplatas, onde sabia que as mulheres eram sensveis. 
Dali, passou  depresso sob o brao, fazendo surgir pele de galinha na superfcie acetinada enquanto descia lentamente pelas costelas at encontrar a cintura, e 
depois at s ndegas redondas, que estremeciam sob os seus lbios, traindo a intensidade das sensaes que ela estava a ter.
        Quando a voltou, o luar poisou-lhe sobre os seios, realando-lhe os mamilos trgidos e rosados. A sorrir, deitou-se ao lado dela, usando a mo livre para 
a acariciar suavemente enquanto se demorava nos mamilos, atormentando-os com ligeiros toques at os deixar latejantes sob a sua lngua, ansiosamente despertos. Ento, 
cercando-os subitamente, mordeu-os ao de leve e sugou-os.
        - Ryan! - soluou ela ao arquear as costas. Ele no a largou, saboreando e chupando at a deixar a tremer, sentindo os msculos do estmago a contrarem-se 
sob a palma da sua mo. Naquele ponto, a sua prpria nsia crescera at raiar a dor, uma dor urgente. Fazendo deslizar a mo at  unio das coxas, deixou que os 
dedos se enredassem naquele ninho de caracis para se certificar de que ela estava pronta. As pontas dos seus dedos encontraram um calor hmido e escorregadio, boas-vindas 
para qualquer homem.
        Ao retirar a mo, tocou com as pontas dos dedos no cltoris. Bethany saltou como se a tivessem picado com um alfinete. Ele parou, o seu olhar fixo na cara 
dela. Na noite anterior, no conseguira dar-lhe um orgasmo porque lhe tocara naquele ponto, e, como era a primeira vez dela, no quisera sugerir outra forma com 
receio de a embaraar. Ainda era um pouco cedo para a iniciar naquele gnero de intimidade, mas uma vez que fora ela a referir a questo, decidiu que podia pelo 
menos pr essa hiptese.
        - Querida, deixas-me tentar beijar-te aqui? Ela franziu o sobrolho.
        - Tocaste-me a ontem  noite e foi desconfortvel para mim.
        - Eu sei, mas as minhas mos parecem lixa. Podia ser muito mais suave com a minha lngua.
        Ela fechou uma mo sobre a dele, como se quisesse proteger aquela rea.                      
         - Oh. Acho que no...
        -  s que, se s hipersensvel ali em baixo, se eu o fizer com a minha boca a diferena pode ser enorme - murmurou ele enquanto baixava a cabea para lhe 
chupar um mamilo. Ela ofegou com o contacto e gemeu novamente. Entre passagens insistentes e provocadoras da lngua, Ryan insistiu: - Por favor, querida? Diz que 
sim. Eu ficava to feliz se conseguisse dar-te um orgasmo. O corpo dela procurou-lhe a boca.
        - Paras se for desconfortvel?
        - Claro que sim.
        - Est bem - disse ela sem flego. - Acho que no vai resultar, mas se queres tentar, eu no te impeo. Se queres mesmo.
        Oh, ele queria. Aquela protuberncia doce, repleta de nervos j estava a dilatar-se sob as pontas dos seus dedos sem que fizesse mais nada. Talvez ela tivesse 
alguma leso, como ele desconfiava, e no seria mais do que uma batalha contra moinhos de vento. Havia apenas uma forma de descobrir.
        Ele ajoelhou-se e afastou-lhe as pernas de modo a conseguir aninhar-se entre elas. Ela sorriu e largou-lhe a mo. Ryan agarrou numa almofada e empurrou-a 
para debaixo do rabo dela.
        - O que  que estas a fazer? - perguntou ela, espantada.
        - S a colocar-te numa posio melhor.
        Virou-lhe os joelhos para fora, assentando as coxas nos extremos da almofada, deixando-a exposta e vulnervel. Ela poisou as mos esguias na rea desprotegida, 
nitidamente embaraada. No podia ser. Ryan baixou-se e puxou as cobertas para a resguardar.
        Mesmo assim, fez o seu melhor.
        - Amo-te tanto - murmurou ele. - J te disse isso? Ela riu-se.
        - No nos ltimos trs minutos, sua enguia.
        Ele beijou-lhe demoradamente a boca, sorrindo ao ver a nsia com que ela o recebia. A sua Bethany. Com o corao apertado, proferiu uma prece: "Por favor, 
Deus, faz com que isto resulte. Deixa-me dar-lhe prazer. Nunca mais volto a faltar a missa num domingo, e dou graas antes de todas as refeies e ajoelho-me ao 
lado da cama todas as noites. Vou ser o homem mais devoto, mais fiel que alguma vez viste, juro, e darei graas at ao fim da minha vida. Concede-me s isto."
        Sem querer embaraa-la, Ryan no avanou imediatamente para o seu alvo. Em vez disso, respeitou mais uma vez o mesmo percurso, beijando-a na boca e depois 
em todos os pontos sensveis do seu corpo, nunca parando de descer. A reaco de Bethany foi incondicional, sem hesitaes. Passados alguns minutos, ela gemia e 
tremia novamente de necessidade.
        Quando poisou a boca no ponto que tinha como objectivo, os gemidos transformaram-se em soluos assustados. Ele agitou ligeiramente a lngua, tendo o cuidado 
de no aplicar muito presso com receio de a magoar. Ela soltou um som estranho, vindo do fundo da garganta, arquejou de surpresa, e suspirou de prazer. Sim.
        Ele queria tanto que aquilo fosse bom para ela. Sentiu aquele montculo de feminilidade comear a crescer de novo sob os toques cuidadosos da sua boca, e 
em breve a rigidez da sua excitao era aparente a cada passagem da lngua de Ryan. Conseguia sentir-lhe a pulsao ali, mais parecendo um martelo pneumtico.
        Ento, Ryan aumentou cautelosamente a presso. Ao ver que ela no se esquivava nem gritava, o seu corao rejubilou e ele decidiu avanar com movimentos 
circulares da lngua, lentos e decididos. Ela estremeceu e arqueou a coluna, tentando projectar as ancas. Ryan sentiu a urgncia acumular-se dentro dela, e saber 
que a levara praticamente ao ponto crtico deixou-lhe os olhos cheios de lgrimas.
        - Ryan? - gritou ela com uma voz rouca marcada pelo pnico. - Isto ... oh, meu Deus, tens de me segurar.
        Ele apoiou-lhe as ndegas com as palmas das mos, prendendo os polegares nos ossos ilacos e erguendo-a at  sua boca.
        - Est tudo bem, querida. Eu estou aqui. Confia em mim e deixa que acontea.
        - Meu Deus. Ryan?
        Ele retomou o seu assalto com renovada determinao. Aquele corpo esguio estremeceu como um arco de corda e, ento, ela soluou. No instante seguinte, gritava, 
os msculos contraindo-se e entrando em espasmos quando o seu primeiro orgasmo a abalou.
        Aleluia.
        Pela primeira vez na sua vida, Ryan Kendrick chorou ao levar uma mulher ao clmax.
        Os ossos de Bethany tinham-se derretido. Ela no se conseguia mexer, no conseguia pensar, e no se importava. Estava ali deitada, inerte, vagamente consciente 
de Ryan a erguer-se acima dela.
        - Ests bem, querida?
        Ela tinha a lngua colada ao cu-da-boca. O corao continuava descontrolado. Ryan apagara-lhe os pensamentos. Os seus ossos tinham adquirido a consistncia 
de pudim. E ele queria saber se ela estava bem? Havia uma possibilidade de ela ter morrido de insuficincia cardaca e ter ido parar ao cu.
        - Hmm! - foi tudo o que conseguiu dizer.
        Ele riu baixinho. Ento, Bethany teve aquela estranha sensao de preenchimento que tivera na noite anterior, que lhe disse que ele acabara de entrar.
        - Calma, querida. Braos  volta do meu pescoo. Vamos. Vais voar outra vez.
        Bethany pestanejou. "Braos, levantem-se", ordenou ela silenciosamente. Em lugar de lhe obedecer, limitaram-se a ficar onde estavam, inertes e inteis, um 
por cima da cabea, o outro sobre o colcho. A cara morena de Ryan ganhou contornos mais definidos. Os dentes brilharam num grande sorriso. Baixou a cabea.
        - V l. Agarra-te.
        Com um grande esforo, ela conseguiu erguer os braos e passou-os  volta do pescoo dele.
        - Linda menina - sussurrou Ryan. Agarrou-lhe nas pernas e prendeu-lhe os joelhos debaixo dos braos. - Pronta para levantar voo?
        Ela assentiu, desejando que ele se limitasse a deix-la adormecer. Tendo passado um ms de noites insones, sentia-se to deliciosamente descontrada que, 
egoistamente, pensou que, de qualquer modo, no iria sentir aquela parte. Mas conseguiu dizer:
        - Estou pronta - antes de bocejar.
        Ele riu-se e inclinou o tronco para a frente, a superfcie aveludada da sua virilidade estabelecendo contacto com o nico ponto onde ela tinha muita sensibilidade. 
Bethany arregalou os olhos. Ele sorriu de novo, investindo pela primeira vez, cautelosamente. Ela arquejou e cravou-lhe todas as unhas nas costas.
        - Posso fazer-te vir desta maneira - murmurou ele. - Sentes? Estou a entrar em contacto com milhares de pequenas terminaes nervosas, querida. No vai ser 
desconfortvel, prometo. Agora, no.
        Para surpresa de Bethany, no foi desconfortvel. Pelo menos, ainda no.
        - Porqu?
        - Porque ests excitada e o cltoris est dilatado, o que o torna um pouco menos sensvel.
        Ela pouco sabia sobre aquele gnero de coisas e apenas pde confiar.
        - No fiques tensa. Se no te souber bem, eu paro. - Avanou para a beijar. Quando as suas bocas se afastaram, murmurou: - Vem voar comigo.
        Bethany esperava que a frico fosse desagradvel. Ele tinha sido to cuidadoso, beijando-a naquele ponto. Mas aquilo era diferente. Tinha a certeza de que 
a insistncia de toda aquela rigidez contra a sua carne iria doer. Todavia, ele parecia ao revestido de veludo, e, por algum motivo, no era minimamente desconfortvel. 
A respirao prendeu-se-lhe no fundo da garganta quando ele investiu de novo.
        - Diz-me se comear a incomodar - sussurrou ele.
        Dito isto, comeou a ganhar velocidade e, antes que ela conseguisse sequer pensar, quanto mais falar, estava a levantar voo com ele. A sua mente girava com 
as sensaes indescritveis que a abalavam. A cada investida, ele estabelecia um contacto directo com o seu cltoris, o qual lhe enviava descargas elctricas que 
se espalhavam por todo o seu corpo.
        - Ryan! - gritou ela.
        - Estou aqui, querida. - A voz dele tornara-se rouca e entrecortada. - Agora, vou fundo. Est bem? Se te parecer que di, diz-me e eu recuo.
        Ele avanou decididamente com as ancas, enterrando-se at ao limite. Bethany gritou. Ele inteiriou-se e recuou, o seu olhar bao e colado ao rosto dela.
        - Magoei-te? - quis ele saber.
        - No, mas eu... oh, Ryan, l no fundo, consigo sentir-te.
        - A srio?
        Ela riu-se com lgrimas nos olhos e agarrou-lhe nos braos, pedindo-lhe que insistisse.
        - Oh, sim - gritou ela quando ele entrou de novo. - Oh, Ryan! Sim, sim, sim! Consigo sentir isso.
        Ele definiu um ritmo rpido e intenso, tornando qualquer conversa no s impossvel, mas desnecessria. Os gemidos e arquejos de prazer dela traduziam os 
sentimentos com uma nitidez absoluta, ela tinha a certeza. Estava a voar. Ele estava a lev-la numa viagem privada pelo Paraso. O prazer a crescer. A necessidade, 
a urgncia. Cada vez mais alto. Quando chegou ao ponto mximo e se lanou, ele inteiriou-se e ela sentiu uma vaga percorr-la, l muito no fundo.
        Arqueou-se o melhor que conseguiu ao encontro dele, os seus pensamentos estilhaando-se quando um orgasmo violento lhe sacudiu o corpo. Sem dvida, o Paraso, 
decidiu ela, tonta, ainda sob o efeito das replicas.
        Ryan Kendrick era o homem mais maravilhoso  superfcie da terra.
        Puxou-a para os seus braos e prendeu-a num abrao to feroz que quase conseguiu sentir a intensidade do seu amor por ela.
        - Oh, Ryan - murmurou ela. Passou-lhe as mos pelo cabelo, querendo confort-lo. - Est tudo bem. Agora, est tudo bem.
        Como reaco, ele apenas a apertou ainda mais. Naquele momento, Bethany apercebeu-se do quanto ele se sentira atormentado pela sua incapacidade de a satisfazer.
        Encostou a cara ao ombro dele.
        - Oh, Ryan... amo-te tanto.
        Ele poisou o queixo na cabea dela, o seu corpo grande percorrido por um arrepio. Passado um longo momento, quando a sua respirao se tornou mais regular, 
suspirou e disse:
        - Agora, s penso que devia ter insistido, devia ter-te beijado a em baixo ontem  noite. Tnhamos poupado vinte e quatro horas de puro inferno.
        Bethany esfregou a cara contra a pele dele, adorando sentir o msculo, duro mas formando uma almofada confortvel para a sua cabea.
        - Talvez tivssemos de conhecer o inferno para apreciar devidamente o paraso. Ainda no estou em mim. No senti rigorosamente nada quando entraste pela 
primeira vez.
        - No importa, Bethany - murmurou ele. - A no ser que me tenha enganado, tens sensibilidade onde interessa. Se pudesse escolher, acho que a maioria das 
mulheres preferia ter um orgasmo clitoriano a um vaginal.
        Bethany sorriu. Tinha sido indubitavelmente intenso, indescritivelmente intenso.
        - Porque ser que no me soube bem quando me tocaste l ontem  noite?
        Ele enterrou a cara no cabelo dela.
        - Estavas to tensa, para comear. E acho que deves mesmo ter uma leso nervosa, o que te deixa hipersensvel at ficares mesmo excitada. - Ele riu-se, um 
som com laivos de satisfao masculina. - Muito bem. Perguntaste de que  que eu gosto? Beijar-te  o meu preferido. Acho que j estou viciado.
        - Ainda bem. Foi maravilhoso - murmurou ela.
        - Disseram-me que no h orgasmo que se compare.
        - Quem?
        Silncio. Depois, uma tosse.
        - No interessa. No tem importncia, pois no?
        - Acho que no - respondeu ela com um sorriso travesso que escondeu contra o ombro dele.
        - Se eu avanar enquanto fao amor contigo, sou capaz de te dar um orgasmo clitoriano e fazer com que atinjas o clmax comigo. Isso  que  importante. Para 
mim  fantstico saber que tambm ests a gostar.
        Tinha sido bastante fantstico. Sentindo-se to satisfeita que mal conseguia manter os olhos abertos, Bethany chegou-se para ele e murmurou sonolentamente:
        - Amo-te, Ryan. Foi a experincia mais fantstica de toda a minha vida. Muito, muito obrigada.
        Ele riu-se e puxou-a para si. - Prepara-te para uma vida fantstica, minha menina. Eu gostei tanto quanto tu.
        Algures durante a noite, Bethany acordou e apercebeu-se de que Ryan no estava ao seu lado na cama; apoiou-se num cotovelo e olhou em redor. Pestanejou estremunhada 
quando o viu ajoelhado ao lado da cama, cotovelos poisados no colcho, as mos grandes unidas em prece diante da cabea curvada.
        - Ryan? - murmurou ela roucamente. - Ests bem? Ele levantou a cabea.
        - Nunca estive melhor. Estava s a dizer as minhas oraes.
        - As tuas oraes? - Bethany nunca o vira como pertencendo ao gnero devoto. Agora, pensava no porqu dessa impresso. Qualquer homem to bom como Ryan Kendrick 
tinha provavelmente uma f profunda que o orientava na sua vida. - No te queria interromper. Desculpa.
        Recostou-se, disposta a deix-lo entregue s suas meditaes. Mas ele baixou as mos e sorriu-lhe.
        - No faz mal. J tinha acabado.
        Um brilho carnal surgira-lhe nos olhos. Deslizou as mos por baixo das cobertas e agarrou-lhe nos joelhos. Quando Bethany deu por si, o seu rabo deslizava 
pelo colcho, direito a ele, o resto do seu corpo surpreendido seguindo-o.
        - O que  que estas a fazer?
        - Nada - brindou-a com um sorriso inocente enquanto lhe ajeitava as pernas, uma de cada lado dele, as maus subindo depois at s ancas para a puxar para 
ele. - Pelo menos, por enquanto.
        O baixo-ventre dela foi ao encontro da barriga rija de Ryan. Ele prendeu-lhe os joelhos com os braos, fechando as mos sobre as coxas erguidas.
        - Ol - disse ele em voz baixa.
        Bethany fechou os dedos sobre o lugar que ele acabara de expor ao seu olhar. Ryan olhou para eles.
        - Vais ter de os tirar da, querida. Tenho coisas para fazer, e eles esto no meu caminho.
        Ela riu-se.
        - No podes estar a pensar em fazer, sabes, aquilo agora.
        Ele baixou a cabea e beijou-lhe o interior sensvel da coxa esquerda. Contra a pele dela, disse:
        - D-me s um bom motivo para no o fazer.
        - Porque pode ser que o meu corao no aguente duas vezes na mesma noite?
        Ele mordeu-a.
        - Na. No morres disso.
        Bethany tentou pensar numa forma de explicar que aquilo ainda era uma novidade para ela, e que se sentia um pouco embaraada. Tinha sido diferente quando 
estava excitada e pronta,  espera dele. Mal conseguira pensar, quanto mais sentir-se envergonhada.
        - Mas, Ryan, ainda nem sequer me beijaste.
        - Hmm. - Ele deitou-lhe um olhar definitivamente marcado pela lascvia. - Fazes muita questo quanto  parte do teu corpo que eu beijo primeiro?
        Ela riu-se.
        - Uma senhora precisa de um pouco de preliminares para ficar para a virada.
        Ele levantou uma sobrancelha.
        - J te digo - disse Ryan numa voz rouca. - Tira esses dedinhos lindos do caminho e apoia-te nos cotovelos para assistires. Vais ver que ficas para a virada 
num instante.
        - Oh, no me parece... no vou ficar a ver.
        - Porque no?
        No lhe ocorreu nenhuma razo, e ele no lhe deu tempo para pensar numa. Riu-se de novo quando ele lhe comeou a morder os dedos para a forar a afast-los.
        - Como  que podes passar das oraes para fazer isto quando ainda ests de joelhos?
        - Porque acredito de todo o corao que o amor que temos  uma ddiva sagrada, e que tudo o que fizermos para expressar esse amor  lindo.
        - Oh, Ryan... - Bethany sentiu um aperto na garganta e, sim, apoiou-se num cotovelo. Ser amada por ele era lindo, a experincia mais linda da sua vida. Ele 
beijara-lhe as cicatrizes. Tocava-a como se fosse um tesouro sem preo. Ela sentia-se como nunca se sentira quando ele a abraava. O que poderia ser mais lindo do 
que aquilo? - Amo-te tanto. Tanto, tanto.
        - Ento, no te retraias - sussurrou ele contra a sua pele. - Eu sei que avanamos depressa, mas, para ns,  a nica forma. Quero fazer amor contigo outra 
vez, e quero que seja maravilhoso para ti. Posso ter a certeza de que ser, se te fizer isto.  um milagre. Minha Bethany, uma ddiva de Deus.
        Era realmente um milagre, pensou ela. Uma ddiva incrvel, maravilhosa. Seria o cmulo da estupidez deixar que a vergonha estragasse o momento para ela - 
e para ele.
        Afastou a mo, observando enquanto ele lhe beijava a perna. Por um instante, desejou conseguir sentir o toque sedoso daqueles lbios, mas rapidamente esqueceu 
essa vontade. V-lo beijar o interior da sua coxa era igualmente ertico ao seu jeito, e era to bom saber que poderia sentir cada toque leve dos lbios de Ryan 
quando ele finalmente chegasse ao seu destino.
        Ele assim fez e tocou-lhe com a ponta da lngua. Bethany arquejou com o choque de prazer escaldante que a percorreu.
        - Oh, Ryan. Isso... sabe... to... bem.
        A boca quente e hmida fechou-se sobre ela, a lngua agitando-se ao de leve contra a sua carne, provocando suavemente as terminaes nervosas at lhe deixar 
a cabea a girar e o sangue a latejar.
        - Ests bem? - perguntou ele, quase ininteligvel.
        O movimento da boca e a vibrao da voz percorreram-lhe o corpo, e Bethany quase morreu. Tentou responder-lhe, mas tinha a garganta paralisada, o nico som 
que conseguia produzir um ofegar dbil.
        Como resposta, foi obviamente suficiente, porque ele retomou o seu assalto. Levantou-lhe as ndegas do colcho e deixou-a ficar assim. Cada musculo do tronco 
de Bethany ficou tenso. Ento, ela esqueceu-se de tudo. Relmpagos. Era a nica forma de descrever as sensaes que a abalavam.
        Sem saber como, uma das suas mos fechou-se nos cabelos dele e de repente, ela estava a agarr-los para se iar at ficar numa posio sentada. Ele inclinou-se 
para continuar a am-la. Depois, subiu e beijou-lhe os seios.
        - Oh, Ryan.
        - J ests morta? - perguntou ele a rir.
        - Ainda no.
        Aos beijos, Ryan desceu at ao umbigo.
        - Ainda bem. No me deixes, querida. Vamos voar outra vez. Ryan Kendrick era um homem de palavra.
        E ela voou.
        
        
     Captulo Dezoito
        

        
        Quando Bethany acordou, a manh estava demasiado bonita para que ela a recebesse com m cara. A luz do Sol entrava pelas janelas do quarto de Ryan, dourando-lhe 
a cara e o cabelo. Partilhavam a mesma almofada, o que ela considerou simblico da vida de ambos a partir dali. Ele estava a dormir com um brao por cima dela, a 
mo grande poisada no seu seio esquerdo. Estavam os dois nus e ela deliciou-se com a sensao de toda aquela masculinidade a envolv-la.
        Suspirou, satisfeita. Pela primeira vez em oito anos, conseguira virar-se durante a noite. Fiel  sua palavra, Ryan aconchegara-a contra o seu corpo por 
vrias vezes para trocarem de lado, permitindo-lhe aninhar-se contra as costas dele ou deixar que os seus braos fortes a envolvessem. Fora uma sensao maravilhosa.
        Ele assustou-a quando, inesperadamente, disse com a boca encostada aos seus cabelos:
        - Queres tomar o pequeno-almoo assim, comigo?
        - Na cozinha? - Ela riu-se. - Nua, queres tu dizer?
        - Que gnero de fantasia  que seria se no estivesses nua?
        - S se fores tu a cozinhar. O leo respinga sempre quando eu estrelo ovos.
        - Fruta e po no respingam. - Tocou-lhe num mamilo. - Imagina a minha boca a depois de beber um pouco de caf bem quente.
        Bethany sentiu um aperto no estmago perante aquela ideia.
        - Besunto-te com natas magras e lambo-te toda - disse ele com a voz rouca. - Podes ficar sentada, nua, na minha cozinha, arranhar uma banana com os dentes 
e deixar-me louco. No sais desta casa antes do meio-dia.
        Ela riu-se outra vez.
        - Tenho de ir trabalhar.
        - Hoje, ficas em casa comigo. - Esfregou o nariz na orelha dela. - Vais comigo  cmara municipal. Tiramos o meu pai da cadeia e metemos os papis para o 
casamento, tudo na mesma visita.
        - No precisamos de uma certido para j.
        - Precisamos, pois. Quero ver um anel no teu dedo, querida. Ela virou-se e beijou-lhe a cana do nariz.
        - Oh, Ryan, s to querido.
        - Isto no tem nada de querido. Se no te casares imediatamente comigo, o Jake mata-me.
        - No te preocupes com o Jake. Eu trato dele.
        Ele interceptou-a antes que pudesse beijar-lhe novamente o nariz e deu-lhe um beijo na boca. O corao de Bethany comeou a bater mais depressa. Quando ele 
parou para respirar, disse:
        - No quero discusses. Casas comigo logo que eu tenha tudo tratado.
        - De maneira nenhuma. Preparar um casamento leva tempo. Ele abriu os olhos.
        - Eu gostava de uma coisa simples. Sem grandes barafundas.
        - Eu tinha a fantasia de casar junto a um lago no alto das montanhas.
        - Isso j  falar.
        Ela sentiu um aperto no corao.
        - Mas isso agora est fora de questo.
        Ele levantou a cabea e mordiscou-lhe o pescoo.
        - Posso perfeitamente levar-te para um lago. Bem bonito. Por acaso,  assim que quero passar a nossa lua-de-mel, s tu e eu, num lago no alto da montanha.
        - Ryan, eu no posso. J te disse, eu... Ele poisou-lhe um dedo na boca.
        - Encomendei uma cadeira de todo-o-terreno para ti. Pesa pouco, pode ser transportada a cavalo e est preparada para enfrentar pedras e pequenos troncos. 
Deve chegar para a semana, no mesmo dia que a tua sela.
        - Tu o qu?
        Ryan tirou o dedo para baixar a cabea e roubar-lhe mais um beijo.
        - No faas essa cara. Ficas com rugas. Bethany manteve a mesma expresso.
        - Mesmo com uma cadeira de rodas todo-o-terreno, preciso de instalaes especiais para as minhas necessidades pessoais. No posso simplesmente...
        - Estou a tratar disso. A minha me ajudou-me a desenhar uma "casinha" para ti.
        - Uma casinha?
        - Sim. O meu pai tambm tem ajudado. Tem mais experincia a soldar alumnio. Vai ser leve, com barras de apoio, e pode ser desmontada para ser fcil de transportar. 
Vamos usar nylon de tenda para o tecto e as paredes. Vais ter todos os confortos de casa.
        Ela inclinou a cabea para trs, olhando para ele com incredulidade.
        - Ests a falar a srio.
        - Claro que estou. Vamos passar a nossa lua-de-mel numa regio desabitada, bravia. S tu e eu, junto a um lago fantstico, como querias fazer antes do teu 
acidente. Apanhamos trutas para o jantar e cozinhamo-las numa fogueira. Fazemos amor debaixo das estrelas. Depois, conto-te histrias assustadoras antes de nos deitarmos 
para que tu te agarres a mim quando formos para a tenda, e fazemos amor no saco-cama. E tambm vamos nadar, e fazemos amor dentro de gua. H cataratas l em cima. 
 to bonito, vais ficar sem respirao, e ns...
        Ela rebentou s gargalhadas.
        - Fazemos amor na cascata? Ele sorriu.
        - Como  que adivinhaste?
        Bethany cedeu e tirou o dia para poder ficar com Ryan. Enquanto apreciava uma terceira caneca de caf, ele foi at aos estbulos tratar dos animais. A manh 
estava to bonita que Bethany abriu a porta de correr para deixar entrar o ar fresco. Estava prestes a fechar a rede quando o telefone tocou. Contornando Tripper, 
que estava a dormitar perto da mesa, agarrou no telefone porttil.
        - Estou?
        - Ol, mana. Como  que ests hoje? Completamente recuperada da barafunda de ontem, espero.
        - Estou ptima, Jake. Melhor do que ptima, por acaso. Ele suspirou.
        - Ainda bem. Fiquei um pouco preocupado quando me disseram que no vinhas trabalhar.
        Ela explicou-lhe que Ryan queria aproveitar o dia para meter os papis para o casamento.
        - Ele no perde tempo - observou Jake. - Tens a certeza de que  isto que queres fazer, Bethie? Casar  pressa e tudo o mais. No tens de fazer as coisas 
a correr.
        - Nunca tive tanta certeza, Jake. Amo-o tanto que di. Silncio demorado. Ento, Jake disse:
        - Desculpa l falar nisto, mas no foi ainda ontem que estavas a queixares-te agarrada a uma cerveja, desiludida com o sexo?
        - Onde  que foste buscar essa ideia?
        - Ao empregado do bar.
        Bethany ficou com a cara a escaldar. Para ela, a linha traava-se na discusso dos pormenores da sua vida sexual com o seu irmo. Ao mesmo tempo, percebia 
que ele estava preocupado e precisava de ser tranquilizado.
        - Eu no estava desiludida. Estava com medo de que o Ryan estivesse. - Bethany no fazia ideia como explicar a situao. - Mas isso j pertence ao passado. 
Tudo  maravilhoso.
        - Maravilhoso? Tens a certeza, Bethany?
        - Absoluta. Por favor, no te preocupes. Eu amo-o tanto, e ele ama...
        Ouviu qualquer coisa atrs dela e, sentindo-se culpada, olhou por cima do ombro. Ryan no ficaria satisfeito se a apanhasse a discutir a relao de ambos 
com Jake.
        Mas no era Ryan. Era T-bone. Bethany olhou para os olhos castanhos e inexpressivos do touro, sem saber se devia gritar ou dar-lhe os bons-dias. Olhou para 
a porta de correr envidraada, recordando-se do aviso de Ryan, de que o toiro entrava em casa se a porta no estivesse fechada.
        T-bone decidiu mugir to alto que o som fez vibrar as paredes.
        - Mas que raio, o que  que foi isso? - perguntou Jake do outro lado da linha.
        - Um touro. - Bethany imaginou o animal a dar-lhe uma marrada, como o vira fazer com Ryan. No tinha graa. Se a sua cadeira se virasse, o touro podia facilmente 
pis-la. - Tenho de desligar, Jake. Telefono mais tarde.
        - No ests em casa?
        - Eu, hmm... sim - admitiu ela.
        - Esse estupor parecia estar perto, como se estivesse em cima de ti. E ele estava em cima dela. Bem, quase.
        - Eu estou bem, Jake. J te ligo. - Bethany desligou e atirou o telefone para o sof. - Ol, T-bone - disse ela com pouca confiana.
        Grandes fios de baba pendiam como atacadores do enorme focinho do toiro. Empurrou o brao de Bethany. Ela estava  espera de sair disparara com um valente 
empurro, mas quase como se percebesse que ela era diferente, ele foi muito meigo. Com uma mo trmula, Bethany coou-lhe a cabea atrs das orelhas como vira Ryan 
fazer.
        - Acho que gostavas que eu te desse uma cenoura. Ficas aqui enquanto vou buscar uma. - "E atiro-a l para fora", pensou ela, engolindo em seco.
        Apressou-se a ir  cozinha. T-bone seguiu-a docilmente. Quando chegou ao frigorfico, teve de suportar o focinho hmido da criatura enquanto procurava na 
gaveta das verduras. O touro parecia gostar do seu perfume e do cheiro do champ. No parava de a cheirar. Ela tirou duas cenouras e deu-lhe uma, esperando conseguir 
contorn-lo enquanto ele a comia.
        Nada disso. O touro bloqueava-lhe a passagem, encurralando-a na cozinha enquanto apreciava a sua guloseima. Quando acabou, mugiu  espera de mais uma. Bethany 
estremeceu com o frio que saa do frigorfico enquanto lhe dava a segunda cenoura, comeando a procurar mais na gaveta. Ficou apreensiva quando viu que apenas restavam 
trs. T-bone no demoraria tempo nenhum a devor-las. O que faria quando ela no tivesse mais para lhe dar?
        Bethany no teve de esperar muito tempo para descobrir.
        - Acabou-se - disse ela numa voz trmula. - Est na hora de ir embora, matulo.
        O touro empurrou o focinho contra a blusa dela. Quando lhe descobriu a axila e comeou a cheirar, Bethany soltou uma gargalhada sobressaltada.
        - No h comida nenhuma a. Isso  desodorizante, seu pateta. T-bone cheirou-lhe o peito, empurrando-lhe ligeiramente os seios com o focinho. Bethany comeou 
a descontrair-se. Ele no parecia querer empurr-la. Apenas estava curioso. Ela suspirou e comeou a fazer-lhe festas.
        - Gostas de fruta, seu palhao? - Foi at ao balco e tirou uma ma da fruteira. - Toma. Bon apptit.
        O touro comeu a ma de uma assentada. Pareceu gostar. Sem perder tempo, Bethany deu-lhe mais uma, que ele tambm devorou num instante. Ela comeou a rir.
        - E que tal uns pezinhos e um pouco de queijo de barrar?
        Como se tivesse acabado de tocar o gongo para o jantar, Tripper acordou e entrou na cozinha. O grande Labrador dourado sentou-se ao lado do touro, com a 
lngua pendurada, os olhos castanhos fixos e implorativos. Ela agarrou no saco dos pezinhos e deu um ao co. T-bone farejou o po mas recusou-o educadamente. Todavia, 
adorava bananas, e comeu trs.
        Foi assim que Ryan encontrou Bethany alguns minutos mais tarde, a dar audincia na sua cozinha com um touro e um co. T-bone tinha descoberto as maravilhas 
da saia dela e estava a tentar descobrir o que haveria por baixo. Ela ria-se e empurrava-lhe a cabea.
        - Mas o que  que se passa com vocs? - perguntou ela ao bovino com uma gargalhada. - No, T-bone.
        Ryan apoiou os cotovelos na bancada e ficou a assistir durante um momento, tentando imaginar a reaco de qualquer outra das mulheres com quem sara se tivesse 
ficado presa na sua cozinha, encurralada por um touro. Histeria, certamente, e gritos de fazer abanar os vidros. Mas ali estava Bethany, numa cadeira de rodas, afagando 
calmamente o enorme animal, como se encontrar um touro dentro de casa fosse uma coisa corriqueira. Ryan nunca tivera maior certeza de que ela era a nica mulher 
no mundo para ele.
        - Ests a estragar os meus animais com mimos? - acabou ele por perguntar.
        Ela sobressaltou-se e riu-se quando o viu ali.
        - Ryan. Ainda bem que voltaste. Como podes ver, tenho aqui um pequeno problema.
        - So mais de quatrocentos quilos de problema, querida, no tem nada de pequeno. Eu tinha esperana de que ele encontrasse uma namorada e deixasse de andar 
to perto da casa. Em vez disso, apanho-o aqui a meter-se com a minha mulher assim que viro as costas.
        Ela brindou-o com um sorriso radioso.
        - No te preocupes. A tua mulher s tem olhos para ti. A princpio, tive medo, mas  quase como se ele soubesse que sou diferente.
        O touro escolheu aquele momento para tentar meter-se debaixo da saia dela, mas escolhendo um ngulo diferente.
        - No tenhas dvidas, ele est a registar as diferenas. J viu a minha me algumas vezes, mas, fora isso, nunca esteve perto de mulheres.
        - Quero dizer diferente porque sou deficiente. Nem acreditavas no cuidado que ele tem tido comigo.
        - Ainda bem. No gostava nada de ter de o mandar abater.
        - Oh, no! - Ela pareceu ficar horrorizada perante aquela sugesto. - Por favor, nem penses nisso. Eu sentia-me to mal. V s como ele  meigo.
        Ryan teve de admitir que o touro estava a ser incaracteristicamente cuidadoso. Sorriu, pensando se aqueles grandes olhos azuis de Bethany tinham nos touros 
o mesmo efeito que nos homens. Acabara de encontrar Sly nos estbulos e ele no se calara, sempre a dizer que aquela mulher era muito especial. "Bastou olhar uma 
vez para aqueles grandes olhos azuis e o meu velho corao derreteu-se", dissera-lhe ele.
        Ryan sorriu, recordando-se da expresso no rosto batido de Sly.
        - Parece que ele gosta de ti - disse ele a Bethany, sem a certeza de estar a falar sobre o capataz ou sobre o touro. - Mas, afinal, como  que ele entrou?
        Ela revirou os olhos.
        - Esqueci-me e deixei a porta de correr aberta. Ryan suspirou.
        - Animal pateta. - Contornou a bancada e assentou-lhe uma palmada para lhe chamar a ateno. - Vamos, T-bone. Est na hora de voltares l para fora, antes 
de decidires largar um presente no cho da minha cozinha.
        Bethany franziu o nariz e estremeceu.
        - Que ideia.
        Ryan conseguiu virar o touro e depois enxotou-o recorrendo ao seu chapu. Fechou a porta de correr, sentindo-se triste. Agora que Bethany passaria a estar 
sempre ali, teria de fazer alguma coisa a respeito de T-bone. Ryan no podia correr o risco de o animal poder mago-la. Da prxima vez, podia ter um ataque de mau 
feitio. Por natureza, era uma criatura imprevisvel.
        - Nem sequer penses nisso - disse ela.
        Ryan virou-se e encontrou-a parada atrs dele. Os seus grandes olhos estudavam-no.
        - Estou a falar a srio - disse ela com voz trmula. - A culpa foi minha, mas ele foi um perfeito cavalheiro. Se ele no estiver da prxima vez que eu vier 
c, nunca serei capaz de me perdoar.
        Ryan bateu com o chapu na perna.
        - Tenho medo de que ele te faa mal.
        Ela olhou para o touro, que ainda continuava do outro lado da porta.
        - Deves-lhe a hiptese de provar que no o far. Eu tenho cuidado, Ryan. Se ele se portar mal uma nica vez, prometo que te digo imediatamente. Que tal?
        Ryan olhou pelo vidro, recordando-se de T-bone em beb. Era uma tolice, um rancheiro a transformar touros em animais de estimao. Chamara-lhe T-bone exactamente 
para no se esquecer disso1, mas na altura o bezerro estava doente, obrigando-o a cuidar dele e, passado pouco tempo, comeara a gostar dele.
        - Vou pensar nisso - disse ele em voz baixa.
        - Vais ser um daqueles maridos que pensam que no faz mal tomarem todas as decises, independentemente do que eu sinto ou do que eu digo?
        Ryan olhou para ela, espantado. | - Claro que no. Isto  diferente.
        -  o que dizem todos. - Bethany ergueu o queixo pequeno e obstinado, uma caracterstica na qual ele reparara na primeira vez que a vira. - Se abateres aquele 
touro sem justa causa, nunca te perdoo. Fui clara? Ele riu-se.
        - Vais ser uma daquelas mulheres que metem o nariz nos meus assuntos e do a sua opinio quer eu queira quer no?
        Ela hesitou. Depois, o queixo ergueu-se novamente.
        - Provavelmente. Fui criada num rancho. No  como se eu no percebesse nada da criao de gado e de cavalos.
        - Estava  espera que dissesses isso. - Atirou o chapu para o bengaleiro. O chapu acertou no gancho, rodopiou e parou. - Ento quando  que vais largar 
esse emprego de secretria e ajudar-me a gerir este lugar?
        - Queres que eu largue o meu emprego na loja?
        
              1 T-bone, nos EUA, corresponde essencialmente ao que, no nosso pais, se chamaria uma costeleta. (N. do T.)
        
        
        - Se o Jake conseguir encontrar uma forma de sobreviver sem ti dava-me jeito ter a tua ajuda aqui. O dia no tem horas suficientes para tratar de tudo. Preciso 
de algum em quem possa confiar. Tu eras perfeita para gerir os estbulos. Percebes de cavalos e gostas deles tanto quanto eu.
        Um brilho de interesse entrou nos olhos de Bethany.
        - Eu no podia olhar pelos estbulos, Ryan. Estou numa cadeira de rodas.
        - No h um nico ponto aonde tu no possas chegar - recordou-lhe ele. - E tenho-te numa sela j para a semana. Podes olhar pelos livros, dar ordens, manter 
os empregados na linha e tratar das coisas pelo telefone, como eu. Diz-me uma coisa que no possas fazer s porque estas numa cadeira de rodas.
        - No posso fazer trabalho braal.
        - Isso no faz parte da descrio do trabalho. Os auxiliares tratam dessa parte. Os gestores gerem. Por isso  que lhes chamam gestores. Mesmo que no estivesses 
numa cadeira de rodas, dava-te uns acoites se te apanhasse a fazer trabalhos pesados. A minha mulher, no. Agora que o rancho est a correr to bem, contratamos 
homens para tratar disso, o que  muito melhor. O meu pai detestava quando no tinha outra hiptese seno contar com a minha me para fazer o trabalho de um homem, 
e por muito que ela goste disto, nunca mais voltars a v-la agarrada a uma forquilha.
        - O trabalho de um homem.
        Ryan viu um brilho de orgulho feminino naqueles olhos e apressou-se a esclarecer o que acabara de dizer:
        - Sabes o que quero dizer. So poucas as mulheres que tm a estrutura fsica para carregar feno ou um bezerro renitente. O meu pai ficava doente ao ver a 
minha me fazer coisas que lhe poderiam prejudicar as costas. Ela no  muito maior do que tu. Nunca foi uma questo de respeito nem de igualdade. Ela sempre foi 
igual a ele aqui no Rocking K, mas, por mais voltas que lhe ds, ela  diferente, com uma estrutura ssea mais delicada e menos msculos. Foi s isso que eu quis 
dizer.
        O indcio de um sorriso substituiu a expresso dela.
        - Aceito isso desde que admitas que uma mulher tem cabea suficiente para descobrir uma forma de compensar a sua falta de fora para fazer o que  preciso 
quando e necessrio.
        Ele sorriu.
        - No discuto. Mas, agora, isso nunca  necessrio. Ela descontraiu-se e sorriu.
        -  uma ideia muito tentadora. Adoraria fazer parte disto. - Olhou para os estbulos. - Mas, e se uma gua entrasse em trabalho de parto?
        - Chamavas o veterinrio, exactamente o mesmo que eu fao. Ela riu-se e revirou os olhos.
        - Tens uma resposta para tudo. A triste realidade  que, mesmo que eu possa comear a montar ocasionalmente contigo, no serei capaz de montar nem desmontar 
sem ajuda.  frente de um estbulo e incapaz de montar? No me parece.
        Ryan manteve os olhos fixos nos dela e fez um esforo para no sorrir.
        - J preparamos um elevador para ti. Completamente elctrico.
        - O qu?
        Ele aproximou-se dela e curvou-se, apoiando as mos nos braos da cadeira.
        - Um elevador. O assento  feito de nylon,  tua medida. Quando j estiveres na sela, solta-se das cordas e podes ficar com ele enquanto estiveres a montar. 
Quando voltares ao estbulo, s tens de prend-lo outra vez nos ganchos, sais da sela e voltas para a cadeira.
        Bethany ficou a olhar para ele durante um longo momento, sem expresso.
        - Um elevador - repetiu ela, como se nunca tivesse ouvido aquela palavra. - Para o estbulo?
        - Desenhado especialmente para ti. No foi assim to difcil. J tnhamos dispositivos elctricos para os cavalos. Modificamos um deles. O meu av era engenheiro 
de mquinas, e o meu pai herdou o jeito para desenhar engenhocas. A minha me preparou o assento na sua mquina de costura. Todos montamos e adoramos. Sabemos o 
prazer que ters se puderes subir para um cavalo sempre que quiseres.
        - Oh, Ryan.
        - No foi nada de especial - disse ele, quase receando que ela ficasse perturbada.
        Ela olhou para a porta.
        - Est neste estbulo?
        - A minha me ainda est a dar-lhe os ltimos retoques. Estar pronto antes de a tua sela chegar.
        - E funciona? - perguntou ela em voz baixa. - Como  que podes saber se funciona?
        Ryan apercebeu-se ento de que ela estava com medo de acreditar nele, de que aquilo era muito mais importante para ela do que imaginara, e ela no queria 
alimentar esperanas que depois poderiam no dar em nada.
        - Essa foi a contribuio da Maggie. Ela  mais ou menos do teu tamanho. A minha me usou-a como cobaia para fazer o assento.  capaz de a pr e de a tirar 
de um cavalo, sem problemas. Ela certificou-se de que no usava as pernas, tentou fingir que no podia. Conseguimos p-la numa sela, sem qualquer dificuldade.
        Um sorriso passou lentamente pela boca trmula de Bethany.
        - Posso v-lo?
        Ryan suspirou silenciosamente, aliviado.
        - Claro que sim. Agora, se quiseres.
        - Sim.
        Bethany no queria acreditar no que estava a ver quando Ryan lhe demonstrou como o elevador funcionava alguns minutos depois. Olhou para as calhas no tecto, 
fixas nas vigas. S podia estar a sonhar. As mulheres paralticas no podia ir at ao estbulo, saltar para um cavalo e ir passear como uma pessoa normal.
        Parecia que Ryan Kendrick no conseguira aceitar aquele facto. Em vez disso, estudara o problema sob todos os ngulos, recrutara a sua famlia maravilhosa 
para o ajudar e descobrira uma forma incrvel de fazer com que o impossvel acontecesse. Bethany imaginou Keefe e Ann Kendrick, juntamente com Rafe, Maggie e Ryan, 
todos reunidos naquela baia, a pensar e a trabalhar, a tentar fazer com que um pequeno milagre acontecesse.
        "Nunca digas que no consegues." Ryan dissera-lhe que acreditava nesse lema, mas aquilo excedia todas as suas expectativas. Um elevador no estbulo, o seu 
bilhete para a liberdade. Poderia montar Wink sempre que lhe apetecesse e sentir o vento novamente no rosto.
        Bethany olhou para os belos olhos azul-ao de Ryan. Era impossvel no ver o amor que brilhava neles.
        - Tinha a esperana de que isto te fizesse feliz - disse ele.
        - No tenho palavras. Isto ... bem,  incrvel, Ryan. S posso estar a sonhar. Tenho medo de que algum me acorde e tu desapareas numa baforada de fumo.
        - No - garantiu-lhe ele. - Eu sou real, e ests presa a mim para sempre.
        - Oh, espero que sim. Para sempre parece-me muito bem. Ele esfregou o queixo e olhou para o elevador.
        - Passou-me pela cabea que talvez esteja a atirar-te com muita coisa para cima ao mesmo tempo.
        - Oh, Ryan, no. Para alm da Wink, este  o presente mais incrvel que alguma vez recebi.
        - No te quero forar. Ns, os Kendricks,  um defeito que temos com as mulheres que amamos. No quero que fiques intimidada.  s que, bem, est-me no sangue, 
acho eu. O meu pai, com a minha me. E no acreditavas no que o Rafe fez com a Maggie. Temos a tendncia para exagerar um pouco.
        - Um pouco? - A cabea de Sly apareceu na porta. - Rapaz, vocs so como bulldozers. Quando assentam os olhos numa mulher, ela no tem hipteses. - Piscou 
o olho a Bethany. - Bom dia, querida. Como  que ests num dia to bonito?
        Bethany teve vontade de ir ter com ele e abra-lo. Em vez disso, olhou-o nos olhos, tentando dizer-lhe com o olhar o que no podia dizer em voz alta: que 
nunca se esqueceria da noite anterior e da amizade dele.
        - Estou ptima, Sly. E tu?
        - Nunca estive melhor. - Os seus olhos ainda brilhavam quando olhou para Ryan. - Parece que lhe passou o mau feitio e tu sobreviveste. Claro que eu j sabia 
que isso ia acontecer. Igualzinho ao pai, esse rapaz. Chegas-lhe um fsforo quando est maldisposto e  capaz de fazer tudo em fanicos, mas quando a poeira assenta 
e como se nada tivesse acontecido.
        Bethany sorriu.
        - Ele estava um pouco espevitado, mas assentei-lhe uma e disse-lhe que se comportasse.
        Sly assentiu.
        - Ainda bem, querida.  a nica maneira de lidar com ele.
        Ryan disse qualquer coisa entre dentes e olhou de lado para o capataz.
        - Precisas de alguma coisa, Sly?
        - No. - Sly riu-se e piscou um olho a Bethany. -  melhor eu parar de olhar para ti. Est a ficar todo ciumento. - Virou-se para sair, parou e voltou atrs. 
- A propsito, o Rafe foi buscar o teu pai. Ele disse que se ficssemos  espera que tu largasses a Bethany, o teu pai havia de ficar to danado que mais pareceria 
um texugo raivoso.
        Ryan riu-se.
        - Podamos ter mandado a minha me. Ela consegue dar conta dele. Sly piscou novamente o olho a Bethany.
        - Ouviste isto, querida? Presta ateno  Annie. Ela ensina-te tudo o que tens de saber.
        Bethany riu-se.
        - A srio?
        A cara tisnada de Sly enrugou-se num sorriso.
        - Certinho. No h um homem que tenha coragem para enfrentar o Keefe quando ele est danado. Mas a nossa Annie leva-lhe a melhor, e com uma mo atrs das 
costas.
        Bethany ergueu as sobrancelhas.
        - E quem  que ganha?
        - A Annie - respondeu Sly com uma gargalhada. - Sem levantar os braos. O Keefe desistiu de lhe fazer frente h vinte anos. Limita-se a abanar a cabea e 
deixa passar. Seja como for, ela tem razo na maioria das vezes, portanto, no h problema.
        Ryan suspirou.
        - Sly, faz-me um favor e cala-te. No lhe metas ideias na cabea.
        - No me agrada nada dizer-te isto, mas ela nasceu com ideias naquela cabea. No precisa que eu as meta l.
        Sly foi-se embora. Ryan ficou a olhar para ele durante um momento, riu-se e arrastou o taco da bota na terra.
        - Raio de feitio, no?
        - Ele  maravilhoso - disse Bethany, e estava a falar a srio. Quando Ryan olhou para ela, havia uma mensagem silenciosa na sua expresso.
        - Nunca encontrars um amigo melhor. Eu fiquei um pouco irritado com ele ontem  noite, mas ainda bem que ele estava aqui para falar contigo.
        - Ele adora-te. Tens a noo do quanto?
        - Era capaz de dar a vida por mim. No duvido.
        - No te esqueas disso - disse ela em voz baixa. - Se alguma vez ele precisar que tu o defendas, Ryan, no te esqueas disso.
        Uma expresso intrigada passou pelo rosto dele.
        - Acho que sim. E como se fosse um segundo pai. - Olhou para ela. - Porque  que disseste isso?
        Bethany sorriu e encolheu os ombros.
        - Nada em especial.
        - H algum motivo. Eu conheo-te. O Sly est metido nalgum sarilho?
        Bethany sentiu uma vontade quase irresistvel de trair a confiana de Sly naquela ocasio. Acreditava do fundo do corao que Ryan entenderia os sentimentos 
do velho capataz por Helen, assim como ela entendera, e que ele enfrentaria toda a famlia por ele se fosse necessrio. Mas no lhe competia falar no assunto.
        - No te esqueas deste momento. Se alguma vez duvidares dele, se alguma vez a honra dele for posta em causa, recorda-te deste momento e pe de parte as 
tuas dvidas. Defende-o.  s isso que eu estou a dizer. Ele merece, no achas?
        Ryan olhou para o lugar onde o capaz estivera momentos antes.
        - Sem dvida. Mais do que isso.
        Bethany soube ento que tudo iria correr bem; que, quando chegasse a altura, Ryan ficaria ao lado de Sly e o defenderia. Era tudo o que ela precisava de 
saber.
        
        
     Captulo Dezanove
        
        
        Mais tarde nessa manh, enquanto Ryan trabalhava, Bethany foi  cidade para tratar da comida e da gua de Cleo. Antes de regressar ao rancho, parou em casa 
dos pais. Estava na altura de lhes falar sobre a reviravolta inesperada na sua vida. Se esperasse, eles acabariam por saber da sua relao com Ryan atravs de outra 
pessoa, e ela achava que os seus pais mereciam mais considerao.
        Harv Coulter no se mostrou particularmente entusistico quando soube que a sua filha paraplgica estava a pensar casar-se com um homem que conhecera h 
menos de dois meses.
        - Vais fazer o qu? - perguntou ele quando Bethany lhe contou.
        Nunca tanto como naquele momento Bethany se apercebeu da semelhana entre o seu pai e Jake. Altos, morenos e ameaadores seria uma expresso que os descreveria 
bastante bem.
        Baixou a cabea e comeou a brincar com as pregas da saia cor de vinho, que fora muito mais fcil de vestir naquela manh sem a ajuda do elevador do seu 
quarto. Podia ter pedido ajuda a Ryan para se vestir, naturalmente, e ele t-lo-ia feito de boa vontade, mas, para alm da sua determinao em ser auto-suficiente, 
receara que um tal pedido o tivesse levado a adiar o seu trabalho mais uma vez. Sempre que ele a tocava de uma forma mais ntima, parecia que acabavam sempre por 
ir parar ao quarto, o que era delicioso mas no muito produtivo quando havia animais  espera de serem alimentados. Assim que Ryan transferisse todo o seu equipamento 
para casa dele, ela passaria a assumir o papel da mulher de um rancheiro, prometera a si mesma, com aquelas calcas de ganga justas e as camisas de franjas de que 
ele gostava tanto.
        Quando voltou a levantar a cabea, estava a sorrir e teve de se desembaraar daqueles pensamentos e regressar ao assunto em questo. Olhou de fugida para 
a me. Mary Coulter sorriu e poisou uma mo no ombro do marido.
        - Harv, a nossa menina nunca foi dada a caprichos. Ouve o que ela tem a dizer, e no te esqueas de que ela sempre foi ajuizada.
        Harv olhou para a filha com uma expresso preocupada.
        - O Ryan Kendrick  um malandro. Salta de mulher em mulher, nunca se compromete. O que  que ests a pensar, que tu  que o vais domar? Casa com ele  hs-de 
arrepender-te.
        - Ele no  assim, pai. Talvez tenha dado umas voltas a mais. Ele  o primeiro a admiti-lo, por acaso. O que  que um homem h-de fazer quando anda  procura 
da mulher certa? O Jake d as suas voltas e o pai no lhe chama malandro.
        Harv bateu com o saleiro na mesa. Depois, olhou desamparado para a mulher:
        - Mary, fala com ela.
        A me de Bethany pareceu ficar desconcertada.
        - E digo o qu?
        - Mete-lhe juzo na cabea. Diz-lhe que  uma loucura casar com um - Harv agitou a mo - malandro como o Ryan Kendrick!
        - Mas, Harv - disse Mary em voz baixa -, a Bethany tem razo. Se a incapacidade de assentar  um indicador, at o nosso Jake tambm  um malandro. E tu tambm 
foste. Os meus pais tiveram um ataque quando comecei a sair contigo. Lembras-te? O meu pai dizia que tu no prestavas, que me ias partir o corao. E tu nunca o 
fizeste.
        Harv assentou os cotovelos na mesa e poisou a cabea nas mos.
        - Mas que raio, Mary, isso foi diferente, e tu sabes. Admito, andei atrs de uns quantos rabos de saia, mas estava  tua procura em todos eles.
        Mary sorriu e olhou para a filha com uma expresso sem maldade.
        - O teu Ryan tem andado a mexer em saias que no devia, querida?
        Harv gemeu. Bethany engoliu uma gargalhada horrorizada. Finalmente, a sua me admitia que a concepo acontecia debaixo de saias e no dentro de botas. Devia 
registar aquele dia na Bblia da famlia.
        - Sim, me - conseguiu ela dizer com um ar srio. Olhou para o pai, que continuava agarrado  cabea. - No sei em quantas saias o pai mexeu, mas o Ryan 
teve de mexer numas quantas antes de me encontrar.
        - Raios - murmurou Harv novamente.
        - Ento, ento. - Mary inclinou-se e sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido que o deixou com as orelhas vermelhas. Quando se endireitou, deu uma palmadinha 
na mo do marido, sentou-se e olhou a filha nos olhos.
        - Ele ama-te, Bethie? Quando ele olha para ti, sentes que era capaz de atravessar um fosso cheio de cascavis por ti?
        - Me, eu acho que ele era capaz de se deitar e dormir com elas por mim.
        Mary assentiu e apertou as mos da filha.
        - Ento, ele  o tal. Uma mulher sabe essas coisas. A vida est pejada de provaes. Se tu sabes, sem qualquer dvida, que ele fica ao teu lado e que te 
proteger seja l do que for,  o homem certo.
        Bethany assentiu.
        - Ele morria por mim, me.  to maravilhoso. Os olhos de Mary brilharam.
        - Quando  que o trazes c a casa para o conhecermos?
        - Eu j o conheo - disse Harv, obrigando as palavras a sair entre dentes cerrados. -  um menino rico de falinhas mansas, bonitinho que tem andado a brincar 
h tanto tempo que j no sabe qual e o significado da palavra "honra".
        - Isso no  verdade - disse Bethany. - Ele  um homem to honrado como qualquer um dos meus irmos!
        Harv apontou-lhe um dedo ao nariz.
        - Os teus irmos nunca fariam promessas a uma rapariga se no tencionassem cumpri-las. No dia em que eu entregar a tua mo ao Ryan Kendrick e ele disser 
"Aceito", como as minhas cuecas.
        Depois de falar com os pais, Bethany passou pela loja para falar com Jake. O irmo estava cheio de trabalho, tentando atender clientes enquanto preenchia 
uma nota de encomenda. No obstante, sorriu quando a viu.
        - Tinha a esperana de conseguir alguns minutos de conversa contigo - disse Bethany com uma gargalhada. - Mas j vi que no vai ser possvel.
        Jake ergueu um dedo para lhe indicar que esperasse. Acabou de atender um cliente, pediu a um empregado que o substitusse e acompanhou Bethany at ao elevador. 
J no piso superior, foram para o escritrio.
        Jake sentou-se numa cadeira e poisou as botas na borda da secretria.
        - Tem sido uma daquelas manhs. No voltaste a ligar-me, palerma. Fiquei um pouco preocupado. Parecia que aquele touro estava dentro de casa.
        Bethany sorriu.
        - E estava. - Passou a explicar o que acontecera com T-bone. - O Ryan ficou bastante incomodado, mas acho que o convenci a deixar ver o que acontece.
        Jake suspirou e franziu o sobrolho.
        - No o posso censurar por ficar preocupado. Os touros podem tornar-se desagradveis.
        - O T-bone  uma excepo.  grande e desastrado, mas foi to meigo comigo. Logo vemos.
        Jake olhou para o relgio.
        - Ento, querias falar comigo sobre o qu?
        Bethany olhou para uma fotografia dos cavalos dele, pendurada na parede. Jake, o encantador de cavalos. Sabia que ele tinha a esperana de um dia poder comprar 
um rancho, que no pensava ficar o resto da sua vida  frente de uma loja de equipamento. Se algum pudesse entender o que ela estava prestes a dizer, esse algum 
seria ele.
        - Quero falar contigo sobre duas coisas.
        - Pareces preocupada.
        - Preocupada, no exactamente. Estou a sentir-me um pouco culpada por causa de uma deciso que tomei. Se isto te deixar numa posio difcil, Jake, no quero 
que tenhas problemas em dizer-mo. Est bem?
        Ele poisou os ps no cho e chegou-se  frente na cadeira.
        - O Ryan pediu-te para largares a loja.
        - Se precisares de mim aqui para aguentar as pontas, eu fico.  s que, bem, o Ryan tem tudo preparado para eu poder ajud-lo no rancho, e a oportunidade 
... - calou-se. Ia dizer que era um sonho tornado realidade, mas no lhe parecia justo. Jake tambm tinha sonhos, mas estava ali, a frente do negcio da famlia 
em lugar de tentar realiz-los.
        - A oportunidade  demasiado boa para no aproveitar? - concluiu Jake por ela. Suspirou e deixou passar um momento enquanto arrumava alguns papis na secretria. 
- Sou capaz de fazer alguns malabarismos e desenvencilhar-me sem ti. Se foi isso que me vieste pedir, considera-o feito.
        - Eu no quero ser egosta e injusta contigo. Tambm fao parte desta famlia.
        Jake sorriu e olhou em redor.
        - Obrigado. Mas a verdade  que eu estou a ajudar-me a mim prprio tanto quanto estou a ajudar o pai. Quando o mdico lhe disse que tinha de comear a ir 
com mais calma, ele ia vender a loja. O negcio est a correr bem e h sempre gente interessada. Mas eu pedi-lhe para esperar.
        - Pediste? Pensei que querias comprar um rancho.
        - E quero. - Jake sorriu e bateu com uma caneta no tampo da secretria. - E hei-de comprar. Mas se poupar durante mais uns meses fico melhor preparado. J 
tenho de lado uma boa entrada. Agora, estou a tentar juntar mais capital. Com a gesto da loja, consigo fazer isso. O pai retira uma importncia fixa todos os meses. 
Uma certa percentagem dos lucros  reservada automaticamente para o desenvolvimento da loja. O resto  meu, como se isto fosse meu. O que me entra no bolso depende 
exclusivamente do quanto eu estiver disposto a trabalhar. Na maioria dos meses, tenho-me sado bem. Bethany ficou a olhar para ele.
        - Ou seja, pediste-me para largar o emprego em Portland e voltar para casa, sabendo que querias ficar com a loja s durante mais alguns meses?
        Ele riu-se.
        - Antes de eu decidir chamar-te, o Zeke j tinha resolvido ficar com a loja quando eu sair. Tens um emprego aqui enquanto o quiseres. Naqueles primeiros 
meses, ajudaste-me a aguentar isto. As coisas agora esto mais calmas. Posso passar sem ti.
        - Oh, Jake, tens a certeza?
        - Vai viver a tua vida, Bethie. O Ryan est a oferecer-te um negcio muito melhor. Quando chegar a altura, eu no hesito em ir atrs do meu sonho. Porque 
 que tu no havias de fazer o mesmo?
        - S no te quero deixar se ests a precisar de mim. Ele largou a caneta.
        - Bem, no preciso; portanto, faz-te  estrada.
        - Tenho medo de que estejas s a dizer isso porque  o que eu quero ouvir.
        Um brilho desconfiado surgiu nos olhos de Jake.
        - H oito anos, fiquei sentado ao lado da tua cama, noite atrs de noite. Saa do trabalho e ia directamente para o hospital. Lembras-te?
        Ela assentiu.
        - Sempre me ri e conversei e fingi que tudo ia ficar bem - disse ele. - Tu precisavas que eu fosse forte por ti. Mas muitas vezes, depois de adormeceres, 
eu ficava ali sentado a chorar como uma criana, a pedir a Deus que nos desse um milagre. Tu s tinhas dezoito anos, e a tua vida tinha sido destruda.
        Bethany baixou os olhos, o peito apertado por uma dor terrvel. Jake. Ela no estivera sempre a dormir quando ele tinha chorado.
        - Deus no entendeu que tu devesses voltar a andar e, at agora, tive medo de que tu nunca te casasses e tivesses uma vida normal. Agora, bingo, aparece 
o Ryan Kendrick. Parece que ele te adora. Est a oferecer-te uma vida que eu sei que vais adorar. Como  que tu achas que eu me sinto?
        - Feliz? - murmurou ela.
        - To feliz, Bethie. Tens esta oportunidade incrvel de seres feliz. Muito, muito feliz. Vai. No olhes para trs. No h ningum que merea isto mais do 
que tu.
        - Oh, Jake... Como  que eu tive tanta sorte? De todos os irmos do mundo, tu s o melhor.
        - No temos de ser mais pegajosos do que  preciso. Qual era a segunda coisa que me querias pedir?
        Bethany respirou fundo.
        - Estava a pensar se tu te importarias de falar com o pai. Ele no est nada satisfeito com o meu casamento...
        Jake rebentou s gargalhadas.
        - Aqui  que eu assumo o papel do irmo safado. Nem penses.
        - Mas...
        - No. - Jake levantou-se da cadeira. - O pai  um problema do Ryan. Se ele  metade do homem que eu penso que , vai procurar o nosso pai e  ele quem fala.
        - Mas o problema  esse. Eu no quero que ele saiba que o pai est a espumar pela boca. A famlia dele aceitou-me de braos abertos.
        - E porque no o havia de ter feito? O Ryan tem muita sorte por te ter encontrado.
        - Na tua opinio. No reverso da medalha, eu no sou igualmente sortuda por o ter encontrado a ele?
        Jake riu-se de novo.
        - Talvez, mas o Ryan  que tem de convencer o nosso pai. No tenho mais nada a dizer. Fim de conversa. No me vou meter no meio.
        Enquanto regressava ao Rocking K, Bethany tentou no deixar que a reaco do pai estragasse a sua felicidade. Ryan. Ela amava-o tanto. Jake acabara de a 
libertar, deixando-a ir atrs do seu sonho. Tinha todos os motivos para estar contente.
        No obstante, quando chegou ao rancho e estacionou a carrinha, sentia um peso no corao. Adorava o seu pai. Ele estivera sempre do seu lado e magoava-a 
saber que o mesmo no acontecia agora.
        - O que  que se passa? - perguntou-lhe Ryan quando viu a cara dela. - A Cleo est bem?
        - A Cleo est ptima. - Bethany olhou para o lago, desejando no ter de lhe dizer aquilo. Mas se ela se calasse, Ryan teria uma desagradvel surpresa quando 
fosse falar com o pai dela. - Oh, Ryan. Passei por casa dos meus pais.
        Ele acocorou-se diante dela.
        - Ui. Espero que no tenhas resolvido dizer-lhes que eu te tinha pedido em casamento.
        - Como assim? Eles so meus pais. Claro que lhes disse. Ryan empurrou o chapu para trs.
        - Querida, se o teu pai for minimamente parecido com o meu, deve ser bastante antiquado.
        - Um pouco. E ento?
        - Os pais antiquados tm ideias determinadas a respeito da forma como estas coisas devem ser feitas. Eu tenho de ir falar com ele e pedir-lhe a tua mo. 
Isso d-lhe a oportunidade de me massacrar durante algum tempo e fazer-me penar. Se eu disser as coisas certas, ele fica satisfeito. Se no disser, ele manda-me 
dar uma volta. Bethany engoliu em seco.
        - O que  que acontece se ele te mandar dar uma volta? Ryan piscou-lhe o olho.
        - Isso no vai acontecer. Eu sou um falinhas mansas.
        - Essa  uma das coisas que ele no gosta em ti.
        Ele lanou a cabea para trs e desatou as gargalhadas. Quando acalmou, disse-lhe:
        - Eu posso com ele, querida. No te preocupes. Est bem? Ele vai ficar a pensar que eu sou a melhor coisa desde a inveno das pipocas.
        Depois de entregarem os papis para a certido de casamento naquela tarde, Ryan deixou Bethany em casa dela. Enquanto ela emalava algumas peas de roupa, 
Ryan foi falar com pai dela. Depois de dois minutos de conversa, Ryan encontrava-se no alpendre de casa dos Coulters, a pensar como  que tudo podia ter corrido 
to mal.
        Os gritos do homem ainda lhe ressoavam nos ouvidos quando entrou na carrinha. "Um malandro e um valdevinos" J ningum usava aquelas expresses. Que raio. 
O homem ainda vivia na Idade das Trevas.
        J na carrinha, Ryan imaginou a expresso desolada de Bethany quando lhe contasse como o encontro tinha corrido. Bateu com o punho no volante e olhou furioso 
para a casa dos pais dela, pensando que podia comprar umas mil iguais quela e ainda ficar com uns trocos. Mas quem  que aquele tipo pensava que era?
        Ryan quase ligou o motor e partiu. Mas, no, no podia ser. Em vez disso, voltou a sair, bateu com a porta e encaminhou-se para o alpendre. Ainda furioso, 
subiu os degraus. Aquele homem era o pai de Bethany e, por esse motivo, Ryan respeit-lo-ia. Mas recusava-se a ir-se embora com o rabo entre as pernas.
        Bateu  porta, praguejando entre dentes.  espera que fosse a me de Bethany a aparecer, como acontecera antes, fez por controlar a sua expresso. Ento, 
a porta escancarou-se e ele deu por si cara a cara com o pai. Olhos azuis como os de Bethany pareciam chispar.
        - Mr. Coulter, gostava que, pelo menos, ouvisse o que tenho a dizer - comeou ele.
        - Voc no tem nada a dizer que me possa interessar ouvir. Se a minha filha se casar consigo, ser contra a minha vontade. E a minha ltima palavra.
        Ryan perdeu a calma:
        - A questo no se pe em termos de "se". Eu vou casar com a sua filha. Nada do que possa dizer ou fazer me h-de impedir. Somos ambos adultos e  a ns 
que cabe decidir. Estou aqui apenas por cortesia, Mr. Coulter, mais pela Bethany do que por si. A sua aprovao  muito importante para ela.
        - To depressa me pede autorizao como, logo a seguir, est a dizer que se est a borrifar se eu lha dou ou no. Chama a isso cortesia? - A cara de Harv 
estava vermelha. - Saia do meu alpendre!
        - Pode obrigar-me a sair, mas de que  que isso lhe serve? Quando der por isso, eu estou de volta, e peo-lhe outra vez a mo da sua filha.
        - E eu digo no, outra vez. Voc no est  altura dela.
        - No existe um nico homem na Terra que esteja.
        - men.
        - J que estamos esclarecidos, d-me pelo menos o benefcio da dvida e acredita que eu farei o melhor possvel para ser metade do que ela merece?
        - Hmmmf. Ryan suspirou.
        - Oia, Mr. Coulter, eu entendo o que est a sentir.
        - No, que raio, voc no entende o que eu sinto. E queira Deus que nunca entenda. A minha filha no  como as outras raparigas. No quero que ela tenha 
mais desgostos, e "desgosto"  o que voc tem escarrapachado na testa.
        Ryan tentou ser paciente.
        - Eu sei que a Bethany tem alguns problemas muito especiais e que vai ser preciso um homem especial com muita resistncia para a fazer feliz. Sei que voc 
no acredita que eu seja capaz. Estou a dizer-lhe que sim, e dou-lhe a minha palavra de que nunca a magoarei.
        - S lhe fica bem. Mas eu no tenho como saber se a sua palavra vale alguma coisa. Conheo o seu pai, e ele  um bom homem. Mas isso no quer dizer nada 
em relao a si.
        - Foi ele quem me criou, no foi?  verdade que nunca me aguentei muito tempo numa relao. Mas isso foi porque ainda no tinha encontrado a mulher certa.
        - Oia, isto no  nada de pessoal. Est bem? A nossa Bethany, se ela fosse como as outras mulheres, eu talvez estivesse muito mais descansado. Mas no . 
Como  que voc vai sentir-se daqui a um ano quando o brilho tiver passado e der por si preso a uma mulher numa cadeira de rodas? O que  que acontece  minha menina?
        - Ou seja, em vez de correr um risco comigo, prefere partir-lhe o corao agora?  o que voc est a fazer, a partir-lhe o corao.
        Harv pestanejou.
        - Desculpe?
        -  verdade. Ela quer que o senhor fique feliz por ela, e saber que isso no acontece est a estragar aquela que deveria ser a ocasio mais feliz da vida 
dela. - Ryan olhou-o nos olhos. - No o censuro por gostar dela e ter medo por ela. Mas para ela ter uma vida normal, o senhor tem de a deixar viv-la. No a pode 
proteger de tudo, no sem ser o homem que mais a magoa.
        - Eu nunca faria nada que magoasse aquela rapariga.
        - Ento, d-nos a sua bno - disse Ryan num tom normal. A me de Bethany apareceu  porta e sorriu a Ryan.
        - Considere-a dada. Diga  Bethany que o pai dela no podia estar mais feliz, e que o dia do casamento da filha ser tambm o mais feliz da vida dele.
        - Mary - disse Harv em tom de aviso.
        - V - insistiu Mary. - E d-lhe um abrao por mim. - Passou o brao pelo do marido. - Eu trato das coisas aqui.
        - Mary! - disse Harv novamente.
        Ryan calculou que Mary pudesse lidar com o seu marido sem a sua ajuda, aceitou o conselho e comeou a dirigir-se para a carrinha.
        - Uma coisa que fique bem clara, Kendrick! O dia em que eu descobrir que fez a minha menina chorar ser o pior da sua vida!
        Ryan estava a rir-se quando ligou a ignio. Nunca fora to ameaado na sua vida desde o dia em que conhecera Bethany. Primeiro, Jake, agora, o pai dela. 
Mas que raio. J s lhe faltavam quatro irmos. Abanou a cabea. Aquela gente era to conflituosa que fazia com que os Kendricks parecessem mansos.
        De p no quarto de dormir de Bethany, Ryan espreitou um saco que ela acabara de encher de roupa. Retirou uma camisa de dormir de flanela. Depois, uma T-shirt 
do Snoopy. Assim que fosse possvel, teria de lev-la s compras, alguma lingerie nova, decidiu ele. Rendas transparentes estavam mais de acordo com o seu gosto.
        Ela voltou-se e viu a expresso na cara dele.
        - O que  que se passa? - perguntou ela com um sorriso travesso. - No gostas da minha T-shirt do Snoopy?
        - Adoro o Snoopy. - Voltou a guardar a T-shirt no saco. - Estava a pensar noutra coisa.
        - Estavas a fazer cara feia. - Bethany pareceu ficar preocupada. - Houve algum problema com o meu pai que no me tenhas contado?
        - Ele estava um pouco agressivo. Nada que eu no conseguisse resolver. Temos a bno dele. Isso  tudo o que importa. Certo?
        - Certo. - Ela suspirou e olhou em redor. - Tenho o suficiente para me arranjar. Excepto o elevador da casa de banho. Importas-te de o levar para a carrinha?
        - No vais precisar dele.
        - E como  que eu tomo banho?
        Ele sorriu e agitou as sobrancelhas.
        - Adivinha. Ela corou.
        - s um querido, mas eu sentia-me muito mais confortvel com o meu elevador.
        - E que graa  que tinha? - A sua voz transformou-se num sussurro: - Quando eu acabar de te lavar, hs-de estar to limpa que at ranges.
        Ela desviou o olhar.
        - Por muito divertido que isso possa ser, gosto de fazer as coisas sozinha, e no quero depender de ti para poder tomar um banho.
        - J encomendei um melhor. Bethany olhou imediatamente para ele.
        - Ryan. O que  que j me compraste que eu ainda no saiba?
        - No foi muita coisa.
        - O qu, exactamente?
        - Queres ficar aqui a noite toda?
        - Comeo a ficar incomodada.
        - Porqu?
        - Porque ests farto de gastar dinheiro comigo. Quero dizer, por um lado, sei que vamos casar, e eu no devia sentir-me assim. Mas, por outro, sinto que 
estou em dvida para contigo.
        - Por mim, perfeito.
        - Perfeito, o qu? Ele piscou-lhe o olho.
        - Que te sintas em dvida. Ocorre-me uma srie de formas fantsticas de resolver essa dvida.
        - Como administradora dos teus estbulos?
        - No. Por esse servio, a empresa paga-te um ordenado. - Olhou para a cama dela. - Estava a pensar em algo mais interessante.
        Ela riu-se quando ele comeou a aproximar-se.
        - Nem penses.
        - Porqu?
        - Pode aparecer algum. Todos os meus irmos tm chaves.
        Ao ouvir aquilo, Ryan parou imediatamente. Prendeu os polegares no cinto e mirou-a demoradamente.
        - Ainda nem sequer estamos casados e j sofro de cunhadite. Mas no faz mal. Hoje  quinta-feira. Tenho planos para ti mais tarde.
        - O que  que quinta-feira tem a ver seja com o que for? Um brilho aqueceu-lhe os olhos.
        -  a tua noite de natao. Tenho uma piscina interior, aquecida nas traseiras da casa. Vou dar-te algumas lies.
        - Eu j sei nadar. Acabei contigo, lembras-te?
        - Nunca viste a minha verso do estilo "bruos". Ela riu-se de novo.
        - Vais ver que o tecto de l tambm  muito mais interessante. Tenho clarabias. Quando eu te largar junto  piscina depois de te ensinar o meu estilo, podes 
olhar para as estrelas enquanto eu...
        Cleo comeou a roar-se na perna dele naquela altura. Ryan calou-se para olhar para ela. Quando viu quem o tinha interrompido, inclinou-se e agarrou na gata.
        - Raio da criatura. Eu estava embalado.
        - Ela tem-se sentido sozinha. Nunca a deixei por sua conta durante tanto tempo.
        - Nesse caso, levamos esta peste connosco - sugeriu ele.
        - Eu tinha a impresso de que no gostavas muito de gatos...
        - E no gosto. Detesto gatos. Sabias que, se morreres, ela come-te?
        - Nada disso! Quem  que te meteu uma ideia dessas na cabea? Cleo semicerrou os seus olhos verdes. Ryan retribuiu.
        - Sei que  verdade. Quando era pequeno, a vizinha da minha av morreu e os gatos dela j quase a tinham despachado quando algum finalmente a encontrou.
        - Talvez os coitadinhos tivessem ficado esfomeados porque no havia ningum para os alimentar.
        - Ela alimentou-os. - Aquela ideia provocou-lhe um arrepio. - Nunca imaginaste no que esta gata est a pensar quando te olha desta maneira? Eu acho que ela 
est a pensar em comer-me ao almoo com uns biscoitos a acompanhar.
        - No est nada. Provavelmente, s est com medo que lhe faas mal. Ela gosta de comida gourmet. Sem ofensa, mas no me parece que te ache apetitoso.
        - Mas tu, sim. - Piscou-lhe o olho. - No h duvida, as minhas papilas gustativas acham-te interessante.
        Ela corou de novo.
        - S sabes pensar nisso?
        - Essencialmente. Dizem que o macho normal pensa nisso de quatro em quatro minutos.
        - Ests a gozar. Tu no s assim, pois no?
        - No. Acho que sou um pouco "subsexuado". Chego a passar dez minutos sem pensar nisso. - Piscou-lhe outra vez o olho. - Ests pronta? Eu posso levar aqui 
a olhos verdes e um saco se levares o outro.
        - Por acaso, Ryan, eu estava a pensar que talvez pudesse dar a Cleo  minha me. Os gatos so sensveis. Ela precisa de uma casa onde seja amada e compreendida.
        Ryan olhou para os olhos ligeiramente vesgos da gata, pensando que a coitada devia ser um pouco atrasada.
        - Ns compreendemo-nos, querida. - Cleo compreendia que ele no gostava dela, e ele compreendia que ela no gostava dele. O nico motivo que a levava a esfregar-se 
na sua perna era para largar plo. - E eu vou aprender a am-la, prometo. - Com a sorte que ele tinha, o raio da criatura havia de viver at aos vinte anos. - Gosto 
de todos os animais.
        - No sei. Ela nunca esteve perto de ces. Tenho medo de que no goste do Tripper.
        Ryan prendeu a gata debaixo do brao.
        - Ela e o Tripper vo dar-se muito bem. Ele  simptico com os gates do celeiro em casa do Rafe.
        Meia hora mais tarde, depois de uma viagem pssima com Cleo pendurada de cabea para baixo no tecto da carrinha durante a maior parte do tempo, Ryan conseguiu 
finalmente levar a gata para casa. Quando a largou na sala, Tripper aproximou-se imediatamente para travar amizade. Habituado aos gatos de celeiro, que no tinham 
medo de ces, o Labrador nem se apercebeu das garras da gata. Levou uma patada em pleno focinho, latiu e ganiu e foi a correr para o quarto de dormir. Cleo fugiu 
na direco oposta, saltou para os estores e escalou-os para se refugiar na sanefa de madeira, onde arqueou as costas, eriou o plo e bufou, mais parecendo uma 
decorao da Noite das Bruxas.
        - Bom - disse Ryan -, comeamos bem. Bethany foi at ao quarto de dormir.
        -  Tripper? Anda c, querido. Deixa-me ver esse focinho. - No interior do quarto, gritou: - Ryan, ele no est aqui.
        A no ser que tivesse partido uma janela, o co tinha de estar ali algures. Ryan foi ter com Bethany e procedeu a uma busca. Acabou por encontr-lo escondido 
na banheira.
        - Se no s o pretexto de co mais lamentvel que eu alguma vez vi - disse ele. - No posso acreditar, Tripper. Tens mais cinquenta quilos do que aquela 
gata.
        - Oh, Ryan, ele tem o focinho a sangrar. - Bethany parou a cadeira ao lado da banheira e debruou-se para o examinar. - Coitadinho. Ela deu-te com fora.
        Ryan inspeccionou a ferida.
        - No morre. Apenas arde um bocadinho. Bethany olhou-o com uma expresso preocupada.
        - Espero que isto no seja um indcio de como a nossa vida vai ser.
        - Nem sequer penses nisso. A nossa vida vai ser totalmente perfeita, querida. A Cleo habitua-se e, quando dermos por isso, ela e o Tripper j esto abraados 
no sof.
        - Achas que sim? Ela excita-se com tanta facilidade. Tenho medo de que nunca venha a gostar de estar aqui. Eu antes vivia num apartamento e ela nunca saa. 
C, tambm a tive sempre em casa. Agora, est num rancho de vacas e cavalos.
        - Ela desenrasca-se. Os gatos so muito adaptveis.
        Alguns minutos depois, quando Ryan tentou arranc-la da sanefa, Cleo miou, saltou e cravou-lhe as unhas na frente da camisa.
        - Filha de uma... - Ryan parou a tempo, e rematou com um: - ... padeira!
        A gata saltou outra vez, chegou ao cho j em corrida e comeou a virar tudo ao trepar pela estante da aparelhagem. Uma vez l em cima, fitou Ryan com olhos 
verdes e furiosos e bufou.
        - No me parece que ela esteja a adaptar-se muito bem - disse Bethany.
        Ryan sorriu.
        - Querida, ela fica bem. Pode estar a sentir que tu ests preocupada. J pensaste nisso? Se te descontrares e a ignorares, talvez ela faca o mesmo.
        Ele tirou o chapu e atirou-o para o bengaleiro. O chapu no acertou e caiu no cho virado ao contrrio. No era um bom pressgio.
        - Oh, no - exclamou Bethany. Ryan virou-se.
        - O que foi? - Seguiu o olhar horrorizado dela at ao alto da estante da aparelhagem, onde Cleo arranhava o carvalho como se estivesse a tapar alguma coisa. 
Ryan sentiu um formigueiro na nuca. - Mas que raio  que ela est a fazer?
        - Acho que ela j o fez.
        Ryan esqueceu-se dos donativos de dez dlares para o fundo da universidade e disse:
        - Filha daaaa... puta!
       
       
     Captulo Vinte
       
        
        A data do casamento foi marcada para um sbado, dali a pouco mais de uma semana, e aqueles dias que faltavam foram os mais felizes da vida de Bethany. Ryan. 
Insistiu que ela ficasse com ele no Rocking K e, desde o instante em que abria os olhos de manh at ele lhos fechar com um beijo todas as noites, ela divertia-se. 
O aspecto mais incrvel de tudo aquilo era que, em sua opinio, at as pequenas coisas sem importncia se revelavam inesperadamente maravilhosas.
        A mistura absurda de animais de estimao de Ryan, por exemplo. Quem teria pensado que uma gata ultramimada de oito quilos e um touro de quatrocentos quilos 
e igualmente mimado se tornariam amigos do peito? Nunca Bethany. Mas a manh seguinte foi o incio do que prometia ser uma duradoura amizade entre os dois animais.
        Depois de tomar o pequeno-almoo com Bethany, Ryan agarrou no chapu para ir aos estbulos dar de comer aos animais. Quando abriu a porta para sair, parou 
para lhe deitar um sorriso provocador.
        - No Rocking K, at a minha mulher tem de ganhar o seu sustento, sabes? Se queres refeies regulares, nada de te armares em boneca de sala.  melhor ires 
ter comigo dentro de pouco tempo, pronta para seres til.
        Bethany estava prestes a responder quando Cleo passou a correr entre os ps de Ryan.
        - Oh, no - exclamou Bethany.
        Ryan largou a correr atrs da gata, Tripper a ladrar excitado atrs dele. Bethany apressou-se a ir para o alpendre. Cleo. A pobre gata raramente sara de 
casa, e quando tal acontecera fora sempre na cidade. Ficaria apavorada ali. Bethany imaginou-a a fugir para o bosque e a perder-se. Cleo tinha o tamanho perfeito 
para se transformar no almoo de algum carnvoro esfomeado.
        - Vem c, gata! - chamou Ryan com uma voz forte e masculina.
        Bethany perscrutou ansiosamente o ptio,  procura de uma mancha de plo mosqueado. No via a pobre Cleo em lado nenhum.
        - No a chames assim. Ainda a assustas mais. Ryan deitou-lhe um olhar mal-humorado:
        - Ento, como  que queres que eu a chame? Numa voz aguda, Bethany comeou a chamar:
        - Gatinha, Cleo! Vem  dona, gatinha!
        Ryan praguejou entre dentes, avanou para a zona cimentada e comeou a chamar a gata num falsete desafinado. Por muito que Bethany apreciasse o seu esforo 
para encontrar o tom certo, pensou que ele mais parecia um devorador de gatos de cem quilos  caa. T-bone respondeu ao chamamento, mugindo estupidamente a cada 
passo que dava. Bethany tinha quase a certeza de que, agora, Cleo nunca se mostraria.
        No estava  espera de que Tripper se juntasse  busca. O Labrador dourado e anafado tinha nitidamente uma conta para ajustar e agora Cleo estava no seu 
territrio. Encostou o focinho ao cho e arrancou aos ziguezagues pelo ptio at a um monte de lenha, onde comeou a abanar a cauda excitadamente.
        - Ah-hah! Ela est no monte de lenha! - Ryan encaminhou-se para l. - Gatinha! - chamou ele quando comeou a ouvir movimento entre os toros de madeira. Sempre 
que expirava, dizia: - O estupor da gata.
        Bethany desceu a rampa quase a voar e apressou-se a ir em salvamento da sua pobre gata antes que Ryan a encontrasse. Infelizmente, no chegou a tempo. A 
criatura assustada miou e bufou e escapou s mos de Ryan esgueirando-se por entre as pernas dele. Grande erro. Correu direita a Tripper, que no parava de ladrar.
        Quando ameaados, a maioria dos gatos procura o ponto mais alto e mais prximo para se refugiar, e Cleo no era excepo. Mas aconteceu que,  excepo de 
Ryan, T-bone era a coisa mais alta nas proximidades. A gata saltou para o dorso do touro. Assustado por ter uma criatura no convidada e que lhe cravava as unhas 
nas espduas, T-bone fez o que qualquer touro no particularmente inteligente faria.
        Largou a correr.
        Determinado a salvar a estpida gata de Bethany, Ryan foi atrs daquela parelha inverosmil, mas sempre que se aproximava o suficiente para apanhar Cleo, 
a gata assustava-se e cravava as unhas, fazendo com que T-bone retomasse a corrida.
        Depois de trinta minutos de perseguio infrutfera, Ryan voltou para junto de Bethany, batendo com o chapu na coxa a cada passo que dava.
        - No consigo apanh-la, querida.
        Bethany olhou para a margem do lago, onde T-bone se encontrava desamparado com Cleo agarrada s costas. A parelha tinha um aspecto to absurdo que Bethany 
rebentou s gargalhadas.
        - Parece-me que ela vai ficar ali. O T-bone  uma perfeita trotineta  para gatos!
        Ryan comeou a rir tambm.
        -  um todo-o-terreno e aguenta-se bem em quinta velocidade. - Ficara transpirado depois de andar a correr atrs do touro. Levou uma manga da camisa  testa. 
- Desculpa no ter conseguido apanh-la, querida. Agora, vais passar o dia inteiro preocupada. Bethany suspirou.
        - Bem, ela est segura nas costas do T-bone. Ainda que no me parea que fique l por muito tempo.
        Nada disso. Chegou o meio-dia e a gata continuava montada na ampla garupa do touro enquanto ele pastava. Bethany observou o par, sorrindo e abanando a cabea. 
No estava suficientemente perto para ter a certeza, mas parecia que Cleo estava a dormir uma sesta. Uma vez que T-bone aparentemente aceitara a presena da gata, 
no havia nada a fazer seno esperar que ela descesse e voltasse de moto prprio.
        Como se adivinhasse o que ela estava a pensar, Ryan disse:
        - Ela vai ficar com fome. Quando isso acontecer, volta para casa. Pois sim. Quando anoiteceu, Bethany pediu a Ryan que deixasse comida no monte da lenha. 
Algures durante a noite, a gata deve ter deixado o touro para ir comer, uma vez que a comida tinha desaparecido de manh. Mas quando Bethany saiu para procurar a 
sua gata, Cleo parecia ter desaparecido.
        - Ela continua montada no T-bone - informou-a Ryan alguns minutos depois quando ela entrou no estbulo. - O Sly diz que ele apareceu para o pequeno-almoo 
h pouco tempo e a Cleo continuava deitada nas costas dele, muito bem instalada. Lavou-se enquanto o T-bone comia.
        Bethany abanou a cabea.
        - Talvez o T-bone seja a resposta dela a vida no rancho. Ela sente-se segura em cima dele. Aqui, tudo lhe deve parecer muito assustador. Ele  grande e slido. 
- Sorriu a Ryan. - Mais ou menos como tu. Consigo perceber.
        Os olhos dele comearam a brilhar - o que, Bethany depressa comeava a aperceber-se, queria dizer sarilho.
        - Ah, sim? - Olhou em redor para se certificar de que estavam sozinhos e inclinou-se para a beijar. Um beijo demorado, quente que a deixou com a cabea a 
andar  roda. - Quero-te - sussurrou ele.
        Bethany tambm conseguia perceber aquilo, o que a deixou um pouco surpreendida. Depois da diverso junto  piscina na noite anterior, mais duas sesses na 
cama, e uma outra ao acordar naquela manh, ambos deviam estar completamente saciados.
        - Porta-te bem - murmurou ela. - O Sly anda por a. Ainda somos apanhados.
        Ryan sacudiu a franja branca da camisa azul que ela comprara especialmente para lhe agradar.
        - No ests a pensar que eu sou capaz de ignorar a forma como essa franja se sacode por cima dos teus mamilos, pois no? - Passou o dedo pela ponta j intumescida 
e riu-se. - Nem pensar.
        Uma vez que vestira a camisa expressamente para ele, Bethany no pde deixar de sorrir, agradada porque os seus esforos no tinham passado despercebidos. 
No obstante, sobressaltou-se quando Ryan a levantou subitamente da cadeira. Guinchou e agarrou-se ao pescoo dele.
        - No estbulo no.
        - Eu descubro um stio mais privado.
        Levou-a para a sala do equipamento, trancou a porta e deitou-a num fardo de feno. Naquela manh, ela tinha vestido a camisa e um par de calcas de ganga justas. 
Ele atacou os botes da camisa, dizendo:
        -  aqui que eu almoo quase todos os dias. Amanh, podes vir trabalhar embrulhada em pelcula transparente?
        Ela riu-se e ofegou de prazer quando ele baixou a cabea para lhe mordiscar um mamilo ao de leve atravs da renda do soutien.
        - Ryan, tenho medo de me esquecer do lugar onde estou e fazer barulho. O Sly pode ouvir-me.
        Ele agarrou numa correia de couro pendurada num prego. Ainda a provoc-la com os dentes e enviando-lhe descargas de prazer por todo o corpo, Ryan murmurou:
        - Morde isto.
        Ela riu-se de novo e, depois, comeou a gemer, todos os seus pensamentos apagados  medida que ele lhe desapertava o soutien e levava a boca quente ao seu 
seio nu. Quando Ryan mudou de posio para dar ao outro seio a ateno que aquele ansiava, o ar frio da manh envolveu-lhe o mamilo hmido, deixando-o duro como 
uma pedra, o que pareceu inflam-lo quando voltou a apert-lo com os lbios. O Sol de Junho entrava pela janela e brincava com os corpos deles. Ryan murmurou qualquer 
coisa a respeito de morangos quase maduros, fazendo-a gemer enquanto lhe abria as calcas de ganga.
        - Tenho fome de ti. Prometo que no demoro.
        Demorou cerca de quarenta minutos, e ela adorou cada um deles.
        Ryan. Apercebia-se rapidamente de que ele ia ser um amante impulsivo, imprevisvel e insacivel, o gnero de homem que estaria a trabalhar concentrado num 
instante e, no seguinte, completamente empenhado em dar-lhe prazer, a nica incerteza sendo o local onde ele a apanharia desprevenida.
        Depois do episdio na sala do equipamento, Bethany no estava  espera de voltar a fazer amor antes de estarem na cama, se tanto. Ryan tinha outros planos. 
Mais tarde nessa manh, no escritrio dos estbulos enquanto ele lhe mostrava como tinha os livros organizados, o telefone tocou e Bethany atendeu automaticamente 
porque estava sentada perto dele. Era Jake, a ligar durante a pausa da manh para saber como ela estava.
        Bethany tinha acabado de dizer ol quando Ryan sorriu atravessamente e comeou a abrir-lhe a camisa. Ela empurrou-o pelo ombro. Quando ele avanou para lhe 
beijar a clavcula, aplicou-lhe a palma da mo na testa, tentando afast-lo. Era como tentar impedir gua de descer uma encosta. - Esta camisa deixa-me louco - sussurrou 
ele. - Porque  que hei-de deixar que esta franja se divirta sozinha? - Abriu-lhe a camisa, desapertou o fecho na frente do soutien, agarrou-lhe nos seios e comeou 
a enlouquec-la com a sua boca assombrosa, enquanto ela tentava manter uma conversa coerente com o irmo. Quando Ryan comeou a puxar-lhe os mamilos com os dentes, 
Bethany teve de pedir a Jake que repetisse a pergunta. Preocupada, olhou para a porta. Ryan riu-se e murmurou:
        - Eu penso sempre no futuro. Est trancada.
        Aquilo f-la sentir-se um pouco melhor, at que ele lhe apertou os seios para conseguir provocar os dois mamilos latejantes ao mesmo tempo. A ligeira compresso 
fez com que o sangue acorresse as pontas. Ryan inclinou-se para trs para observar o processo com algum interesse, os olhos azul-ao brilhantes. Naquele momento, 
Bethany deu por si a pensar como poderia a me dele ter sobrevivido  sua infncia.
        Os pais de Ryan apareceram para uma visita durante o fim-de-semana. Ann ainda coxeava devido  pancada na anca.
        - O mdico diz que vai demorar um pouco a voltar ao lugar, que tive sorte em no a partir. Estou a ficar demasiado velha para andar aos encontres em secretrias.
        Keefe, com os ns dos dedos esfolados numa das mos, passou um brao em redor dos ombros estreitos da sua mulher e disse:
        - O filho da me h-de pensar duas vezes antes de se lembrar de empurrar uma senhora. - Piscou o olho a Bethany. - Retirou a queixa ontem. Ps-se a pensar 
no aspecto da primeira pgina do jornal e decidiu que o seu comportamento com a minha mulher fora imperdovel.
        - Quem ser que lhe meteu essa ideia na cabea? - perguntou Ryan. - No ameaou telefonar para o jornal, pois no, pai?
        Ann sorriu.
        - O teu pai  um homem demasiado directo para se lembrar disso. Eu  que ameacei telefonar para o jornal. - Olhou para o marido com uma expresso adoradora 
e estendeu uma mo. - Meu heri. So dez dlares, por favor, seu menino mal-educado.
        Keefe resmungou e franziu o sobrolho, mas tirou uma nota de dez do bolso e entregou-lha. Ann guardou-a e sorriu a Bethany.
        - No h motivo para preocupaes. No vou deixar que uma ndoa negra me impea de ir ao casamento.
        Aquela no era a primeira vez que Bethany via um dos homens do Rocking K sacar de uma nota de dez dlares. Olhou intrigada para Ryan, o qual lhe explicou 
rapidamente a regra dos palavres no rancho. Bethany achou que era uma ideia fantstica. Quando ela e Ryan estivessem prontos para adoptar, as mulheres j teriam 
todos os homens bem treinados.
        A sela chegou na segunda-feira. Assim que a retirou do caixote, Ryan comeou a selar Wink. Bethany comeou a sentir um frio no estmago quando percebeu que 
ele estava  espera que ela montasse j. Quando ele se voltou e viu a sua expresso, ajoelhou-se ao lado da cadeira, olhou-a nos olhos durante um longo momento e 
levantou-lhe o queixo com um dedo.
        - Querida, no tens de montar. Se tu queres apenas gostar da Wink e estar com ela todos os dias, tudo bem.
        Bethany olhou para a gua durante muito tempo. Surgiram-lhe na mente as recordaes do acidente de equitao e a sua testa cobriu-se de suor. Acontecera 
to depressa na realidade, todavia, na sua mente a sucesso de acontecimentos que culminara naquela fraco de segundo desenrolava-se em cmara lenta. Ela queria 
voltar a montar Wink. O desejo era to intenso que lhe fazia doer os ossos. Mas tambm estava apavorada. Ningum que nunca tivesse passado por uma situao daquelas 
poderia alguma vez entender o medo que a agarrava pela garganta.
        - Eu, hmm... - fechou os olhos com forca. - Oh, Ryan, quero tanto. Mas tenho medo. Tanto medo.
        Ele prendeu-lhe o rosto entre as mos.
        - Posso levar-te at ao lago para o casamento num veculo de traco s quatro rodas, querida. No penses nisto como uma obrigao. Est bem?
        O casamento. Deus. Estavam todos a pensar em ir de cavalo at ao lago para assistir ao casamento. Foi percorrida por uma vaga de frio. Sentia-se como se 
estivesse a tremer quando olhou para Ryan.
        Ele praguejou entre dentes e comeo a cobrir-lhe a cara de beijos.
        - Desculpa. Meu Deus. Eu devia ser chicoteado por ser to bronco. Desculpa.
        Bethany fechou as mos sobre os punhos dele.
        - Eu quero voltar a montar, Ryan. - Ele olhou-a nos olhos. - Eu quero voltar a montar - repetiu ela. - S tenho de ganhar coragem.
        Quinze minutos depois, Bethany estava presa  sua gua. Tambm transpirava tanto que o suor escorria, e sentia-se agoniada. Medo e pezinhos no eram uma 
boa mistura.
        Ryan segurava nas redes.
        - No tens de fazer isto. Vamos tirar-te da.
        - No! - Bethany apercebeu-se de que estava agarrada ao aro como uma criana. "Meu Deus." O cho parecia estar a cem quilmetros de distncia. Imaginou 
Wink a tropear e a cair em cima dela. Engoliu convulsivamente. - Tenho de fazer isto. Mesmo que no saia do curral, tenho de fazer isto, Ryan.
        Ele limitou-se a ficar ali, agarrado  gua e a olhar para ela.
        - Bethany, querida, por favor. A culpa  toda minha. Vamos tirar-te da.
        - No! - Ela no queria gritar, mas gritou. Como se ele fosse inimigo dela. - Importas-te de no ficar a especado e talvez fazeres alguma coisa para me 
ajudar.
        Ele afagou o pescoo de Wink, tentando acalmar a gua porque Bethany estava a fazer exactamente o contrrio. Algures nos recnditos do seu crebro, ela sabia 
que tinha de se controlar.
        - Eu preciso que me ajudes a fazer isto - repetiu ela, abalada.
        - De que  que precisas, Bethany? Diz-me, e eu fao.
        - Fala comigo. Ajuda-me a no ficar nervosa.
        Quando Bethany deu por si, ele estava atrs dela na garupa. Assim que o brao dele a envolveu, conseguiu respirar de novo.
        - Estou aqui, querida. Estou aqui contigo.
        Ela encostou-se ao peito de Ryan e virou-se para apoiar a cara no pescoo dele. Ryan. Sentia-se segura quando ele a tinha nos braos. Completamente segura. 
Racionalmente, sabia que ele no podia fazer nada para a proteger se a gua casse em cima de ambos. Mas isso no importava. O seu medo no era racional.
        Comeou a falar sem parar. Sobre o acidente. Como acontecera. Como ela se inclinara para a frente e transferira o peso do corpo quando Wink entrara na curva. 
Que estavam a fazer um tempo melhor do que nunca, correndo ao sabor do vento. E ento o saco repentino. A sensao estonteante de voar. Dor. Um claro de dor to 
excruciante que o seu crebro explodiu e tudo ficou negro.
        - Quando acordei, no conseguia sentir os dedos dos ps. No  incrvel que eu me lembre melhor disso do que do resto? - Inclinou o queixo para trs o mais 
que podia e olhou para o cu azul acima deles. - No estava preocupada com as minhas pernas. Eu no conseguia sentir os dedos dos ps. Lembro-me de olhar para o 
lenol e tentar mex-los. Com todas as minhas forcas. E... perceber. Perceber. Os meus pais estavam l. O Jake agarrou-me nos braos e prendeu-mos  cama. Lembro-me 
de olhar para os olhos dele e gritar. Eles no tinham de me dizer. Eu sabia que no conseguia mexer os dedos dos ps.
        Ryan largou as rdeas de Wink e envolveu-a com os dois braos.
        - Perdoa-me, Bethany. Por favor, perdoa-me. No tens de voltar a montar um cavalo. Podes apreciar a companhia dela sem teres de a montar.
        - Mas a questo  essa - murmurou ela contra o pescoo dele. - Eu tenho de montar. Preciso de montar, Ryan, como preciso de ar para respirar. No me deixes 
desmontar. Nunca voltarei a ter coragem para repetir isto. No me deixes desmontar at que isto passe.
        - Meu Deus - murmurou ele.
        - Por favor - insistiu ela. - No deixes que isto acabe assim. No me tires daqui. Por favor?
        Ryan apoiou a palma de uma mo na barriga dela e agarrou nas rdeas com a outra.
        - Sly! - chamou ele.
        - Sim? - O capataz aparecer no picadeiro. - O que  que tu queres?
        - Abre o porto - ordenou ele.
        Bethany viu Sly destrancar o portal e abri-lo. Ryan puxou pelas rdeas e levou Wink para fora do recinto. O corao de Bethany subiu-lhe a garganta. O cho 
parecia pronto a saltar e atingi-la em cheio na cara. Ryan encaminhou a gua para o lago. Ainda que a mantivesse a passo, o pnico que Bethany sentia era indescritvel. 
Ela ia morrer. O seu corao ia parar. S que continuou a bater, e Wink continuou a andar.
        Passado algum tempo, Ryan reduziu ainda mais o passo da gua. A brisa que soprava do lago e beijava o rosto de Bethany encontrava-se carregada de odores 
- ervas primaveris, flores selvagens, pinho e abeto, e uma frescura que descia das montanhas. Descontraiu-se contra o peito forte dele, deixando o seu corpo ondular 
com a gua e com ele.
        - Oh, Ryan...
        Ele encostou-lhe o rosto aos cabelos.
        - Sabes, querida, para mim s h duas maneiras de viver a vida. Uma delas  protegeres-te de todos os perigos o melhor que puderes, viver dentro de uma pequena 
bolha. Mesmo assim, podes acabar por ser atropelada por um autocarro ou podes apanhar alguma doena terrvel.
        - Qual  a outra opo? - perguntou ela com um riso abalado.
        - Podes agarrar na tua vida com ambas as mos, apreciar cada minuto e correr o risco de te magoares ou de morreres enquanto estiveres a fazer uma coisa de 
que gostas.
        Ela riu-se de novo, o som ainda trmulo.
        - Nada de meias tintas, do gnero, divertir-me um pouco enquanto jogo pelo seguro?
        Ele mordeu-lhe o pescoo.
        - Isso seria como fazer amor e nunca ter um orgasmo. Uma frustrao imensa.
        - J l estive, sei o que . No quero viver a minha vida assim.
        - Ento, agarra-te com as duas mos - murmurou ele e, quando Bethany deu por si, estava sozinha na garupa. Ele ergueu o brao para lhe entregar as rdeas. 
Os seus olhos detiveram-se nos dela durante um longo momento. - Vive para seres feliz, querida. Ests presa  sela, portanto, no podes cair. S te podes magoar 
se a Wink tropear, e as marmotas no escavam tneis na margem do lago. Deixam-se ficar nos campos onde a comida  abundante. Ela parece-me uma menina bastante segura.
        Bethany assentiu.
        - Ela s caiu comigo uma vez, e no foi por culpa dela. - Mesmo assim, uma vez fora o suficiente. Fechou os olhos e respirou fundo.
        - Vou voltar a p para casa - disse ele. - Como  a primeira vez que sais, talvez seja melhor se subires para perto do estbulo, onde posso ter-te debaixo 
de olho.
        Bethany olhou em frente, to apavorada que tremia.
        - Eu, hmm... acho que sim, o terreno parece-me regular. A Wink reage a ordens vocais. Tenho a certeza de que no vai haver problema e... - calou-se e engoliu 
para firmar a voz. - Eu tenho de fazer isto, Ryan.  a primeira vez que saio, tenho de ficar por minha conta durante algum tempo.
        Ela ouviu-o suspirar. No se atreveu a olhar com medo de perder a coragem.
        - Est bem - disse ele. - Ento, vai. O terreno  plano em redor do lago. No recomendo que vs muito longe no primeiro dia, mas tu  que decides.
        Bethany assentiu, resistindo a vontade de lhe pedir que selasse o seu cavalo e a acompanhasse. Era uma estupidez ter medo. A probabilidade de Wink tropear 
era nfima.
        - Eu, hmm... no me afasto.
        - Quando acabares, estou no estbulo. Basta entrares e chamares. Eu ajudo-te a descer.
        Bethany assentiu mais uma vez, sempre a olhar em frente.
        - Se eu, hmm, no voltar dentro de meia hora, vens procurar-me. Est bem?
        - Querida, nem  preciso pedir.
        Ela sentiu-se melhor, sabendo que ele a iria procurar se no voltasse dentro de um determinado perodo de tempo. Com o corao na garganta, instou a gua 
a avanar.
        Preocupado, Ryan esperou por ela no estbulo. Quando passaram vinte minutos, selou o seu cavalo e foi  procura dela. Ela estava no outro extremo do lago, 
perto da casa dos pais de Ryan, quando ele a alcanou. Ao ouvi-lo aproximar-se, Bethany virou-se pela cintura e acenou, a cara sorridente, os olhos a brilhar.
        - Oh, Ryan, obrigada... obrigada.  uma sensao fantstica. To libertadora. Posso ir a lugares que seriam impossveis na minha cadeira de rodas. Permitiste-me 
o acesso a um mundo novo.
        Ele passou o seu cavalo para um passo lento para a acompanhar. Doa-lhe o corao ao v-la to feliz.
        - Um dia bastante especial, no?
        - Sim. J no sinto tanto medo. Ainda no estou completamente  vontade. Mas tambm no estou apavorada.
        - Isso  bom. Como  que a Wink se est a portar?
        - Fabulosa. Eu costumava correr muito com ela, mas hoje parece satisfeita por andar a passo. - Debruou-se para afagar o pescoo da gua. - Talvez estejamos 
as duas a ficar velhas. Acho que ela est a gostar de andar devagar.
        - No tem nada de mal. Podes apreciar a vista.
        - Tens razo. Isto  to bonito, Ryan. No fazes ideia da sorte que tens por teres isto tudo to perto de casa. O lago, as florestas, e aquela vista incrvel 
das montanhas recortadas contra o cu.  um paraso.
        - Isto agora tambm  teu, sabes? Ela virou a cara para o Sol.
        - , no ?
        - Casamos dentro de cinco dias - recordou-lhe ele.
        - Apenas cinco dias. - Bethany sorriu-lhe. - J ests arrependido?
        - No. E tu?
        Ela abanou a cabea.
        - Nunca tive tanta certeza a respeito de alguma coisa.
        Ele detestava ser um desmancha-prazeres, mas estava preocupado com o tempo que ela j passara na sela:
        -  melhor no exagerar no primeiro dia. No montas h oito anos e no consegues sentir os efeitos nas tuas pernas.
        - S mais um pouco. Isto sabe to bem, no quero que acabe. Ryan considerou o lugar onde se encontravam.
        - Queres dar a volta ao lago? J que viemos at aqui, no me parece que o percurso seja menor se voltarmos pelo mesmo caminho.
        - Adorava!
        Demoraram meia hora para completar a volta. Pouco depois de voltarem ao estbulo, as pernas de Bethany comearam a apresentar cibras. Ryan levou-a para 
casa. Quando lhe descalou os sapatos e despiu as calcas, viu que ela tinha os ps praticamente dobrados ao meio com espasmos musculares e que os tendes pareciam 
um monte de ns nas barrigas das pernas e nas coxas. Ela dobrou-se pela cintura com os dentes cerrados.
        Quando Ryan tentou esticar-lhe as pernas, no conseguiu reprimir um grito. Ele correu para o telefone para chamar o Dr. Kirsch, o mdico da famlia Kendrick. 
O velho doutor foi at ao rancho e, depois de examinar Bethany, deu-lhe uma injeco para ajudar a descontrair os msculos.
        Quando comeou a fazer efeito, Kirsch sentou-se no lado da cama, segurando-lhe a mo.
        - A partir daqui,  melhor fazer as coisas com calma, minha menina. Amanh, nada de montar. No dia seguinte, pode montar dez minutos. Se correr bem, pode 
acrescentar alguns minutos cada dia. Tem de se preparar lentamente e o mais provvel  que, mesmo depois de algum tempo, ainda continue a precisar de parar com frequncia 
quando for dar passeios mais demorados.
        - Mas ns vamos casar num lago da montanha no prximo sbado. O Ryan tem tudo preparado para irmos at l a cavalo.
        O medico olhou interrogativamente para ele.
        - A que distncia fica o lago, Rye?
        - Cerca de trs horas a cavalo. O mdico abanou a cabea.
        - Ela no est preparada. Adia o casamento pelo menos mais uma semana e, mesmo assim, vais ter de dividir o percurso em dois, metade num dia e a outra no 
seguinte.
        - Podemos fazer isso - disse ele. - A Bethany e eu podemos partir na quinta-feira, paramos a meio e passamos a noite acampados. Vai ser divertido.
        Ela cobriu os olhos com um brao.
        - Desculpa, Ryan. Estava to entusiasmada por estar outra vez na sela com a Wink que nunca pensei nas cibras. Devia ter tido mais juzo.
        O mdico deu-lhe uma palmadinha na mo.
        -  fcil exagerar. Eu no monto durante o Inverno e a primeira vez que o fao quando chega a Primavera passo dias a coxear. Juro sempre que no volto a 
ser to estpido, mas fao sempre a mesma asneira.
        - O senhor monta?
        Kirsch riu-se e piscou o olho a Ryan.
        - Porque  que acha que esta gente gosta tanto de mim? O Keefe no confia num homem que no cheire a cavalo de vez em quando. - Voltou-se para Ryan: - Quando 
forem para o lago, leva um quartilho de vinagre branco destilado. Se ela tiver cibras, ela que beba dois goles de uma assentada. Fica logo boa.
        - Blhec. - Bethany estremeceu s com a ideia.
        - Sabe mal e  um pouco cido para o estmago, mas resulta num instante.
        Kirsch comeou a fazer perguntas a Bethany sobre o acidente e a paralisia resultante. Depois de ela responder, disse:
        - Bem, minha menina, espero voltar a v-la em breve. Fiz os partos todos desta famlia. Se depender do Ryan,  provvel que eu tambm faa os dos vossos 
filhos.
        Bethany ficou plida e olhou pesarosamente para Ryan.
        -  muito improvvel que eu consiga levar uma gravidez ate ao fim, doutor. O Ryan e eu queremos tentar, claro, e esperamos que corra bem. Mas no tenho muitas 
hipteses.
        O mdico pareceu surpreendido ao ouvir aquilo. Muito surpreendido.
        - Estou a ver - disse ele. - E posso saber porqu? Sofreu leses internas que eu desconhea?
        - Eu, hmm... no. A queda foi grave, claro, mas no houve leses permanentes. Quando fiz o meu ltimo check-up, o ginecologista disse que estava tudo bem.
        - Ah. Portanto, quem  que disse que talvez no pudesse levar uma gravidez at ao fim?
        - O especialista da coluna que me operou. Achou que o risco de infeces nas vias urinrias e nos rins seria muito elevado, o que pode levar a um aborto 
espontneo e trabalho de parto antecipado. Tambm h uma coisa muito perigosa, no me lembro do nome, que ele disse que eu podia apanhar.
        O Dr. Kirsch pensou durante um momento. Ryan estranhou que ele estivesse com um ar to srio.
        - Tem algum historial de infeces do tracto urinrio? Bethany abanou a cabea.
        - Entendo. - Kirsch esfregou o queixo. - Aquela coisa de que o seu mdico lhe falou devia ser disreflexia autonmica.
        - Talvez fosse isso - disse ela. - Foi h muito tempo, mas recordo-me que era um nome desse gnero. Parecia bastante assustadora quando ele ma descreveu.
        - E  bastante assustadora - concordou o mdico. - Pode causar complicaes graves em qualquer altura durante a gravidez ou surgir durante o parto. Todavia, 
ocorre habitualmente em mulheres com uma leso na stima vrtebra torcica ou acima dela.
        - A minha situa-se na L2. Mas ele disse que havia uma hiptese de acontecer.
        - Quais so os efeitos? - quis saber Ryan.
        - Pode registar-se uma subida acentuada da tenso arterial, uma subida ou descida grave do ritmo cardaco e h o risco de convulses e dilatao do corao. 
Considerando bem as coisas, no  algo com que se deva brincar - disse o Dr. Kirsch com uma expresso grave. -
        H formas de a controlar, mas nem sempre resultam.
        - Meu Deus - murmurou Ryan. - Uma coisa dessas podia mat-la. - Olhou para Bethany. - No vale a pena, querida. No com o risco de um outro cogulo, ainda 
por cima. Prefiro que nem sequer tentemos. 
        - Que histria  essa do coagulo? 
        Ryan contou rapidamente ao mdico o que Jake lhe dissera. 
        - No h nada que diga que me pode acontecer essa coisa da disreflexia - argumentou Bethany. - E posso ter muito cuidado durante a gravidez para no ter 
outro cogulo. Posso passar a maior parte do tempo na cama com as pernas levantadas. - Olhou para Ryan com uma expresso acusadora. -  por isso que tens usado sempre 
proteco, por causa do que o Jake te disse? Ryan suspirou.
        - No quero correr riscos, Bethany. Um cogulo pode matar-te. O Jake acha imprudente tu engravidares, e eu tambm.
        Ela deitou-lhe um olhar que prometia que ainda teria muito a dizer a respeito daquela deciso quando estivessem sozinhos. Ryan olhou para o mdico e depois 
novamente para ela.
        - Resolvemos isto depois. Est bem?
        - No te esqueas do que disseste a respeito de viver dentro de uma bolha ou agarrar a vida com ambas as mos. E o que eu penso sobre isto: que tentar justifica 
o risco.
        Ryan comeou a suar. Olhou para ela, pensando no quanto a amava e no que sentiria se algo lhe acontecesse. No queria assim tanto um beb que estivesse disposto 
a pr em perigo a vida dela.
        - Eu gostava de falar com o seu cirurgio - disse o Dr. Kirsch. - Tenho a sua autorizao para entrar em contacto com ele, Bethany?
        - No me importo que fale com ele, doutor, mas tenho a certeza de que ele lhe vai dizer exactamente o mesmo que me disse a mim, que eu no devia ter filhos. 
- Os seus olhos tornaram-se sombrios. - At chegou ao ponto de dizer que achava que era uma bno porque, de qualquer modo, uma mulher numa cadeira de rodas no 
devia ter filhos.
        - Hmm! - Kirsch abanou a cabea. - Como  que se chama esse mdico?
        - Dr. Reicherton. Ele vive em Portland. Provavelmente, no o conhece.
        - Por acaso, conheo. Nos, mdicos, encontramo-nos mais vezes do que pode imaginar. Convenes mdicas e afins. Benson Reicherton. - Sorriu e assentiu. - 
 um cirurgio competente, um dos melhores da Costa Ocidental.
        - O meu pai queria o melhor - disse ela. - Disseram-lhe que no encontraria outro melhor. Nunca gostei dele, mas ele parecia saber o que fazia.
        Kirsch concordou mais uma vez.
        - O Ben  muito bom. Se eu tivesse uma leso na coluna e me recomendassem uma interveno cirrgica, no hesitava em escolh-lo para meu mdico. Todavia, 
estava disposto a andar um quilmetro a p para no o ter como parceiro no golfe.
        Bethany riu-se e bocejou.
        - Estou a ver que o conhece bem. O mdico sorriu e piscou-lhe o olho.
        - Pois conheo. - Levantou-se e agarrou na sua mala. - Parece que a injeco est a deix-la sonolenta, minha menina, portanto, vou-me embora e deixo-a descansar. 
- Apontou-lhe um dedo. - Nada de montar amanh. Tenho golfe marcado para as dez da manh e se este senhor me telefonar por causa de cibras nas pernas, vou ficar 
muito maldisposto.
        Ryan saiu do quarto com o mdico. J na sala, Kirsch coou a cabea grisalha que comeava a ficar calva. As suas sobrancelhas uniram-se numa expresso pensativa.
        - H qualquer coisa aqui que no est bem. Deixa-me ver se descubro o que . Vou tentar entrar em contacto com o Reicherton quando voltar ao meu consultrio.
        - O doutor acha que ela pode ter filhos, no acha? O mdico olhou para o corredor.
        - No te aconselho a dizeres-lhe isso, no antes de eu ter a certeza. No quero dar-lhe falsas esperanas e depois desiludi-la. No sou nenhum especialista.
        - Mas  um mdico muito bom e eu confio na sua opinio. O mdico sorriu.
        - Obrigado. Em resposta  tua pergunta, pelo que vale a minha opinio, este mdico muito bom acha que a tua pequena no percebeu o que lhe disseram ou o 
Reicherton deu-lhe informaes incorrectas. A paralisia no costuma afectar a capacidade de suportar uma gravidez, especialmente num caso como o dela, em que a leso 
nervosa  incompleta.
        Para Ryan, parecia bastante completa.
        - O que  que quer dizer com isso?
        -  uma expresso que usamos para uma leso da coluna que mata ou limita apenas alguns dos nervos. Podes agarrar numa dzia de pessoas com uma leso na coluna 
no mesmo nvel e ver doze resultados diferentes. Algumas podero ter uma utilizao parcial das pernas ou sensibilidade onde outras no a tm. Com uma leso na L2 
como a dela... No me parece que tenha alguma influncia na capacidade de ter filhos, e, a no ser que eu esteja completamente mal informado, o risco de disreflexia 
autonmica  mnimo ou nenhum. Mas deixa-me verificar. Pode acontecer que eu seja apenas um mdico rural que no percebe nada de nada. - Ergueu uma mo em despedida 
e saiu para o alpendre. - Eu depois telefono.
        - Ento, e a histria do cogulo? - perguntou-lhe Ryan ansiosamente.
        Kirsch suspirou.
        - Acho que podemos contornar esse problema. J existem cadeiras de rodas muito simpticas com apoios ajustveis para as pernas, almofadadas, uma espcie 
de poltronas reclinveis com rodas, que permitem que o utilizador levante as pernas sempre que a cadeira estiver parada. Tambm acho que podemos controlar o nvel 
de diluio do sangue o suficiente para reduzir o risco de coagulao sem prejudicar o beb.
        Depois de se despedir do mdico e fechar a porta, Ryan foi ver como estava Bethany. O relaxante muscular tinha-a de facto deixado sonolenta, e j estava 
a dormir. Sentou-se ao lado dela durante algum tempo, olhando para aquele rosto to meigo. O medicamento tivera um efeito to forte que ela estava de boca aberta, 
e uma gota de saliva brilhava no lbio inferior. Ele sorriu e limpou-a com o polegar, sentindo um aperto no corao ao pensar que alguma coisa lhe poderia acontecer.
        Uma hora depois, quando o Dr. Kirsch telefonou, Ryan atendeu a chamada na cozinha.
        - O que  que disse o Dr. Reicherton?
        - Muito de coisa nenhuma. Essencialmente, a deciso  minha. Nenhum mdico pode garantir que at uma mulher jovem e perfeitamente saudvel possa ter filhos. 
A hiptese de aparecerem problemas pode ser minscula, mas no deixa de existir. As probabilidades contra ela aumentam substancialmente se tiver problemas especiais 
ou se for propensa a t-los. Sendo este o caso, no vou ao ponto de dizer que o Reicherton mentiu a Bethany. Parece-me que ele referiu complicaes improvveis para 
uma mulher com uma leso na L2.
        - Porqu? - murmurou Ryan. - Meu Deus, porqu?
        -  uma boa pergunta. No paro de voltar ao comentrio dele: que uma mulher numa cadeira de rodas no devia ter filhos. Conheo o Ben h alguns anos. Recordo-me 
perfeitamente de ele me ter dito uma vez que tinha seguido esta especializao porque a me dele era tetraplgica.
        - O que  que isso tem a ver com o que ele disse  Bethany?
        - Isto  um terreno muito delicado, Ryan. No quero especular nem prejudicar a reputao profissional dele. Enquanto estvamos a falar ao telefone, ocorreu-me 
que talvez, e realo a palavra "talvez", a infncia dele tenha sido difcil porque a me tinha uma deficincia grave. Talvez ele no suporte ver uma mulher presa 
a uma cadeira de rodas tentar criar um filho. S sei que ele no me disse nada ao telefone que justifique o que a Bethany afirma que ele lhe disse. Ele foi s rodeios. 
Referiu que j tinham passado muitos anos e que no tinha a ficha dela com ele. Mas, essencialmente, concordou com o meu prognstico, ou seja, a no ser que existam 
outras complicaes, uma mulher com uma leso na L2 que seja continente e no tenha um historial de infeces do tracto urinrio no deve ter dificuldades com uma 
gravidez. Na pior das hipteses, o parto ter de ser por cesariana.
        Uma imagem de Bethany a soluar na sua carrinha na noite anterior passou pela mente de Ryan, e fechou os olhos, sentindo-se agoniado. "Bebs, nunca!", gritara 
ela. Porque  que o mdico lhe dissera uma mentira to cruel? Sem dvida, talvez algumas mulheres deficientes no pudessem ser boas mes devido s suas incapacidades, 
mas cada caso era um caso, e a deciso no competia a Reicherton.
        - Ryan? Ainda ests a?
        - Sim - respondeu ele em voz baixa. - Apenas estou a tentar assimilar isto. Aquela rapariga passou oito anos convencida de que no podia ter filhos. D-me 
vontade de ir at Portland e dar um novo arranjo  cara do Dr. Reicherton.
        - Isto so s suposies. No te esqueas. E desculpa-me dizer isto, mas uma fria atrasada a respeito de algo que nunca poderemos provar parece-me intil. 
Porque estragar o que deveria ser um perodo de felicidade para vocs?  bvio que a adoras. Aprecia este momento to especial das vossas vidas.
        Ryan assentiu para consigo e sorriu.
        - Tem razo. Depois de torcer o pescoo a Bethany por no me ter falado sobre esta disreflexia autonmica,  exactamente isso que eu vou fazer.
        O mdico riu-se.
        - Ento, ento. Se eu te dissesse que ter relaes sexuais te podia matar, o que  que fazias?
        - Morria feliz.
        - A tens. No a censures por fazer a mesma escolha.
        - Isso  completamente diferente. Ela pode ter sexo seguro. Termos um filho biolgico no  suficientemente importante para pr em risco a sade dela.
        - Na tua opinio. s vezes, as mulheres no pensam da mesma maneira. Ter um filho  a coisa mais importante do mundo para algumas delas.
        Ryan apoiou os cotovelos na bancada.
        - Aceito, doutor. Talvez, em lugar de lhe torcer o pescoo, me limite a gritar com ela durante algum tempo.
        - Ora, ora. Ryan sorriu.
        - A propsito, est convidado para o casamento.
        - E l estarei. Oh, e Ryan, quero ver a noiva no meu consultrio. Sem pressas. Telefona de manh e marca uma consulta para depois da lua-de-mel. Quero examin-la 
bem, estabelecer valores para referncia durante os cuidados pr-natais.
        - Eu mando-a l. - Ryan endireitou-se, e acrescentou rapidamente: - Doutor? Acha que eu, s para jogar pelo seguro, devia continuar a usar proteco enquanto 
ela no o for ver?
        Kirsch riu-se de novo.
        - Bem, isso depende. Vais fazer cara feia se tiveres de te levantar s trs da manh para dar de mamar daqui a nove meses?
        - Claro que no.
        - Ento, agarra a vida com ambas as mos, como ela disse. Francamente, no creio que a Bethany corra um grande risco. Eu olho bem por ela. A avaliar pela 
expresso que vi na cara dela, vais ter problemas se te aproximares e ela vir um preservativo.
        - Acho que  capaz de ter razo. Kirsch clareou a voz:
        - Se eu achasse que era necessrio ter cuidado, dizia-te. Mas penso que no, sinceramente. D um beb a essa rapariga.
        Ryan ainda estava a sorrir quando desligou o telefone. Voltou para o quarto de dormir, deitou-se ao lado de Bethany e puxou-a para os seus braos. Um filho. 
Falara a srio quando lhe dissera que no tinha problemas em adoptar. Mas, l no fundo, a ideia de fazer um filho que fosse deles tinha uma atraco muito especial. 
V-la com uma barriga grande e saber que aquele era o seu filho. Estar com ela quando desse  luz. V-la levar ao peito uma cabea morena e penugenta pela primeira 
vez. Por muito amor que pudessem sentir, os pais adoptivos no podiam participar numa parte da magia.
        Ryan beijou-lhe o cabelo e fechou os olhos, para sonhar com ela, os dois a criarem filhos e filhas Kendrick na terra onde ele prprio crescera. Ensin-los-ia 
a amar aquelas montanhas como ele as amava, pensou ele sonolentamente, e, um dia, eles ocupariam o seu lugar a frente do Rocking K.
        Aquela ideia encheu-o com uma sensao de objectivo ausente na sua vida antes de conhecer Bethany. Recordou-se da manh em que dissera a Rafe que muitas 
vezes se sentia perdido e terrivelmente sozinho, que os seus animais de estimao eram tudo o que no o fazia perder o juzo nas longas noites de Inverno. J no 
se sentia assim.
        Como  que um homem podia sentir-se sozinho quando tinha o paraso nos seus braos?
       
       
     Captulo Vinte e Um
       
        Dois dias depois, Ryan estava a trabalhar no escritrio dos estbulos, s voltas com os livros, quando lhe ocorreu que eram quase onze da manh e Bethany 
ainda no aparecera para a sesso de exerccio a dois. No que costumassem trabalhar muito. Ela estava a revelar um apetite insacivel e o mesmo acontecia com ele, 
e sempre que ficavam ali sozinhos, acabavam a fazer amor uma vez, por vezes duas, antes do almoo.
        Recordando-se da ltima ocasio, Ryan pensou como ela estava linda, deitada nua na sua secretria, e sentiu uma necessidade repentina de a ver ali outra 
vez. Estava prestes a abandonar os livros para a ir procurar, quando ouviu Sly cham-lo. Levantou-se de um salto, sabendo ainda antes de chegar a porta que qualquer 
coisa desagradvel tinha acontecido.
        - Aqui! - gritou o capataz quando Ryan saiu do escritrio.
        Ryan voltou-se e viu Sly desaparecer na baia onde tinham instalado o elevador de Bethany. Largou a correr, as pancadas dos seus taces no asfalto apenas 
ligeiramente mais rpidas do que o bater do seu corao. Sem que lhe dissessem, sabia que algo acontecera a Bethany.
        Quando chegou  baia e a viu enrolada no cho ao lado da gua, julgou que o seu corao ia parar. Com um olhar rpido, percebeu que ela tentara montar a 
gua sozinha, recorrendo ao elevador.
        - Meu Deus! - Empurrou Sly e ajoelhou-se ao lado dela, to assustado que no sabia se estava a praguejar ou a rezar.
        - Bethany? Oh, valha-me Deus.
        - Eu estou bem, Ryan. - Ela deixou que ele a apalpasse, dizendo repetidamente que no era nada de grave. - Escorreguei da sela, foi s isso. A distncia 
ate ao cho no era grande.
        O medo de Ryan transformou-se em ira:
        - Mas que raio  que estavas a fazer? - Deitou um olhar fulminante ao capataz. - Se ela queria usar o elevador, devias-me ter chamado.
        Sly levantou as mos.
        - No venhas para cima de mim, rapaz. Eu no sabia de nada disto at que a encontrei.
        - A culpa foi minha, Ryan. Eu queria fazer isto sozinha.
        Ryan teve vontade de a abanar at lhe baterem os dentes. Em vez disso, acabou de verificar se existia algum ferimento e depois levantou-a nos braos, tremendo 
tanto que as vibraes sacudiram as franjas da nova camisa dela.
        - Nunca mais - disse ele ferozmente. - Promete-me que nunca mais voltas a tentar montar sozinha.
        Ela inclinou a cabea para trs e fitou-o com um olhar rebelde.
        - A ideia de preparar este elevador foi exactamente para que eu pudesse montar sozinha.
        - Isso foi antes. Agora, se voltas a correr o risco de partir o pescoo, aqueo-te o traseiro at no te conseguires sentar durante uma semana.
        Bethany empurrou-o, sentou-se e comps a camisa.
        - No sejas tonto - disse ela, sacudindo palha da manga. Sorriu. - Quase consegui, Ryan. Sozinha. Da prxima vez, j sei que no posso soltar os ganchos 
antes de apertar as fivelas das pernas. Se no tivesse sido to estpida, no tinha cado.
        Ryan agarrou nela, levantou-se e saiu da baia, dirigindo-se para o escritrio. Ela deteve-o, encostando-lhe uma mo ao peito.
        - Ainda no. Quero tentar outra vez. Senta-me na minha cadeira e vai-te embora, se fazes favor.  uma coisa que eu tenho de fazer.
        - S por cima do meu cadver. Ela olhou-o nos olhos.
        - Eu no volto a cair.
        - No podes ter a certeza disso. - Ryan imaginou-a a partir uma perna ou a ser pisada acidentalmente pela gua. S a ideia deixou-lhe o sangue gelado. - 
Estou a falar a srio. Tentas outra vez e eu...
        Bethany encostou-lhe um dedo aos lbios.
        - Eu sei que te assustei, e lamento. Eu prpria estava com medo de cair, o que me deixou to nervosa que nem sequer pensei bem no que estava a fazer. - Sorriu 
de novo. - Mas, agora, j aconteceu, e no foi to mau como eu temia. Sinto-me bastante bem, considerando que metade do meu corpo no tem sensibilidade. Nem sequer 
me doeu muito. S fiquei sem flego durante um segundo.
        Ryan pensou em possveis feridas nas pernas que ela no conseguiria sentir. Comoveu-se ao ver a chama de orgulho que ardia nos olhos dela. "Meu Deus, ajuda-me." 
Sabia que aquilo era algo que ela queria e tinha de fazer sem a ajuda de ningum, que ser auto-suficiente era uma das coisas mais importantes do mundo para ela. 
Mas com que preo? O orgulho era algo que no devia ser levado demasiado longe.
        - Por favor, Ryan. Tenta entender. Eu tenho de fazer isto sem ti. Tenho de o fazer.
        Ele olhou para a cadeira de rodas, a qual naquele momento representava todos os motivos pelos quais ela no o devia fazer. Quase desejou no ter pedido  
sua famlia que o ajudasse a preparar o maldito elevador. Mas, no. Ele construra-o exactamente por aquela razo, para que ela se pudesse libertar da cadeira e 
de todas as limitaes da sua vida. Ele apenas no contara que Bethany fosse to teimosa e optasse por aquela atitude de conseguir-ou-morrer.
        Conseguir ou morrer. Desde o princpio, ele sempre apreciara a pose obstinada daquele pequeno queixo. Ela era assim. Como  que poderia ter-se tornado uma 
campe de barrel racing? Provavelmente, a sua atitude tambm fora idntica, indo alm dos seus limites at se tornar a melhor. Recordando-se da forma como ela o 
derrotara na piscina, desconfiou que Bethany seria sempre assim. Uma vez que aquela era uma das caractersticas que mais apreciava nela, quereria mesmo mudar Bethany?
        Com a sensao de ter acabado de engolir vidro modo, Ryan disse:
        - Deixas-me s fazer uma coisa antes de tentares montar outra vez?
        - Depende do que for.
        - J vs. - Obrigou-se a pois-la na cadeira. Depois de olhar para o controlo remoto preso no cs das calcas dela, disse:
        - Prometes que no te mexes antes de eu voltar? Ela suspirou.
        - No te demores muito. Quando mais eu esperar, mais nervosa fico. Ryan voltou-se para Sly, que continuava junto ao porto aberto.
        - Podes dar-me uma mo?
        O capataz assentiu e seguiu Ryan pelo corredor central at ao quarto de dormir, onde as vezes passavam a noite quando uma gua estava para parir. Alguns 
segundos depois, quando os dois homens voltaram  baia carregados de colches, Bethany rebentou as gargalhadas.
        - Sempre devem reduzir o choque quando eu aterrar - disse ela. Ryan sorriu sem vontade enquanto colocava um colcho ao lado da gua. Quando tirou o outro 
a Sly, disse:
        - A ideia  essa, impedir que partas esse pescoo teimoso.
        - Obrigada - disse ela em voz baixa depois de os colches terem sido instalados. - Fico mais tranquila por saber que eles esto ali. - Bethany olhou para 
os dois homens. - Podem ir-se embora. - Vendo que eles hesitavam, sorriu. - No volto a cair, prometo. Vo!
        Ryan fez sinal ao capataz para que o seguisse e saiu. Apenas deu trs passos. Sly parou ao lado dele. Olharam preocupados para a porta aberta da baia. Ryan 
sentiu um arrepio ao ouvir o motor de elevador comear a trabalhar. Qual era o mal de ela aceitar uma pequena ajuda naquela primeira vez?, pensou ele. Quando se 
habituasse, ele no teria qualquer problema em deix-la tentar sozinha.
        Comeou a voltar para a baia. Sly estendeu um brao e agarrou-o.
        - No - disse ele em voz baixa. - Isto  uma coisa que ela tem de fazer sozinha. Preparaste o raio do elevador para que isto pudesse acontecer. No estragues 
tudo.
        Ryan sabia que ele tinha razo, mas era muito difcil ficar ali parado. Os colches no eram assim to grandes. Ela podia cair ao lado de um deles e magoar-se. 
Parecia que corao lhe ia saltar do peito. O que  que estava a acontecer? Ela j estava na sela? Tentou ouvir, mas os sons no lhe diziam nada.
        - Consegui! - exclamou ela subitamente. - Consegui, Ryan! Vem c ver. Sozinha! Estou pronta para um passeio!
        Ryan e Sly quase chocaram ao entrar na baia. Bethany virou a gua, os olhos a brilhar, o rosto corado de alegria. Naquele instante, Ryan teve um vislumbre 
da rapariga dinmica, destemida que ela fora antes do acidente. O seu cabelo era um emaranhado de caracis escuros e sedosos em redor de uma cara delicada. Mantinha-se 
direita na sela, com o ar de quem dominava completamente a situao.
        Bethany era livre, a cadeira de rodas esquecida. A expresso na cara dela fez Ryan pensar na noite em que tinha danado a valsa com ela, e sentiu um aperto 
na garganta. Era por causa daquilo que ele comprara a gua, encomendara a sela e construra o elevador. Para poder ver aquela alegria inexprimvel nos olhos dela. 
No lhe ia estragar aquele momento com uma atitude excessivamente protectora.
        Olhou para o relgio.
        - O mdico disse para no exceder os dez minutos hoje. Ests a desperdiar segundos preciosos.
        Ela sacudiu as rdeas e estalou a lngua para que a gua comeasse a andar.
        - Saiam do meu caminho, senhores! Vou dar um passeio. Ryan ficou a v-la descer o corredor central.
        - Vai com calma no cimento! - no resistiu ele a dizer. Olhou para Sly. - Meu Deus! Nunca imaginei que o amor fosse to difcil. Achas que consigo sobreviver?
        Sly suspirou e abanou a cabea.
        - Acontece o mesmo com as crianas. Tens de as deixar ir. Lembro-me da primeira vez em que montaste sozinho. Quase tive um ataque cardaco. No  fcil abrir 
mo, rapaz, mas tens de o fazer.  a vida.
        Ryan assentiu. Dissera ao pai de Bethany praticamente a mesma coisa. Ela tinha sido sobreprotegida durante demasiado tempo. Desconfiava que esse fora o principal 
motivo que a levara a ficar em Portland, para fugir ao amor bem intencionado mas asfixiante da sua famlia. No queria que ela sentisse o mesmo com ele.
        Onze minutos depois, Ryan j queria selar Bucky e ir procur-la. Sly impediu-o.
        - Ela s est um minuto atrasada. D-lhe mais alguns para voltar. Estragas tudo se apareceres para a salvar como se fosses a cavalaria.
        Os dois minutos mais compridos da vida de Ryan passaram antes de ele ouvir as ferraduras de Wink no pavimento cimentado. Correu a agarrar num balde para 
parecer ocupado, para que ela no percebesse que tinha ficado ali preocupado sem fazer mais nada enquanto ela estivera ausente. Sly imitou-o. Depois, os dois homens 
olharam interrogativamente um para o outro, sem saber o que fazer a seguir. No estava na altura de alimentar os cavalos.
        - Ol! - disse Bethany, feliz, quando entrou com a gua. - Foi fantstico! No fazem ideia. E eu consegui, do princpio ao fim, sozinha. No  incrvel?
        Ela ainda no tinha desmontado. Ryan engoliu para se impedir de fazer qualquer referncia a esse facto.
        - Estou to orgulhosa. - Levou a gua para a baia onde o elevador a esperava. Ento, como se tivesse olhos na nuca, fez com que Ryan e Sly estacassem quando 
disse: - Fiquem onde esto. Eu desmonto sozinha.
        Ryan olhou para o capataz. A suar como se tivesse estado a trabalhar intensamente, Sly tirou o chapu para enxugar a testa com a manga. Ryan percebia o que 
ele estava a sentir. O zumbido do motor deixou-o com um n no estmago. Mordeu com forca o interior da bochecha para no dizer a Bethany que tivesse cuidado.
        Passaram-se segundos que mais pareceram mltiplas eternidades sucessivas. Por fim, ela disse:
        - OK! J desmontei. Podem vir tratar de mim.
        Ryan sentia os joelhos um pouco fracos quando se dirigiu para a baia. Bethany estava de novo na sua cadeira de rodas e puxava pela faixa de apoio do elevador 
para se desembaraar dela. Levantou a cabea e sorriu quando o nylon deslizou de debaixo do seu traseiro.
        - Devamos patentear esta geringona. Ficvamos bilionrios.
        - Eu j sou milionrio - recordou-lhe Ryan, rabugento. Irritava-o sobremaneira v-la to animada depois de lhe ter pregado um susto to grande. - Quando 
nos casarmos, metade do dinheiro passa a ser teu.
        - Eu no sou rico - referiu Sly. - Talvez registe a patente desta coisa. Se tivesse uma conta bem gorda no banco, talvez me casasse.
        Ryan olhou espantado para o capataz.
        - Com quem? Andas com algum e eu no sei?
        Sly ergueu uma sobrancelha grisalha, coou uma orelha e disse:
        - E se andar? Sou mais do que maior de idade. Acho que no so s os novos que podem ser mordidos pelo bichinho do amor.
        Ryan ficou to surpreendido com aquela revelao que quase se esqueceu de Bethany.
        - Nunca disse tal coisa. Acho isso fantstico, Sly. Quem  a sortuda? O capataz sorriu.
        - Isso, eu  que sei e tu  que tens de descobrir. Quando tal acontecer, ficas j a saber que estou apaixonado por ela.
        Dito isto, o capataz foi-se embora. Ryan olhou espantado para Bethany. Ela sorriu e suspirou.
        - No  to romntico? O Sly est apaixonado. Ryan franziu o sobrolho.
        - Ele ganha muito bem a trabalhar para ns. No precisa de milhes para se casar.
        Bethany virou a cadeira para a porta e saiu.
        - Vamos, Wink. Est na altura de voltares para a tua baia.
        A gua seguiu a sua dona como se fosse um co treinado. Ryan ficou a olhar para elas durante um momento e depois chamou Charlie, um dos empregados do rancho, 
para que fosse desselar a gua e lev-la a passear para arrefecer.
        A caminho do escritrio alguns minutos depois, Bethany brindou-o com um sorriso provocador por cima do ombro. J no interior da pequena sala, foi ela quem 
fechou e trancou a porta. Voltou-se, deitou-lhe um olhar picante e sacudiu as franjas da camisa com a ponta de um dedo.
        - Ol, vaqueiro. Teve saudades minhas?
        A pulsao de Ryan ainda no voltara ao normal. Por mais contente que estivesse porque o episdio com o elevador tivera um final feliz, ainda no tinha tirado 
da cabea aquela imagem de Bethany no cho aos ps da gua.
        - Neste momento, no estou para a virado.
        Ela limitou-se a sorrir e comeou a desabotoar a camisa.
        - Desculpa se te assustei. No volto a cair na asneira de soltar os ganchos antes de estar presa a sela. Prometo.
        Ryan desviou o olhar, decidido a no se deixar tentar.
        - Acho que temos de falar sobre escolhas sensatas e a necessidade de tomar as precaues adequadas.
        Ouviu o roagar de tecido e os seus olhos foram atrados para Bethany como se fossem limalha na presena de um man. De dois imanes. O soutien dela estava 
desapertado e os dois seios estavam a tentar sair.
        Um mamilo rosado espreitava por trs da orla de renda. Ao ver aquilo, ficou com o interior das bochechas colado aos dentes. No teria sido capaz de cuspir 
nem que ela tivesse gritado: Fogo no estbulo.
        - Por favor, no fiques zangado - disse ela em voz baixa. Enquanto falava, passava os dedos delicados pela ponta do seio nu, endurecendo-a, os seus olhos 
chamando-o. - Anda c e deixa-me fazer com que te sintas melhor.
        Mas que raio. Ela comeara tarde em termos de sexo, mas aprendia depressa. Ryan j tinha atravessado o escritrio antes de se aperceber de que se mexera. 
Esqueceu-se rapidamente da sua preocupao. Como  que um homem podia agarrar-se a um pensamento racional naquelas condies?
        Na quinta-feira seguinte, quando deram incio  viagem at Bear Creek Lake para o casamento, Bethany fizera exerccios dirios para se acostumar  sela e 
estava pronta para montar durante uma hora e meia. Sentia-se to feliz e optimista com o seu futuro ao lado de Ryan que quase a assustava. Cleo adaptara-se ao rancho 
como se tivesse nascido l, passando os seus dias s costas de T-bone e as noites em casa, aninhada no seu cesto. Bethany usara regularmente o elevador do estbulo, 
montando e desmontado sem qualquer ajuda. Ryan j dizia que ela devia abrir uma escola de equitao no futuro prximo, no apenas para treinar aspirantes s provas 
de barrel racing como Heidi, mas tambm para trabalhar com jovens paraplgicos.
        Tudo aquilo parecia demasiado bom para ser verdade. Um marido bonito que a amava. Ser capaz de ter filhos. Trabalhar a tempo inteiro com cavalos. Poder passear 
pela rede de caminhos que cobria a propriedade. Sentia-se como se o seu mundo tivesse sido ampliado desmesuradamente, e por vezes quase se sentia tonta. Certamente, 
ningum podia ser assim to feliz sem alguma coisa que estragasse tanta felicidade.
        Quando confessou o seu receio a Ryan, ele deixou-se ficar para trs at as montadas de ambos ficarem a par, to bonito na sela com o Sol de Junho a brilhar-lhe 
no cabelo negro despenteado pelo vento que ela sentiu uma pontada no corao. O tilintar quase musical da parafernlia de campismo que os acompanhava no cavalo de 
carga misturava-se com o som dos cascos.
        - Querida, isso uma tolice - disse ele. - Tu mereces ser feliz. No vai acontecer nada que estrague este momento. Nada.
        Bethany inclinou a cabea para trs e olhou para o cu.
        - Eu sei que  uma tolice.  s que... oh, Ryan. Estou to feliz. Percebes o que estou a dizer? Passei tanto tempo a dizer a mim mesma para ser prtica, 
sempre a repreender-me por querer o que j no podia ter. E agora, de repente, recebo tudo o que desejei. Ningum devia ser assim to feliz. Tem de ser um pecado 
ou qualquer coisa do gnero. Ele riu-se e inclinou-se para o lado para lhe roubar um beijo.
        - Bethany Ann, no consigo imaginar-te a cometer um pecado a srio, e tenho a certeza de que Deus me daria razo. Nunca conheci ningum com um corao mais 
puro. Acho que Ele me enviou um anjo.
        Os olhos dela brilharam, travessos, e Bethany arrancou uma pinha de uma rvore para lha atirar.
        - Os anjos no pensam no que estou a pensar agora. Porque  que no paramos e descansamos  sombra de uma rvore?
        Ryan sabia o que aquele brilho queria dizer e sentiu-se bastante tentado a parar. Mas se se demorassem muito na viagem, teria de alterar os seus planos.
        Suspirou e despenteou-lhe os cabelos.
        - Por muito que me custe, tenho de recusar. Ela amuou e fez beicinho.
        - Ainda nem nos casamos e j ests farto de mim.
        - Nada disso. S que h uma coisa especial que eu quero fazer esta tarde. Quando pararmos e montarmos a tenda, ds-me a honra de te tornares minha mulher?
        Ela olhou para ele, intrigada.
        - Hoje? Como? O sacerdote s vem no sbado.
        - No precisamos dele - garantiu-lhe Ryan. - Lembras-te de me teres dito que, para ti, estas terras bravias eram a tua igreja? Fazemos os nossos votos hoje. 
S tu e eu, no alto de uma montanha, fazemos as nossas promessas matrimoniais apenas com Deus como testemunha. Quem mais  que importa?
        Depois de pensar naquilo durante um momento, ela assentiu e sorriu.
        - Adorava. Acho que teria ainda mais significado do que a cerimnia oficial.
        Duas horas depois, Ryan ajoelhou-se aos ps de um anjo de cabelo escuro sentado numa cadeira de rodas e jurou am-la, honr-la e respeit-la para o resto 
da sua vida. Enquanto proferia as palavras, olhou para aqueles lindos olhos cor de amor-perfeito e soube que nascera para a amar.
        Quando terminou, foi a vez dela, com a voz trmula e os olhos a brilhar ao murmurar cada palavra, prometendo am-lo para sempre. Bethany. Ela era, sem dvida, 
uma ddiva do cu. Para consigo, Ryan jurou ser o homem que ela merecia, passar o resto dos seus dias a proteg-la e a tentar faz-la feliz. Se algum no mundo merecia 
ser feliz, esse algum era aquela mulher.
        Retirou os anis do bolso da camisa. Antes de lhe colocar um deles no dedo, ergueu-o contra a luz do Sol.
        - Dizem que um anel  um smbolo de eternidade, de amor puro e duradouro. Acho que muita gente se esquece disso. Eu nunca o farei. Prometo-te. - Colocou-lhe 
o anel no dedo e baixou a cabea para o beijar. - Com este anel, fao de ti minha esposa. - Ryan segurou-lhe o rosto entre as mos para lhe dar um beijo na boca. 
Foi percorrido por um desejo escaldante, deixando-lhe o sangue em chamas. - E agora, a parte melhor de uma cerimnia no alto de uma montanha - murmurou ele ao afastar-se. 
- Em vez de apenas beijar a minha noiva, posso selar os nossos votos fazendo amor com ela.
        Ela arregalou os olhos.
        - Aqui?
        Ryan olhou em redor e riu-se.
        - Uma coisa boa no alto das montanhas  que os vizinhos metem-se na sua vida e no so dados a mexericos. - Levantou-se, agarrou nela e levou-a para uma 
mancha de erva  sombra de um pinheiro. Depois de afastar as agulhas com o lado da bota, deitou-a cuidadosamente e fez amor com ela sob aquela luz dourada, dando 
aos esquilos algum tema de conversa.
        Resplendor... Ryan j ouvira aquela palavra centenas de vezes, mas a sensao em si era incrvel. Apertou a sua mulher contra ele, demasiado exausto para 
se mexer. A luz brincava com os corpos nus de ambos numa carcia quente, to agradvel que s lhe apetecia continuar assim. Apenas o medo de que a pele sensvel 
de Bethany se ressentisse o convenceu a mexer-se.
        O final da tarde e o sero no poderiam ter corrido melhor. Pescaram trutas para o jantar num regato prximo e comeram-nas diante de uma fogueira. Ryan conseguiu 
encontrar um lugar com profundidade suficiente mais a jusante e, antes do anoitecer, foram tomar um banho. Um grande problema. Assim que viu os seios nus de Bethany 
a boiar na superfcie da gua, agarrou nela, levou-a para a margem e fizeram amor mais uma vez. Estavam os dois um pouco enregelados quando finalmente saram da 
gua. Ryan secou-a, levou-a para o acampamento, enrolou-a num cobertor e sentou-se com ela nos braos junto  fogueira at sentir que Bethany voltara  sua temperatura 
normal. Tocou-lhe para se certificar. Por algum motivo, no conseguiu ficar por ali, e deu por si a fazer amor com ela mais uma vez, desta feita no cobertor diante 
da fogueira. No conseguia saciar-se, e ela parecia partilhar aquela sensao, abraando-o sempre com ansiedade quando ele a beijava.
        - Ouve - sussurrou ela com urgncia quando j estavam deitados na tenda.
        Ryan inclinou a cabea. Um momento depois, ouviu coiotes a uivar.
        - H algum som mais bonito? - perguntou-lhe ela. - Oh, Ryan, ouve s. O vento a murmurar nas rvores. Os coiotes a chamarem a Lua. Nunca pensei que voltaria 
a ouvir isto. Nunca. Fazes ideia do quanto isto significa para mim, ou do presente que acabaste de me dar? Para Ryan, o presente era ela, ele apenas o homem sortudo 
que o recebera.
        - Apenas acho que tenho a sorte de ter encontrado uma mulher que aprecia isto tanto quanto eu - disse ele. - No acontece a todos.
        Ela deixou-se ficar deitada, virada para ele. Um coiote uivou de novo. Enquanto o som atravessava a escurido, ela beijou-lhe a boca. Ento, sentou-se de 
repente, empurrando o saco-cama para trs e passando uma mo pelo flanco nu de Ryan.
        - Deita-te de costas - sussurrou ela -, quero fazer amor contigo enquanto os coiotes chamam a Lua.
        Era um pedido que ele no podia recusar. Virou-se de costas. Ela apoiou um brao no saco-cama para suportar melhor o seu peso. Em seguida, curvou a cabea 
e comeou a beijar-lhe o peito, descendo at ao triangulo escuro abaixo do umbigo. A luz da fogueira que entrava atravs do nylon da tenda, Ryan conseguia v-la 
perfeitamente e percebeu o que Bethany queria fazer. Talvez ele fosse impossivelmente antiquado, mas aquilo era algo que decidira nunca permitir que outra mulher 
fizesse, achando que era um acto demasiado ntimo para partilhar com algum que no amasse. Tambm nunca o fizera a nenhuma mulher antes de Bethany, preferindo sempre 
recorrer  sua mo.
        A sua ereco era to violenta como um mastro. S lhe faltava a bandeira a adejar ao vento. Afastou uma madeixa de cabelo da cara de Bethany.
        - Querida, no tens de...
        - Chiu - sussurrou ela, e comeou a lamb-lo como se estivesse perante um cone de gelado.
        Aquela era a experincia mais ertica da vida dele. No podia dizer que a sensao era fantstica porque o seu membro no era to sensvel como ela obviamente 
pensava. Bethany estava a imitar a sua tcnica, a qual no era propriamente a ideal para um homem. Mas isso no importava. Apenas v-la am-lo daquela forma quase 
o fazia perder o controlo.
        Ryan agarrou-lhe no queixo, to feliz como nunca pensara poder estar com algum. Porque ela o amava tanto. Porque ela estava disposta a fazer tudo o que 
fosse preciso, s para o fazer feliz com ela. O que Bethany no conseguia perceber era que ela era todos os sonhos dele transformados num, sem sequer se esforar.
        - Desculpa - disse ela em voz baixa. - Eu no sei como  que se faz isto. No me queres explicar? Com a prtica, posso melhorar.
        Ryan quase gemeu. Prtica. Mais uma passagem daquela lngua pequena e veloz e ele ficaria numa situao embaraosa.
        - Eu no sei como se faz - mentiu ele. Claro que sabia. Tinha uma ideia geral, de qualquer modo. - Nenhuma mulher me fez isso.
        No obstante a luz fraca, viu os olhos dela arregalarem-se de espanto.
        - Nunca?
        - E tu foste a primeira que eu beijei a em baixo - disse ele, agarrando-a pela cintura para a puxar para cima. -  uma coisa muito especial e eu guardei-a 
para ti.
        - Oh, Ryan. - Ela estava nitidamente comovida, considerando aquela atitude romntica. - Para um principiante, s muito bom.
        Ele limitou-se a sorrir.
        - Obrigado. Para mim,  importante agradar-te.
        - Ento, podes perceber que eu queira agradar-te.
        - E agradaste, querida. Se tivesses sido melhor, eu j estava acabado e a ressonar. E que graa  que isso tinha?
        Ela sorriu e descontraiu-se. O peso dela no seu peito era to agradvel, toda ela to sedosa e macia.
        - Gostaste?
        Ele riu-se ao ouvir o ronronar feminino na voz dela.
        - Tanto que j no aguentava mais. - Olhou para a boca dela e cruzou os braos por baixo da nuca. - Beija-me antes na boca. - Percebendo que ela queria assumir 
o controlo, e que queria fazer algo que lhe agradasse a ele, murmurou: - Enquanto me beijas, podes roar os teus mamilos no meu peito.
        Ela fez exactamente o que lhe fora pedido, e quando Ryan sentiu que os mamilos dela comeavam a endurecer, esqueceu por completo que devia deix-la assumir 
o controlo. Bethany. Agarrou-a, virou-se para ficar por cima dela e fizeram amor ao som dos uivos dos coiotes...
        Bethany acordou-o de madrugada. Durante o tempo que passara com ele no rancho, deixara de acordar rabugenta, mas naquela manh ele ficou fascinado com a 
mudana drstica. Depois de a ajudar a sentar-se, ela abriu os braos para receber a manh, inclinou a cabea para trs, olhou para as copas das rvores e riu-se 
com prazer.
        - Sinto-me viva! - exclamou ela. - No apenas aqui, no apenas a respirar. Sinto-me to viva!
        A sua boa disposio manteve-se durante a manh. Quando se puseram novamente a caminho, cantou canes patetas, recordando a Ryan que, afinal, no era completamente 
perfeita. Aquela mulher no sabia o que era uma melodia. Ele viu-se forcado a acompanh-la apenas para no esforar tanto os seus ouvidos.
        - Sessenta e sete garrafas de cerveja na parede! Sessenta e sete garrafas de cerveja! Tira-se uma garrafa, passa-se a garrafa, sessenta...
        - ... e quatro garrafas na parede! - interrompeu Ryan.
        - No, so sessenta e seis!
        Ryan ainda estava a rir-se quando ouviu um grande animal na vegetao  esquerda do caminho e vislumbrou uma vaca Hereford entre os troncos. Encontrar gado 
ali em cima no era raro. As manadas do Rocking K tinham grande liberdade e passeavam-se pelas montanhas  pro-cura de pasto. Mas Ryan nunca vira uma a correr daquela 
forma.
        Puxou as rdeas e prestou ateno aos sons que se tornavam mais distantes.
        - Mas que raio?
        Bethany parara tambm atrs do cavalo de carga.
        - O que ser que lhe deu?
        Ryan franziu o sobrolho, pensativo.
        - No sei. Todavia, qualquer coisa me diz que devia ir dar uma vista de olhos. H umas semanas, um rancheiro perdeu duas cabeas por causa de caadores furtivos. 
- Virou a montada, voltou para trs e entregou as rdeas do cavalo de carga a Bethany. - Fica aqui, querida. Eu j volto.
        Ryan precisou de apenas alguns minutos para atravessar as rvores e descobrir as pegadas da vaca. Seguindo o rasto com o olhar, viu uma mancha hmida num 
dos ramos mais baixos de um abeto. Desmontou e foi ver o que era. Quando tocou nas agulhas, ficou com sangue fresco nas pontas dos dedos. Seguiu o rasto da vaca 
a p durante algum tempo e, no restavam duvidas, tambm havia sangue no cho. O animal estava gravemente ferido.
        Quando Ryan voltou para junto de Bethany, contou-lhe o que tinha descoberto.
        - Algum idiota deve t-la atingido - disse ele. - Cambada. Se no sabem disparar melhor do que isto, no deviam usar uma espingarda.
        Bethany torceu-se para olhar para trs. Estava preocupada.
        - Oh, Ryan, isto  horrvel. Se a pobre criatura foi ferida e no se esvair em sangue, o mais provvel  que morra lentamente por causa de uma infeco ou 
qualquer coisa do gnero. No podemos deix-la assim.
        Ryan concordou.
        - Posso procur-la. Mas o terreno no  fcil quando samos do trilho.  melhor no vires comigo.
        - No faz mal. Eu espero aqui. Ryan sorriu.
        - Acho que posso fazer melhor do que isso. H um prado muito bonito um pouco mais  frente. E se esperares l por mim?
        - Com comida? - perguntou ela. Ele riu-se e assentiu.
        - Acho que posso deixar-te qualquer coisa para roer.
        - Parece perfeito. Seja como for, sabia-me bem descansar um pouco. Assim, no estou exausta quando chegarmos ao lago.
        Alguns minutos depois, quando j estava confortavelmente instalada na sua cadeira sob um grande pinheiro na orla do prado, Bethany sorriu-lhe.
        - Sinto-me como se fosse uma princesa! S me falta uma bebida e aquela qualquer coisa para roer que me prometeste.
        Ele riu-se e foi buscar uma lata de refrigerante  mala trmica e agarrou no cesto de piquenique, que ainda estava cheio de guloseimas. Quando voltou para 
deixar tudo junto  base do pinheiro, Bethany disse:
        - Nham. - Abriu o cesto e tirou o salame e o queijo. - No gostava de estar no teu lugar.  uma pena que no me possas fazer companhia.
        Ele desapertou o coldre e entregou-lho.
        - Mais vale prevenir - disse ele. - Espero que saibas usar um revlver.
        Ela aceitou o calibre 22, os seus olhos com uma expresso travessa.
        - Isto no  um revolver,  um brinquedo. E, sim, sei us-lo. Sou capaz de acertar numa bolota a cinquenta metros. Ests satisfeito?
        - Com ou sem apoio para o brao? Ela levantou o queixo.
        - Sem apoio, obviamente. O que  que tu achas que eu sou, uma menina da cidade? - Olhou em redor. - Mas, exactamente, para que  que eu preciso de uma arma? 
Os esquilos so vampiros por estas bandas?
        Ele riu-se e dirigiu-se para o seu cavalo.
        - Estava mais a pensar em cobras.  por causa delas que costumo ter a arma comigo.
        Ela estremeceu e esfregou os braos.
        - Detesto cobras.
        Ryan montou, viu-a procurar uma faca no cesto para cortar o queijo e disse:
        - Guarda alguma coisa para mim, minha menina. Posso voltar com apetite.
        - Eu guardo. - A expresso dela tornou-se mais sria. - Espero que a encontres, Ryan. Boa sorte.
        - Ento, ests a olhar para um dos melhores batedores deste lado dos Pecos. O que  que pensas que eu sou, um menino da cidade?
        Ela apertou os lbios.
        - Mas onde  que ficam os Pecos, exactamente?
        - No fao ideia. Mas, do lado de c, eu sou o melhor. - Piscou-lhe o olho e sorriu enquanto verificava se tinha a espingarda carregada.
        - Ela estava a sangrar bastante. Deve ser relativamente fcil encontr-la. Se j no a puder ajudar, abato-a. Seno, entro em contacto com o Rafe e digo-lhe 
onde ela est. - Deu uma palmada no telemvel preso ao cinto. - Com sinais de fumo, evidentemente. Ela estava a rir-se quando Ryan se afastou.
        - Tem cuidado, Tex!
        - No te preocupes.
        Em lugar de seguir o trilho, ele decidiu poupar tempo.  medida que conduzia a sua montada atravs da vegetao cerrada, mantinha-se atento a qualquer sinal, 
com a esperana de descobrir o local onde a vaca fora atingida. Ela vinha a correr algures dali de cima, Ryan tinha a certeza disso.
        Ainda no tinha andado muito quando comeou a sentir um formigueiro na nuca. Obrigou o cavalo a parar, escutou e farejou. O bosque tornara-se desagradavelmente 
silencioso. At o vento parecia estar a suster a respirao. Ryan andara a cavalo naquelas montanhas durante toda a sua vida. Conhecia-as como a palma da sua mo. 
Quando algo no estava bem, ele sentia-o.
        E algo no estava bem.
        Naquele instante, sentiu-se fortemente tentado a regressar ao prado onde deixara Bethany. No sabia dizer porqu. Uma parte dele dizia que estava a ser tolo. 
Mas outra, bem grande, estava apreensiva.
        Ento, sentiu-lhe o cheiro. Sangue. Ryan j estivera demasiadas vezes num matadouro para no reconhecer o cheiro de gado acabado de abater. Fez com que a 
sua montada avanasse, a sua ira a crescer. Mas que raio? Andariam por ali alguns midos com espingardas a usar as vacas dele para praticar tiro ao alvo?
        No muito longe, havia um ponto de gua, um lugar onde as enchentes de Inverno do Bear Creek h muito tinham aberto um grande buraco no xisto, formando uma 
pequena garganta encerrada num dos extremos. Durante o Vero, o gado gostava de se reunir ali porque as rvores cresciam em redor da ravina, proporcionando grandes 
zonas de sombra junto ao ribeiro.
        Se algumas vacas estivessem por ali, seriam como patos numa carreira de tiro, fceis de atingir com uma espingarda. Com um dos extremos da rea praticamente 
fechado, no lhes seria possvel fugir rapidamente.
        Ryan dirigiu-se imediatamente para l. O cheiro a sangue tornou-se mais intenso. De muito sangue. Quando chegou  ltima crista acima do ponto de gua, estava 
preparado para ver uma srie de vacas mortas. No era algo que quisesse ver, mas no seria a primeira vez e no estava  espera de ter um choque.
        Quando viu a carnificina, a blis subiu-lhe a garganta.
        As vacas tinham-se amontoado junto  gua, exactamente como ele imaginara. Mas no fora um atirador quem as matara. Ryan nunca se deparara com um espectculo 
como aquele em toda a sua vida. Pelo menos dez vacas estavam mortas, algumas no ribeiro, outras nas margens. A gua estava vermelha com o sangue dos corpos estropiados.
        quela distncia, Ryan no conseguia perceber que gnero de animal as matara. A concentrao de pumas naquelas montanhas era pronunciada, uma vez que a legislao 
aprovada h alguns anos proibia a utilizao de ces de caa. Mas os pumas nau tinham por hbito atacar daquela forma. Partiam o pescoo da sua vtima e depois arrastavam 
o animal morto para um local onde o pudessem comer.
        Ryan desmontou, prendeu Bucky a um tronco e retirou a sua Remington 30.06 do estojo. A descida at ao regato era ngreme. Deixou-se deslizar no xisto solto, 
quase no conseguindo manter-se de p. Quando chegou ao fundo, no perdeu tempo a examinar as vacas. Os rastos que encontrou na terra macia perto do gado morto indicavam 
sem margem para dvidas a presena de um urso.
        Mal podia acreditar no que estava a ver. Os ursos pretos no faziam aquilo. Eram carnvoros, sim, e ocasionalmente matavam quando tinham fome, mas, de um 
modo geral, eram criaturas oportunistas, sendo mais provvel que se aproveitassem de animais j mortos, larvas ou vegetao e bagas. Durante a sua vida, Ryan ouvira 
falar de ursos que matavam uma vaca de vez em quando, e sempre para se alimentarem.
        Todavia, no podia negar o que tinha diante dos olhos. A avaliar pelas pegadas, era um urso grande. Geralmente, os ursos pretos que atascavam sozinhos e 
de forma aleatria eram machos jovens. Um macho mais velho raramente atacava sem provocao, e uma fmea s o fazia se as suas crias fossem ameaadas.
        Ryan sentiu um arrepio descer-lhe pela coluna. A vaca ferida que tinham visto a fugir no bosque tinha, sem dvida, escapado quela matana. No tinham passado 
mais de vinte minutos. As mortes era recentes e no eram o produto de um carnvoro esfomeado, que atacasse para conseguir comida. O urso no comera nenhuma das vacas. 
No. Aquilo fora um frenesim assassino, aqueles animais tinham sido mortos por puro prazer.
        Aquela ideia fez com que Ryan comeasse imediatamente a subir a encosta. Bethany. Tinha-a deixado sentada naquele prado sem nada com que se defender. O revolver 
de calibre .22 apenas deixaria um urso furioso. Nunca o abateria.
        Estava a ofegar com o esforo e coberto de suores frios quando chegou ao cavalo. Porque sabia que no podia perder tempo a voltar para junto de Bethany, 
guardou a espingarda para ter as duas mos livres.
        Bethany. Ela estava a cortar salame e queijo quando ele a deixara. Um urso era capaz de cheirar comida a mais de um quilmetro de distncia.
        Ryan cravou os calcanhares nos flancos de Bucky e partiu a galope. O terreno era difcil e ele sabia que no seria preciso muito para lesionar o cavalo se 
continuasse aquela velocidade. Mas tinha de ser. Se tivesse de escolher entre a sua montada e a sua mulher, sacrificaria o cavalo sem qualquer hesitao.
        "Por favor, Deus." A prece silenciosa rodopiava na sua mente. Obrigou Bucky a correr ainda mais depressa, com medo de que o urso pudesse cortar caminho pelo 
prado. Bethany estava to indefesa. Nem sequer podia tentar fugir.
        Quando Ryan chegou  orla do prado sentiu um alvio que nunca sentira em toda a sua vida. Bethany estava sentada debaixo do pinheiro, exactamente onde ele 
a deixara. Ela viu-o e acenou. Ryan abrandou o passo. Ela estava bem, graas a Deus. Agora, estava suficientemente perto para abater um urso com a espingarda antes 
que ele pudesse aproximar-se dela.
        Bethany reparou que o cavalo respirava com dificuldade e perguntou-lhe:
        - Encontraste-a? Est tudo bem?
        - No, no fui atrs dela. - Ryan estudou as vertentes que rodeavam o prado. No queria assust-la, mas tambm no lhe queria mentir.
        - Era um urso, querida. Tens de arrumar a comida toda. Fecha bem tudo. No quero que apaream visitas que no convidamos.
        - Viste um urso? - Ela parecia estar deliciada. - O mximo. Talvez o consigamos ver outra vez. No vejo um urso preto h sculos.
        - A populao aumentou substancialmente nos ltimos anos. A legislao destinada a proteger os pumas tambm acabou por favorec-los. - Deteve Bucky ao lado 
de Wink e do cavalo de carga. Assim que desmontou, retirou a espingarda do estojo como medida de segurana. No queria ser apanhado desprevenido. - No vi o urso. 
Apenas uma srie de vestgios muito recentes.
        Quando ela o viu aproximar-se com a espingarda no brao, o seu sorriso desapareceu. Depois de um longo momento a tentar olh-lo nos olhos, perguntou:
        - Oh, Ryan... o que  que se passa? Ele olhou novamente em redor.
        - No te quero assustar, querida. Mas isto no  um urso normal. Ele passou-se.
        - O qu? - perguntou ela com uma voz trmula e incrdula, a rir.
        - O que  que queres dizer com isso? Passou-se como? Ryan olhou para ela.
        - Aquela vaca que nos vimos? Tinha sido atacada. - Apontou com a cabea. - A pouco mais de um quilmetro para leste, h uma ravina onde as vacas gostam de 
ir beber. Vertentes ngremes de xisto de ambos os lados. No  uma bolsa, mas quase, o que lhes dificulta a sada. O urso deve t-las apanhado de surpresa. No perdi 
tempo a contar as cabeas, mas diria que pelo menos dez esto mortas.
        - O qu? Achas que um urso preto matou dez vacas? Isso  uma loucura, Ryan. Os ursos pretos no fazem isso. Um pardo, talvez, mas no um urso preto do Oregon.
        Ryan comeou a sentir novamente um formigueiro na nuca.
        - Ele  grande e velho. As pessoas passam-se. Porque no um urso? - Encostou a espingarda a rvore ao lado dela. - s to boa com uma caadeira como com 
um revlver?
        Ela estava a olhar por cima do ombro.
        - J l vai muito tempo. Eu tinha uma pontaria razovel com uma espingarda. Mas, agora, no posso garantir nada.
        Ryan indicou-lhe a arma com um inclinar da cabea.
        - Mantm os olhos bem abertos enquanto eu selo a Wink. Vamos sair j daqui. - Olhou para o cesto. Ela tinha guardado a pistola e o coldre l dentro. - Fecha 
o salame numa caixa. Um urso  capaz de cheirar comida a grandes distncias. No quero surpresas.
        Ryan aprestou a gua rapidamente. Quando foi buscar Bethany, viu-se obrigado a sorrir. Ela estava a fazer exactamente o que ele lhe dissera, com os olhos 
colados nas encostas em redor, uma mo poisada no cabo da espingarda para o caso de ter de disparar. Podia no conseguir andar, pensou Ryan, mas no havia ningum 
em quem ele confiasse mais para lhe proteger a retaguarda.
        Curvou-se para a retirar da cadeira.
        - Vou deixar-te na sela e depois venho buscar a espingarda e o resto. Ela abraou-lhe o pescoo enquanto Ryan a levava.
        - Ests mesmo preocupado.
        - Nunca tinha visto nada como aquilo - admitiu ele. - Fiquei com o sangue gelado e completamente apavorado. Eu ali to longe, s esperava que tu estivesses 
bem.
        - Oh, Ryan. Eu tinha a arma que me deixaste. Estava bem. Ele semicerrou um olho.
        - Essa pistola no tinha impedido um urso grande como aquele. Acredita, eu sei...
        Grrrraauurrr!
        O som vinha de trs deles. Ainda a meio do caminho at aos cavalos, Ryan voltou-se para ver o que era. Quando viu o urso a correr direito a eles, o seu corao 
parou, dando-lhe a sensao de ter um pedao de gelo pendurado no peito. O animal era enorme e corria com uma velocidade incrvel - a gordura e o pelo abanando com 
cada impacto das patas no solo. Grrrraauurrr!
        - Oh, meu Deus - gritou Bethany. - Oh, meu Deus!
        Ryan olhou freneticamente para a espingarda encostada ao tronco do pinheiro apenas a alguns passos deles, onde a deixara para poder levar Bethany at  gua. 
Se a poisasse no cho, talvez pudesse alcanar a arma antes de o urso o apanhar. Mas era muito provvel que o animal no se desviasse, investindo cegamente. Se isso 
acontecesse, atacaria Bethany antes de Ryan ter tempo de disparar. E tambm poderia passar algum tempo depois de disparar. Era sabido que os ursos no costumavam 
tombar imediatamente.
        Bethany podia morrer.
        Ryan tinha de tomar uma deciso, e, para ele, no tinha escolha possvel. Poisou Bethany no cho exactamente no local onde estavam e enfrentou o urso sem 
uma arma.
        Naquela fraco de segundo antes de a criatura enorme os alcanar, a sua mente rodopiou com pedaos desconexos de informao que ouvira durante anos a respeito 
dos ursos pretos, a mais pertinente sendo que eles por vezes desistiam se a pessoa fizesse por parecer o maior possvel e assumisse um comportamento agressivo. Colocou-se 
entre Bethany e o urso, abriu os braos e berrou o mais alto que conseguiu. Mas o urso no parou.
        - Sai daqui! - berrou ele novamente. Desta vez, deu alguns passos em frente, pensando enquanto o fazia se teria perdido completamente o juzo. - Grraauurr! 
- gritou ele, tentando imitar o rugido feroz do animal.
        - Ryan! - gritou Bethany. - Foge. Sai daqui!
        O urso apanhou-o. Ryan sentiu-se como se tivesse sido atingido por uma locomotiva. Os seus ps perderam o contacto com o solo e ele e o urso pareceram levantar 
voo. Ao longe, ouviu os gritos de Bethany. Dor. Uma vaga vermelha que lhe inundava a mente.
        - A espingarda! - conseguiu ele gritar. - Pelo amor de Deus, a espingarda!
        Ryan sempre ouvira dizer que o melhor era fazer-se de morto caso um urso o atacasse. Sentiu o filho da puta morder-lhe a anca. Sentiu os ossos a partirem-se 
como giz sob a fora das suas mandbulas. Como  que um homem podia fazer-se de morto quando o seu corpo estava a explodir de agonia? Ryan gritou. Era impossvel 
calar-se. Gritou como se estivesse a ser torturado, os membros arrancados um a um.
        Talvez fosse isso mesmo que estava a acontecer... Passaram-lhe pela mente imagens das vacas estropiadas. Bethany. O urso iria atrs dela depois. Cego de 
dor, Ryan obrigou o seu corpo a descontrair-se e virou-se de barriga para baixo, procurando a faca que tinha presa ao cinto. Seria praticamente o mesmo do que espetar 
um palito num hipoptamo, mas era a nica arma de que dispunha.
        
        A espingarda. A espingarda. A espingarda.
        Bethany arrastou-se at  arvore, o seu olhar fixo na arma. Ouvia Ryan a gritar. "Meu Deus." Ele podia ter escapado se tivesse corrido. Mas, no. Metera-se 
entre ela e o urso, e agora - "meu Deus, meu Deus" - estava a morrer por ela.
        "No, no, no, naao. Agarrou-se desvairadamente  erva, arrastando-se pelo cho um centmetro de cada vez. Intil. Ela era uma intil. A morrer. Ryan estava 
a morrer. E ela arrastava-se de barriga para baixo como uma lesma, incapaz de fazer fosse o que fosse para o ajudar.
        Quando finalmente chegou junto da rvore, Bethany sentia-se como se um milhar de eternidades tivesse passado. Agarrou na arma, conseguiu sentar-se e apoiou 
as costas no tronco. Inspirou... expirou. O som dos seus pulmes ecoava contra os tmpanos. Cada bombada de sangue parecia uma exploso no interior do seu crebro. 
Ryan. Puxou a segurana da espingarda, introduziu um cartucho e apoiou o cabo no ombro.
        O urso estava a triturar Ryan. A atir-lo de um lado para o outro como se fosse uma boneca de trapos. Sempre que Bethany se preparava para disparar, perdia 
a coragem, com medo de atingir Ryan. "Por favor, meu Deus." Ela tinha de acertar.
        Mas a oportunidade no surgiu. O urso estava frentico. Bethany apercebeu-se de que tinha mesmo de disparar. Assestou a mira no urso, recusando-se a pensar 
que Ryan poderia ficar na linha de fogo. Inspirou, susteve a respirao e premiu o gatilho. Bang! O coice da arma atirou-lhe a coluna contra o tronco.
        O urso berrou de fria e voltou-se para ela, empinando-se nas patas traseiras. Grrraaauuurrr! O som foi medonho, quase parecendo humano. Bethany introduziu 
mais um cartuxo e apontou. Antes que pudesse disparar, o urso largou a fugir.
        A soluar e gritando o nome de Ryan, Bethany arrastou-se at ele. Sangue. Ela nunca vira tanto sangue. Ele s podia estar morto. Empurrava a arma  frente 
dela enquanto se arrastava pelo cho, sabendo que precisaria dela se o urso voltasse atrs. Ryan. Amava-o tanto. "Por favor, Deus." Ele no podia estar morto.
        Quando finalmente o alcanou, ele murmurou qualquer coisa e abriu os olhos. Esferas azuis, rodeadas por estrias vermelhas. Ryan sorriu-lhe.
        - Acertaste no filho da puta?
        - No sei - respondeu ela a soluar. - Meu Deus, Ryan. Tu ests ferido. Muito ferido.
        - No me digas! Ele apanhou-me a anca. - Pestanejou e olhou para ela durante um momento. - Bethany, eu... No largues a arma, querida. No deixes que aquele 
estupor te faa mal.
        Foi tudo o que ele disse; depois, perdeu os sentidos.
        Rezando sem saber o que fazer, Bethany conseguiu sentar-se. Comeou a inspeccionar o corpo dele, sabendo que tinha de descobrir os ferimentos mais graves 
e deter a hemorragia. Olhou primeiro para a anca. Quase vomitou. Comeou a chorar, mas obrigou-se a parar. Nada de histeria. Tinha de manter a cabea fria. Fazer 
o que tinha de ser feito.
        Desembaraou-se dos sapatos para conseguir tirar as meias. Depois, despiu a blusa e o soutien. Enchimento. Tinha de proteger as feridas e depois apert-las 
bem para parar a hemorragia.
        Enquanto trabalhava, no parava de rezar, negociando com Deus: "Por favor, deixa-o viver e eu juro, nunca mais volto a sair. A culpa foi minha. No tinha 
de vir com ele para uma zona como esta. Ele tinha ido buscar a espingarda se no fosse por mim. Por favor, deixa-o viver. Por favor, por favor, por favor."
        Depois de fazer tudo o que podia para estancar a hemorragia, agarrou no telemvel dele. Quase perdeu o juzo quando viu que estava esmagado. O urso inutilizara-o 
quando mordera a anca de Ryan. Mesmo assim, tentou marcar um numero. O telefone no funcionava. Era to intil quanto ela.
        Bethany no tinha tempo a perder. Precisava de ajuda. Tinha de usar a cabea. Olhou para os cavalos. No tinha como conseguir montar qualquer um deles sozinha, 
quanto mais iar um homem ferido para uma sela. Mas aqueles cavalos continuavam a ser a sua nica esperana.
        Sempre agarrada  espingarda, exactamente como Ryan lhe dissera, Bethany arrastou-se at as montadas. Os trs animais estavam apavorados e empinavam-se nervosamente. 
Enquanto se aproximava, no tirava os olhos dos cascos, rezando para que nenhum deles a pisasse. Era-lhe indiferente. Precisava de ajuda para Ryan. Ele morria se 
ela no conseguisse.
        Bucky era a sua melhor hiptese, decidiu ela. O cavalo de carga estava demasiado carregado para ser rpido e Wink no passara muito tempo no Rocking K. Era 
provvel que Bucky tivesse percorrido muitas vezes aqueles trilhos de montanha com Ryan, e, se ela o libertasse, saberia como voltar.
        Milagrosamente, o cavalo parou assim que Bethany se aproximou dos seus cascos. As lgrimas quase a cegavam.
        - s um lindo menino - disse-lhe ela com voz trmula. Antes de desamarrar as rdeas do cavalo, Bethany sentou-se e esfregou os braos ensanguentados no peito 
dele, rezando para que quem quer que fosse que o encontrasse reparasse nas manchas vermelhas no pelo acastanhado. - Tens de ir para casa, Bucky. O mais depressa 
que puderes, vai para casa.
        Ela desamarrou-lhe as rdeas.
        - Vai! - gritou ela. - Ha! Ha! Daqui p'ra fora! Vai! - Deu uma palmada no peito do cavalo. - Ha!
        Assustado pelo ataque do urso, Bucky j estava suficientemente nervoso e no precisou de mais incentivos. Deu meia volta e partiu a galope. Enquanto olhava 
para ele, Bethany rezava em silncio, pedindo que ele fosse direito para o rancho e que estivesse l algum para o ver quando chegasse.
        
        Assim que Sly viu o cavalo de Ryan entrar no estbulo sem o seu cavaleiro, soube que algo estava errado. Entrou imediatamente em contacto com Rafe.
        - Temos problemas, rapaz.  melhor vires c.
        Rafe demorou cinco minutos. Examinou Bucky, viu o que parecia ser sangue no peito do cavalo e praguejou entre dentes.
        - Aconteceu alguma coisa. Um deles est gravemente ferido. Sly j chegara  mesma concluso e comeara a selar os cavalos.
        - Achas que devia telefonar aos irmos da Bethany? Vamos precisar de todos os homens que pudermos se vamos tentar encontr-los.
        Rafe assentiu.
        - Eu trato disso, Sly. Se puderes acabar de selar os cavalos, agradeo.
        - Quantos? - perguntou o capataz quando Rafe j se dirigia para o escritrio do estbulo.
        - Ela tem trs irmos aqui na cidade. Acho que ho-de aparecer todos. Cinco montadas para ns, acho eu, e uma sobressalente para o Ryan, visto que a dele 
est aqui. - Rafe parou e olhou para Sly com uma expresso vazia. - Pede a Deus que ele esteja vivo e que precise de um cavalo. Aquilo  muito sangue no Bucky.
        - Pensamentos positivos, rapaz. O Ryan  esperto. Conhece as montanhas como as palmas das mos. Ele est bem.
        Rafe assentiu e abriu a porta do escritrio.
        
        Os uivos dos coiotes no eram to belos quando uma mulher estava sozinha na escurido, a rezar com todas as suas forcas para que o homem que ela amava se 
agarrasse  vida durante mais algum tempo. Bethany estava sentada com a cabea de Ryan poisada no colo. Ele recuperara os sentidos algumas vezes. Apenas por pouco 
tempo. Alguns momentos de lucidez para quebrar uma eternidade de solido...
        Em todas elas, apenas parecera preocupado com ela.
        - Bethany - coaxou ele na primeira. - Querida, no largues essa espingarda e no te deixes adormecer.  muito provvel que uma bala no tenha acabado com 
aquele estupor e ele pode voltar.
        - Eu no adormeo, Ryan. No te preocupes. Prometo, eu no adormeo.
        Ele desmaiou de novo. Quando voltou a acordar, parecia mais calmo. Ou estaria apenas mais fraco? Bethany sentiu o seu corao torcer-se e apeteceu-lhe gritar 
quando olhou para os olhos dele.
        - H uma cano - murmurou ele. - Do Garth Brooks, acho eu. Um homem a pensar se ela sabe... a pensar se ter feito o suficiente.
        Bethany tocou-lhe com os dedos nos lbios e soluou, incapaz de imaginar qual a relao que uma cano poderia ter fosse com o que fosse.
        - Poupa as tuas forcas. No tentes falar.
        - Tenho de falar.  importante. - Ele engoliu e olhou para o cu. - Se eu no voltar a acordar, quero que tu saibas.
        - Que eu saiba o qu?
        - O quanto eu te... - fechou os olhos. - O quanto eu te amo. Voltou a desmaiar. Bethany soluou e abraou-o com forca, baloiando-se desvairadamente.
        - Eu sei, Ryan. Como  que podia no saber? Eu sei... Quando recuperou mais uma vez os sentidos, Ryan disse:
        - Ele vai voltar. s vezes, eles voltam. No largues a espingarda, fica preparada.
        - Sim. Ela est aqui ao meu lado. Eu abato aquele filho da puta. Podes ter a certeza.
        Os dentes dele brilharam num sorriso fraco, o rosto plido e com um aspecto macilento sob o luar, marcado por linhas de sangue seco.
        - Nunca te ouvi praguejar. Quem havia de dizer.
        - Neste instante, era capaz de te ensinar uns quantos palavres. Ele sorriu de novo.
        - J me ensinaste muito, querida. - Olhou para ela. Depois, os seus olhos pareceram desfocar-se. - Foi bom - murmurou. - Foi... tudo. Percebes?
        Ela assentiu.
        - Eu sei, Ryan. Eu sei o quanto me amas. Quase tanto como eu te amo a ti, acho eu.
        A cara dele contorceu-se de dor. As plpebras estremeceram e fecharam-se.
        - Bethany? - murmurou ele debilmente.
        - Sim?
        - Acho que no... - engoliu e tentou respirar fundo. - Acho que no consigo aguentar-me muito mais tempo.
        - Eu aguento por ti. Descansa, Ryan. Amo-te tanto. No me podes deixar.
        Quando ele voltou a recuperar a conscincia, estava ainda mais fraco. No perdeu tempo com palavras desnecessrias:
        - O Rafe. Os meus pais. Diz-lhes. Trocamos votos. Quero que fiques com o rancho.
        Como se isso interessasse a Bethany. As lgrimas escorreram-lhe pelas faces.
        - Estou-me a borrifar para o teu dinheiro, Ryan. Nem sequer penses nisso.
        - No estou a falar do dinheiro - conseguiu ele dizer. -  O rancho. O cu no teu quintal. Tens de ficar, Bethany. Tu e a Wink. Com a minha famlia. Prometes?
        - Tu vais-te safar, Ryan. Tens de te safar. Percebeste? Eu mandei o Bucky de volta. No tarda, temos ajuda. S tens de te aguentar mais um pouco.
        - No consigo - sussurrou ele. - Promete-me que ficas. Tenho de saber isso.
        - Prometo. Eu fico l, Ryan. Com o cu no meu quintal. Prometo. Ryan perdeu os sentidos.
        Bethany verificava-lhe constantemente a pulsao. Estava fraca. As batidas tinham-se tornado to tnues que mal as conseguia sentir, com um intervalo entre 
elas que mais parecia uma eternidade. Ele estava a perder as forcas, o sangue a esvair-se lentamente.
        Uma quietude terrvel abateu-se sobre ela enquanto lhe segurava a cabea contra os seios nus. Ryan. Teria sido tudo um sonho? Um sonho magnfico condenado 
a ter um fim, como todos os sonhos?
        A Lua encontrava-se no seu znite quando Bethany pensou ter ouvido a voz de Jake a cham-la. Levantou a cabea e olhou estupidamente atravs das trevas prateadas 
pelo luar, pensando se teria adormecido e estivera a sonhar.
        - Bethanyyyy! Bethanyyyyyyyyy!
        O seu corao animou-se com nova esperana.
        -Jake? Estamos aqui! Aqui! Jake!
        Viu luzes. Luzes de lanternas. O que parecia ser uma dzia delas, baloiando na escurido. Abraou os ombros inertes de Ryan e cobriu-lhe a cara de beijos.
        - Conseguiste! Eles vieram. Mesmo a tempo, mas vieram. Tu conseguiste!
        Enquanto Bethany dizia estas palavras, pensava se estaria a mentir a si prpria. Ele estava to fraco. Por muito que o amasse, por vezes, o amor simplesmente 
no era o suficiente.
        
        Pesadelos. Bethany sonhou com helicpteros. Completamente bizarro. Com Ryan e helicpteros? Ele referira uma vez que o Rocking K tinha uma pista de aterragem, 
mas nunca lhe dissera que tinha um helicptero. No obstante, sonhou que estavam a voar. Sorriu, tentando recuperar a conscincia. Ela e Ryan, a voar. S os dois, 
a levantar voo, juntos. Escurido. Luzes perturbadoras  volta deles. O rudo ensurdecedor das ps de um helicptero.
        Nos seus sonhos, Ryan estava presente, e tambm o irmo e o pai dele. Ela no parava de tentar dizer-lhes que a multa era de dez dlares por cada palavro, 
mas, de algum modo, no conseguia fazer com que o crebro e a boca funcionassem.
        - Est tudo bem, Bethie - ouviu ela Jake murmurar. - Portaste-te bem, querida. Vai ficar tudo bem.
        Bethany estava gelada, todavia, sentia-se como se tivesse a pele em chamas. Entrava e saa das trevas, mergulhando profundamente num sono exausto num instante, 
acordando no seguinte para ver rostos que giravam  sua volta. Os pais dela, Jake e os outros quatro irmos. Todos os que ela amava pareciam estar ali.
        Todos menos Ryan.
        Quando Bethany finalmente acordou, repousada e lcida, a meio da noite, apenas Jake estava sentado ao lado da sua cama no hospital. Olhou para aquela cara 
morena durante um longo momento, recordando-se das inmeras vezes em que ele estivera com ela, exactamente daquela maneira, oito anos antes. Naquela altura, fora 
sempre ele quem lhe contara as ms notcias mais recentes - que ela continuava paralisada depois da ltima operao e que provavelmente no voltaria a andar. Pobre 
Jake, sempre o escolhido para portador de ms novas. Bethany rezou para que agora no fosse o caso.
        - O Ryan? Por favor, diz-me que ele est bem - murmurou ela. Os olhos de Jake pareciam doer de tristeza.
        - Ele ainda est vivo - disse-lhe ele.
        Ainda estava vivo? No que ele estava bem. Nem sequer que estava razovel.
        - O que  que isso quer dizer? - Tentou soerguer-se sobre os cotovelos e gritou imediatamente com a dor. O tronco ardia-lhe com o menor movimento. - Meu 
Deus!
        - Tens uma queimadura grave por teres estado tanto tempo ao sol, querida. Sem roupa para proteger a pele. Quando te encontramos, estavas frita e a tremer 
com hipotermia.
        Bethany registou a informao para posterior anlise e afastou a dor. Era um truque que aprendera h muito tempo, como ignorar a dor. Quando fazia parte 
da vida quotidiana, no havia outro remdio seno viver com ela.
        - O Ryan. Diz-me como e que ele est, Jake. No doures a plula. Tenho de saber como ele est.
        Jake suspirou e passou uma mo pelo cabelo negro.
        - No est bem. Uma anca esmagada, trs costelas partidas e algumas feridas muito graves, Bethany. Perdeu muito sangue. Fizeram uma transfuso directa, usando 
o sangue do Rafe.
        O terror percorreu-a.
        - Mas ele... ele est aqui no hospital. Certo? Eles tratam dele, e ele fica bom.
        Jake fechou os olhos durante um momento. Quando voltou a abri-los, Bethany soube a verdade antes que ele a dissesse em voz alta.
        - Ele est a aguentar-se, querida. Foi uma noite difcil. Por um fio. Os mdicos... - engoliu em seco e encolheu os ombros.
        Ver o irmo a tentar controlar as suas emoes fez com que Bethany percebesse quo grave era o estado de Ryan e deixou-a ainda mais amedrontada.
        - Ele ps-se entre mim e o urso. Podia ter fugido. Tentar salvar-se. Mas protegeu-me.
        Jake assentiu.
        - Foi o que eu imaginei.
        - Ele no pode... morrer. No pode. No agora que est no hospital. - O seu tom de voz subiu. - Ele no pode morrer. Nem te atrevas a dizer-me isso! Nem 
te atrevas!
        - Lamento, querida. Lamento imenso. Eles fizeram tudo o que podiam. Ele est demasiado fraco para se submeter a uma interveno cirrgica. Est na UCI. Os 
mdicos dizem que se conseguir sobreviver a esta noite, est safo.
        - Se? - Bethany comeou a empurrar os cobertores. - Leva-me para l.
        - Bethany, querida... tu tambm no ests em muito bom estado. No devias...
        - Leva-me para l!
        Jake percebeu que ela estava a falar a srio. Transferiu-a da cama para uma cadeira de rodas do hospital, tapou-lhe as pernas com um cobertor e levou-a at 
 UCI.
        
        Trs dias depois, Bethany estava sentada junto  cama de Ryan no hospital, a olhar para as suas feies inertes. Ainda fortemente medicado por causa das 
dores, dormia profundamente, inconsciente do que se passava  sua volta. Um corte irregular e vermelho estendia-se sobre uma das faces encovadas. Ela sabia que deixaria 
uma cicatriz naquela cara to bonita, todas as linhas da qual se encontravam gravadas no seu corao. Como desejava poder beij-lo. Toc-lo. Mas estava presa na 
sua cadeira de rodas e no conseguia alcan-lo.
        Os mdicos disseram que ele ia sobreviver, que o perigo tinha passado. Submetera-se a uma operao  anca. As outras feridas acabariam por sarar com o tempo. 
Talvez ficasse a coxear. Mas ia sobreviver.
        Bethany estava to contente. To, to contente. Durante as ltimas vinte e quatro horas, chorara o suficiente para provocar uma cheia.
        Ann Kendrick entrou no quarto. Deu a volta e parou do outro lado da cama do filho. Depois de lhe levar uma mo  testa como o fazem todas as mes, fixou 
um par de olhos cinzentos e tristes em Bethany.
        - Ele nunca h-de aceitar, sabes? Vai ter um desgosto, Bethany, e talvez nunca te perdoe. Eu conheo o meu filho.
        Bethany no tirava os olhos do seu colo. No contara a Ann nem a ningum a sua deciso, mas no ficou surpreendida ao perceber que a me de Ryan adivinhara. 
Ela parecia ser uma mulher intuitiva.
        Encontrou foras para a olhar nos olhos.
        - Mas a Ann percebe?
        Os olhos de Ann assumiram um brilho suspeito. Olhou durante um longo momento para o filho.
        - Sim, percebo - admitiu ela em voz baixa. -  provvel que ele nunca me perdoe por te dizer isto. Eu devia neg-lo, mas, sim, percebo.
        - Alisou o cabelo do filho com uma mo trmula. - Se estivesse no teu lugar, era capaz de fazer exactamente o mesmo. Os Kendricks do excelentes maridos. 
Amam apaixonadamente com todo o corao, toda a alma, e tratam uma mulher como uma rainha. Mas, por mais maravilhoso que possa ser, ser amada assim representa tambm 
uma responsabilidade terrvel para uma mulher, especialmente para algum como tu.
        - Um fardo terrvel - concordou Bethany.
        - Quem me dera poder dizer-te que ele nunca mais se lanaria no caminho do perigo por tua causa. Eu sei que isto  to difcil para ti como ser para ele. 
Mas, infelizmente, no posso. No podemos saber como seria a prxima vez. Um cavalo assustado ou um touro tresloucado.
        - Ela encolheu os ombros e sorriu com os olhos cheios de lgrimas. - Num rancho, nunca sabemos, a nica certeza sendo que ele correria a proteger-te e poderia 
magoar-se.
        Bethany ficou to aliviada por no ter de explicar os seus motivos:
        - Oh, Ann, obrigada. Por entender, quero eu dizer. Custa-me tanto deix-lo.
        - Tambm me custa deixar-te partir sem defender o lado dele, considerando que ele no pode faz-lo por si neste momento. - Ann passou um dedo pelo tabuleiro 
ao lado da cama de Ryan. - Se ele estivesse acordado, dizia-te o quanto te ama e que preferia estar morto a viver sem ti.
        Bethany fechou os olhos. Sabia que aquilo era exactamente o que Ryan diria, mas ouvir Ann dize-lo em voz alta era pior do que apenas nos seus pensamentos.
        - Amando-o como tu o amas, Bethany, espero que tenhas considerado o problema sob todos os aspectos e que saibas com toda a certeza que no h outra soluo. 
Eu estava a falar a srio quando te disse que ele talvez nunca te perdoe. Vai ficar to magoado com isto. Tenho a certeza de que sabes isso. - Suspirou e abanou 
a cabea. - Desculpa-me por me meter onde no sou chamada. A deciso  tua e eu no devia interferir.  s que no sei se ele te aceita de volta se mudares de ideias 
mais tarde. No seria justo se eu te deixasse ir sem te dizer isto.
        - Eu no vou mudar de ideias. - Bethany tentou no olhar para Ryan. - Na vspera antes daquilo acontecer, nos, hmm... trocamos votos matrimoniais na Bear 
Creek Ridge. S ele e eu, com Deus como nica testemunha. Uma das minhas promessas foi que tentaria am-lo mais do que a mim mesma. Estou a tentar cumprir essa promessa.
        - Oh, querida...
        - Se eu ficar no rancho, a nica forma que tenho de evitar que ele volte a correr riscos por causa de mim  manter-me completamente longe dos animais. Isso 
no seria um casamento, Ann. Ele precisa de algum que partilhe a sua vida, algum que possa trabalhar ao lado dele e sonhar com ele.
        - Eu sei - concordou Ann com uma expresso vazia.
        - Vocs todos esforaram-se tanto para que isso fosse possvel para mim - murmurou Bethany. - Nunca sabero o quanto vos estou grata. Mas no sou capaz. 
No sou. Por mais que queira, nunca voltarei a ser como era, e o meu egosmo quase o matou.
        - Oh, Bethany... - Ann respirou fundo. - Ainda ests muito transtornada, querida, e podes no estar a pensar com clareza. Porque no esperas mais alguns 
dias? Precisas de tempo para te distanciares do que aconteceu nas montanhas. Tempo para deixar que aquele horror se torne menos vivido. Talvez ento te sintas mais 
calma e vejas as coisas de forma diferente.
        Bethany abanou a cabea e saiu do quarto. Ann foi atrs dela, as botas de montar ressoando na tijoleira bem encerada.
        - Se eu esperar, no vou - disse-lhe Bethany. - Amo-o tanto. Seria to fcil comear a mentir a mim mesma e inventar razes para ficar. E, no fim, acabava 
por ficar.
        - Exactamente - disse Ann com uma gargalhada sem humor. -  essa a minha esperana.
        Bethany parou.
        - A srio? A Ann no estava l. No viu o urso atacar. Est a pensar claramente neste momento. Olhe-me nos olhos e diga-me que no me vai culpar se o Ryan 
acabar morto ao tentar proteger-me de um perigo que eu poderia ter evitado.  capaz de dizer-me isso? - Bethany esperou apenas um instante. - A verdade, e, por favor, 
no responda levianamente. Imagine-se, ao lado da campa dele. O que  que sentiria quando olhasse para mim, Ann?
        A cara de Ann perdeu a cor. No disse nada, mas Bethany no precisava de outra resposta.
        Deixou Ann Kendrick de p no meio do corredor e no olhou para trs. Alguns minutos depois, quando saiu do hospital, nunca se sentira to sozinha em toda 
a sua vida.
        
        
     Captulo Vinte e Dois
        
        Seis semanas depois, Ryan estacionou a sua carrinha poeirenta ao lado de um curral junto  casa de Rafe. Quando saiu do veculo e comeou a calar um par 
de luvas de cabedal sujas, o seu pai acenou-lhe do interior do pequeno recinto onde ele, Rafe e Sly estavam a cortar os chifres a um touro.
        - Parece-me que ests a preparar-te para ir trabalhar! - disse Keefe. - Tens a certeza de que ests pronto para isto?
        - No posso ficar eternamente sentado sem fazer nada - respondeu Ryan enquanto se aproximava da cerca a coxear. - Estou farto de olhar para as paredes. Est 
na altura de voltar ao mundo dos vivos.
        Keefe aproximou-se da cerca, observando enquanto o filho fazia um esforo para escalar as travessas de madeira.
        - Estou a ver que isso ainda te incomoda.
        - Nada que no melhore com o uso. - Ryan saltou para o interior do curral. - O dia est demasiado bonito para ficar em casa.
        Keefe sorriu e olhou para o cu com os olhos franzidos.
        - No h nada como uma manh de Vero para nos pr o sangue a correr. Custa a acreditar que j estamos quase em Agosto. Quando dermos por isso, a neve j 
c est.
        Ryan obrigou-se a rir. Ultimamente, um riso forado era o melhor que conseguia. Faltava-lhe a vontade. Mas isso havia de passar. Os quatro irmos mais novos 
de Bethany tinham perseguido o urso renegado e tinham-no abatido. A operao para reparar os danos na anca correra bastante bem e, com o tempo, ele apenas teria 
um ligeiro coxear para lhe recordar aquele dia. Quanto ao caos em que a sua vida se tornara, os Kendricks eram sobreviventes. Com o tempo, a dor diminuiria.
        Sim. Ela que se lixasse. Que tudo se lixasse. Ele seguiria em frente. A cara dela acabaria por desfocar-se na sua memoria e ele j nem se lembraria da cor 
dos olhos dela. Com o tempo, deixaria de sofrer.
        Tempo. Era tudo o que ele precisava, mais algum tempo.
        - A tua me disse-me que ests a encaixotar um monte de coisas para mandar  Bethany - disse Keefe.
        Ryan sentiu um n nas entranhas ao ouvir o nome dela.
        - Sim. A passadeira de exerccio, a cadeira de rodas todo-o-terreno, e outras coisas que no me servem para nada. Ela bem pode ficar com elas.
        - Deve ter sido difcil, tomar essa deciso. Um passo decisivo, elimin-la da tua vida.
        Ryan encolheu os ombros.
        - No quero ter de olhar para aquelas coisas. Acho que mandar-lhas  mais um passo em direco  cura para mim.
        - Bem pensado, provavelmente. - Keefe suspirou. - Lamento, filho. Sei que ests a sofrer.
        - Tambm di eliminar um cancro. - Ryan respirou fundo.
        - Isso  muito duro - disse Keefe em voz baixa.
        - Sim, pois, mas  como eu me sinto. Fico melhor sem ela. Para o melhor e para o pior, foi o que combinamos. Ao primeiro contratempo, ela abandonou-me. Sem 
uma palavra, pai. Quase morri por causa dela. Acho que ela me devia uma despedida cara-a-cara. No acha? Pelo menos, um bilhete ou qualquer coisa. Que se lixe. Dispenso 
a irritao e o desgosto. Ultrapassei a pior parte sem ela. Hei-de ultrapassar o resto e ainda fico melhor.
        - Estou contigo. - Keefe olhou para as montanhas. Um canto da sua boca contorceu-se. - A cabra.
        Ryan inteiriou-se. Olhou para o cho durante um longo momento.
        - J no a amo - disse ele sem expresso. - Mas isso no lhe d autorizao para lhe chamar nomes.
        Os olhos de Keefe comearam a brilhar e ele assentiu quase imperceptivelmente.
        - Tens razo.  o pai a falar mais alto. Ela no merece. Peco desculpa, filho.
        Ryan encolheu os ombros.
        - No tenho nada a ver com isso. Se lhe sabe bem, fora. Keefe passou as costas da mo pela boca.
        - Na. Eu excedi-me. Ela  uma querida. Nunca fez nada que merecesse que eu lhe chamasse nomes.
        - Pois no.
        -  uma pena que as coisas tenham acabado assim.
        Ryan encolheu novamente os ombros. Keefe deixou-se ficar a ver Rafe e Sly a trabalhar durante mais algum tempo, os seus olhos ainda a brilhar.
        - Coragem, filho. Ainda hs-de encontrar a mulher certa.
        - J a encontrei. No resultou. Por mim, acabou-se.
        - Vais mudar de ideias quando puseres os olhos na rapariga certa.
        - No.
        Ryan no disse mais nada, mas aquela palavra era uma promessa.
        - Sabes, filho, no que eu esteja a defend-la nem nada, mas parece que a tua me acha que ela teve bons motivos. Quando a ouo, quase acredito. Mulheres. 
- Keefe abanou a cabea. - As vezes, vem as coisas de dentro para fora e de trs para diante, mas tm o corao no lugar certo. S precisam que um homem lhes endireite 
a cabea.
        Ryan olhou para o pai com cara de poucos amigos.
        - No comece, pai. Se vai mudar de lado, guarde as suas ideias para si. No estou interessado em ouvi-las.
        - No estou a mudar de lado. Hei-de estar sempre do teu. Sabes isso. S que...
        - A me tem estado a trabalh-lo? Eu sei que ela tem pena de mim e que espera que eu v atrs dela. Notcia de ltima hora: isso no vai acontecer. Ela tomou 
a sua deciso. No dia em que eu for a correr para Portland para a cobrir de beijos e implorar que volte, o inferno h-de congelar. Fim de conversa.
        Rafe acabou o trabalho. Quando estava a enxotar o touro para uma cerca anexa, viu o irmo e acenou-lhe. Um momento depois, atravessava o curral.
        - Ol. Parece que ests pronto para a aco.
        Keefe retirou do bolso da camisa os cigarros que raramente fumava. Com uma pancada seca, extraiu um Winston, os seus olhos estreitando-se ao ver o filho 
mais velho aproximar-se.
        - Ele acabou de ficar maldisposto. Basta dizer o nome dela e fica pior do que um porco-espinho.
        - Ui, ui. - Rafe olhou para a expresso carrancuda do irmo com um sorriso. - Deve estar a sentir-se melhor e a ficar com os calores. Isso tem cura, maninho. 
Podes estar  porta dela em menos de trs horas se infringires todos os limites de velocidade.
        - Jesus Cristo. - Ryan arrancou o mao de tabaco e o isqueiro das mos do pai. Os outros dois ficaram a olhar para ele surpreendidos enquanto acendia um 
cigarro e puxava o fumo. - Deixem-me em paz. - Devolveu o mao e o isqueiro. - Os dois. No preciso disto.
        Rafe riu-se.
        - Ele est por um fio quando se vira para os cigarros. J no demora. Ryan estava farto.
        - Rafe, s meu irmo e gosto muito de ti. Mas, juro por Deus, se no te calas, vais comer este cigarro, aceso e tudo. Estamos entendidos?
        Sly aproximou-se. Sorriu ao abrir a sua caixa de tabaco de mascar e introduziu um pedao sob o lbio inferior.
        - Pareces um urso pardo com uma pata ferida, rapaz.
        Ryan inalou mais um pouco de fumo, atirou o cigarro para o cho e esmagou-o com o taco.
        - Vamos mas  trabalhar - rosnou ele.
        - Tens a certeza de que ests preparado para os touros? - perguntou-lhe Sly. - O prximo  um que nos escapou no ano passado.  um matulo.
        - Estou aqui, no estou? - Ryan abriu o porto para fazer entrar a prxima vitima, um grande touro negro com olhos selvagens. Trazido h pouco tempo das 
pastagens, o animal sentia-se nervoso na presena de seres humanos e comeou a percorrer o cercado,  procura de um buraco por onde fugir. Ryan colocou o chapu 
na cabea. - Ento, rapazes? - perguntou ele aos outros ires. - Vamos trabalhar ou preferem passar o resto do dia com um dedo enfiado no cu?
        Todos suspiraram quando retomaram o trabalho. Passado pouco tempo, Sly j lacara o touro. Rafe saltou para ajudar a manobrar aquela criatura enorme, a qual 
no apreciava a presena de uma corda em redor do pescoo. Nada de extraordinrio. Os touros criados nos pastos nunca reagiam bem.
        Ryan agarrou no aparelho. Uma vez que ainda no estava completamente operacional depois da interveno cirrgica, tencionava no se aproximar enquanto o 
seu irmo e o capataz no tivesse o touro bem amarrado. Infelizmente, o animal tinha outras ideias. Atirou-se para a frente, Sly deixou fugir a corda e, quando Ryan 
deu por si, a criatura investia direita a ele.
        Ryan largou imediatamente o aparelho e tentou saltar para fora do trajecto do animal, mas a anca ainda estava fraca e cedeu sob o peso do corpo. Ele cambaleou 
e caiu. Quando tentou levantar-se, a sua lentido surpreendeu-o.
        - Ha! - gritou Keefe.
        Com um receio crescente, Ryan viu o seu pai meter-se entre ele e o touro. Keefe agitava o chapu para afugentar a enorme criatura. O touro baixou a cabea 
e continuou em frente.
        - Pai! - gritou Ryan. - Saia j dai! Keefe no lhe deu ouvidos.
        Nos horrveis segundos que se seguiram, o crebro de Ryan parecia absorver tudo o que estava a acontecer em cmara lenta. Gritou novamente para que o seu 
pai se desviasse, arrastando-se ele prprio para tentar fugir. Ento, aconteceu. O touro atingiu Keefe no plexo solar e continuou em frente, arrancando o pai de 
Ryan do cho e atirando-o violentamente contra a cerca do curral.
        Na realidade, tudo aconteceu provavelmente em menos de um segundo, mas para Ryan pareceu uma eternidade. O touro mugiu e afastou-se. Keefe caiu no cho, 
a sua cara cor de cinza, os olhos arregalados. Agarrou-se ao peito e tentou respirar.
        "Meu Deus." Ryan arrastou-se at ao seu pai. Freneticamente, procurou vestgios de sangue, pensando que o pai poderia ter sido atingido por um chifre. Quando 
no encontrou qualquer indcio, calculou que talvez houvesse alguma costela partida. Keefe continuava agarrado ao peito. Os seus lbios estavam a ficar azuis.
        Rafe e Sly chegaram entretanto. Rafe caiu de joelhos ao lado de Ryan.
        - Pai? Meu Deus. Meu Deus. O corao dele. Pai,  o seu corao? - Rafe comeou a revirar os bolsos do pai,  procura dos comprimidos de nitroglicerina. 
Quando encontrou o pequeno frasco, despejou um comprimido minsculo na palma da mo e colocou-o debaixo da lngua do pai. - Tente descontrair-se, pai. Tente descontrair-se.
        Ryan poisou a cabea do pai no seu colo. Imaginou Keefe a morrer. Estavam to longe da cidade. Se o velhote estava a ter um ataque cardaco, nunca conseguiriam 
lev-lo para um hospital a tempo. A culpa era dele. Toda dele. Nunca devia ter entrado no curral. Sabia que ainda no estava completamente recuperado. No tinha 
nada de se colocar em situaes arriscadas e obrigar os outros a enfrentarem as consequncias. Agora, o seu pai tivera de intervir para o salvar e podia acabar por 
morrer.
        Sly mantinha o touro afastado deles enquanto tentavam reanimar Keefe. Parecia que tinha passado uma eternidade quando o pai deles conseguiu finalmente recuperar 
o flego, deixando-se ficar deitado durante outra eternidade, repondo o nvel de oxignio.
        - No foi o meu corao - conseguiu ele dizer. - Eu  que fiquei sem flego.
        O alvio deixou Ryan com a sensao de ter os ossos transformados em manteiga. Baixou a cabea e deixou passar um longo momento enquanto ele prprio tambm 
recobrava o flego. Raios. Ver o seu pai ser colhido daquela maneira - fora o momento mais horrvel da sua vida. Saber que fora ele o responsvel. Saber que o seu 
pai podia ter morri-mo. Ryan no queria voltar a sentir-se assim. Aquela sensao terrvel de uma culpa esmagadora e de um pavor imenso que lhe havia transformado 
o sangue em gelo.
        Quando tudo j tinha passado e Keefe estava novamente de p, Ryan ainda estava abalado. Saiu do curral e foi para a sua carrinha, incapaz de deixar de pensar 
que o resultado poderia ter sido muito pior. O touro podia ter ferido o seu pai com um dos chifres, ou at podia ter-lhe partido as costelas, perfurando um pulmo.
        Ryan apoiou-se no pra-choques da sua Dodge, ombros descados, cabea pendurada, o crebro ocupado com tantas possibilidades igualmente assustadoras. Rafe 
aproximou-se e poisou-lhe uma mo no ombro.
        - Ento, mano. Tudo esta bem quando acaba bem.
        - Ele podia ter morrido - disse Ryan. - E a culpa tinha sido minha. No devia ter entrado no curral. Devia saber que no podia pr em risco a vida de outras 
pessoas. Quem no aguenta o calor, no se chega ao fogo.
        Rafe suspirou e deu-lhe uma palmada nas costas.
        - A vida est cheia de riscos. O Sly nunca deixou fugir uma corda em todos os anos que trabalhou para ns. Foi uma daquelas coisas. Provavelmente, no volta 
a acontecer. Temos sorte por no ter sido pior.
        - Meu Deus - murmurou Ryan. - No consigo parar de tremer, e acho que vou vomitar.
        -  uma sensao desagradvel, eu sei - disse Rafe em voz baixa. - No h nada pior do que sentirmo-nos responsveis quando algum que amamos fica ferido. 
Pois no?
        - Podes ter a certeza - concordou Ryan com uma voz trmula que nem parecia dele.
        Rafe poisou os braos cruzados no pra-choques ao lado dos do irmo.
        - Estranho como um lugar na primeira fila nos pode dar uma perspectiva diferente das coisas. Agora, j fazes uma vaga ideia do que a Bethany deve ter sentido.
        Ao ouvir aquilo, Ryan levantou a cabea. Olhou furioso para o irmo.
        - Achas que sim?
        Rafe olhou para os campos.
        - Na. Tens razo. No tem comparao, pois no? Passam-se cinco minutos e o nosso pai est de p, so como um pro. No tenho dvidas, ela sentiu-se um milho 
de vezes pior. - Rafe olhou para o irmo com uma expresso dura. - E ainda deve sentir-se. Tu quase morreste. Ela manteve-te vivo durante horas. Imagina, Ryan. Ali 
sentada aquele tempo todo, a rezar para que sobrevivesses. Nua da cintura para cima, o teu sangue a nica coisa que a cobria. Ficou to frita pelo Sol que tiveram 
de a adormecer com uma injeco de analgsicos. Ali agarrada a ti, a fritar, quantas vezes deve ter pensado que ia vomitar? E sabes a melhor? Tu podes ter a esperana 
de ficar melhor. A anca h-de voltar ao lugar. Vais recuperar as tuas forcas. Podes no ficar como novo, mas ficas l perto, e h-de chegar o dia em que poders 
retomar todas as tuas actividades sem colocar ningum em risco. A Bethany no pode ter essa esperana. H-de ser uma paraltica para o resto da vida.
        Rafe afastou-se da carrinha. No disse mais nada. No era necessrio.
       
        Duas noites depois, exactamente s seis e meia, a campainha da porta de Bethany tocou. Nos dias antes de Ryan, ela talvez ficasse entusiasmada, pensando 
que era uma das amigas a convid-la para uma das suas muitas actividades. Agora, limitou-se a suspirar, incapaz de encontrar qualquer entusiasmo por ter companhia. 
No queria fazer nada que fosse divertido. S queria que a deixassem em paz, a gozar as suas mgoas.
        Atravessou o apartamento, o que no era fcil porque ainda no acabara de se instalar e tinha caixas por todo o lado. Debateu-se com o ferrolho, conseguiu 
pux-lo e abriu a porta, at que a corrente grossa que Jake instalara no incio da semana a travou. Atravs da frincha, viu um homem alto de cabelo escuro com calcas 
perfeitamente engomadas e um bluso castanho.
        - Sim? O que deseja? - Apesar de ainda no lhe ter visto a cara, parecia respeitvel, nunca um bandalho de cabelo roxo que a pudesse assaltar com uma pistola 
apontada  cabea. Mesmo assim, sentiu relutncia em abrir o fecho de segurana. - No estou interessada em comprar nada. Lamento. Acabei de me mudar e...
        O homem mudou de posio para que ela lhe pudesse ver a cara. Ela calou-se e ficou a olhar incredulamente para um par de olhos cintilantes, azul-ao.
        - Ol, querida.
        - Ryan!? - Com mos trmulas, soltou a corrente e recuou para abrir a porta.
        Com as mos nos bolsos das calas, o corpo enganadoramente descontrado, ele avanou um mocassim italiano e encostou-se  ombreira. Intencionalmente ou no, 
conseguira evitar que ela voltasse a fechar a porta.
        - Ests mesmo a precisar de um culo. No corrias o risco de abrir a porta a algum que preferias no encontrar.
        - Ryan - disse ela outra vez, a sua voz trmula.
        Ele estava to diferente que quase no o reconhecia. As calcas de ganga coadas e as botas cobertas de p tinham desaparecido. O cabelo na cabea sem chapu 
estava perfeitamente penteado. O vaqueiro sexy tinha desaparecido e um homem da cidade bem sucedido ocupara o seu lugar.
        - Se ests aqui para tentar convencer-me a voltar para o rancho, perdeste a viagem.
        - No. Esse no  o meu objectivo. No quero que voltes a tocar em nada no Rocking K.
        Bethany ficou desiludida. Que estupidez. Mesmo que no tivesse qualquer inteno de ceder, uma parte dela desejava que ele, pelo menos, tentasse convenc-la 
a voltar. Tentou humedecer os lbios com uma lngua que lhe parecia seca como algodo.
        - Venho viver para c - disse ele.
        - Oh! - Bethany ficou a olhar para ele com uma expresso vazia. - O qu?
        - Foi o que ouviste. Tenho de repetir? Bethany olhou-o nos olhos.
        - J te disse, Ryan. Acabou. Eu no...
        - Para sempre - interrompeu-a ele. - Foi o que tu me disseste. - Entrou. - s minha. No podes voltar atrs. Se no tens uma cama de casal, arranjamo-nos 
por esta noite e amanh compro uma.
        Ele coxeava ligeiramente, reparou ela. Os seus movimentos tambm j no eram to fluidos como anteriormente. Voltou-se para fechar a porta e depois passou 
o trinco com a corrente. Quando voltou a olhar para ela, brindou-a com aquele sorriso de esguelha que sempre lhe deixara o corao aos saltos. A cicatriz na face 
ainda apresentava uma cor rosada, mas no lhe reduzia em nada o bom aspecto. Antes pelo contrrio, apenas concedia carcter quela cara linda de morrer.
        - No vou voltar para o rancho contigo, Ryan. Nunca. Se pensas que por vires c consegues convencer-me, estas enganado.
        - No te estou a pedir que voltes. Percebo por que motivo achas que no podemos viver l. No  um problema. Vivemos aqui.
        Ela riu-se tremulamente.
        - Claro. Vais deixar o rancho. Pois, pois. E onde  que est a ponte de Brooklyn que me queres vender?
        - No h ponte nenhuma. - Ryan poisou as mos nas ancas. - Aonde tu fores, eu vou.
        - Nem pensar. Definhavas e morrias, a viver na cidade. s um rancheiro at  medula. Nunca daria resultado.
        - Eu fao com que resulte. - Ele passou para a sala de estar e olhou para os caixotes. - Ainda bem que ainda no desencaixotaste tudo. Quero comprar uma 
casa com algum terreno. Um lugar onde pelo menos possamos manter a Wink e o Bucky, com um ptio para o Tripper.
        Bethany agarrou-se  cintura.
        - Uma casa? Queres comprar uma casa aqui?
        Ele virou-se para a fitar com um brilho srio nos olhos.
        - Bethany Ann, podemos fazer isto da forma mais fcil, ou da mais difcil. Eu estou aqui e vim para ficar. Nada do que possas fazer ou dizer me far mudar 
de ideias. Porque  que no aceitas o que no podes mudar e ds-me de comer, estou com fome.
        Ela sabia que ele a amava. No tinha dvidas. Mas a noo de que Ryan estava disposto a deixar o Rocking K, apenas para poder estar com ela, quase lhe partiu 
o corao.
        - No posso deixar que faas isto, Ryan. Nunca sers feliz na cidade. Tu sabes isso. Eu sei isso. Morrias aos poucos.
        Ele encolheu os ombros.
        - Se eu ficar no rancho sem ti, tambm morro aos poucos. Prefiro morrer aqui contigo. - Foi at  cozinha e abriu o frigorfico. - Onde est a comida?
        - Ainda no comprei muita coisa.
        Ele suspirou e fechou a porta. Depois, mirou-a com uma expresso especulativa.
        - Seja como for, no tenho assim tanta fome de comida. Preferia ter-te a ti.
        Ela levantou uma mo.
        - No vamos saltar para a cama antes de resolvermos isto.
        - J est resolvido. - Agarrou nas lapelas do bluso para lhe mostrar a camisa que tinha por baixo. - At comprei roupa nova. A deciso esta tomada. Eu estou 
aqui. Para ficar. - Largou o bluso e aproximou-se lentamente dela, conseguindo reproduzir o caminhar de um vaqueiro no obstante as calas de pinas e os mocassins. 
Quando poisou as mos nos braos da cadeira dela, baixou a cabea para a olhar nos olhos. - Amo-te tanto, Bethany. Onde quer que tu estejas,  l que eu tenho de 
estar, e  l que eu serei feliz. Vou fazer com que isto resulte. D-me s uma oportunidade para to provar.
        Ela mal o conseguia ver atravs das lgrimas.
        - Oh, Ryan. No podes fazer isto. Nasceste e cresceste naquelas terras.  l que est o teu corao, onde o teu corao estar sempre. No posso tirar-te 
de l.
        - J tiraste - murmurou ele, e tomou-a nos braos. Praguejou ao erguer-se, amaldioando a anca.
        - Ainda no recuperei a cem por cento. Mas hei-de l chegar.
        - No te magoes, seu teimoso, casmurro. - Bethany agarrou-se ao pescoo dele, mal conseguindo acreditar como lhe sabia bem sentir os braos dele novamente 
 sua volta. Passara inmeras noites acordada, ansiando por senti-lo, a sofrer, inconsolvel porque pensava que tal nunca mais voltaria a acontecer. - Oh, Ryan. 
Amo-te. Amo-te.
        - Eu sei que sim - disse ele com a voz rouca.
        E ento levou-a para o quarto para lhe demonstrar a falta que sentira dela.
        Mais tarde, Bethany estava nos braos dele, a olhar pensativamente para o tecto enquanto ele brincava com o seu cabelo. Ele queria mesmo ficar, apercebia-se 
ela. No era uma jogada para a manipular.  Ele apenas a amava tanto que tinha de estar com ela, e se isso implicasse viver em  Portland, ele estava disposto a faz-lo. 
No tinha rigorosamente nenhuma inteno de convenc-la a voltar para o rancho.
        Todavia, foi o que ele conseguiu fazer.
        Ela recordou-se da promessa que lhe fizera, de sempre tentar am-lo mais do que a si prpria. Que ironia, agora, era Ryan quem lhe mostrava o verdadeiro 
significado daquela promessa ao am-la to abnegadamente. Ele fazia-a sentir-se to insensata e pequena.
        - Eu volto contigo - murmurou ela com a voz trmula. - Se tu consegues fazer com que isto resulte aqui, ento, eu tambm hei-de encontrar uma forma de fazer 
o mesmo no rancho.
        - No. - insistiu ele.
        Passaram vrios minutos a discutir. Depois, comearam os dois a rir. Quando acalmaram, Ryan contou-lhe o incidente com o touro:
        - Foi ento que eu percebi, querida. O que sentiste durante o ataque do urso e por que motivo me deixaste depois. Eu no estou numa cadeira de rodas, mas, 
de certa forma, estou fisicamente limitado neste momento. Tenho uma ligeira noo do que . Tu no tens medo por ti. Tens medo por mim, porque sabes que eu no vou 
ficar quieto e posso magoar-me outra vez se alguma coisa ameaar a tua segurana. No podemos viver assim.
        - Tambm no podemos viver assim. Tu no foste feito para a vida na cidade, Ryan.
        - Claro que fui. Tenho dois bacharelatos, por favor! Posso encontrar um emprego qualquer que me interesse. No tem de ser muito bem pago. Temos todo o dinheiro 
de que alguma vez precisaremos.
        Discutiram durante mais algum tempo. Depois, ele levantou-se para encomendar uma piza. Quando a comida chegou, comeram at ficarem repletos e fizeram amor 
mais uma vez. Bethany adormeceu nos braos dele com uma expresso preocupada a franzir-lhe a testa, porque, no seu ntimo, sabia que, por mais que se esforasse, 
ele nunca seria feliz na cidade.
        
        Na manh seguinte, Ryan acordou e descobriu a cama vazia a seu lado. Olhou para o elevador que Bethany usara para lhe escapar e pensou que tinha de se livrar 
daquela coisa.
        Bocejando e esfregando os olhos, deu pontaps em vrias caixas at chegar  cozinha. Ao lado da cafeteira, encontrou um bilhete da sua noiva fugitiva.
        
        Querido Ryan,
        No sei como te dizer isto, portanto, vou direita ao assunto. Voltei a deixar-te. Isto nunca poderia resultar. Fiquei acordada durante metade da noite, a 
pensar no nosso dilema. Decidi que prefiro perder-te de repente enquanto estiveres a fazer uma loucura qualquer para me proteger a ver-te perder lentamente todo 
o teu entusiasmo pela vida, o que  exactamente o que aconteceria se ficasses aqui.
        Seja como for, meu querido, fui para casa. Peo desculpa por fazer as coisas desta maneira, mas ests a ser to teimoso que eu sei que falar contigo no 
nos levaria a lado nenhum. Por favor, tenta no ficar zangado comigo.
        Beijos, Bethany
        
        Ryan praguejou quando acabou de ler o bilhete. Depois, foi at ao quarto e comeou a vestir-se.
        Passava pouco do meio-dia quando Ryan chegou ao rancho e, no restavam dvidas, era a carrinha de Bethany que estava estacionada diante dos estbulos. No 
ficou mais bem-humorado quando descobriu que ela no estava em casa nem em nenhum dos outros edifcios, o que o obrigou a percorrer todos os caminhos que fizera 
para a cadeira de rodas para a encontrar. Quis o destino que acabasse por dar com ela no ltimo caminho que decidira seguir, aquele que terminava no local onde costumava 
ir quando precisava de pensar.
        Viu-a sentada na cadeira de rodas sob o pinheiro muito antes de l chegar. Ali sentada, a olhar para as montanhas do outro lado do lago com uma expresso 
melanclica no rosto. Queria estar zangado com ela. Afinal, acabara de percorrer metade do estado, nos dois sentidos. E aquele ltimo capricho dela no resolvia 
nada. Ele no podia obrig-la a ficar num lugar onde estaria constantemente com medo, por ela ou por ele.
        Mas como  que ele podia ficar zangado com algum com um aspecto to doce?
        - Bethany Ann! - rugiu ele. Afinal, um homem tambm tinha o seu orgulho. - Mas que raio  que pensas que ests a fazer aqui? Eu disse-te claramente ontem 
 noite que no ia voltar para c, que isto nunca poderia resultar.
        Ela nem sequer lhe fez o favor de se sobressaltar. Limitou-se a sorrir ligeiramente e esperar que ele se aproximasse. Com uma anca afectada, era difcil, 
mas ele no desistiu.
        - Estou com uma destas vontades de te dar uma palmadas. Foges para Portland e eu vou atrs de ti. Depois, foges outra vez e vens para aqui, quando sabes 
que vais contra a minha vontade. Afinal, quem  que usa as calas nesta famlia?
        Ela olhou para as calas de pinas dele.
        - Neste momento? Nenhum de ns. Ele deu uma palmada na perna.
        - No deixes que estas te enganem. No so as roupas que fazem um homem. Disse-te ontem  noite que tinha pensado no assunto e decidido que amos viver nos 
arredores de Portland.
        - Mas eu mudei de ideias por ti.
        - Isso no funciona assim, minha menina. No penses que me ds a volta.
        Ela continuou a sorrir serenamente.
        - Sabes o que o Sly diz: se ficas  espera que uma mulher se decida, ganhas razes. As tuas razes esto aqui, Ryan, e so profundas, portanto,  aqui que 
ficamos. Eu estava enganada. Percebo isso agora. Ficamos aqui em terra dos Kendricks e ponto final.
        Ryan teve vontade de a abanar. Em vez disso, poisou as mos nas ancas.
        - Vais sentir-te infeliz se eu te obrigar a ficar aqui. - Indicou o rancho com um gesto abrangente do brao. - Para onde quer que olhes, h toda a espcie 
de perigos.
        - Existem outros tantos na cidade, s que so diferentes. Lembras-te do que me disseste, Ryan? Sobre termos duas escolhas quanto  forma como vivemos a vida, 
numa bolha segura onde, de qualquer modo, acabaremos por morrer, ou agarrando-a com ambas as mos, apreciando cada segundo?
        - Sim, lembro-me.
        - Isto  tudo para ti - disse ela em voz baixa. Depois, voltou um par de olhos azuis e brilhantes para ele e acrescentou num tom trmulo: - E  tudo para 
mim tambm. No devia ter partido. Foi uma estupidez. Julgava que era a escolha certa, e ainda pensava assim at  noite de ontem, quando apareceste  minha porta. 
S ento me apercebi de que existem muitas formas diferentes de morrer. H mortes que no so da carne, mas do corao e da alma.
        - Oh, querida.
        Ela ergueu uma mo para que ele a deixasse terminar.
        - Eu estava a morrer por dentro antes de te conhecer. Estava a sufocar lentamente de cada vez que respirava. Como  que podes pensar que eu poderia ser feliz 
em Portland, vendo que estava a acontecer o mesmo contigo?
        A fria de Ryan dissipou-se.
        - s capaz de ter razo.
        As faces de Bethany cobriram-se de lgrimas.
        - Nenhum de ns sabe quanto tempo lhe resta. Sendo assim, no devamos desperdiar um nico dia. Quero viver ao mximo cada momento que tivermos juntos. 
E o nico lugar na terra onde ambos o podemos fazer  aqui.
        Ele aproximou-se. Quando se baixou para a olhar nos olhos, Bethany ergueu a cabea e fitou-o com enormes olhos cor de amor-perfeito cheios de lgrimas e 
disse:
        - Quero o meu vaqueiro malandro de volta. Ryan arrancou-a da cadeira e abraou-a.
        - Aqui o tens, querida.
        Beijou-a at ambos ficarem tontos. Depois, deu meia-volta, comeando a subir a encosta.
        - O que  que ests a fazer? No podes levar-me para casa.
        - Porque no?
        - Porque  uma tolice. A tua anca! Poisa-me na minha cadeira e...
        - Mas que comeo seria esse? Quero entrar contigo ao meu colo quando chegarmos a casa.
        Ela no pode deixar de se rir.
        - Algum j te disse que s um pouco doido?
        - Algumas pessoas tm produzido sons nesse sentido. Ignorei-as. Enquanto ele caminhava, Bethany olhava para o lago e para as rvores e para os majestosos 
picos das montanhas. Sentia-se to feliz por estar de volta. To feliz.
        "Quando chegarmos a casa", dissera ele. E estava completamente certo. Terra dos Kendricks, sob um cu dos Kendricks. O seu homem tinha ali razes mais profundas 
do que ele prprio podia imaginar. Ela tomara a deciso certa, no apenas por ele, mas por ela.
        Casa. Era uma palavra to bonita.
        
     
     Eplogo
        
        
       Na Bblia da famlia Kendrick encontra-se agora registado que Ryan Kendrick, filho de Ann e de Keefe Kendrick, se casou com Bethany Ann Coulter a 31 de Agosto, 
no ano da graa de Nosso Senhor de 2000. O que, todavia, no est escrito  que o casamento se realizou na margem do Bear Creek Lake num belo dia de Vero e que, 
na realidade, foi uma cerimnia dupla. Naquela tarde tambm se uniram pelos votos sagrados do matrimnio Sylvester Bob Glass e Helen Marie Boyle. 
       Na Bblia tambm no surge qualquer referncia ao facto de a noiva mais nova ter acabado de descobrir que estava grvida e irradiava felicidade.
        Presente para testemunhar os casamentos encontrava-se um sortido de convidados cobertos de p e vestidos de ganga, todos os quais tinham feito uma viagem 
de trs horas a cavalo entre o rancho de Ryan e o lago. A famlia Coulter estava bem representada, com o pai e os cinco irmos de Bethany a olharem desconfiados 
para o noivo at o ouvirem dizer "Aceito".
        No compareceu nenhum urso nem nenhum puma. A meio da cerimnia, todavia, um certo touro chamado T-bone resolveu aparecer. Desconfiado de tantos estranhos, 
manteve-se a uma distancia razovel e s mugiu uma vez para que o seu dono soubesse que o tinha encontrado. Nas costas largas do touro repousava uma gata anafada 
que escolheu aquele momento para se lavar.
        Depois da cerimnia, Mary Coulter sorriu docemente ao seu marido e entregou-lhe um par de cuecas muito bem dobrado. Harv riu-se, olhou especulativamente 
para a peca de roupa e perguntou:
        - Lembraste-te de trazer o sal e a pimenta? Gosto da minha comida bem temperada.
        Mary sorriu e abraou-o pela cintura. Zeke, o msico da famlia Coulter, tocou uma melodia lenta na sua rabeca. Os pais de Bethany ficaram a olhar enquanto 
o seu novo genro a retirava da cadeira de rodas e comeava a rodopiar com ela numa clareira banhada pelo Sol, numa valsa particularmente comovente porque os ps 
da noiva nunca tocaram no cho.
        - Estava enganado a respeito dele - admitiu Harv. - Consigo ver o amor a brilhar nos olhos daquele rapaz sempre que olha para ela.
        - E nos dela sempre que olha para ele - murmurou Mary. - Se te serve de consolo, eu tambm estava enganada. Viste-a hoje, a cavalo? Aquela rapariga nasceu 
para montar e, por causa de mim, no pode ter esse prazer durante demasiado tempo. Sinto-me to culpada.
        Harv deu-lhe um ligeiro empurro com o brao.
        - Adoramos a nossa filha, e tnhamos medo de que voltasse a magoar-se se a deixssemos montar. Ela entendeu.
        - Mas o amor pode ser excessivo - disse Mary. - Ainda bem que o Ryan apareceu na vida dela e teve a capacidade de ver o que nos no conseguamos. E melhor 
deix-la correr riscos e gozar a vida do que jogar pelo seguro e ser infeliz.
        - Talvez - murmurou Harv. - V s como ela brilha.
        Bethany estava de facto a olhar para o marido com amor a brilhar-lhe nos olhos. Ryan via-o ao girar com ela nos seus braos. Ela inclinou a cabea para trs 
e sorriu, fazendo-o recordar a expresso que via na cara dela quando faziam amor.
        Ele adorava-a tanto. Tanto que nem conseguia traduzi-lo por palavras.
        Ryan parou de danar o tempo suficiente para lho dizer da nica forma que sabia, com um beijo longo e profundo que provavelmente deixou os convidados a pensar 
se j no seriam bem-vindos. Ele queria l saber. Uma vez que ele e a sua mulher pretendiam ficar junto ao lago durante uma semana para celebrar a sua lua-de-mel, 
no queria que ningum se deixasse ficar por muito tempo depois da cerimnia.
        - Ests a pensar em qu? - perguntou-lhe Bethany.
        - Que sou o homem mais sortudo do mundo.
        - Oh, Ryan. Amo-te tanto.
        Ryan sabia que ela estava a ser sincera. Tambm sabia que Bethany no podia am-lo mais do que ele a amava a ela.
        Recomeou a danar. Grandes passos com o seu mundo nos braos, to feliz que no tinha total certeza de os seus ps estarem a tocar no cho.
        A voar... juntos. Naquele momento, a olhar para os olhos azuis da cor de amores-perfeitos de Bethany, Ryan soube que a magia nunca os abandonaria; algo, 
belo, especial que nunca haveria de morrer. Algumas das maiores histrias de amor no tinham um final feliz simplesmente porque no tinham fim. Continuavam para 
sempre, at  eternidade.
        Seria assim com eles, uma grande histria de amor que no teria fim. 


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